Nos ecrãs surgiu uma cadeira vitoriana com um microfone à frente aparentemente numa sala do Palácio de Belém. Quando os alunos da Universidade de Verão do PSD esperavam que Marcelo Rebelo de Sousa surgisse nesse cenário, à distância, o Presidente da República entrou pela porta. E pela última vez. Marcelo quis ir a Castelo de Vide despedir-se do PSD, começar a fechar um ciclo e deixar recados (a Montenegro) sobre como o partido deve privilegiar a moderação e não ceder ao discurso da direita radical.

Marcelo Rebelo de Sousa evitou temas nacionais, como os incêndios, por decorrer à mesma hora no Parlamento um debate em que o primeiro-ministro respondia sobre a resposta política e operacional aos fogos. À saída, limitou-se a dizer que manteve a sessão com coincidência de calendário porque já “estava marcada” e, chegou a confessar, de forma mordaz, que disse a Montenegro que não ia a Castelo de Vide, mas que acabou por comunicar que iria participar a Carlos Coelho (“a quem nunca se recusa um convite”).

Fim de ciclo: Marcelo despede-se do PSD e firma diferenças para Cavaco

Marcelo Rebelo de Sousa começou por dizer que ia a Castelo de Vide, precisamente, porque “há momentos da vida em que a pessoa tem de seguir em frente”. O Presidente até vai voltar a ser militante no que chama a “plenitude” assim que cessar funções a Belém, mas ficará completamente hibernada uma participação ativa. E antecipou esse seu fim de ciclo: “Esta vinda cá é a última porque eu tenciono depois afastar-me da política totalmente.”

E volta a traçar o estilo que quer ter na vida pós-Belém. A esse propósito quer distanciar-se do antecessor, Cavaco Silva, ao voltar a defender que “quem foi Presidente da República não pode andar a opinar sobre primeiros-ministros, governos e líderes da oposição”. E enviaria outra indireta ao ex-Presidente: “Têm feito isso [opinar] pessoas com muito valor e tem sido útil para o partido e, eventualmente, ao país. Mas eu gostaria de seguir o exemplo dos ex-Presidentes que não fizeram isso”.

Marcelo acabaria por fazer mesmo a lista das cerimónias e atos em que pretende estar presente, num roteiro limitado às presenças onde está pela inerência de ser ex-Presidente da República. Vai estar nas reuniões no Conselho de Estado, nas cerimónias do 25 de Abril, no 10 de Junho e 5 de Outubro. E, do ponto de vista político-partidário, não mais do que isso. Ao PSD, garante, não voltará a nenhum congresso (o último foi o de 2014) nem a qualquer outro evento partidário.

O Presidente voltou a confessar que pretende “dar aulas no secundário e no básico” e “promover a cultura portuguesa cá dentro e lá fora.” Mesmo que tenha sintetizado o seu futuro da seguinte forma: “Vou fazer aquilo que me apetece”.

Apesar de ainda faltarem sete meses para o fim do mandato, Marcelo tende a desaparecer em períodos oficiais de campanha. Só um desses meses está, assim, ocupado por campanhas. O Presidente deve ainda ter, até lá, uma visita oficial a Angola e, a última das viagens, será realizada, como de tradição, a Espanha. O chefe de Estado entrou agora na fase que chama de despedida “suave”. Nessa mesma linha fez uma retrospetiva do que correu bem e mal e admitiu que os dois mandatos em Belém — e insiste que o segundo foi a contragosto — ficaram “aquém do que tinha pensado”.

Marcelo não quer uma despedida única do cargo, mas ir-se despedindo ao longo destes últimos meses. O adeus ao PSD do militante número 3 (mesmo que vá recuperar o cartão e voltar a pagar quotas), aparentemente, foi esta quarta-feira em Castelo de Vide. Apesar disso, Marcelo não deixou de defender aquilo que o PSD deve ser.

O PSD que Marcelo quer: moderado de centro e não de direita radical

Marcelo Rebelo de Sousa tem manifestado, à porta fechada, preocupações com a deriva do “seu” PSD do centro para a direita impulsionado pelo Chega. E, por isso, fez questão de dizer que quer o partido mais centrado do que com aproximações à direita radical.

Primeiro que tudo, Marcelo reconhece que a “tarefa é difícil” porque antes deste ciclo o PSD esteve quase 30 anos afastado do poder, com exceção para os dois anos de Barroso e os quatro de Passos Coelho. Além disso, lembra, o PSD que conheceu “como líder, reunia sensibilidades que corresponderiam em termos eleitorais ao somatório do que são hoje vários partidos”. Ou seja: a casa de muitos dos liberais da IL e dos conservadores do Chega era antes o PSD. Agora deixou de ser.

Perante esta realidade, o Presidente da República defende que o partido para ter futuro deve tentar “valorizar o contributo dos mais moderados”. Marcelo diz que se o PSD “não conseguir afirmar a diferença da moderação que distingue o centro-direita da direita mais radical, que resolva os problemas dos portugueses, então torna-se muito difícil a função dos partidos desta natureza e isso não é boa notícia para a democracia.”

Marcelo não deixou de enviar um recado a Luís Montenegro a dizer que “é mais fácil encontrar soluções ao centro se um partido de centro-direita for um partido de centro-direita e não de direita que é radical.” Neste caso, nas entrelinhas, o Presidente sugere que o PSD corre o risco de se tornar de direita radical.

Sem nunca se referir ao Chega, antes o chefe de Estado já tinha antecipado a chegada do mini-Trumpismo, embora de outra envergadura, a Portugal. Sobre o de maior envergadura, o presidente dos EUA, o Presidente português também deixaria palavras pouco simpáticas.

Marcelo ataca Trump, o “ativo russo”

Sobre a situação internacional, o Presidente da República começa por criticar Donald Trump pela excessiva “personalização do poder”. Relativamente à Ucrânia, Marcelo diz que ficou claro que “o líder da maior superpotência do mundo, é objetivamente um ativo soviético ou russo”.

O chefe de Estado lembra, por exemplo, que foi dito, de forma natural, que Trump acabaria a guerra da Ucrânia em 24 horas e que não teria acontecido se Trump fosse o Presidente. O Presidente da República diz que há muita encenação de Washington, já que — apesar das alegadas ameaças — desde que Trump chegou à liderança “não houve nenhuma sanção” à Rússia. Lamentou também que, com o atual Presidente, os EUA tenham passado de aliados da Ucrânia a árbitros que até privilegiam o contacto com uma das partes (Moscovo).

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