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▲Donald Trump e a tabela de tarifas que apresentou no Dia de Libertação

AFP via Getty Images

▲Donald Trump e a tabela de tarifas que apresentou no Dia de Libertação

AFP via Getty Images

China a 34%, Brasil a 10%: tarifas de Trump não afetaram todos os países da mesma forma. Porquê?

Existe uma fórmula, mas também houve "motivos geopolíticos" a pautar as tarifas de Trump a vários países. Operações de charme de certos países e a rivalidade com a China ajudam a explicar diferenças.

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“Friends Will Be Friends.” Foi com esta música da banda britânica Queen que Javier Milei saudou esta quarta-feira à noite a aplicação à Argentina da taxa mínima (10%) das tarifas aplicadas durante o “Dia da Libertação” pelo seu homólogo norte-americano, Donald Trump, a praticamente todos os países do mundo. Nas redes sociais, o Presidente argentino comemorava o facto de que Buenos Aires tinha sido uma das capitais menos afetadas pela política protecionista de Washington.

Numa análise mais fina às tabelas que Donald Trump apresentou esta quarta-feira, há países que se destacam: uns pelas tarifas mínimas, como a Argentina ou o Reino Unido, outro pelas muito elevadas, como o Lesoto (50%) ou o Camboja (49%). O Presidente norte-americano argumentou que tinha como objetivo corrigir as “injustiças” de que Washington tem sido alvo nos últimos séculos. “Eles fazem-nos a nós, nós fazemos-lhes o mesmo — não podia ser mais simples do que isso.”

Para calcular as tarifas que aplicaria aos restantes países, Donald Trump apresentou numa tabela em que constavam dois dados: as “tarifas recíprocas” que os EUA iam aplicar vs. “as tarifas em vigor” para os Estados Unidos das restantes nações — sendo que, neste último ponto, há uma alínea que especifica aspetos tidos em conta como a “manipulação da moeda e as barreiras ao comércio”. 

Donald Trump nunca explicou como é que chegou à tarifa daquele país. A BBC explica que a presidência norte-americano usou uma fórmula relativamente simples: o défice comercial dos Estados Unidos em bens em relação a cada país foi dividido pelo total das importações de bens desse país e esse número foi dividido por dois. Contudo, como admitiu a Casa Branca, aquela fórmula não foi usada para todos os casos.

Não são, por isso, tarifas completamente recíprocas. Donald Trump decidiu castigar mais uns países do que outros. Além do que diz estar a ser “roubado” aos EUA, tudo leva a crer que o Presidente dos EUA foi também influenciado por fatores geopolíticos, por algum trabalho diplomático bem-feito nos bastidores e até por um certo alinhamento ideológico.

▲ Tarifas aplicadas pelos Estados Unidos

“Houve fatores geopolíticos” na definição das tarifas, confirma, ao Observador, Brad Andrew, professor de Economia na Universidade de Juniata, localizada na Pensilvânia. O especialista sinalizou que “faz sentido” na ótica de Donald Trump, uma vez que o Presidente deseja tornar os EUA “menos dependentes da China de Xi Jinping”. 

Os menos afetados: países do Golfo, Reino Unido, Argentina e a surpresa Brasil

Entre as potências económicas mundiais, o Reino Unido foi um dos menos afetados pelas tarifas. Donald Trump aplicou a tarifa mínima a Londres, o que, segundo a BBC, fez com que os líderes políticos britânicos suspirassem de alívio. Fonte de Downing Street realçou ao Times que o cenário ideal seria “não ser sujeito a tarifas nenhumas”, mas destacou os benefícios de “serem as mais baixas”, o que pode ajudar a salvaguardar “milhares de empregos”.

Desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, tem tentado agradar ao Presidente norte-americano. Mesmo sendo um político trabalhista e ideologicamente distante do Partido Republicano, o chefe de executivo tem usado uma tática de aproximação da Casa Branca que deu agora frutos.

epa11928579 US President Donald J Trump (R) and British Prime Minister Keir Starmer show an invitation from Britain's King Charles inviting Trump to visit the United Kingdom, in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 27 February 2025.  EPA/CHRIS KLEPONIS / POOL

▲ Keir Starmer e Donald Trump juntos na Sala Oval

CHRIS KLEPONIS / POOL/EPA

Atrás do palco, e também em público, Keir Starmer tem-se esforçado para cair nas boas graças da Casa Branca, combinando ofensivas de charme com uma retórica suave em relação à administração Trump. Como lembra o Guardian, na sua primeira visita à Sala Oval, no final de fevereiro, o primeiro-ministro britânico entregou um convite do Rei Carlos III para o Presidente norte-americano visitar o monarca em Londres, um gesto diplomático que caiu particularmente bem em Donald Trump.

“A nossa estratégia tem tido sucesso”, admite fonte de Downing Street ao Times, acrescentando que vão continuar a “manter as cabeças frias e uma postura calma” a reagir às movimentações do outro lado do Atlântico. As perspetivas são, no futuro, “continuar a negociar” com Donald Trump: “Queremos negociar um acordo de comércio sustentável e, claro, baixar as tarifas”.

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Esta ofensiva de charme do primeiro-ministro foi colocada em causa pelos conservadores. Andrew Griffith, ministro-sombra dos Negócios e Comércio, rejeita que Donald Trump tenha agido apenas por causa do lobby de Keir Starmer.  O deputado na oposição lembra que “o Reino Unido está na mesma linha [de tarifas] do que o Congo, a Costa Rica ou Kosovo”. E recordou que Londres escapou de tarifas mais elevadas por já não pertencer à União Europeia: “O Brexit levou a que nos tenhamos esquivado de tarifas de 20%.”

"O Reino Unido está na mesma faixa de tarifas do Congo, a Costa Rica ou o Kosovo."
Andrew Griffith, ministro-sombra dos Negócios e Comércio, sobre alegado benefício britânico nas tarifas de Trump

Com alguns laços culturais, a Austrália e a Nova Zelândia também sofreram tarifas mínimas de 10%. Brad Andrew explica que isso se deve ao facto de serem “dois países” com os quais “os EUA têm tido boas relações durante décadas”. A sua posição geográfica ajuda a contrabalançar a influência da China no Pacífico, daí que o chefe de Estado tenha optado por aquelas tarifas.

Noutras geografias, os países do Golfo — como o Qatar, a Arábia Saudita, o Kuwait ou os Emirados Árabes Unidos — também foram sujeitos a tarifas mais leves. A questão de serem países tradicionalmente alinhados com os EUA pode ter pesado na decisão que foi tomada. À Arab News, Hamza Dweik, consultor e membro do Saxo Bank, explica, no entanto, que as “tensões comerciais” podiam “gerar impactos negativos nos preços de petróleo” de que são produtores os países do Golfo.

Na América Latina, houve países que também foram menos afetados pela nova política tarifária da Casa Branca. Um deles foi a Argentina, cujo Presidente é um parceiro ideológico de Donald Trump, da área da direita radical. Aliás, o secretário de Estado, Marco Rubio, esteve reunido com o seu homólogo argentino, Gerardo Werthein esta quarta-feira, o “Dia da Libertação”. Os dois chefes de diplomacia discutiram “questões económicas”, esperando “aprofundar os laços diplomáticos” no futuro, segundo escreveu Rubio no X.

O Presidente argentino pode ter usado a boa relação com o norte-americano para escapar às sanções mais pesadas. No entanto, como nota o El País, há um senão neste argumento. Outros países da América Latina foram sujeitos à tarifa mínima — como o Brasil, o Chile, a Colômbia ou a Bolívia, todos países que têm uma presidência à esquerda.

No caso brasileiro, Lula da Silva já deixou várias vezes clara a sua hostilidade relativamente a Donald Trump. Porém, o governo brasileiro, como explica a CNN Brasil, foi-se reaproximando de Washington nos bastidores. Os canais de comunicação entre Brasília e Washington estavam praticamente fechados no início de março, até que o vice-presidente Geraldo Alckmin conversou por telefone com o secretário do Comércio norte-americano, Howard Lutnick.

