1243kWh poupados 1243 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-2204569343
i

AFP via Getty Images

AFP via Getty Images

"Abandonados" pela UE e "intransigentes" nas suas reivindicações. Como os estudantes acenderam o rastilho para a democracia na Sérvia

Há quase 5 meses que a Sérvia está na rua. Governo é acusado de responder com violência, a UE permanece em silêncio. Os estudantes não desistem das exigências e o país chegou a um "ponto de viragem".

    Índice

    Índice

O protesto decorria “calmo e em silêncio“, quando um grupo de homens se aproximou dos manifestantes reunidos numa manhã chuvosa de inverno na Sérvia. Primeiro, atiraram insultos. Os manifestantes não reagiram. Depois, começaram a bater nos estudantes com guarda-chuvas. Outros alunos intervieram para os proteger  e “começou uma confusão completa” que obrigou à intervenção da polícia. A descrição é feita por Ana (nome fictício) ao Observador.

Ana é uma de milhares de sérvios desde novembro têm saído à rua em protesto quase diariamente. As manifestações começaram com um modelo simples: às 11h52, as ruas eram ocupadas durante em 15 minutos, em silêncio. A rotina dos protestos simboliza o acidente que os espoletou. No dia 1 de novembro, o telhado da estação de Novi Sad ruiu, matando 15 pessoas. O número de mortos subiu para 16 na semana passada. Os minutos de silêncio refletem as vítimas mortais; as 11h52 a hora do acidente. Na rua, os manifestantes exigem transparência e responsabilização por parte do governo.

Mas o acidente de novembro na segunda maior cidade da Sérvia foi apenas gatilho para uma onda de insatisfação generalizada que tem vindo a crescer no país ao longo da última década. Sob a liderança do Presidente Aleksandar Vučić e do Partido Progressista da Sérvia (SNS), o país tem enveredado por um caminho autocrático, com eleições “irregulares” e imprensa condicionada. A violência contra os manifestantes — como a que Ana presenciou —  já levou o primeiro-ministro a apresentar a demissão. Mas continua a escalar: no dia 15 de março, as autoridades terão utilizado armas sónicas, de forma ilegal, para dispersar a multidão.

O país experiencia a maior crise política deste século e os especialistas concordam que enfrenta um ponto de viragem: “Acho que este será um ano de importância histórica para a Sérvia”, declara Nicola Burazer. “Só vejo duas formas de isto acabar: com um caminho para uma transição democrática ou o fortalecimento da autocracia”, avalia o diretor de programas do think tank sérvio Centro para Política Contemporânea, ao Observador.

epaselect epa11751325 A protestor paints the pavement with red paint symbolizing blood during the one month anniversary of the Novi Sad train station accident in Novi Sad, Serbia, 01 December 2024. Fifteen people lost their lives in the collapse of the Novi Sad Railway Station canopy on 01 November 2024. The station building, which had been renovated and reopened on 05 July 2024, was undergoing further renovations shortly before the collapse.  EPA/ANDREJ CUKIC

▲ "As vossas mãos têm sangue" e uma mão vermelha são o lema dos protestos pelas vítimas de Novi Sad

ANDREJ CUKIC/EPA

Se dentro da Sérvia se multiplicam os sentimentos de esperança e solidariedade popular, a nível internacional predomina o silêncio. Este mês, Vučić deslocou-se a Bruxelas para encontros com vários representantes da União Europeia (UE). A “reunião construtiva”, como classificou a comissária europeia para o alargamento, foi recebida com críticas e um euroceticismo crescente entre os sérvios. Porém, apesar do sentimento de abandono, a população, liderada pelos estudantes, recusa desistir das reivindicações.

Estudantes: os protagonistas de uma nova onda da “tempestade perfeita de insatisfação”

No dia 22 de novembro, um grupo de estudantes e professores da Faculdade de Artes Dramáticas de Belgrado abandonou as salas de aula para se juntar aos protestos espontâneos que se tinham espalhado por todo o país, de homenagem silenciosa às vítimas do acidente. Também estes manifestantes foram atacados por um grupo de homens. Mais tarde, os media locais identificaram alguns destes homens como funcionários e membros do SNS, partido no governo.

Nos dias seguintes, numa manifestação de solidariedade, estudantes de diferentes faculdades por todo o país aderiram aos protestos e foram mais longe ao ocupar os campi universitários. A adesão em massa dos estudantes fez com que os protestos se “espalhassem como fogo” e “mobilizassem toda a sociedade”, destaca Nikola Burazer. Em todos os níveis de escolaridade — do jardim de infância ao ensino secundário –, professores recusaram dar aulas. As greves alastraram-se a advogados, profissionais de saúde e trabalhadores de empresas estatais.

