Denunciou uma “campanha organizada” para atacar António José Seguro, o protocandidato que apoia para a Presidência da República, e pede “civilidade” ao PS na discussão presidencial. Alinha com Pedro Nuno Santos, defende que será “importante” e “desejável” que avance apenas um candidato, mas não retira o seu apoio a António José Seguro — mesmo quando é o próprio líder a socialista a (quase) sugerir que António Vitorino deve receber o apoio do partido.
Em entrevista ao Observador, no programa “Vichyssoise”, Francisco Assis deixa elogios rasgados à “excelente” escolha de Alexandra Leitão como candidata à Câmara de Lisboa, mesmo assumindo que Pedro Nuno Santos será “sempre responsabilizado” pelas opções que tome.
Assis tenta ainda explicar a nova abordagem de Pedro Nuno Santos em matéria de imigração, que tanta controvérsia está a causar no interior do PS. O eurodeputado reconhece que há uma “evolução” na opinião do líder do partido mas tenta assumir uma posição conciliatória, dizendo que todo o partido está de acordo no essencial.
Para já, não há arrependimentos quanto à decisão de ter apoiado Pedro Nuno Santos nas últimas eleições internas do PS. Mas Francisco Assis reserva-se o direito de mudar de opinião no futuro: “Tenho sempre esta preocupação racional de fazer a avaliação em cada momento”.
[Ouça aqui a Vichyssoise com Francisco Assis]
“Ataques a Seguro serão ecos de rivalidades antigas”
Esta semana denunciou a existência de uma campanha organizada para impedir a candidatura presidencial de António José Seguro. Essa campanha está a ser organizada exatamente por quem?
Não quero entrar agora em pormenores sobre a natureza dessa campanha. Perante várias declarações em relação à figura de António José Seguro…
De Augusto Silva, por exemplo.
A declaração de Augusto Santos Silva suscitou a minha tomada de posição. Mas tinha havido já outras considerações. Pareceu-me que havia claramente um propósito de pôr em causa a legitimidade desta candidatura. É legítimo as pessoas no PS não concordarem com a candidatura de António José Seguro e não gostarem dele. Mas tem de haver algum rigor e civilidade, alguma elevação no debate político, e no debate político intrapartidário em particular. Parece que as coisas acalmaram.
Mas como é que se explicam os ataques que foram dirigidos a António José Seguro? São reflexos de rivalidades antigas? São setores ligados a António Costa? À atual direção?
Provavelmente serão ainda ecos de rivalidades antigas e completamente ultrapassadas. António José Seguro esteve quase dez anos em silêncio. Esse silêncio é compreensível e até respeitável. Ele ganhou as duas eleições que travou enquanto líder. Nas europeias o PS ficou à frente da Aliança Democrática, numa altura em que surgiu um movimento liderado por Marinho Pinto, o que concorreu para que o PS não tivesse o resultado que aspiraria a ter. Isso foi aproveitado, legítima ou ilegitimamente, e iniciou-se um processo no PS tendo em vista o seu afastamento. Saiu com dignidade e esteve em silêncio. Agora decidiu voltar à vida política mais ativa e deixou claro qual era a sua relação com o passado, dizendo que não regressava com a intenção de pôr em causa fosse o que fosse, que tudo eram águas passadas.
António Vitorino parece ser o favorito da atual direção do PS. Tem mais argumentos eleitorais do que António José Seguro? É melhor candidato?
A figura que estará em melhores condições é o António José Seguro. Isso não significa que não tenha apreço e um profundo respeito e consideração pelo António Vitorino. Estou a fazer uma avaliação política da situação. Entendo que António José Seguro, neste momento, pelo que representa, pela forma como se foi posicionando na vida pública, tem condições para representar adequadamente a esquerda democrática nas eleições. Mas é óbvio que não é a única pessoa que tem condições para isso. António Vitorino também tem todas as condições para ser o candidato do PS.
Mas não é sensível àquele argumento que o líder do PS já deu de que era importante ter um candidato com experiência internacional? Isso parece apontar, evidentemente, para António Vitorino.
Não sou sensível porque não considero isso uma condição fundamental. Nem de longe, nem de perto.
Acha que isso já está a condicionar os candidatos?
Se quisermos ler milimetricamente as declarações que uns e outros vão fazendo somos levados a admitir que estamos sempre num processo de condicionamento de uns aos outros.
Mas estas declarações são do líder do PS.
Pedro Nuno Santos verá alguma vantagem nisso, mas com certeza que não estabelece esse como um critério fundamental e decisivo para a apreciação do mérito de uma candidatura à Presidência da República. Nem tal faria qualquer sentido. O candidato deve ser alguém que tenha determinadas condições que são preenchidas por várias personalidades no interior do PS ou até fora do PS. Pessoalmente, considerei que neste momento concreto da vida pública nacional, Seguro é, no campo da esquerda democrática, a personalidade que está em melhores condições. Isso não significa que esteja a desqualificar outras personalidades.
“É importante que apareça só uma candidatura na esquerda democrática”
Concorda com o Pedro Nuno Santos quando diz que era importante haver apenas um candidato da área socialista nas presidenciais?
