Muita inteligência artificial (IA) e uniformização visual em todos os produtos da Apple. É assim que se pode resumir a apresentação que marca o arranque da conferência anual de programadores da Apple, a WWDC.
Se os analistas e programadores já anteviam uma apresentação tépida, Tim Cook, CEO da Apple, e Craig Federighi, responsável pela engenharia de software, entregaram um rol de funcionalidades de IA que permite abordar o “elefante na sala nesta WWDC” e acompanhar o que já está a ser feito por concorrentes como a Google e a OpenAI, mas sem se atirarem para fora de pé, considera Ben Wood, da consultora CCS Insight. “A Apple tem sublinhado que a sua estratégia de IA é a correta para a empresa, mas o crescimento espetacular do ChatGPT e o foco incansável da Google no Gemini, em particular nos telefones Android, começa a contrastar profundamente com a abordagem cautelosa e incremental da Apple”, nota o analista-chefe da consultora.
Ao longo de quase uma hora e meia, a Apple dividiu a apresentação desta segunda-feira em três grandes eixos. No primeiro, apostou numa mudança de design que vai afetar todas as plataformas — o iPhone, Mac, iPad, Apple Watch, Apple TV e até nos Vision Pro, os óculos de realidade mista. No segundo campo, outra uniformização, apostando numa nova forma de numerar as atualizações, que segue o ano civil — as próximas atualizações dos sistemas operativos vão todas terminar em 26, para refletir o ano de 2026. Por fim, uma aposta contínua no desenvolvimento e inclusão de ferramentas de IA, a Apple Intelligence, em todos os equipamentos.
Desde tradução em tempo real até novas formas de pesquisar com a câmara, a Apple apostou em IA mas não se atirou para fora de pé ou fez promessas de funcionalidades complexas que necessitem de muito trabalho (e aprovações regulatórias) para chegar ao mercado. Dan Ives, analista da Wedbush, resume a questão num comentário após o evento: a Apple “está a jogar pelo seguro após os passos em falso do ano passado”, recordando, por exemplo, as dificuldades em fazer chegar a Apple Intelligence à Europa.
“O evento deste ano não foi sobre inovação disruptiva, mas sim sobre um cuidadoso calibrar, um refinar das plataformas e capacitação dos programadores”, explica Francisco Jerónimo, vice-presidente EMEA para a área de dispositivos da consultora IDC, em comentários escritos enviados ao Observador. Jerónimo, que está na Califórnia a acompanhar a WWDC, considera que a empresa “está a posicionar-se para movimentos futuros em vez de revelar tecnologias que representem uma mudança de jogo”.
Uma interface marcada por Liquid Glass para uniformizar as plataformas
Na mudança dos nomes das atualizações de software, só o Mac é que escapa a um 26 no nome, já que a próxima versão vai ter o nome Tahoe. A acompanhar esta alteração de designação, chega uma mudança de design na interface dos equipamentos Apple, com uma estética chamada Liquid Glass. “Pela primeira vez vamos ter um design universal nas nossas plataformas”, explicou, durante a apresentação, Alan Dye, o executivo da Apple responsável pela interface visual.
A ideia é que os menus se tornem mais translúcidos, quase como se fossem vidro. No iPhone, o ecrã de bloqueio vai adaptar-se ao espaço disponível. Por exemplo, se não tiver notificações, o relógio vai ser maior; à medida que forem entrando alertas, diminuirá automaticamente para garantir que o destaque da foto se mantém.
Alguns exemplos da alteração de design. À direita, o modo transparente dos ícones das aplicações
Esta nova alteração também traz um modo transparente para os ícones (além do modo branco e negro) e, com o Liquid Glass, a transparência gerará menos distrações na navegação e nos controlos dos equipamentos. Por exemplo, no Mac, com esta nova interface vai ser criada uma barra de menus transparente no topo do ecrã. O que, segundo a Apple, fará com que o ecrã do computador pareça maior.
Francisco Jerónimo, da IDC, considera que a alteração “é mais do que cosmética”, já que a uniformização entre produtos, “com uma estética que dá ênfase à luz, transparência e profundidade é profundamente influenciada pela interface de utilizador do visionOS”, o sistema operativo que faz funcionar o headset de realidade mista da Apple. Ou seja, “aproxima os ambientes mobile, desktop e realidade aumentada da Apple”. Do ponto de vista estratégico, nota, será uma forma de a Apple “preservar a lealdade ao ecossistema e estimular atualizações de hardware”.
Ben Wood, da consultora britânica CCS Insight, também explora a ideia de consistência entre produtos. “Faz sentido tendo em conta o número crescente de consumidores que têm mais do que um produto da Apple”, explica em comentários enviados ao Observador. Nos EUA e no Reino Unido, “68% dos donos de um iPhone têm pelo menos mais outro equipamento da Apple e 31% tinham pelo menos dois produtos da Apple”.
Outra nota desta uniformização acontece no iPad, cuja atualização de software vai acrescentar uma funcionalidade que, segundo Craig Federighi, já era um pedido antigo dos utilizadores: as “velhas” janelas. Será uma experiência que deixará o tablet mais próximo do irmão mais velho Mac, especialmente se o dispositivo for usado associado a um teclado. Além de janelas, que podem ser deslocadas no ecrã arrastando-as para o canto — como acontece no Windows, da Microsoft — ficou o apelo à produtividade. O iPad também vai ganhar uma barra de menu no topo do ecrã, transparente, para acompanhar o Liquid Glass.