[Já saiu o segundo episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

O analista sérvio argumenta que os estudantes têm um “estatuto” diferente dos restantes manifestantes que promoveram esta mobilização. Por um lado, “as campanhas de difamação que o governo usa contra os seus críticos não podiam ser usadas eficazmente contra os estudantes”, afirma o especialista. Ou seja, as acusações de que os jovens são “espiões ou mercenários estrangeiros” não são credíveis, mesmo entre as pessoas mais favoráveis ao governo, elabora. Por outro lado, o especialista elogia a determinação dos alunos. “Para ser sincero, ninguém esperava em novembro que ficassem nestas ocupações até abril, arriscando perder um ano inteiro de aulas. Eles estão a ser intransigentes ao levar isto até ao fim”, avalia. As aulas nos diversos níveis de ensino continuam paradas até hoje.

"Isto foi uma tempestade perfeita de insatisfação, que estava latente há muito tempo e que parece tornar-se maior e maior à medida que o governo se torna menos e menos democrático."
Nikola Burazer, analista no think tank sérvio Centro para Política Contemporânea

Apesar da escala, estes protestos estão longe de ser os primeiros a que a Sérvia assiste na última década. A cronologia coincide com a chegada ao poder de Vučić, como primeiro-ministro em 2014 e agora como Presidente, cargo que ocupa desde 2017. Sob a liderança de Vučić, multiplicaram-se as acusações de corrupção, pressão sobre os media e ausência de eleições livres.

A questão da corrupção está diretamente ligada com a queda do telhado na estação de Novi Sad, que esteve em obras em 2021 e novamente em 2024. O Ministério Público sérvio abriu uma investigação ao acidente que levou à detenção de treze pessoas, sob acusações de terem posto em risco a segurança pública. Entre elas estava o ministro da Construção, que apresentou a demissão mas acabou por ser libertado, o que levantou questões sobre a independência da investigação.

No que toca à liberdade de imprensa, a organização Repórteres sem Fronteiras denunciou que a pressão do governo sobre os media atingiu níveis que não eram vistos desde a transição democrática. Já em 2019 a organização Freedom House classificava a Sérvia como “um regime híbrido parcialmente livre” e não uma democracia. Há mais de um ano, os protestos já se tinham multiplicado no país, convocados pelos partidos da oposição, depois das conclusões de observadores internacionais de que as eleições legislativas e municipais tinham tido “irregularidades”.

“Isto foi uma tempestade perfeita de insatisfação, que estava latente há muito tempo e que parece tornar-se maior e maior à medida que o governo se torna menos e menos democrático”, resume o analista Nikola Burazer.

epa11865649 Serbian President Aleksandar Vucic speaks at a joint press conference with Italian Foreign Minister Antonio Tajani (not seen) in Belgrade, Serbia, 31 January 2025. Italian Foreign Minister Tajani, who is on an official visit to Serbia, opened the business forum aimed at strengthening economic ties between two countries.  EPA/ANDREJ CUKIC

▲ Vučić foi primeiro-ministro entre 2014 e 2017 e é Presidente desde essa data

ANDREJ CUKIC/EPA

Os protestos a que o país assiste agora são, portanto, apenas mais uma onda nas manifestações que têm assolado a Sérvia durante os últimos anos. No entanto, diferenciam-se por dois motivos: por um lado, pelo “poder simbólico” dos estudantes. Por outro, os manifestantes estão a mostrar-se pacientes na concretização das suas reivindicações. “As pessoas aperceberam-se que isto vai demorar tempo e estão a dar um passo de cada vez”, argumenta Nebojša Vladisavljević, professor de Ciência Política na Universidade de Belgrado.

A violência contra manifestantes e as exigências estudantis. O regime pode cair?

Apesar da violência que testemunhou no primeiro protesto em que participou, Ana tem sido presença assídua nas manifestações. No dia 15 de março, participou na maior demonstração até à data: estima-se que 300 mil pessoas tenham saído à rua em Belgrado, vindas de todo o país. Mas o protesto inédito acabaria marcado por um incidente específico. “Estávamos concentrados junto à praça principal, em silêncio. De repente, algumas pessoas começam a gritar. Achámos que seria uma provocação e continuámos em silêncio, mas os gritos continuaram”, descreve Ana sobre esse momento.

