“Para onde vais, humanidade?” é o título do documento publicado nesta quarta-feira pela Comissão Teológica Internacional, da Santa Sé, que recebeu a aprovação final do Papa Leão XIV. O texto, publicado em italiano e em espanhol, é dividido em quatro capítulos, com “reflexões sobre a antropologia cristã face a alguns cenários sobre o futuro da humanidade”.

O documento aborda diretamente o desenvolvimento cada vez mais veloz da Inteligência Artificial (IA), ao afirmar que os avanços “não podem ser confiados a mecanismos anónimos, regulados apenas pela capacidade das inovações científicas e tecnológicas”. A CTI destaca que a busca de um “sobre-humano” acarreta o risco de conduzir a civilização a condições “desumanizadas” ao substituir ou suprimir as pessoas.

“Falta uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que realmente estabeleçam limites e contenham esse poder”, diz o texto. Para Leão XIV, que já havia abordado este tema em outras ocasiões, “o impacto desta evolução é profundo, ao transformar áreas como a educação, o trabalho, a arte, a saúde, a administração, as forças armadas e a comunicação”.

O texto reconhece as muitas potencialidades da inteligência artificial na transformação, para melhor, de áreas como a educação, o trabalho, a arte, a saúde ou a comunicação, mas adverte para os perigos da busca de uma “inteligência artificial geral” que vise substituir a dimensão humana e relacional da humanidade. Nesse sentido, os teólogos, em linha com o Papa, pedem que o desenvolvimento dos avanços tecnológicos seja feito a par e passo com os valores humanos e sociais.

A comissão mostra-se também preocupada com os avanços da ciência no âmbito das modificações no ADN, que pretendem criar “humanos geneticamente perfeitos”. “A procriação como transmissão da vida não é mais discutida e os novos nascimentos não são mais considerados”, pelo que a instituição afirma fazer com que o “amor conjugal e o apoio emocional das famílias desapareçam”. Os nascimentos, diz o texto, devem ser “articulados através do amor entre homem e mulher”.

Um dos capítulos faz também uma conexão com a temática de identidade de género e procedimentos estéticos, como é o caso das cirurgias plásticas, para alertar para o modo como os humanos tem transformado a relação com a sua dimensão corporal. A Igreja considera “obscura” a “redução da identidade pessoal”, sendo o aspeto físico “reduzido a material biológico imperfeito ou algo suscetível a aprimoramento”.

“A identidade do homem e da mulher não é uma variável que pode ser moldada independentemente. Não é uma propriedade gerida segundo uma perceção subjetiva”. O Vaticano refere também uma “tendência atual para negar ou ignorar” as diferenças entre homem e mulher.

Essa “desconsideração” da aparência física apaga os “vestígios da mão providencial do Criador” e provoca uma “realidade sem sentido e alheia à identidade verdadeira da pessoa”, que foi “manipulada” segundo os interesses humanos. Estão entre os exemplos referidos também os procedimentos para retardar o envelhecimento. Especialmente no Ocidente, afirma o documento, há um “culto generalizado ao corpo”, com a procura constante por uma “figura perfeita, que se mantenha para sempre jovem e bela”. Por fim, o texto aprovado por Leão XIV diz ser esta uma “tentação de rebeldia ou fuga da realidade”.

O primeiro documento da Comissão Teológica Internacional foi publicado em 1969. Os conteúdos são escritos por um grupo de teólogos nomeados pelo Papa, que são responsáveis por investigar que temas têm sido uma tendência ou discutidas com frequência na sociedade naquele momento. Os assuntos são então relacionados com as crenças católicas. A proposta é levar para a máxima autoridade da Igreja a perceção de como a instituição religiosa pode atuar. A redação final, divulgada após a aprovação do Papa, é tida como a posição oficial da Igreja sobre as questões abordadas.

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