Isso parece-me evidentemente importante. Vamos ter fragmentação na disputa eleitoral e aparentemente vai haver mesmo uma segunda volta. A imprevisibilidade aumenta. Nesse sentido, seria desejável que, no contexto da esquerda democrática, aparecesse apenas uma candidatura. Esperemos que isso venha a suceder.
Pedro Nuno Santos está a gerir bem este processo no sentido de conseguir que seja apenas uma candidatura? Tem sido muito criticado até por algumas figuras do universo socialista.
Essas críticas parecem muito injustas, porque isso não depende fundamentalmente do secretário-geral do PS. Estamos a falar de um órgão unipessoal. O secretário-geral não pode impedir ninguém de se apresentar como candidato. Não é o tempo ainda da decisão do PS, é o tempo de afirmação de eventuais candidaturas. Um candidato não pode ser uma emanação pura de um partido político. Isso seria mau. Contraria a essência da função presidencial. E, por outro lado, teria até consequências negativas do ponto de vista eleitoral, porque restringiria muito o campo de apoio do candidato.
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Admite algum cenário em que António José Seguro desista a favor de outro nome, como por exemplo António Vitorino?
Não tenho de fazer nenhuma antecipação do que vai acontecer nesse domínio, nem considerar que vão desistir outros protocandidatos ou que vai desistir o protocandidato António José Seguro. Estamos numa fase ainda incipiente do processo. Não sabemos verdadeiramente quem é que está disponível para se apresentar como candidato. Há um longo caminho ainda a percorrer e temos de aguardar com tranquilidade. Sobretudo, com respeito uns pelos outros. Parece-me fundamental que neste processo haja grande elevação, que se resista à tentação do ataque baixo e mesquinho.
“Alexandra Leitão tem todas as características para ser uma grande presidente da Câmara”
Pedro Nuno Santos tem apoiado as suas escolhas eleitorais em muitos estudos e sondagens. Acha que há uma atenção excessiva a estes instrumentos?
Não sei se esse é o critério determinante. As sondagens são apenas um instrumento, entre outros, que podem e devem ser utilizados. Se verificar que há alguém a quem reconhecemos uma qualidade excecional, mas que manifestamente na sondagem está muito mal posicionado, não devemos optar por essa pessoa, até por respeito da própria, que se estaria a envolver numa disputa política em que estaria aparentemente condenada ao fracasso. Mas é apenas um instrumento.
Sobre a eleição em Lisboa, havia duas possíveis candidatas, Alexandra Leitão e Mariana Vieira da Silva. Pedro Nuno Santos preferiu a primeira, em detrimento de uma figura, que é a Mariana Vieira da Silva, que é mais próxima de outra ala do partido. Se as coisas não correrem bem em Lisboa, Pedro Nuno Santos deve ser responsabilizado politicamente?
O secretário-geral do PS está sempre a ser responsabilizado politicamente por qualquer opção que tome. Agora, o que temos também é de avaliar o que significa ser responsabilizado politicamente por um determinado resultado.
Mas acha que houve uma vontade de promover uma candidatura de Alexandra Leitão com o princípio de agradar mais à esquerda em Lisboa?
Não sei os motivos concretos que levaram a essa escolha, mas acho-a excelente. Alexandra Leitão é uma pessoa de uma grande inteligência, combatividade, capacidade de trabalho, que tem dado provas no desempenho das várias funções. Nem sempre estou de acordo com as posições de Alexandra Leitão – ela manifestamente será uma pessoa um pouco mais à esquerda do que eu. Mas é uma pessoa com grande qualidade e que tem todas as características para ser uma grande presidente da Câmara de Lisboa. Lisboa é uma cidade que precisa de uma presidente com abertura mental, com capacidade para interpretar as grandes questões do nosso tempo, as necessidades de uma grande cidade e uma grande capital cosmopolita, aberta ao mundo. Mariana Vieira da Silva também seria boa candidata.
“Há uma evolução na posição de Pedro Nuno sobre a imigração”
Nesta entrevista de Pedro Nuno Santos ao Expresso, o secretário-geral do PS parece realinhar a posição do partido na questão da imigração. Falou na necessidade de os imigrantes respeitarem a “cultura, os valores, o modo de vida” do país que os acolhe. Este discurso é idêntico ao de André Ventura. Não é aqui uma tentativa de ocupar o espaço onde o Chega se instalou?
Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Primeira questão: não podemos permitir que o tema da imigração seja um tema apropriado indevidamente pela extrema-direita. O tema deve ser objeto de uma discussão política séria, em Portugal e na Europa. Segundo aspeto: não há nenhuma identificação entre esta posição e as posições da extrema-direita. A posição da extrema-direita é muito simples: é uma rejeição total da imigração.
Mas há uma mudança de posição.
Antes, deixem-me concluir. A posição da extrema-direita assenta na tentativa demagógica e criminosa de identificar a imigração com a dissolução de uma identidade nacional ou com o aumento da criminalidade. É uma visão absolutamente contrária que visa fazer dos imigrantes um bode expiatório. É uma visão anti-humanista e absolutamente contrária aos princípios fundamentais.
