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As notas dos debates. Ucrânia (e Cuba e Venezuela) derrota António Filipe no confronto com Gouveia e Melo

Fora o desejo de rápida recuperação ao homem que querem substituir no cargo, divergiram em tudo. António Filipe manteve a posição do PCP sobre a Ucrânia e Gouveia e Melo foi mais longe na lei laboral.

Seguimos ao minuto o debate neste artigo em direto

Houve um minuto de acordo, se tanto, entre António Filipe e Gouveia e Melo. Foi quando falaram da saúde de Marcelo Rebelo de Sousa. Ambos desejaram uma rápida recuperação ao homem que está no cargo a que se candidatam e ambos concordaram que não havia qualquer necessidade de uma substituição temporária, apesar da intervenção cirúrgica. A partir daí, a diferença de posições entre os dois foi absolutamente não podia ser mais oposta.

Grande parte do debate foi sobre temas internacionais, andando sobretudo (e obviamente) em redor da Ucrânia. Quase dispensando o moderador, António Filipe voltou à versão já conhecida do PCP: “São as partes que têm de se entender”; “Quem tem de chegar a acordo são eles, não vão pedir a minha opinião”; “Perderam-se oportunidades pelo caminho”; “A guerra é sempre má e a paz é sempre boa”; “É desejável que seja uma solução duradoura”; “Espero que cheguem agora a acordo, seja lá como for, mas tem de ser entre eles”. E Gouveia e Melo aproveitou para atacar: “Acho que se enganou em quem invadiu quem”; “Continua a acreditar que Zelensky é apoiado por fascistas e neonazis [“é um facto”, interrompeu o adversário] e que o grande democrata é Putin?”; “Portanto, agora temos de capitular perante o senhor Putin?”.

Alberto Carvalho ainda os tentou interromper, mas António Filipe irritou-se com Gouveia e Melo: “Se alguém está nos antípodas de Putin sou eu, não é o senhor. Defende a guerra até à morte do último ucraniano ou até à guerra nuclear?”, perguntou, continuando sem parar: “Não fui eu que disse que os jovens portugueses deviam morrer onde a NATO mandasse. Não aceito a ideia de que temos de ir morrer onde nos mandarem.” O almirante puxou da paciência, lembrou que apenas quis falar do tratado que temos com a Aliança Atlântica e que acha que “não devemos ser uma quinta coluna dos interesses fascistas da Rússia atual”. Mas depois não se ficou e falou do comunismo: disse que o candidato da CDU defende uma “ditadura do proletariado” e anda a “defender o património de Fidel Castro”, abrindo uma nova frente de discussão: “Um Presidente não pode referir-se assim a quem tem a importância que Fidel Castro teve”, lamentou-se António Filipe.

Quando finalmente se mudou de tema, ficou-se na mesma. Falou-se de Venezuela, a propósito das ameaças de uma invasão terrestre por parte de Trump, e os ânimos voltaram a aquecer. Gouveia e Melo afirmou que estávamos perante a “lei do mais forte e isso é perigoso”. António Filipe acrescentou que “o direito internacional deve ser respeitado, assim como os interesses da comunidade de portugueses na Venezuela”. Mas a palavra “democracia” aliada ao país” estalou com a conversa até aí amena.

O combate final estava guardado para o fim com a lei laboral e a greve geral de dia 11. Gouveia e Melo até apareceu moderado, pedindo”um novo contrato social” e “uma atitude mais negocial” do Governo. Mas como António Filipe jogou ao ataque — “Não se percebe o que Gouveia e Melo pensa sobre coisa nenhuma”, dizendo que o adversário um neoliberal com um pé no PS e outro no PSD —, o almirante contra-atacou: “O seu modelo económico é da estatização. Falhou em todo lado”.

Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, quarta-feira, na RTP, temos o confronto entre dois potenciais candidatos que podem passar à segunda volta, António José Seguro e Marques Mendes (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.