No momento, Ana não soube o que se estava a passar. As linhas telefónicas estavam em baixo e o medo tomou conta das pessoas naquele local, junto à praça principal da capital, relembra. Com medo, a multidão começou a dispersar, mas os transportes também não estavam a funcionar. Ana teve de regressar a pé e só chegou a casa às duas da manhã, depois de várias horas a caminhar. A confusão só seria explicada na manhã seguinte, quando conseguiu contactar amigas que tinham estado noutra zona da manifestação: a polícia tinha usado armas sónicas contra os manifestantes.

“Uma amiga minha teve de ir para o hospital porque estava com uma dor de cabeça e de ouvidos. Disseram-lhe que tinha ficado com o ouvido danificado. Outra teve de ir ao hospital por causa de um problema de coração“, elenca. Às descrições das amigas juntaram-se os relatos, as imagens e os vídeos partilhados por outros conhecidos.

GettyImages-2204714512

▲ 300 mil pessoas reuniram-se em Belgrado, a maior manifestação na História da região

AFP via Getty Images

Para Nikola Burazer, o porquê de a arma ter sido utilizada é ainda mais relevante do que o simples facto de ter sido utilizada. “Foi utilizada para provocar caos, para que a polícia pudesse intervir, deter pessoas e instalar o medo em toda a população, se calhar declarar mesmo estado de emergência”, avalia o analista. A interpretação de que Vučić está a escalar a situação contra os estudantes para poder justificar uma intervenção estatal pela força é comum.

A escalada do regime está a ser feita de duas formas. Por um lado, através de “propaganda” contra os estudantes, acusando-os de serem mobilizados por interesses estrangeiros. Por outro lado — e de forma mais direta –, “patrocinando” ataques aos manifestantes pacíficos. Esta forma de violência começou no dia 22 de novembro, quando membros do Partido atacaram os estudantes da Faculdade de Artes Dramáticas, mas repetiu-se múltiplas vezes ao longo dos últimos quase cinco meses de protestos.

Em pelo menos quatro ocasiões, carros avançaram contra as multidões que bloqueavam as estradas durante os 15 minutos de protesto silencioso. Uma dessas vezes, no dia 13 de dezembro, o condutor era um agente da polícia, que foi detido. Os relatos de ataques contra estudantes, perpetrados por alegados membros e simpatizantes do SNS, multiplicaram-se.

Mas só a 28 de janeiro é que estes relatos tiveram consequências políticas. Na madrugada do dia 27 para 28, estudantes que estavam a fazer grafitis em frente à sede do SNS em Novi Sad foram atacados por funcionários que se encontravam no edifício — uma das jovens teve de ser internada na sequência do ataque. O primeiro-ministro e líder do Partido, Miloš Vučević, assumiu a responsabilidade e apresentou a demissão. Ainda assim, justificou que os funcionários estavam apenas a defender o edifício.

"Uma amiga minha teve de ir para o hospital porque estava com uma dor de cabeça e de ouvidos. Disseram-lhe que tinha ficado com o ouvido danificado. Outra teve de ir ao hospital por causa de um problema de coração."
'Ana', participante na manifestação do dia 15 de março em Belgrado

A demissão não foi formalizada até à retoma dos trabalhos do Parlamento, no início deste mês. A partir dessa data, um novo executivo deverá ser formado num prazo de 30 dias. Caso o prazo não seja cumprido, o Presidente Vučić já admitiu dissolver a Assembleia e avançar com eleições legislativas antes do verão, menos de um ano e meio depois da última ida às urnas.

Os ataques frequentes aos manifestantes, atribuídos pelos mesmos e pelos media locais ao regime, fizeram aumentar a lista de reivindicações. Neste momento, os estudantes têm quatro exigências: a publicação de todos os documentos sobre as obras na estação de Novi Sad, a identificação e acusação das pessoas que atacaram manifestantes (e a sua posterior demissão se for confirmado que ocupam cargos públicos), o fim das acusações contra manifestantes detidos e um aumento no orçamento para o Ensino Superior.

Apesar do crescimento das reivindicações, os estudantes continuam sem exigir medidas políticas estruturais e concretas, como a demissão do governo ou a convocação de novas eleições livres. Mas a utilização de uma arma sónica, no dia 15 de março, mobilizou quase todos os partidos da oposição — exceção feita ao DS (Partido democrata) e ao Ekološkog ustanka (Partido ecologista) — para apresentarem uma solução para a crise política que o país vive.

A proposta inclui a formação de um governo interino — o Governo da Confiança das Pessoas –, cujos membros devem ser indicados pelos partidos da oposição, grupos da sociedade civil e pelas universidades, que depois deve tratar de organizar eleições livres. Mas a solução ainda não teve respostas positivas. O regime criticou a medida e os estudantes mantiveram-se em silêncio.

