Um debate que confirmou o expectável: de lados opostos no espectro político, os dois candidatos à Presidência da República defenderam posições radicalmente diferentes na saúde e no mercado laboral, por exemplo. Num debate vivo, com ritmo, em que João Cotrim Figueiredo e António Filipe conseguiram expor as suas opiniões (apesar de se interromperem mutuamente), a ideologia reinou em quase todos os momentos.
João Cotrim Figueiredo foi o primeiro a atacar o antigo deputado do PCP, logo depois de este definir o papel do Presidente como “alguém que usa a sua magistratura de influência para obrigar o governo o agir”, alguém que está “ao lado” dos portugueses e da vida das pessoas. O político liberal não perdeu a oportunidade para lembrar que António Filipe apoiou governos que só agravaram algumas das questões mais prementes dos portugueses. “Viabilizou seis orçamentos e a imigração que era um tema, passou a ser um problema, a habitação que era problema passou a ser uma crise, e a saúde que era uma crise passou a ser um caos”.
Cotrim Figueiredo vs. António Filipe. Quando a batalha ideológica acontece à mesa de um debate
E a partir daqui o confronto (educado) entre os dois foi permanente. António Filipe culpou as “políticas neoliberais” pela degradação do SNS e pelo crescimento da oferta privada, defendendo um reforço do investimento público. Cotrim Figueiredo contrapôs que o aumento dos privados resulta do mau funcionamento do SNS e defendeu um modelo baseado na liberdade de escolha, em que o financiamento acompanha o doente e se alinham incentivos para que quem prestar um melhor serviço, seja público ou privado. António Filipe não perdeu tempo em acusar o liberal de propor um “milagre da multiplicação dos pães”, colocando em causa a sustentabilidade financeira da ideia.
No plano laboral, o ex-deputado do PCP rejeitou a ideia de que as greves prejudiquem o país, sublinhando que “nenhum trabalhador faz greve por desporto” e classificando a paralisação como ato de legítima defesa dos trabalhadores. Na sua leitura, a reforma laboral proposta pelo Governo “anula o direito à greve” ao alargar em excesso os serviços mínimos, tornando-os, na prática, em “serviços máximos”. Cotrim Figueiredo tentou forçar o adversário a clarificar se aceita a existência de serviços mínimos nas creches e nos lares para idosos e insistindo na necessidade de flexibilidade laboral e de um mercado de trabalho mais dinâmico.
O candidato comunista acusou os “neoliberais” de quererem “vender ideias bafientas do século XIX como se fossem modernidades”, numa crítica direta ao modelo defendido por Cotrim Figueiredo. O liberal reagiu de imediato, classificando a formulação como “ofensiva” vinda de um candidato apoiado pelo PCP, sublinhando que se vê como defensor da liberdade de escolha e de mercados mais competitivos, e não de um regresso ao passado. António Filipe reagiu, repetindo que está do lado dos “99%” contra o “1% mais rico”, ligando Cotrim aos acionistas e empresários e associando a precariedade e os baixos salários às políticas que identifica como neoliberais.
Cotrim reagiu, apontando que “não há ninguém que emigre para países comunistas” e ligando a emigração portuguesa a legislações laborais mais flexíveis no estrangeiro, por exemplo.
Foram trinta minutos claramente ideológicos, como alguns momentos pontuais de convergência na necessidade de melhorar salários, emprego e a qualidade do serviços público.
Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos em cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, quarta-feira, não há debates, que regressam quinta, na RTP, com o confronto entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
Cotrim Figueiredo, 12 — António Filipe, 11,25
Alexandra Machado — Seria um debate aceitável (e até bom) entre dois líderes de partidos que estão nos antípodas um do outro. Mas nem João Cotrim de Figueiredo nem António Filipe têm essa função (se calhar deviam). Nem o debate se prendem, na maior parte dele, em temas Presidenciais. Já sabemos que os candidatos têm de ter opinião sobre os temas, convém sabermos qual é, mas pouco podem fazer para a aplicar se chegarem a Belém. E, por isso, Cotrim de Figueiredo voltou a dizer que não irá para a Presidência “defender que as políticas devem ser liberais”. Ainda assim falou do projeto para a saúde que apresentou na Iniciativa Liberal, defendendo-o, mas esquecendo que não lhe cabe decidir enquanto Presidente. António Filipe optou pelo ataque ao neoliberalismo que, diz, é a causa do que se passa na saúde. “Ora essa”, respondeu Cotrim de Figueiredo. E de facto… Mas já valeu o debate para ver um membro do PCP a questionar o “milagre da multiplicação dos pães” – “onde é que o estado vai buscar os recursos financeiros?” – sobre propostas políticas.
O debate manteve-se no que pareceu um longo período de tempo na saúde, para depois passar para o código laboral e ver Cotrim de Figueiredo a admitir algumas concordância com António Filipe. O quê? Mas o candidato à esquerda ficou-se pelo silêncio sobre os serviços mínimos nas creches e lares… E depois, António Filipe, que pareceu hoje um pouco em baixo de forma, não necessitava do ataque: Cotrim “está do lado dos interesses do 1% mais ricos, dos CEO, dos acionistas”. “Ora essa”, respondeu novamente o candidato da direita (que até acusou o seu opositor de técnica à Ventura).
Na defesa António Filipe contornou atirando para a responsabilidade do Governo algumas decisões (é um tema difícil), Cotrim mais direto na defesa dos aliados.
