A arte soviética de espalhar fake news: como o KGB pôs a América a pensar que a CIA inventou a SIDA /premium

17 Novembro 2018516

Nos anos 80, o KGB convenceu meio mundo (inclusive gente nos EUA) que a SIDA tinha sido criada pela CIA para matar minorias. Como conseguiram? A resposta está nos Sete Mandamentos da Desinformação.

Se havia uma altura para os indianos se preocuparem com o que se estaria a passar em Fort Detrick, no estado norte-americano do Maryland, era aquela. A 17 de julho de 1983, o jornal indiano Patriot publicava uma carta anónima, dizendo que esta era escrita por um “conhecido cientista e antropólogo americano”, onde só o primeiro parágrafo era suficiente para deixar qualquer um de queixo caído.

Nele, lia-se a seguinte frase: “A SIDA, a fatal e misteriosa doença que tem destroçado os EUA, pode ser o resultado de experiências do Pentágono para desenvolver novas e perigosas armas biológicas”.

Porém, a gravidade do que aquele “conhecido cientista e antropólogo americano” ficava ainda maior à medida que o texto entrava em dados mais concretos. Entre eles, dois parágrafos em concreto terão saltado aos olhos dos leitores da Patriot.

O primeiro, indicava “alguns especialistas americanos pensam que o Paquistão pode tornar-se no próximo campo de testes para estas experiências” — o que, como se lê no artigo, levaria a que a SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) se “espalhasse rapidamente para a Índia, com graves consequências para as pessoas do país”. O outro, mais à frente, e já depois de o autor anónimo ter escrito que também países como França, Holanda e o Reino Unido estavam em risco, explicava como o vírus foi inicialmente espalhado “em Nova Iorque, entre imigrantes do Haiti” e que mais tarde se espalhou também por “toxicodependentes e homossexuais”. O subtexto era evidente: a CIA tinha criado uma arma biológica disfarçada de doença sem cura para matar negros, homossexuais e toxicodependentes.

“A desinformação é uma forma de espalhar informações deliberadamente distorcidas ou falsas no sistema de comunicação do adversário, com o objetivo de que esta seja aceite como informação genuína e que influencie tanto o processo de tomada de decisões políticas ou manipule a opinião publica."
Lawrence Martin-Bittman, ex-espião do KGB

Recorde-se que o contexto é o de 1983 — não havia sequer Internet, muito menos os proverbiais revoltas que incendeiam redes sociais que tanto nos ocupam os dias em 2018. Ainda assim, a informação contida naquela carta anónima foi ardendo em lume brando, devagar, devagarinho, como algumas das melhores receitas exigem. Passaram três anos até que um jornal soviético, o Literaturnaya Gazeta, publicou um artigo com o título “Pânico no Ocidente: o que está por trás da SIDA”. Descrevendo uma situação de contágio da SIDA nos EUA sobretudo entre cidades da costa Este, o jornalista do Literaturnaya Gazeta apoia-se no artigo publicado na revista indiana Patriot para dizer como a CIA testou em imigrantes haitianos, homossexuais, toxicodependentes e também sem-abrigo o vírus da SIDA. No artigo, lia-se que todos este eram “vítimas de SIDA devido a uma experiência monstruosa”.

Foi só depois de este segundo artigo ter sido publicado que um casal de cientistas da República Democrática Alemã — Jakob e Lilli Segal, ambos especialistas em bacteriologia — publicou um estudo onde corroborava tudo o que até aí se tinha escrito sobre a alegada criação da SIDA pela CIA e de como este tinha sido testado em prisioneiros que, primeiro através relações homossexuais na prisão e mais tarde em relações sexuais de todo o tipo já em liberdade, terão espalhado o vírus pelos EUA.