A transparência é uma das marcas desta alteração de design, como neste menu
Ainda no software, o Spotlight, a forma de pesquisar ficheiros ou funcionalidades no Mac, vai ganhar mais poderes. Com esta alteração, o utilizador pode ir ao detalhe em menos cliques: basta indicar ao Spotlight que quer enviar uma mensagem a alguém, especificando o contacto e o tema. Ou para encontrar um documento. O Spotlight pode ser usado não apenas para abrir o ficheiro mas também, e sem sair da janela, pode ser acionado para adicionar um gráfico ou ajustar a formatação do documento.
Os programadores vão ter acesso já esta segunda-feira aos kits para perceberem como podem adaptar as respetivas aplicações e serviços às alterações anunciadas pela Apple. A versão beta das atualizações de software chegará em julho e, só no outono, é que os utilizadores em geral vão ter acesso a estas novas funcionalidades.
Inteligência artificial a fazer quase tudo, de traduções em tempo real até filtrar chamadas
Toda a apresentação da Apple na WWDC do ano passado foi centrada num conjunto de ferramentas chamado Apple Intelligence. Na versão deste ano, a aposta continua, mas com algumas atualizações “incrementais”, notam os analistas.
Há uma aposta forte na tradução em tempo real, mais integrada nas chamadas de voz, no FaceTime e também nas mensagens. Num dos exemplos, a Apple mostrou uma chamada de FaceTime em que uma das pessoas fala francês mas quem está do outro lado recebe a tradução em tempo real com legendas no topo do ecrã na língua escolhida.
Um exemplo da tradução em tempo real durante uma chamada no FaceTime
Mas não é a única novidade do que a IA vai conseguir fazer no iPhone. A funcionalidade “Call Screening” vai enviar alertas quando recebe uma chamada de um número que não tem guardado ou não está associado a qualquer contacto, podendo ser spam ou telemarketing. E, quando receber uma chamada de um número desconhecido, será a Apple Intelligence a atender, antes do utilizador, para pedir algumas informações a quem está do outro lado da linha e apresentar um resumo. Só se passar nesta análise é que o telefone vai tocar. Em comunicado, a Apple explica que isto tira partido “da funcionalidade Live Voicemail”, que faz a transcrição do que é dito.
Também haverá um “Hold Assistant”: quando, numa chamada, está a aguardar que o atendam, a IA vai detetar a música de espera. Quando esta terminar, o utilizador recebe um alerta no telefone sabendo assim que já haverá uma pessoa do outro lado da linha.
Uma análise às letras pequenas do comunicado da Apple revela que, quando chegarem ao mercado, várias funcionalidades só vão estar disponíveis em português do Brasil. A Apple deixa ainda a ressalva de que “algumas ferramentas não vão estar disponíveis em todas as regiões, idiomas ou todos os equipamentos”.
Por exemplo, a “Call Screening”, que vai ajudar a filtrar as chamadas e a indicar ao utilizador o tema de um contacto desconhecido, só vai estar disponível em português do Brasil, cantonês, inglês, francês, alemão, japonês, coreano, mandarim e espanhol. A “Hold Assistant” também só terá português do Brasil, além de inglês, francês, espanhol, alemão, japonês e mandarim.
No entanto, fica a promessa de que “mais idiomas vão ficar disponíveis no fim do ano” para estas funcionalidades, incluindo o português europeu. Uma vez que a disponibilidade de ferramentas ao público em geral só acontece no outono, será de esperar uma lista mais detalhada de disponibilidade nessa altura.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 4.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]
Noutra área, a da Visual Intelligence, há uma atualização que permite ao iPhone identificar o que está a ver no ecrã, em capturas de imagens, por exemplo. Em linhas gerais, esta é uma funcionalidade que já permite ao utilizador usar a câmara como uma forma de pesquisa: por exemplo, se encontrar um cartaz na rua pode procurar detalhes ou adicionar imediatamente a informação ao calendário. A diferença é que, agora, vai também conseguir responder a informações sobre o que está a ver no ecrã. Se viu uns sapatos na fotografia de alguém e quer saber de que marca são ou quando custam, basta acionar a ferramenta e pesquisar, podendo escolher o Google ou até fazer perguntas através do ChatGPT (fruto da parceria entre a Apple e a OpenAI, revelada no ano passado).
Se soa familiar, é porque a Google também tem uma funcionalidade semelhante, em que já tem contexto sobre o que está no ecrã. Ben Wood, da CCS Insight, resume esta questão como a “Apple a encurtar a distância para plataformas rivais, como o Android da Google”. “Isto é uma parte do habitual jogo de gato e rato entre plataformas e notamos que a Apple regularmente tem sucesso com uma execução forte mesmo quando os seus desenvolvimentos ficam atrás das rivais.”
Google vai ter mais uma forma de pesquisar: basta desenhar um círculo à volta do que interessa
Francisco Jerónimo, da IDC, lembra que “historicamente a Apple prefere a execução à experimentação”, preferindo entrar em áreas “apenas quando consegue entregar as melhores experiências”. Ainda que reconheça que a abordagem cautelosa pode ser criticável, até quando comparada com as rivais, Jerónimo lembra que “para a maioria dos consumidores a IA continua a ser uma novidade e muitos ainda não perceberam completamente os seus benefícios”.
“A Apple precisa de se focar na grande base de utilizadores que tem e em como priorizar experiências”, explica. “No entanto, a fasquia está a subir”, até com os concorrentes a “incluírem agressivamente IA nas suas plataformas”. Mas, a defender uma teoria, o especialista da IDC aponta para um “assentar de fundações”. “O teste real chega no próximo ano. Até lá a Apple continua em modo de refinar: a tratar da arquitetura das plataformas, a alinhar as ferramentas e a esperar pelo momento certo para agir.”