Um debate sem respostas, sem propostas, mas com insultos mútuos ao longo de mais de 30 minutos. André Ventura e Catarina Martins, a representarem os dois extremos da política portuguesa, defrontaram-se com constantes interrupções e duelos pessoais, sem responder às perguntas do moderador da TVI, José Alberto Carvalho. E só houve praticamente dois temas sobre a mesa: imigração e criminalidade.
Logo na primeira pergunta, José Alberto Carvalho pediu ao candidato do Chega que comentasse as notícias sobre os GNR que exploravam imigrantes no Alentejo, a maioria dos quais ilegais. Ventura contornou a questão e mostrou uma foto de uma operação desta sexta-feira, na Amadora, em que se via uma fila de imigrantes ilegais, dizendo que a responsabilidade era de “Catarina Martins e do Governo da geringonça”, que “fez aprovar as leis da imigração”. E concluiu com um “é tão grave quem explora como quem entra ilegalmente”.
Catarina Martins respondeu logo ao ataque, lembrando Ventura que o Chega tem “dois deputados condenados por imigração ilegal na sua bancada” e que defende a “economia da exploração, sem direitos no nosso país”, dando mesmo o exemplo de que “pela lei do dr. Ventura (com o apoio da AD e que retira direitos a imigrantes), não seríamos campeões sub-17”. Para a estocada final, atirou: “André Ventura odeia Portugal. Eu gosto de Portugal.”
E aqui começou aquilo a que André Ventura chamaria de “bandalheira”. Ventura começou: “Nunca despedimos grávidas no Chega, não me venha falar de humanismo”, e insistiu que nos governos da geringonça a “imigração ilegal aumentou 300%”. Catarina Martins ria-se intensamente, Ventura irritava-se e perguntava: “Está-se a rir?”. A ex-coordenadora do Bloco desestabilizava: “De si, posso-me rir.” Ventura atacava: “Eu sei que é atriz, e má.” Catarina Martins contra-atacava: “Eu sei que é pantomineiro. Continue a fazer números de TikTok. Desligue o microfone e vá embora.” André Ventura garantia: “Não se preocupe que não saio daqui.”
Para quem esperava que a lavagem de roupa suja tivesse terminado, enganava-se. Catarina Martins lembrou que o “Chega tem 40% de deputados a braços com a Justiça” e André Ventura defendeu-se dizendo que quem “foi suspeita de receber dinheiro que não devia” foi Mariana Mortágua, que “esteve a receber três salários ao mesmo tempo”. “Não seja tonto”, atirou-lhe a candidata apoiada pelo Bloco. “Tonto não me chama, se alguém tonta é você, porque não percebe que os portugueses querem uma coisa diferente”, retorquiu o líder do Chega. E perante mais uma provocação de André Ventura sobre a formação de atriz de Catarina Martins, a bloquista respondeu-lhe: “Ninguém me menoriza.” Pelo meio, ainda disse ao adversário: “Diz muitas tontices, muitas coisas absurdas.”
Levavam cada um mais de seis minutos nisto, e quando se pensava que iam mudar de temas, foi em vão. Ventura voltou a agarrar na foto dos imigrantes ilegais na Amadora e atirou-a a Catarina Martins: “Leve-os lá todos para a sua casa, que era onde estavam bem.” Catarina Martins lembrou que disse que ele era racista e foi processada, mas ganhou: “E acho que é racista. Não me cala.” O líder do Chega aproveitou então para dizer que Catarina Martins não lhe “dá lições de moral”. E acusou o Bloco de Esquerda de só apoiar países islâmicos que “tratam as mulheres abaixo de cão”: “Quem andou com lenços palestinianos foi a Catarina Martins”, afirmou, revelando ainda que a eurodeputada foi contra o prémio Sakharov ou o Nobel para María Corina Machado, a líder da oposição na Venezuela, porque defende ditadores como Maduro. A ex-coordenadora do Bloco ainda tentou explicar que defendeu o prémio para os jornalistas que cobrem o conflito em Gaza, mas Ventura não a deixou falar. “A Catarina Martins quer sair da NATO. Quem é que nos apoiaria? Os amigos da Rússia, da Venezuela?”
Mas como foi Catarina Martins a terminar, pôde lançar-lhe uma espécie de praga: “Nunca vai ser primeiro-ministro.”
O Observador tem um “E o vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos 28 frente a frente televisivos para as eleições presidenciais, em que avalia quem ganhou. Um painel do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos debates e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, sábado, na RTP, defrontam-se Marques Mendes e Jorge Pinto (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
André Ventura, 5,75 — Catarina Martins, 5,25
Filomena Martins — Foi um debate que juntou um candidato que quer chegar à segunda volta — André Ventura — e uma candidata que tenta salvar o espaço da esquerda radical e reconstruir o Bloco num dos seus piores momentos. Catarina Martins entrou para afirmar identidade; Ventura para disputar hegemonia. E nenhum dos dois veio para perder tempo com os poderes presidenciais.
O debate foi tenso, marcado por palavras insultuosas de parte a parte – “tonto”, “pantomineiro”, “atriz” (termo utilizado depreciativamente), etc, etc.
Ventura irritou-se com uma pergunta sobre o discurso do cardeal-patriarca, acusando o moderador de “agenda”. Catarina respondeu com firmeza: havia ali um candidato em nervoso miudinho. Estava dado o tom — um debate ideológico, agressivo e sem travões.
O caso da operação no Alentejo — militares envolvidos em exploração de imigrantes — serviu de pretexto para a primeira grande divergência. Ventura, incomodado, culpou a “velha lei da geringonça” e as regras de imigração; Catarina contrapôs com dados: legislação humanista não legitima crime, a exploração existe apesar da lei, não por causa dela. E lembrou que a imigração sustenta pensões e impostos. A seguir, chegou o primeiro murro simbólico: “O senhor odeia Portugal”; “eu gosto da nossa diversidade”. Ficou claro que não era um debate, era um duelo moral em que André Ventura não se esqueceu de falar dos despedimentos de mães recentes pelo Bloco de esquerda.
