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Peter Mandelson nunca foi considerado perfeito para a desafiante posição de representação do Reino Unido nos EUA no segundo mandato de Donald Trump. A sua nomeação para o cargo de embaixador britânico em Washington, em dezembro do ano passado, era de alto risco e isso era sabido dos dois lados do Atlântico. O que não se esperava na altura era que Mandelson caísse devido a um escândalo que, pelo menos em parte, até já era conhecido.
Esta quinta-feira, o embaixador do Reino Unido em território norte-americano foi demitido depois de divulgados emails que enviou a Jeffrey Epstein. Foi Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, a pedir à sua ministra dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, a demissão de Mandelson. Ela aceitou e a decisão produziu “efeito imediato”.
O que mudou em relação ao que já se sabia sobre uma relação de amizade e de troca de favores entre Mandelson e Epstein, nas palavras do Governo britânico, é o facto de terem sido revelados mails que mostravam que o então deputado trabalhista tinha enviado mensagens de apoio a Epstein já depois de este enfrentar acusações de crimes sexuais em 2008.
▲ Mandelson com Trump na Casa Branca
The Washington Post via Getty Im
Ou seja, a ligação de ambos perdurou no tempo e tinha uma “profundidade” que o Governo britânico não conhecia aquando da sua nomeação, em dezembro passado, defende Downing Street. Os conservadores no Parlamento britânico estão agora a pedir a publicação de todo o material para verificação, enquanto alguns deputados trabalhistas — a família política do agora ex-embaixador — criticam abertamente o primeiro-ministro por se ter colocado na posição de nomear Mandelson perante as fortes suspeitas que sobre ele recaíam.
A entrada pela sombra da política e as demissões sempre relacionadas com dinheiro
Durante cinco anos, de 1985 a 1990, Peter Mandelson foi diretor de campanhas e comunicações do Partido Trabalhista — descrito como um génio político por excelência a operar na sombra das grandes figuras, ganhou da imprensa britânica a alcunha “Príncipe das Trevas”.
Tornou-se braço direito do primeiro-ministro Tony Blair — depois de ter sido fundamental na construção do movimento centrista Novo Trabalhismo — e foi responsável por aprimorar a imagem do renovado partido, que levou à vitória esmagadora de Blair, em 1997, como recorda o El Mundo.
Como se descreve na sua biografia, no site oficial do Governo do Reino Unido, a figura que ocupou nos primeiros anos de carreira o backstage da política britânica migrou depois para “diversos cargos de alto escalão na governação do primeiro-ministro Tony Blair e, posteriormente, de Gordon Brown”. Foi secretário de Estado para os Negócios e Comércio em 1998 e secretário de Estado para a Irlanda do Norte, entre 1999 a 2001. Foi ainda Comissário Europeu para o Comércio de 2004 a 2008 e ocupou depois as pastas de Primeiro Secretário de Estado e secretário de Estado para os Negócios, Inovação e Competências, de 2008 a 2010.
Só que o seu percurso político não foi limpo, bem pelo contrário. Sempre “voou perto do sol”, afirmou um antigo colega ao The Guardian, para se referir ao facto de Mandelson circular na órbita de figuras com muito dinheiro e poder — frequentava festas e passava verões em iates de amigos em destinos de luxo.
▲ O britânico com o amigo Epstein numa festa de aniversário
@AmberWoods100
Foi o dinheiro, aliás, que esteve no centro de uma das duas renúncias de Mandelson durante os governos trabalhistas de Tony Blair. A primeira, em 1998, quando ocupava a pasta do Comércio, esteve relacionada com um empréstimo não declarado de 373 mil libras (cerca de 430 mil euros) que lhe foi concedido pelo colega de governo Geoffrey Robinson para comprar uma casa em Londres. Ambos optaram por se demitir, com Robinson a abdicar do cargo de tesoureiro-geral que ocupava em Downing Street.
Na altura, Mandelson admitiu que devia ter tornado público o empréstimo e que dessa forma poderia ter-se “protegido da aparência de um conflito de interesses”. Saiu discretamente e foi reconduzido da mesma forma como secretário de Estado da Irlanda do Norte, até em 2001 apresentar novamente uma carta de demissão.
Desta feita, por ter sido revelado que, em 1998, tinha contactado o Ministério da Administração Interna em nome do empresário bilionário indiano Srichand Hinduja, que queria obter a cidadania britânica. Como recorda o The Guardian, Hinduja foi um doador milionário para o projeto de alto nível do Millennium Dome — o famoso edifício britânico — em North Greenwich, sudeste de Londres, cuja construção Mandelson supervisionava na época.
O seu cargo público seguinte seria na posição de comissário comercial da União Europeia, de 2004 a 2008, mas os escândalos e as relações duvidosas com figuras ricas e poderosas seguiram-no sempre.
Ghislaine Maxwell apresentou Mandelson e Epstein e os dois nunca mais se separaram
Uma das principais figuras a pertencer ao círculo dos amigos influentes e ricos de Peter Mandelson foi Jeffrey Epstein, que tratava o amigo chegado por “Petie”. A informação consta de um relatório interno do banco JP Morgan, de 2019, divulgada pelo Financial Times em 2023, dois anos antes de Mandelson ser escolhido para liderar a Embaixada do Reino Unido nos EUA.
Concluia-se no relatório que Epstein, um cliente estimado do JP Morgan, parecia manter uma relação “particularmente próxima com o Príncipe André, o Duque de Iorque, e com Peter Mandelson, um membro sénior do governo britânico”.