O clima de instabilidade política que a Sérvia vive pode ser comparado com o final da década de 1990, onde protestos populares culminaram com a deposição do Presidente Slobodan Milošević, considera Nebojša Vladisavljević. Mas o professor de Ciência Política assume que é impossível fazer previsões sobre o fim da atual crise política: ainda que a crise interna seja comparável, o enquadramento internacional é totalmente diferente.

epa11967007 Riot police officers set up positions during the student-led rally in Belgrade, Serbia, 15 March 2025. University students staged a protest, demanding accountability after fifteen people lost their lives in the collapse of the Novi Sad Railway Station canopy in November 2024. The station building, which had been renovated and reopened in July 2024, was undergoing further renovations shortly before the collapse.  EPA/ANDREJ CUKIC

▲ Manifestantes têm denunciado violência por parte das autoridades e de membros do Partido

ANDREJ CUKIC/EPA

O silêncio de Bruxelas, o sentimento de abandono e o crescimento do euroceticismo

No dia 29 de abril de 1999, os edifícios do Ministério da Defesa da Jugoslávia, em Belgrado, foram bombardeados por aviões da NATO. Os bombardeamentos repetiram-se nos dias seguintes, no âmbito da intervenção da Aliança Atlântica na guerra do Kosovo. Os edifícios ficaram destruídos e assim permanecem.

Esta segunda-feira, milhares de sérvios saíram às ruas para lembrar as vítimas sérvias da campanha da NATO e exigir que os edifícios permaneçam como um memorial, depois de o complexo ter sido arrendado a Jared Kushner, genro de Donald Trump, para ser reconstruído como um hotel de luxo e uma zona comercial.

Este protesto e a história do local ilustram a mudança de contexto internacional que o professor Vladisavljević faz questão de sublinhar. Em 1999, os crimes de guerra perpetrados por Milošević tiveram uma dura resposta internacional: sanções impostas pelos Estados Unidos, União Europeia e Nações Unidas e uma campanha militar pela mão da NATO. Agora, face às acusações de eleições irregulares e violência policial contra manifestantes, EUA e UE não assumiram qualquer posição de condenação.

O silêncio da UE é particularmente gritante, consideram os especialistas sérvios ouvidos pelo Observador, dado que o país iniciou há mais de uma década o processo de adesão à comunidade europeia. “A UE desenvolveu uma relação muito estranha com Vučić“, afirma Engjellushe Morina. “Os responsáveis da UE parecem acreditar que ele pode levar a Sérvia para a UE, ao mesmo tempo que joga com atores contrários aos valores [europeus], como a Rússia ou até a Hungria”, elabora a analista dos Balcãs no European Council on Foreign Relations.

"Temos o nível mais baixo de apoio à adesão à UE desde que a Sérvia se tornou candidata. Esta é uma mensagem crucial que a UE deve levar a sério."
Ivana Radić Milosavljević, professora de Estudos Europeus na Universidade de Belgrado

Esta terça-feira, essa exata crença foi declarada pela presidente da Comissão Europeia, depois de um jantar de trabalho com Vučić e o Presidente do Conselho Europeu. Apesar de ter apelado a reformas eleitorais, garantias de liberdade de imprensa e luta contra a corrupção, Ursula von der Leyen garantiu que “o futuro da Sérvia é na UE”.

Paralelamente, a proximidade entre Vučić e o Presidente russo Vladimir Putin é bastante visível. Putin expressou apoio ao seu homólogo sérvio, ambos mantém contacto regular e utilizam a mesma expressão para se referirem aos protestos: “revolução colorida“, um termo utilizado para classificar as revolução pacíficas dos Estados pós-soviéticos que tinham como objetivo instaurar democracias ocidentais, como a revolução rosa na Geórgia (2003) e a laranja na Ucrânia (2004).

Nebojša Vladisavljević apresenta várias possíveis justificações para a posição de Bruxelas. Uma visão, mais crítica, acusa a UE de apoiar regimes autocráticos de forma consciente em troca da manutenção de interesses económicos, como a exploração das minas de lítio no oeste do país, um mineral “muito importante para a indústria automóvel europeia”, ou a venda de equipamento militar a Belgrado. Outra visão foca-se no facto de os Balcãs ainda serem vistos à escala continental como “uma região pós-conflito”, propícia à instabilidade política. Neste contexto, poderá ser útil à comunidade europeia “tolerar” um “pulso forte” que mantenha a instabilidade contida internamente em vez de permitir que alastre a toda a região.