António Filipe, 8,5 — Gouveia e Melo, 11,5

Alexandra Machado — “A guerra é sempre má e a paz é sempre boa”. A frase é de António Filipe. E só mostra que a posição sobre a Guerra na Ucrânia é incómoda. Aliás, António Filipe tentou, na parte inicial do debate, em que os temas eram sobre questões internacionais, desviar o assunto. “Não me pergunte a mim” sobre o tema da Ucrânia e as condições da paz é uma frase que não pode ser dita por um candidato à Presidência. O terreno era, pois, fértil para Gouveia e Melo que, embora tenha estado melhor que em debates anteriores, não derrubou por completo o adversário. A tática é conhecida. Atirar a um membro do PCP todos os falhanços do comunismo. E foi até Cuba. Mas ficou pelo caminho nessa tática no caso da Venezuela. Toda a cartilha anti-comunista foi usada por Gouveia e Melo que quis puxar o tema para aí mesmo, como já tinha feito anteriormente com outros candidatos de esquerda.

António Filipe, além de ter lido (segundo declarou) os livros sobre Gouveia e Melo, também deve andar a ler (e a ouvir) todos os comentários sobre o seu adversário, já que também usou toda a cartilha sobre as críticas que se tem feito ao almirante – não se conhecer o pensamento, não se saber como se situa politicamente, dizer coisas vagas.

Gouveia e Melo, no entanto, não ajudou a sua causa. Dizer que o papel do Presidente é “ajudar a moderar as posições e encontrar consenso” é o mesmo que António Filipe dizer que “a guerra é má e a paz é sempre boa”. Mas lá deixou cair que defende que a economia “precisa de ser liberta de entraves”, para acrescentar – com receio de se ler nesta frase uma posição favorável à alteração da lei laboral – que no entanto uma “economia sem coesão social, que não olhe para pessoas, é uma economia que vai destruir o próprio tecido económico e a sociedade”. Por momentos… achei que não ia fazer o que lhe é característico: atenuar sempre e qualquer tema polémico. Agora assumiu que iria esperar pela versão final da lei laboral para analisar o que faria como Presidente, quando inicialmente, segundo o Expresso, foi dos primeiros a admitir o veto se não houvesse entendimento em concertação. Percebeu.

Mas se António Filipe tem visto e lido todos os comentários sobre os seus adversários, o trabalho de casa de Gouveia e Melo também foi feito. O candidato acabou o debate a dizer que não era marioneta nem força de bloqueio. Tudo o que tem sido dito de vários dos seus adversários. No final foi um debate que não aqueceu nem arrefeceu.

Luís Rosa — Gouveia e Melo continua a lutar pela sua identidade política. Ou melhor, tenta mostrá-la, consoante o interlocutor. Perante candidatos da direita, o candidato defende a economia de mercado mas diz que o núcleo central dos direitos laborais são intocáveis. Que direitos estão em causa? Não diz. Hoje, perante o candidato apoiado pelo Partido Comunista Português, Gouveia e Melo já se mostrou mais sensível a uma flexibilização das leis laborais. Gouveia e Melo vira o disco e toca a mesma música de catavento para um alegado “novo contrato social” de um país “que é seguro mas que precisa de se manter” assim “no futuro” — a defesa de uma coisa e o seu contrário, para agradar a gregos e a troianos é permanente no discurso de Gouveia e Melo. O que leva os adversários, como António Filipe, a atacarem com a arma óbvia: “Não se percebe o que Gouveia e Melo pensa sobre coisa nenhuma porque diz umas generalidades” e porque navega entre o PS e o PSD, sem que se defina.

Uma vez mais, Gouveia e Melo esteve bem nos temas militares e internacionais (Ucrânia, NATO e Venezuela) e foi assertivo ao atacar António Filipe pela “forma cândida” com que disserta sobre o discurso típico da pomba da paz comunista — uma tática muito antiga do PCP, a tal “5.ª coluna” que Gouveia e Melo não identificou, que antes servia para defender a União Soviética e hoje serve para não criticar Putin e a sua política imperialista. A propaganda russa do Zelensky “nazi” e “fascista” já foi repetida por Filipe — e não foi agora desmentida.