António Filipe e Cotrim de Figueiredo não devem ter perdido muito tempo a preparar este debate (o ex-líder da IL até escorregou em algumas acusações). Não andam na área um do outro. E por isso o que aqui esteve foi a contestação ao comunismo, por um lado, e um ataque ao neoliberalismo, por outro. Ficou tudo na mesma. Mesmo com as ideias bafientas do século passado.
Miguel Pinheiro — Neste debate, ficámos a saber que João Cotrim Figueiredo acha que o sistema político português exige um Presidente da República que seja apenas um misto de mestre de cerimónias e de coach motivacional. O inquilino de Belém pode receber convidados, pode dialogar com todos e pode, enfim, “inspirar” — só não pode, Deus o livre, ter opiniões firmes. Ele afirmou: “Não renego as minhas convicções políticas, mas não vou para Presidente defender políticas liberais”. Ele repetiu: “Enquanto candidato respondo a tudo, enquanto Presidente não o farei da mesma maneira”. Ele insistiu: “As minhas opiniões pessoais, em Belém…” É uma confusão fatal: Cotrim acha que ser um Presidente com opinião é o mesmo que ser um “Presidente de fação”.
Sendo assim, o contraste com António Filipe não podia ser maior. Se há coisa que o candidato do PCP tem são convicções. E, pelos vistos, são tão persuasivas que Cotrim fez questão de dizer várias vezes que até concordava com o oponente em inúmeros pontos. Normalmente, um debate serve para marcar diferenças, mas desta vez Cotrim quis que ele servisse para marcar aproximações. Claro que um candidato que surge de um partido pequeno como a IL precisa de alargar o seu eleitorado potencial. Mas talvez seja excessivo imaginar que esse exercício pode chegar às fronteiras do PCP.
Miguel Santos Carrapatoso — A grande vantagem de João Cotrim Figueiredo, para desgraça de António Filipe, é que a IL, ao contrário do PCP, nunca influenciou decisivamente as políticas públicas de um governo. Portanto, nos temas que estiveram em cima da mesa, do Serviço Nacional de Saúde ao problema dos baixos salários, Cotrim tinha sempre o óbvio para apontar: os comunistas viabilizaram seis Orçamentos do Estado do PS e tentaram (de forma naturalmente condicionada, mas tentaram) resolver os problemas que agora denunciam. Pormenor: não conseguiram e, em alguns casos, até os agravaram profundamente. Não foi assim há tanto tempo para que possam lavar daí as mãos. Portanto, ouvir António Filipe a sugerir que o único acordo que existiu foi, não para governar com o PS, mas para travar o “governo da troika”, é um exercício de reescrita da história impossível de ignorar. Tal como é difícil enquadrar racionalmente o facto de o candidato do PCP, à boleia da discussão sobre leis laborais, dizer que os jovens portugueses emigram porque lhes pagam mais lá fora e ainda responsabilizar os “neoliberais” portugueses por isso. Como bem notou Cotrim Figueiredo os países que os estão a receber não são exatamente liderados por partidos comunistas. Pelo contrário.
Num qualquer universo alternativo, em que a IL pudesse ser co-responsabilizada por um ciclo governativo, ou em que o verdadeiro programa do partido tivesse sido testado em Portugal, talvez o campo de batalha fosse mais equilibrado entre os dois — algumas ideias dos liberais roçam, no mínimo, a fantasia. Mas não é o caso. Tudo somado, num debate que mais parecia ser entre dois candidatos a deputados, Cotrim conseguiu estar, ainda assim, mais sintonizado com a realidade do país do que António Filipe. Nota extra: o candidato do PCP deveria ter algumas reservas em acusar os adversários de se inspirarem em “políticas bafientas” de “séculos” passados. Torna-se demasiado fácil lembrar o óbvio e o debate não ganha nada com isso.
Ricardo Conceição — Um bom debate entre duas visões, praticamente opostas sobre o rumo que o país deve seguir. Um embate aguerrido entre dois cavalheiros, que demonstraram que é fundamental respeitar quem de nós discorda. A urbanidade na diversidade de ideias ajuda a construir um país melhor.
Quanto às prestações individuais e seguindo o critério da eficácia na conquista de votos, João Cotrim Figueiredo esteve melhor do que António Filipe. O ex-deputado comunista tentou escapar às habituais pedras no sapato — a NATO, o euro, a União Europeia — mas foi incapaz de ter um discurso galvanizador, para quem procura alternativas a António José Seguro. Foi menos eficaz do que Catarina Martins, que numa pose mais centrista vai conseguindo o apoio público de alguns socialistas. António Filipe foi António Filipe, um militante do PCP, institucionalista, previsível, que fala para o seu eleitorado de sempre.
Por seu lado, João Cotrim Figueiredo, que não tem muito a perder nestas eleições, assume-se como uma alternativa enérgica a Marques Mendes (demasiado ligado ao poder de sempre) o que se nota na forma incisiva como responde a todas as perguntas. Foi eficaz em todos os temas: trabalho, saúde, defesa. É um candidato que pode chegar aos eleitores mais jovens e aos mais afastados do dia a dia da política, que não vêm em Ventura ou em Gouveia e Melo soluções políticas credíveis. Cotrim Figueiredo poderá ter conseguido amealhar alguns votos a meio de um fim de semana prolongado e, por isso, esteve melhor.
Recorde aqui:
o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto
o debate entre André Ventura e Catarina Martins
o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo
o debate entre Marques Mendes e André Ventura
o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto
o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo
o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo