A Defensoria Pública do Rio de Janeiro disse que morreram 132 pessoas, depois de terem sido encontrados esta quarta-feira cerca de 60 corpos, na sequência da megaoperação lançada terça-feira nas favelas da cidade contra o Comando Vermelho. O número é baseado nas informações coletadas no Instituto Médico Legal (IML) e junto de familiares no Complexo da Penha. Já a cúpula da Segurança Pública do Rio de Janeiro confirmou no final da noite de quarta-feira, 29 de outubro, 121 mortos, entre os quais quatro polícias, além de 113 detidos, sendo 33 oriundos de outros estados. Entretanto, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Santos, afirma que o número de mortos divulgado ainda não é definitivo.

Na noite da passada quarta-feira, 29, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, fez um novo balanço da operação, numa conferência de imprensa citada pelo G1. Foram 58 mortes confirmadas na terça-feira, mais 63 na passada quarta-feira, totalizando 121 mortos, incluindo os 4 polícias, sendo dois militares e dois civis. “Os outros 117 eram suspeitos de envolvimento com o tráfico”, relatou o secretário de Polícia Civil, que registou ainda a apreensão de 91 fuzis, 26 pistolas, 1 revólver e toneladas de drogas, ainda não contabilizadas.

Os mais de 60 corpos encontrados pelos familiares na zona de mata na passada quarta-feira, todos de homens, ficaram alinhados lado a lado no chão de uma praça da Penha, à vista dos vizinhos, a maioria em roupa interior ou cobertos por lençóis. A Polícia Civil vai investigar quem participou da remoção dos corpos na área de mata no Complexo da Penha — para Curi o facto dos corpos terem aparecido na praça despidos configura fraude processual. “Vale lembrar, para desmistificar certas narrativas, que parece ter ocorrido uma espécie de ‘milagre’ com os corpos que estão aparecendo hoje. Esses indivíduos estavam na mata, equipados com roupas camufladas, coletes e armamentos. Agora, muitos deles surgem apenas de cueca ou short, sem qualquer equipamento — como se tivessem atravessado um portal e trocado de roupa. Temos imagens que mostram pessoas retirando esses criminosos da mata e os colocando em vias públicas, despindo-os”.

Em conferência de imprensa, o governador do Rio de Janeiro defendeu que os corpos encontrados esta quarta-feira são de criminosos. “O conflito foi todo na mata, não creio que tivesse alguém passeando na mata em dia de conflito. A gente pode tranquilamente classificar e, se tiver algum erro, ele será irrisório. O critério que falamos com tranquilidade é que são criminosos porque, no planeamento, o conflito estava em áreas para não afetar a população”, afirmou Cláudio Castro. Victor Santos, o secretário de Segurança Pública, classificou o “dano colateral” como “muito pequeno”, afirmando que apenas quatro pessoas inocentes morreram durante a ação.

Já o secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, explicou que a estratégia das forças de segurança passaram por criar o que chamou de “Muro do Bope”, com o objetivo de cercar os criminosos e empurrá-los em direção à mata, onde outras equipas do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) já estavam posicionadas.

Lula da Silva: “Não podemos aceitar que o crime organizado continue destruindo famílias”

Num primeiro momento, o ministro da Justiça do Brasil afirmou que o chefe de Estado, Lula da Silva, ficou “estarrecido” com o número de mortos da megaoperação. Lula da Silva estava no avião a regressar de uma viagem de oficial de uma semana à Ásia quando a operação decorreu. “O Presidente ficou estarrecido com o número de ocorrências fatais e também se mostrou surpreso que uma operação desta envergadura fosse desencadeada sem conhecimento do Governo federal, sem nenhuma possibilidade de o Governo federal participar de alguma forma”, disse Ricardo Lewandowski.

Entretanto, na noite desta quarta-feira, o Presidente brasileiro reagiu através das redes sociais, informando que se reuniu com ministros do Governo e determinou ao ministro da Justiça e ao diretor-geral da Polícia Federal que fossem ao Rio de Janeiro para encontrar o governador do Estado. “Não podemos aceitar que o crime organizado continue destruindo famílias, oprimindo moradores e espalhando drogas e violência pelas cidades. Precisamos de um trabalho coordenado que atinja a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”, escreveu Lula, citando como exemplo a operação Carbono Oculto, que resultou prisões em oito estados brasileiros. “Foi exatamente o que fizemos em agosto na maior operação contra o crime organizado da história do país, que chegou ao coração financeiro de uma grande quadrilha envolvida em venda de drogas, adulteração de combustível e lavagem de dinheiro”, diz o Presidente, que sancionou uma lei que promove mudanças como a classificação de duas novas modalidades de crime relacionadas à obstrução de investigações e ações contra o crime organizado, com penas de reclusão de 4 a 12 anos, além de multa, e amplia a proteção de autoridades envolvidas no combate à criminalidade, para juízes, membros do Ministério Público, polícias e militares, inclusive aposentados, bem como aos seus familiares. Lula termina o texto a citar a proposta de emenda constitucional que já havia sido apresentada em abril. “Com a aprovação da PEC da Segurança, que encaminhamos ao Congresso Nacional, vamos garantir que as diferentes forças policiais atuem de maneira conjunta no enfrentamento às facções criminosas.”

Organizações não-governamentais e o próprio Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) já vieram criticar a brutalidade da operação. “Estamos horrorizados com a operação policial em curso nas favelas do Rio de Janeiro, que, segundo relatos, já resultou na morte de mais de 60 pessoas, incluindo quatro agentes da polícia”, escreveu o ACNUDH, na sua conta oficial da plataforma X.

Cerca de 30 organizações de defesa dos direitos humanos assinaram um comunicado afirmando que a segurança no Rio de Janeiro “não se conquista com sangue” e que a operação, além de expor “o fracasso e a violência estrutural da política de segurança”, coloca a cidade “num estado de terror”.

O Comando Vermelho dedica-se principalmente ao tráfico de drogas e de armas, e o seu centro de operações situa-se no estado do Rio de Janeiro, onde controla algumas comunidades da cidade, embora tenha presença em grande parte do país, especialmente na região da Amazónia.

A organização nasceu na década de 1980, quando a ditadura militar concentrou nas mesmas prisões delinquentes comuns e membros de grupos de guerrilha com formação política e até militar.

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