O tema repetiu-se: Catarina procurou separar criminalidade de etnia; Ventura insistiu nas falhas do controlo fronteiriço. Ela falou de cultura, democracia e discurso de ódio; ele respondeu com acusações sobre “agendas internacionais” e ataques ao BE. A troca elevou-se quando Catarina mencionou decisões arquivadas em tribunal e defendeu o direito a chamar racismo ao que considera racismo.
Depois discutiu-se a presidência… sem discutir verdadeiramente a presidência. Catarina falou de responsabilidade institucional, fact-checking e perigos da mentira na vida pública. Ventura tentou recentrar na NATO (Catarina Martins não foi capaz de dizer que não quer que Portugal saia dessa organização), na imigração e numa ideia de autoridade presidencial. A certa altura, ambos admitiram, quase involuntariamente, que nada do que estavam a dizer tinha ligação directa com Belém.
No final, foi um empate de intensidade mais do que de conteúdo. Catarina Martins segurou o seu eleitorado de esquerda; Ventura consolidou o da direita radical: não houve vencedores, apenas dois candidatos a falarem para tribos diferentes, num debate onde a ideologia engoliu a política e não evitou a luta na lama.
Luís Rosa — Já se esperava mas superou as piores expetativas. Por serem os candidatos mais extremistas nestas presidenciais, esperava-se um debate agressivo, em que os dois candidatos falassem para as respetivas claques. Mas o que se viu é capaz de ter sido um dos debates mais ‘sujos’ da política portuguesa desde o 25 de abril. “Pantomineiro”, “tonto”, “tonta”, “racista”, novamente “tonto”… O lavar de roupa suja serviu para tudo. Para André Ventura acusar Catarina Martins de ter concordado com o despedimento de mulheres grávidas, de nepotismo por ter sido contratada pelo seu próprio partido, de não defender as mulheres iranianas e palestinianas e de ter promovido a imigração ilegal com o apoio que o Bloco de Esquerda deu à política de imigração da geringonça. Como também serviu para Catarina acusar Ventura de ter dois deputados que foram imigrantes ilegais e para exercícios de demagogia e populismo semelhantes aos do líder do Chega, como acusar 40% dos deputados daquele partido de terem problemas com a Justiça, enquanto que os crimes relacionados com a imigração representam apenas 1% de todos os crimes praticados em Portugal.
Entre acusações mútuas de mentiroso e mentirosa, André Ventura acabou por ser o extremista mais eficaz em termos de combate político. Porquê? Não só porque, independentemente das suas posições radicais, o eleitorado defende uma regulação da imigração — mais intensa do que aquela que existiu nos Governos da geringonça. Mas também porque Ventura foi muito eficaz ao virar o sorriso de Catarina Martins (que é uma boa arma política da ex-líder do BE) contra ela própria e forçou-a, na prática, quase a reconhecer que defende a saída de Portugal da NATO — o que vai ao arrepio do desejo de uma maioria muito alargada de portugueses. Se houvesse tempo para debater as propostas de Martins para o Euro e para a União Europeia, o resultado seria ainda mais catastrófico para a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda.
Miguel Santos Carrapatoso — Degradante, impróprio, indecente, indigno, mesquinho, odioso e vergonhoso.
Miguel Viterbo Dias — O debate cumpriu as expectativas. Perante dois adversários tão antagónicos era de esperar que rapidamente o frente-a-frente fugisse para onde fugiu: o ataque pessoal. Talvez tenha superado as expectativas num ponto: a rapidez e o nível de insulto que se viu entre Catarina Martins e André Ventura. De acusações de pantomineiro a papeis atirados para cima da mesa, o debate transformou-se rapidamente numa arena.
O resumo ficou feito na reta final: “Este debate nada teve a ver com presidenciais”. Nada mesmo. Foram dois adversário antigos que discorreram os guiões (ou as cartilhas) habituais. André Ventura aproveitou a deixa inicial da imigração para atirar ao legado da “geringonça”, o caso dos despedimentos do Bloco e “das burqas”.
Do lado de Catarina Martins, as fake news e a proteção dos ricos, quer com benefícios fiscais quer com vistos gold. Nada surpreendeu, só talvez o nível de agressividade. A antiga coordenadora do Bloco de Esquerda tem o mérito de ter conseguido tirar André Ventura de si, mas já depois de ter apelidado o líder do Chega de “pantomineiro” e de “tonto”.
A partir daí, uma barragem de ataques pessoais que, numa análise demasiado pragmática, podem ser considerados como eficazes para o eleitorado de cada um, mas num olhar mais abrangente sobre a função presidencial nada dizem.
Se Catarina Martins tem o peso do legado da “geringonça”, que eleitoralmente ainda não está recuperado, André Ventura, defendendo-se com as acusações de “má atriz” e “tonta”, não conseguiu criticar com grande assertividade os militares da GNR e os polícias que exploraram imigrantes.
Quando se começaram a enfrentar, Catarina Martins tinha 500 mil votos e 19 deputados e André Ventura perto de 70 mil eleitores e apenas um deputado. Hoje o cenário é completamente diferente. André Ventura triplicou o melhor resultado do Bloco.
Catarina Martins determinou no fim que André Ventura “nunca será primeiro-ministro”. Isso, não sei. Mas que nenhum está à procura de ser Presidente da República, ficou notório.
Recorde aqui:
o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo
o debate entre Marques Mendes e André Ventura
o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto
o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo
o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo