Um apoio relevante. José Miguel Júdice, advogado, antigo bastonário, ex-militante do PSD e uma das figuras mais influentes da direita portuguesa, vai ser mandatário nacional da candidatura presidencial de João Cotrim Figueiredo. A informação foi avançada pelo liberal, em entrevista à TVI/CNN, e confirmada pelo próprio numa declaração exclusiva ao Observador. “Agradeço a honra que o candidato que apoio me deu ao convidar-me para seu mandatário nacional.”
“A eleição presidencial é acima de tudo um momento de escolha entre pessoas, mas também se têm de ponderar outras circunstâncias”, começa por explicar José Miguel Júdice. “Desta vez, há candidatos que por se situarem no espaço do radicalismo, à esquerda e à direita, nunca apoiarei”, sublinha o advogado, referindo-se às candidaturas conhecidas de Catarina Martins e de António Filipe, mas também de André Ventura.
“Há outros que se vierem a confrontar-se com um radical na segunda volta, não hesitarei em apoiar nessa circunstância e por causa dela, e também por considerar que esses dois candidatos são pessoas decentes e moderadas“, continua, referindo-se à eventualidade de Luís Marques Mendes ou de Henrique Gouveia e Melo passarem à segunda volta contra André Ventura — cenário que as mais recentes sondagens não excluem.
Finalmente, Júdice explica a sua escolha na primeira volta. “Há dois candidatos que não teria dúvidas em apoiar pela positiva. Tudo medido, dou o meu apoio a João Cotrim de Figueiredo também na segunda volta se, como espero, for um dos dois mais votados. Se ele não se tivesse candidatado teria apoiado logo na primeira volta António José Seguro.”
Desafiado pelo Observador a explicar o porquê de não apoiar Luís Marques Mendes, social-democrata que conta com o apoio formal do PSD, Júdice explica que considera o antigo comentador um “homem decente“, mas fala em duas razões de “mérito relativo” que o impelem a apoiar João Cotrim Figueiredo ou, num segundo plano, António José Seguro.
“Entendo que o Presidente da República deve ter uma visão muito forte sobre o futuro. Que motive e mobilize para as reformas de que o país precisa. Além disso, o país é demasiado pequeno para termos um Presidente da República que seja especialista a falar para dentro“, argumenta.
Em contrapartida, José Miguel Júdice reconhece que Henrique Gouveia e Melo, a quem também se refere como um homem “decente“, tem um perfil e um percurso de vida que lhe dariam essa dimensão “externa”, mas entende que lhe faltam as “características” necessárias para conhecer e compreender as “subtilezas” da política nacional.
Em maio, numa grande entrevista ao Observador que marcou o fim de ciclo como comentador político, Júdice já mostrava reservas em relação à candidatura do social-democrata. “Não acredito nas qualidades de Luís Marques Mendes. Sinceramente. Acho que não tem as qualidades para o que deseja. Marques Mendes, politicamente, e isto não é nada de ofensivo, é o que se chama o ‘Marcelo dos Pobres‘. Tem algumas das qualidades de Marcelo, mas não as tem todas. E as que não tem fazem falta. Se Marcelo tivesse sido o que podia ter sido, Marques Mendes tinha condições para suceder. Assim, não acredito.”
Já nessa altura, José Miguel Júdice destacava a importância da candidatura de António José Seguro — à data, não era conhecida a candidatura de João Cotrim Figueiredo. “Um dos elementos essenciais para que o PS recupere e que o se PS transforme um partido moderado é que António José Seguro vá à segunda volta — António José Seguro é, por definição, o membro do PS mais moderado que conheci, porque foi moderado na altura em que os outros ainda não eram.”
Ao mesmo tempo, e embora elogiando o almirante, o advogado garantia que não iria apoiar Henrique Gouveia e Melo. “Pode ter todos os defeitos que pode imaginar. Mas não é um perigo para a democracia. Pensei, ponderei, falei com ele, conheci-o, respeito-o, pareceu uma pessoa perfeitamente capaz, mas não vou votar nele.”
José Miguel Júdice: “Constâncio deu dez anos de maioria a Cavaco. Pedro Nuno está a fazer o mesmo”
[Chegou o histórico debate entre Soares e Freitas. E o socialista já conseguiu o voto dos comunistas sem “olhar para o retrato” dele. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]