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O encontro com amigos, a mensagem da mãe e a investigação da PJ. O que aconteceu antes da morte de um adolescente no Barreiro

Após ter estado à conversa com amigos, um adolescente foi baleado numa rua calma no Lavradio, depois de a mãe ter enviado uma mensagem aos colegas a perguntar pelo filho. A PJ investiga o caso.

Na noite de segunda-feira, enquanto passeava o cão, uma jovem “viu dois indivíduos a correr” em direção a uma rua paralela à Rua Maria Matos, no Barreiro. Enquanto o outro “continuou a correr e solicitou à testemunha que contactasse os meios de socorro”, como relata a PSP, L., de 16 anos, caiu ao chão, de barriga para baixo.

Horas antes de morrer baleado naquela rua, L. estivera com amigos. São eles que, no dia seguinte, procuram respostas onde tudo aconteceu. “Conhecíamos o L., era nosso amigo”, desabafa ao Observador um dos seis adolescentes, sem conseguir dizer mais palavras sobre o que aconteceu pelas 23h do dia anterior.

No parque que fica a pouco mais de 200 metros, o jovem, “reservado” e “calmo”, esteve com a postura habitual. Mas quando se despediu dos amigos, L. seguiu um caminho inverso ao que faria para se dirigir a casa, levando com ele um saco com o qual não costumava andar.

Corpo do adolescente foi encontrado por uma jovem que passeava o cão junto a este portão

O atraso a chegar a casa terá provocado estranheza na mãe que, pelas 22h, enviou uma mensagem a um dos amigos. Menos de uma hora depois, o filho seria baleado numa zona “até pacífica demais”, como conta uma vizinha.

Os Bombeiros Sul e Sueste e a viatura médica de emergência e reanimação (VMER) do INEM chegaram ao local pelas 23h e assistiram a vítima. As manobras de primeiros socorros não surtiram efeito e o óbito seria declarado poucos minutos depois.

Apesar de estar apenas com o telemóvel e as chaves de casa, sem carteira, a Polícia Judiciária — que já assumiu a investigação do caso — conseguiu identificá-lo e tenta agora encontrar o suspeito e perceber o que terá motivado este homicídio. Para tal, segue, entre outras, a pista do saco que já não estava com L. quando este foi encontrado, apurou o Observador.

▲ A rua onde foi encontrado o corpo de um jovem de 16 anos

“Senti um estrondo e abri a janela”

Quem na tarde seguinte passa junto à Rua Maria Matos, sabe bem o que aconteceu ali. O movimento naquela rua é muito reduzido e quase exclusivo dos residentes como Carlos, que recorda o “estrondo” da noite anterior enquanto passeia o cão.

“Senti um estrondo e abri a janela. Olhei pela janela e vi um rapaz de carapuço a fugir. Vi a rapariga ao telefone. Eu vesti os calções e vim cá fora, mas ela já nem me viu. Ela apanhou um susto muito grande”.

O corpo foi encontrado encostado ao portão da casa de outra vizinha que está agora à janela, com a persiana semicerrada longe do olhar de quem por ali passa. Depois de admitir que está farta de falar sobre o assunto, recorda apenas que só se apercebeu quando ouviu a jovem que passeava o cão a dizer “chamem a polícia, chamem a polícia”.

É à frente do portão que se juntam os amigos de L. “Ele era o mais calmo de todos”, dizem, assumindo que na freguesia do Lavradio “todo o mundo o conhecia”.

Vítima mortal esteve neste parque com os amigos pouco antes de ser baleada
Jovem abandonou grupo com "pressa", mas não disse onde ia. Levava com ele um saco

“Estivemos com ele ontem [segunda-feira] à noite, no Parque dos Pardalitos” a escassos metros dali. Era naquele espaço escondido entre prédios, perto da casa da vítima mortal, que os amigos se reuniam muitas vezes para ficar à conversa ou para jogar à bola.

“Nunca soubemos de stresses com ele, nunca teve problema nenhum connosco, nem nunca nos disse nada sobre isso. Mas não sabemos se tinha problemas com outros…” Conheciam-no mais “de jogar à bola na rua” do que dos recreios e das aulas, mas relatam que tinha saído recentemente da escola secundária do Lavradio para seguir um curso profissional de educação física numa escola na Moita.

Antes de os amigos deixarem o parque, L., que vestia roupa preta da Nike e levava um saco cheio, abandonou-os ligeiramente mais cedo, pelas 20h, com “pressa” e sem explicar para onde ia ou o que ia fazer. Certo é que não foi para a casa onde vivia com a mãe e a irmã mais nova.

O primeiro alerta de que algo poderia não estar bem chegou pouco depois, quando um dos amigos recebeu uma mensagem da mãe de L. “Mandou-me uma mensagem a perguntar se sabia dele, onde é que ele estava e se estava connosco”, conta ao Observador. A morte de L. aconteceu pouco depois, mas os amigos só souberam na manhã seguinte quando iam para as aulas ou quando, já na escola, se começou a comentar o caso, ainda sem ser conhecida a identidade da vítima.