O selo de garantia científica foi quanto bastou para o artigo finalmente se espalhar pelo mundo. O estudo chegou às mãos de vários jornalistas do mundo — a maior parte de vários países africanos, mas também de outras partes do mundo. Ao todo a notícia foi dada em pelo menos 80 países. Entre estes, a notícia acabou por chegar ao seu ponto de origem: os EUA. A 30 de março de 1987, quase quatro anos depois de ter sido publicada numa desconhecida revista na Índia, a notícia chegou aos público norte-americano, através de uma notícia da agência Associated Press que vários meios dos EUA difundiram. No parágrafo inicial, lia-se: “Uma publicação militar soviética acredita que o vírus que causa a SIDA partiu de uma experiência com armas biológicas num laboratório do exército dos EUA”.

No entanto, nada disto era verdade. Não, o vírus da SIDA não foi criado por um laboratório dos EUA. No entanto, a notícia falsa que deu origem a tudo esta narrativa nasceu, essa sim, noutro laboratório: o que os soviéticos montaram para espalhar notícias falsas nos países do Ocidente. O esquema, amplamente estudado pela academia e também pela comunidade de intelligence norte-americana, foi recordado numa série de documentários divida em três episódios, que resulta de uma parceria do The New York Times com a BBC. O título do documentário é o mesmo do esquema montado pelo KGB para espalhar aquela informação: “Operation Infektion”.

Os Sete Mandamentos da desinformação soviética

Mas como é que esta informação falsa pôde ter tanto alcance?

O método foi explicado por vários especialistas e, ainda mais importante, três ex-espiões do KGB que desertaram para os EUA ainda durante a Guerra Fria: Yuri Bezmenov, Stanislav Levchenko e Lawrence Martin-Bittman.

Numa entrevista de 1984, este último, que trabalhou para o KGB na Checoslováquia até ter desertado para os EUA em 1968, deu uma definição sucinta do conceito de desinformação utilizado pelos serviços secretos soviéticos. “A desinformação é uma forma de espalhar informações deliberadamente distorcidas ou falsas no sistema de comunicação do adversário, com o objetivo de que esta seja aceite como informação genuína e que influencie tanto o processo de tomada de decisões políticas ou manipule a opinião publica”, disse Lawrence Martin-Bittman, que antes de ter desertado se chamava Ladislav Bittman.

Noutra entrevista de 1984, Yuri Bezmenov, ex-espião do KGB que desertou para o Canadá em 1970, descreveu em poucas linhas aquilo que considerava ser a maior parte da atuação do KGB, que de acordo com a sua definição se concentrava muito mais em campanhas de desinformação do que em espionagem propriamente dita.

“Apenas 15% do tempo, dinheiro e recursos humanos são dedicados à espionagem em si”, disse então sobre o KGB. “Os outros 85% dizem respeito a um processo lento, ao qual chamamos de ‘subversão ideológica’ ou ‘medidas ativas’ (…) ou ‘guerra psicológica’. O que isto significa basicamente é mudar a perceção da realidade de cada americano ao ponto em que, apesar da abundância de informação, ninguém é capaz de chegar a conclusões sensatas para o seu interesse, da sua famílias, da sua comunidade e do seu país.”

“É um grande processo de lavagem de cerebral, que funciona muito devagar”, acrescentou, para depois referir que o processo se divide em quatro fases: desmoralização, desestabilização, crise e normalização.

No entanto, no documentário do The New York Times com a BBC, é apresentada outra lista de igual pertinência para entender o método de  implementação de notícias falsas pelo KGB: os 7 mandamentos da desinformação.

  1. Procurar fragilidades na sociedade em questão
  2. Criar uma mentira imensa
  3. Contextualizá-la com factos reais
  4. Não deixar rastos quanto à origem da informação
  5. Encontrar um “idiota útil” para veiculá-la
  6. Negar em todo o caso a autoria da notícia falsa
  7. Apostar no longo prazo

No caso da notícia falsa sobre a invenção do vírus da SIDA num laboratório da CIA, cada um dos passos foi cumprido à regra.