Mas, mesmo assim, António FIlipe não ficou calado. Combativo, jogou o trunfo da declaração militarista do antigo Chefe de Estado Maior da Armada quando lhe respondeu. “Se alguém está longe do sr. Putin, sou eu. Não é o senhor. Não fui eu que disse que os jovens portugueses deveriam morrer onde os mandassem morrer. Se a NATO os mandasse morrer, eles iriam morrer a qualquer lado”.

Resumindo e concluindo: entre o “comunista” António Filipe e o “social-democrata antigo” Gouveia e Melo, ganhou este por ligeira vantagem — e só porque a posição dos comunistas sobre a Ucrânia continua a ser indefensável.

Miguel Santos Carrapatoso — O melhor debate de Henrique Gouveia e Melo até ao momento. Demonstrou autoridade, segurança e assertividade em todos os temas em que tocou. Claro que ajuda muito ter pela frente um adversário que olha para o que se passa na Ucrânia e diz que não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe que condições de paz poderá ter um país que foi invadido. Que se sente no direito de chamar neonazi a Zelensky, um Presidente de um Estado soberano, mas que leva a mão ao colar de pérolas quando se critica o regime cubano, dizendo, pasme-se, que um “Presidente não pode referir-se assim a quem tem a importância que Fidel Castro teve”. Que fala da NATO como se fosse um acordozito que não serve para nada. Que acha que chamar neoliberal a qualquer coisa que esteja vagamente à direita do PCP é um argumento sólido em qualquer debate. António Filipe até tem razão numa coisa: Henrique Gouveia e Melo quer mesmo ter um pé no PS e um pé no PSD. O que António Filipe ainda não conseguiu explicar é como que ele, um candidato que defende, com fervor e amor à camisola, o que o PCP defende em todas as áreas, da política externa à economia, pode ser um Presidente capaz de representar todos os portugueses. Uma e outra vez, Henrique Gouveia e Melo mostrou o porquê de estar na iminência de passar à segunda volta; uma e outra vez, António Filipe mostrou o porquê de estar na iminência de ter 2 ou 3%.

Miguel Viterbo Dias — “Eu sou comunista, não sei é o que o senhor é”, disse António Filipe. A frase resume todo o debate. Numa discussão em que dois terços do tempo foi com assuntos internacionais, naturalmente que o candidato apoiado pelo PCP teve dificuldades em justificar o indefensável, mas não foi a única cartilha em cima da mesa. Henrique Gouveia e Melo fez o bingo do debate contra comunistas: Ucrânia, Cuba e Venezuela são terrenos fáceis para sair por cima – ainda mais para alguém que procura puxar todos os assuntos para a “reorganização geoestratégica” do mundo. Só é curioso que tenha procurado falar sobre todos estes temas logo depois de ter avisado que se “tem falado de muitos assuntos laterais” e era preciso centrar no que interessa ao país.

António Filipe ficou encurralado entre os nazis que rodeiam Zelensky, o papel histórico de Fidel Castro e a “democracia” venezuelana, mas Henrique Gouveia e Melo não foi para lá do básico. Quanto ao concreto, nos poucos minutos reservados aos assuntos que marcam a agenda, ambos conseguiram ser bem mais interessantes.

No pacote laboral, António Filipe tentou puxar por um posicionamento mais vincado de Gouveia e Melo e aproveitou o curto historial político do adversário para o acusar de estar permanentemente à procura dos desiludidos de Seguro e Mendes. Já o Almirante não se ficou e criticou o candidato apoiado pelo PCP de perder a postura presidencial ao estar contra os empresários e empresas e ao mostrar que nos últimos tempos o que não tem faltado é informação sobre quem é e o que pensa — suficiente ou não é outra discussão. Se a maior parte do debate tivesse sido sobre isto, talvez tivesse sido melhor. Assim, foi poucochinho.

Recorde aqui:

o debate entre António José Seguro e Jorge Pinto

o debate entre Cotrim Figueiredo e António Filipe

o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto

o debate entre André Ventura e Catarina Martins

o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo

o debate entre Marques Mendes e André Ventura

o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto

o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo

o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo

o debate entre André Ventura e António José Seguro

o debate entre Marques Mendes e António Filipe

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