As notícias circularam rápido pelas várias escolas do concelho e os amigos chegaram à conclusão que menos desejavam: não tinham tido mais notícias do amigo e sabiam que a vítima era um jovem. O corpo encontrado podia ser o de L.

“É tudo muito estranho. Aqui nunca acontece nada disto”

Uns metros ao lado do local onde foi encontrado o corpo de L., três idosas juntam-se perto dos portões e discutem, debruçadas no muro, o que terá levado à morte do adolescente. Assumem que só sabem o que viram nas notícias e que, na noite anterior, estavam a ver televisão, de persianas fechadas, quando tudo aconteceu, pelo que não deram pelo barulho.

“Vocês não se metam em problemas”, diz uma delas para um jovem que passa e que conhece L. — andou com ele na escola e recorda-se de o ter visto, pela última vez, no autocarro. Também as vizinhas que o interpelam estão incrédulas com o que aconteceu e solidárias com o grupo de adolescentes que esteve alguns minutos concentrado no portão onde tudo aconteceu.

“É uma rua calma”, testemunha um casal enquanto insere a chave de casa na ranhura da porta de um prédio que fica no enfiamento da rua Maria Matos. Na noite anterior, contam, não dormiram no apartamento, pelo que só souberam pelas notícias do que se passou.

Carlos conta que quando saiu de casa, na noite anterior, depois de se ter apercebido de um “estrondo”, a polícia já tinha os carros a impedir o acesso à rua. Na tarde desta terça-feira, o aparato de polícia e meios de socorro é substituído pela curiosidade. Duas crianças, na mesma bicicleta, passam pela rua. “Foi numa destas ruas”, diz o que vai com as mãos no guiador. “Que quê?”, pergunta o outro. “Que mataram o L.”.

▲ L. frequentou a catequese na Igreja Paroquial do Lavradio, perto de casa e do parque onde se encontrava com os amigos

A curiosidade não é de estranhar e também se explica pelo facto de crimes como aquele não serem habituais naquela zona do Barreiro. “Há algumas brigas, há algumas quezílias. Mas nunca nada disto”, conta outro jovem.

Também ele, como a maioria dos vizinhos de tenra idade, se lembra de L. “Ele era o mais calmo do grupo dele. Costumávamos estar com ele na escola, mas ele entretanto saiu”. Até ir para essa escola na Moita, a oito quilómetros de casa, a vida do jovem era feita num círculo muito próximo que englobava — além das brincadeiras no parque e das aulas — as catequeses na Igreja Paroquial do Lavradio.

“É tudo muito estranho. Se ainda fosse na Moita ou no Vale da Amoreira… Mas aqui nunca acontece nada disto”, acrescenta.

PJ tenta perceber se há alguma relação entre o saco que não foi encontrado e o homicídio

Um dia depois do homicídio em plena rua do Lavradio, ainda não tinham sido detidos suspeitos de estarem envolvidos na morte de L. A PSP foi a primeira a ser acionada para o local, após ter sido alertada pela chamada da jovem que passeava o cão. “No dia 13.10.2025, pelas 22:50h, na Rua Maria Matos, ocorreu um homicídio perpetrado com recurso a um disparo de arma de fogo, que atingiu a vítima, um homem com idade compreendida entre os 18 e os 22 anos, na zona superior do peito, relativamente próximo do pescoço”, comunicou a PSP depois de ter sido avançado o homicídio pelo Correio da Manhã.

“A Polícia de Segurança Pública, através de polícias da Esquadra da PSP do Barreiro da Divisão Policial do Barreiro do Comando Distrital de Setúbal deslocou-se ao local, tendo constatado um individuo de aparência africana caído no chão, em decúbito ventral (barriga para baixo), junto dele encontrava-se uma pessoa/testemunha, a qual de imediato informou que já havia acionado os meios de socorro. Poucos minutos depois, pelas 23:02h, compareceram no local os Bombeiros Sul e Sueste que iniciaram manobras de primeiros socorros à vítima e, pelas 23:09h, deu-se a chegada da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Barreiro, que assistiu a vitima, confirmando o óbito pelas 23:12h”.

As diligências foram prosseguidas pela Polícia Judiciária, que assumiu o comando da investigação dada a natureza do crime. Os investigadores apressaram-se a recolher testemunhos para tentar compreender o que motivou aquele homicídio, que segue ainda sem motivo encontrado.

Tal como o Observador constatou, a PJ assumiu que está a analisar a hipótese de o saco desaparecido ser essencial para o caso, mas sem adiantar, para já, que esse objeto possa estar relacionado com o crime. Ao Observador os amigos de L. disseram que não era habitual vê-lo com esse saco que, segundo um deles, que apalpou o conteúdo, parecia “ter roupa”, por ser leve.

A rua residencial não tem câmaras de videovigilância no exterior das casas, mas eventuais dispositivos de segurança dos estabelecimentos comerciais situados nas redondezas podem ajudar os investigadores a identificar o suspeito.

[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]

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