  1. “Fragilidade”: as desigualdades raciais e a discriminação contra homossexuais na sociedade norte-americana dos anos 80, tal como o desconhecimento generalizado sobre o vírus da SIDA;
  2. “Mentira imensa”: que o Governo infetou deliberadamente pessoas de minorias;
  3. “Factos reais”: a existência de um laboratório para a criação de armas biológicas no estado do Maryland;
  4. “Não deixar rastos”: a revista onde a notícia foi publicada inicialmente, a Patriot, não era abertamente ligado ao KGB;
  5. “Idiota útil”: além do casal de cientistas da Alemanha de Leste, os jornalistas que veicularam a notícia;
  6. “Negar em todo o caso a autoria”: mesmo depois de o caso ter sido apontado ao KGB, este negou com insistência a autoria;
  7. “Apostar no longo prazo”: manter as condições para esta e outras notícias se espalharem.

E assim foi — até a situação ter ficado incomportável para Moscovo.

A mentira que sobreviveu à União Soviética

De pouco valeram os esforços dos EUA pouco depois de vários jornais e telejornais do mundo terem veiculado a notícia de que o vírus da SIDA tinha uma invenção da CIA. Mesmo depois de as embaixadas norte-americanas terem conseguido publicar desmentidos na maior parte dos jornais estrangeiros que publicaram aquela notícia, e após as conclusões do casal de cientistas alemães ter sido ampla e eficazmente desmontada pelos seus colegas em todo o mundo, a União Soviética e o KGB mantiveram-se fiéis ao 6º mandamento: negar todas as acusações.

Em outubro de 1987, porém, a situação ficou demasiado pesada até para a União Soviética, então às portas do colapso. Naquele ano, o então secretário de Estado dos EUA, George Shultz, confrontou publicamente o Presidente da União Soviética, Mikhail Gorbatchov, exigindo-lhe que reconhecesse tanto a autoria como a falsidade daquela notícia. No relato que fez aos media norte-americanos sobre um encontro que teve com o líder soviético em Moscovo, George Shultz partilhou aquilo que terá dito ao seu interlocutor. Entre um longa lista de queixas, terminou com esta: “E vocês têm andado a espalhar esta treta sobre a SIDA, por isso dá para perceber por que estamos chateados”.

Em 1987, a União Soviética desvinculou-se da notícia falsa e Mikhail Gorbatchov terá ordenado ao KGB que suspendesse a desinformação — mas os efeitos desta ficaram (JEROME DELAY/AFP/Getty Images)

Um mês depois, em novembro de 1987, a União Soviética fez o retratamento possível. Num artigo publicado no jornal Izvestia, desvincularam a Academia Soviética da Ciência de qualquer investigação ou avaliação científica que tentasse provar a notícia falsa inicialmente publicada em 1983. Além disso, o próprio Mikhail Gorbatchov terá ordenado o KGB a terminar quaisquer operações de desinformação. Desta forma, quebrou o 6º mandamento, que diz perante qualquer acusação de desinformação a postura é sempre a mesma: negar, negar, negar.

Mas aqui, ao contrário daquilo que diz o provérbio português, a mentira teve perna longa. Segundo uma sondagem feita pelo think-tank RAND em 2005 — ou seja, duas décadas depois de se ter escrito que a SIDA tinha sido inventada e espalhada pela CIA —, ficou provado que à altura muitos afro-americanos acreditavam naquela teoria da conspiração.

Numa sondagem de 2005, mais de 20 anos depois da notícia do Patriot ter sido publicada, 43,6% de afro-americanos disseram que o governo estava a usar a população de infetados com SIDA como cobaias para o uso de medicamentos retrovirais

Segundo a RAND, 15,2% de afro-americanos afirmaram que a SIDA era “uma forma de genocídio contra os negros”; 16,2% responderam que foi “criada pelo governo para controlar a população negra” e 26,6% disseram que aquele vírus foi “produzido num laboratório do governo”. E apesar de uma maioria de 75,4% dizer que os médicos e restantes profissionais de saúde estavam a “tentar impedir o contágio” do HIV nas comunidades negras, a resposta era menos benevolente quando relacionada com o governo norte-americano. Ao todo, 43,6% de afro-americanos disseram que o governo estava a usar a população de infetados com SIDA como cobaias para o uso de medicamentos retrovirais.

Mesmo quebrando o 6º mandamento, o 7º ficou garantido. No longo prazo, a desinformação russa venceu.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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