Independentemente da justificação oficial de Bruxelas para esta posição, as críticas dos especialistas sérvios são unânimes: a indiferença europeia à situação vai contra os valores democráticos do primado do Direito e da defesa dos Direitos Humanos que erguem como bandeira. Essa indiferença criou um sentimento de desilusão e abandono entre os sérvios, que defendem a integração europeia. Paradoxalmente, isso está a levar a um aumento do euroceticismo.

epa11965648 Protesters wave Serbian flags during the student-led rally in Belgrade, Serbia, 15 March 2025.  University students staged a protest, demanding accountability after fifteen people lost their lives in the collapse of the Novi Sad Railway Station canopy in November 2024. The station building, which had been renovated and reopened in July 2024, was undergoing further renovations shortly before the collapse.  EPA/ANDREJ CUKIC

▲ A ausência de bandeiras europeias é um sinal do crescente euroceticismo no país

ANDREJ CUKIC/EPA

“Temos o nível mais baixo de apoio à adesão à UE desde que a Sérvia se tornou candidata”, descreve Ivana Radić Milosavljević, professora de Estudos Europeus, na Universidade de Belgrado, notando que esse sentimento é visível nos protestos, na ausência quase total de bandeira da UE. “Esta é uma mensagem crucial que a UE deve levar a sério”, declara.

As “coisas boas”: solidariedade, mudança social e novas formas de organização política

Nos últimos dias de janeiro, centenas de alunos percorreram os 100 quilómetros entre Belgrado e Novi Sad para assinalar os três meses do acidente na estação de comboios na cidade em conjunto. O momento repetiu-se, na direção inversa, para a manifestação do dia 15 de março na capital. Apesar da crise política e dos protestos sem fim à vista, Ana faz questão de partilhar que “há muitas coisas boas“.

As marchas têm uma utilidade política, a de descentralizar os protestos dos centros urbanos e universitários e chegar a centenas de localidades no interior do país, destacam os especialistas. Ana lembra a “solidariedade” que geraram: “Os estudantes dormiam no campo, quando os locais onde iam dormir eram trancados por responsáveis do partido. Dormiam em sacos cama ao ar livre”, descreve. Mas o facto de terem ido ao encontro destas populações “emocionou-as” e muitos abriram as portas de casa para dar abrigo aos estudantes.

Para Ana, estas marchas foram o maior exemplo de solidariedade. Mas os sentimentos também estão refletidos no dia a dia das faculdades ocupadas. Quando o governo retirou na totalidade os salários aos professores em protesto, criaram-se angariações de fundos para ajudar as suas famílias. Os acampamentos estudantis mantêm uma página online das necessidades urgentes de cada faculdade. Depois dos ataques com carros, os bloqueios às estradas passaram a contar com a proteção de motards e agricultores com tratores, que protegem os manifestantes. “Sente-se muito amor entre toda a gente. Muito mais do que medo. Acho que não há medo nenhum”, declara Ana. O medo só dominou no dia 15, por causa da confusão, explica.

"[Os estudantes] trouxeram uma mudança social ao encorajar os cidadãos da Sérvia a levantarem as suas vozes. É inevitável que leve a uma mudança política. É difícil imaginar um regresso à antiga forma de fazer política na Sérvia."
Ivana Radić Milosavljević, professora de Estudos Europeus na Universidade de Belgrado

Os especialistas reconhecem a dimensão emocional dos protestos, mas apontam que a organização espontânea dos estudantes também tem uma vertente política. Nas redes sociais de uma página de estudantes de várias faculdades, é possível ler que todas as decisões são tomadas de forma coletiva e que nenhum estudante fala acima dos outros: esta forma de organização distancia-os dos partidos políticos clássicos.

Ora, num sistema em que as eleições se mostraram “irregulares”, muita gente passou a ver o voto como “um instrumento quase insignificante para a mudança de poder”, atira Nikola Burazer. Mas esta opinião não é unânime e a leitura de que Vučić e o SNS só podem ser derrotados nas urnas também existe. O passo seguinte é a tradução destes protestos inéditos em políticas concretas.

Com o país num ponto decisivo, os especialistas não arriscam fazer previsões sobre o impacto a longo prazo da atual situação do país. Na visão mais positiva, os protestos podem ter aberto a porta à democracia e à integração europeia. Na visão mais negativa, o governo pode tomar o dia 15 de março como exemplo e aumentar a pressão sobre os opositores e os críticos, mergulhando o país numa verdadeira autocracia.

A professora Ivana Radić Milosavljević prefere focar-se na realidade imediata e naquilo que já foi alcançado até aqui. “Eles trouxeram uma mudança social ao encorajar os cidadãos da Sérvia a levantarem as suas vozes. É inevitável que leve a uma mudança política. É difícil imaginar um regresso à antiga forma de fazer política na Sérvia”, remata.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.