Em relação à entrevista de Pedro Nuno Santos…
Há evidentemente alguma evolução numa ou outra coisa. Mas, no essencial, diz algumas coisas que me parecem absolutamente claras e em relação às quais estou totalmente de acordo. Primeiro, é a favor da imigração, é a favor de uma regulação do processo migratório, como acontece aliás em todos os países do mundo. É a favor da criação de condições para que os imigrantes que procuram o nosso país tenham dignidade.
Mas agora já vem criticar, por exemplo, o instrumento da manifestação de interesse, que diz que pode ter tido um “efeito de chamada” de imigrantes.
Exatamente e é por isso é que quero fazer a distinção entre o essencial e o instrumental…
Consegue perceber esta mudança?
No essencial, estamos, no Partido Socialista, de acordo. Mas há aqui uma mudança de posição, de facto, na manifestação de interesse. Esse instrumento justificou-se plenamente na altura em que foi adotado. Estávamos perante uma situação em que tínhamos que fazer, de tempos a tempos, um processo excepcional de regularização de imigrantes, porquanto a legislação era muito rígida e o número de imigrantes estava a aumentar muito e havia necessidade de recorrer a esse instrumento. Neste momento, não estou em condições de responder se tem ou não tem sentido mantê-lo. Compreendo as vantagens e as desvantagens do mesmo. Elas devem ser ponderadas.
O PS não fica agora aqui a meio caminho?
Não me parece que fique a meio caminho. Aqui há vários caminhos, não há meios caminhos. Há alguns que são totalmente inaceitáveis e há outros que são discutíveis e as coisas podem ser moduladas de acordo com a situação em que estamos. Estive quase quatro anos a presidir ao Conselho Económico e Social (CES) e, nesse período de tempo, reunia-me quase de 15 em 15 dias com os responsáveis pelas grandes confederações empresariais do país. E o que havia era uma grande preocupação com a falta de mão de obra, uma necessidade imperiosa de termos mais imigrantes em Portugal. Houve uma retoma da economia muito rápida, houve um aumento das necessidades e o número de imigrantes em Portugal aumentou. Aumentou drasticamente. E o país não se preparou. Como provavelmente nenhum país se preparou num período de tempo tão curto.
E isso é que justifica esta mudança de posição de Pedro Nuno Santos.
Não vejo aqui tanto uma mudança de posição. O que quero reiterar é que aquilo que Pedro Nuno Santos disse são as preocupações do PS e, irei mais longe, serão as preocupações do PSD. Não sou daqueles que procuram, e até evito isso, permanentemente estar a estabelecer uma identificação entre o PSD e o PSD. Entre o nós e o eles.
“Não estou nada arrependido de ter apoiado Pedro Nuno”
Com o que sabe hoje, voltaria a apoiar Pedro Nuno Santos? Voltará a fazê-lo no futuro quando ele for a votos?
No plano nacional? Com certeza que estarei ao lado dele.
No plano interno.
No plano interno, em princípio, não vejo nenhuma razão para não o fazer. Mas tenho sempre esta preocupação racional de fazer a avaliação em cada momento.
Não está nada arrependido?
Não, não estou nada arrependido. No essencial, tem correspondido às minhas expectativas. Julgo que tem conduzido bem o Partido Socialista. Espero que tenham um excelente resultado nas eleições autárquicas, que acabemos por nos entender e que tenhamos um grande candidato à Presidência da República, que, como sabem, entendo que deve ser António José Seguro. E que depois o PS esteja em condições de ganhar as eleições legislativas.
“Faria um bom combate de boxe com Augusto Santos Silva”
Vamos agora entrar no bloco “Carne ou Peixe”, onde só pode escolher uma de duas opções. Com quem é que preferia praticar boxe: Augusto Santos Silva ou aquele apoiante de Fátima Felgueiras que há uns anos lhe pediu os óculos emprestados com alguma violência?
O boxe, devidamente tratado, é um desporto que impõe uma certa elevação. E acho que faria um bom combate de boxe com Augusto Santos Silva.
A quem ofereceria um cão como animal de estimação: A Pedro Nuno de Santos ou a Fernando Medina?
Sou amigo dos dois, gosto de cães. Talvez oferecesse um cão a Fernando Medina. Para não haver a suspeita de estar a querer agradar ao líder do partido.
Sabemos que é um leitor compulsivo. A quem é que oferecia um livro? A Luís Montenegro ou a Gouveia e Melo?
Só poderia oferecer a Luís Montenegro. Conheço-o há muitos anos e até me considero amigo dele. Não conheço o Almirante Gouveia e Melo.
Tem alguma ideia de que livro é que gostava de oferecer a Montenegro?
Normalmente ofereço literatura. Ofereço romances, ofereço poesia… Provavelmente ofereceria um romance.
A quem é que entregaria a sua mala de viagens de olhos fechados: a André Ventura ou a Mariana Mortágua?
Entregaria a Mariana Mortágua. Não porque tenha dúvidas em relação à seriedade pessoal de quem quer que seja, mas porque me sinto muito mais próximo do ponto de vista da representação do mundo de Mariana Mortágua do que de André Ventura.