A investigação interna foi encomendada pelo banco para avaliar as fragilidades que enfrentava, com um dos seus principais gestores financeiros por mais de 15 anos envolvido em diversos escândalos sexuais com menores. No relatório sugere-se que, em junho de 2009, quando era secretário de Estado dos Negócios do Reino Unido, Mandelson ficou alojado na luxuosa casa de Epstein, em Manhattan, enquanto o financeiro estava na prisão por ter solicitado serviços de prostituição a uma menor.
Em 2019, Epstein foi encontrado morto numa cela da prisão enquanto aguardava julgamento por novas acusações de tráfico sexual de menores.
Nos registos do banco lia-se ainda que em duas ocasiões posteriores, em novembro de 2010 e janeiro de 2011, quando Mandelson já não estava no governo britânico, Epstein admitiu que “Petie” estava com ele em Paris, onde tinha um apartamento luxuoso.
O Financial Times diz não ser claro quando é que Mandelson e Epstein se conheceram pela primeira vez, embora uma reportagem de 2002 da New York Magazine fale de um jantar íntimo na casa de Epstein em Manhattan, ao lado de Donald Trump e outras personalidades. Os dois terão sido apresentados por Ghislaine Maxwell, filha do antigo deputado trabalhista e magnata Robert Maxwell, que está a cumprir 20 anos de prisão por ter ajudado Epstein no tráfico sexual de raparigas menores de idade.
▲ Epstein com Ghislaine Maxwell
Patrick McMullan via Getty Image
Há dois anos, já eram publicamente conhecidas imagens de Mandelson e Epstein a celebrar um aniversário no apartamento de Epstein em Paris, em janeiro de 2007. Uma fotografia anterior, de 2005, mostrava os dois homens a fazerem compras juntos nas Caraíbas.
Em 2014, Mandelson aceitou ser “cidadão fundador” do Projeto TerraMar, um grupo de conservação dos oceanos sem fins lucrativos fundado por Ghislaine Maxwell, que contava com o apoio financeiro de Epstein, mas sempre negou ter tido qualquer tipo de “relação profissional ou comercial com Epstein, seja de que forma for”.
Em reação às notícias que começaram a ser publicadas sobre a amizade de longa data entre Mandelson e Epstein, um porta-voz do Partido Trabalhista chegou mesmo a dizer que o político britânico “lamenta profundamente ter sido apresentado a Epstein”. Uma pessoa próxima a Mandelson, em declarações ao Financial Times, disse ser “óbvio” que Mandelson nunca se teria aproveitado de jovens mulheres que Epstein lhe pudesse ter oferecido, uma vez que o britânico é homossexual.
Como as novas revelações foram determinantes para a demissão de Mandelson
Em Downing Street, Keir Starmer nunca terá ficado extasiado com a ideia de escolher Mandelson como embaixador e sempre teve uma perspetiva “morna” sobre a sua colocação nos EUA, como disse uma fonte próxima do primeiro-ministro britânico ao Politico. Isto devido à tradição de escolha de embaixadores britânicos discretos e com origem na carreira diplomática.
A figura de Mandelson vinha responder, no início do segundo mandato de Trump, a uma administração norte-americana com necessidade de uma representação mais carismática e que se ligasse a Donald Trump. Mas havia algo mais a ligá-los: a amizade de ambos com Epstein, que causa danos na reputação de ambos.
De acordo com o Politico, que ouviu fontes em Londres e Washington, Trump ficou irritado com a condução da demissão de Mandelson. Uma fonte da Casa Branca avançou mesmo que o Presidente dos EUA ficou descontente por não ter sido informado pessoalmente por Starmer e que está apreensivo com qualquer coisa que possa ofuscar sua visita de estado ao Reino Unido, que tem lugar já na próxima semana.
Mas a demissão era iminente perante a revelação concreta de comunicações entre Mandelson e Epstein entre 2009 a 2011, já depois de o gestor financeiro ter sido condenado por crimes sexuais contra crianças. A lista de comunicações é longa e inclui a já conhecida referência à estadia do britânico na casa de Epstein em Manhattan, na East 71st Street.
Várias provas da proximidade dos dois surgiam em comunicações entre Jes Staley, executivo da JP Morgan, e Epstein, com ambos a referirem-se ao britânico com a alcunha “Petie” e a descreverem diversas ações políticas do mesmo. Mandelson também foi um dos que contribuíram para o “livro de aniversário” quando Epstein completou 50 anos, em 2003, tal como Trump.
Na mensagem do britânico este referia-se ao aniversariante como “o meu melhor amigo”, falava dele como sendo “misterioso” e com amigos “interessantes”, e partilhava uma foto de duas mulheres com os rostos tapados.
This is as dodgy as hell.
In 2003, Peter Mandelson sent a 10 page (!) birthday message to Jeffrey Epstein.
Mandelson was the UK’s ambassador to the US at the time.
But who sends a 10 page birthday message to a business acquaintance? This is just a few of those pages. pic.twitter.com/r2c5XR5OZz
— Miss Jo (@therealmissjo) September 9, 2025
Mas as mensagens que mais terão pesado na decisão da demissão do embaixador foram mesmo as que demonstravam apoio perante a acusação da solicitação de sexo a um menor. Mandelson enviou um e-mail a Epstein no dia 2 de junho de 2008 a dizer: “Os teus amigos ficam contigo e adoram-te.”
Já depois de o amigo ser condenado, disse-lhe: “Luta por uma libertação antecipada.” O trabalhista britânico ficou mesmo com o “melhor amigo” até ao fim, mas as consequências da relação também o acompanharam até ao que alguns antevêem como o muito provável fim da sua carreira política e diplomática.