Foi um primeiro contacto, mas o Palácio do Planalto e a Casa Branca mantiveram contactos nas últimas semanas. Brasília lançou uma ofensiva diplomática para tentar evitar uma resposta comercial dura da administração Trump, que Lula da Silva temia que acontecesse. Dessa operação de charme fez parte a ida de Mauricio Lyrio, secretário de Assuntos Económico e Financeiros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a Washington, na semana passada, para persuadir os dirigentes económicos da Casa Branca de que o Brasil era um parceiro fiável e que não merecia ser penalizado.

epa11023691 Mauricio Lyrio, Head of the Brazilian Foreign Ministry for the G20, speaks during a press conference after the first working meetings of the bloc under the Brazilian presidency, at the Itamaraty Palace in Brasilia, Brazil, 11 December 2023. Representatives of the G20 began their first round of consultations under the presidency of Brazil. In this first technical meeting, Lyrio said that Brazil officially presented its proposals for the 2024 debates, which include combating hunger and poverty, sustainable development and climate change, and global governance reform.  EPA/Andre Borges

▲ Mauricio Lyrio, secretário de Assuntos Económico e Financeiros do Ministério dos Negócios Estrangeiro, esteve em Washington para convencer norte-americanos a não avançarem com tarifas mais duras

Andre Borges/EPA

Saudando a iniciativa, um diplomata brasileiro explicou à CNN Brasil que nunca é bom levar “porrada” — e que as tarifas de 10% terão na mesma um impacto na economia do país. Porém, a mesma fonte salientou que não foi uma “pancada tão forte” como esperavam inicialmente.

Israel, Japão e União Europeia: os tradicionais aliados que foram castigados por Trump

Quando apresentou ao mundo as tarifas, Donald Trump sublinhou que seriam aplicadas a “amigos e inimigos”: “Vão contra todos e tudo”. Prova disso é que um dos países que é considerado um dos maiores aliados pela Casa Branca foi alvo de uma tarifa de 17%: Israel. Em Telavive, houve “choque” com a decisão. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ainda tentou evitar uma resposta norte-americana ao cancelar — horas antes do anúncio do líder norte-americano — todas as taxas alfandegárias cobradas aos produtos dos EUA.

O governo israelita esperava que isso dissuadisse Donald Trump de incluir Israel na lista de países que seriam alvo de tarifas. “Tínhamos a certeza de que a decisão de cancelar completamente as tarifas em importações dos EUA preveniria esta movimentação”, comentou, citado pela BBC, fonte oficial do executivo liderado por Benjamin Netanyahu.

epa11875548 Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu (L) and US President Donald J. Trump (R) talk with reporters in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 04 February 2025.  President Trump, who is hosting his first in-person meeting with another world leader since returning to the White House, and Prime Minister Netanyahu are set to discuss the Israeli cease-fire with Hamas, Iran's nuclear program and future arms shipments, among other bilateral issues.  EPA/SHAWN THEW / POOL

▲ Israelitas foram apanhados de surpresa pelas tarifas de Trump

SHAWN THEW / POOL/EPA

Mas isso acabou por não acontecer. Depois da decisão, entre os membros do governo de Benjamin Netanyahu, apenas houve cautela. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, escreveu no X que “estudaram e analisaram em profundidade” as tarifas aplicadas pela Casa Branca e que vão agora discutir como podem fortalecer a economia de Telavive. Mais vocal foi o presidente da Associação de Manufaturas de Israel, Ron Tomer, que comparou a decisão de Donald Trump ao “abandono de um amigo”.

Por sua vez, a União Europeia não foi propriamente apanhada de surpresa. O Presidente norte-americano tem feito várias ameaças a Bruxelas. A decisão de aplicar 20% em tarifas até foi “simpática”, realçou Donald Trump, que acusou o bloco comunitário de “pilhar” os EUA. “Parecem muito simpáticos, mas roubam-nos à descarada”, atirou o líder norte-americano.

Outros aliados históricos de Washington na Ásia também serão afetados de forma substancial pelas tarifas. Donald Trump impôs uma tarifa de 24% ao Japão, enquanto à Coreia do Sul 26%. Em declarações ao New York Times, Kurt Tong, um antigo diplomata norte-americano e consultor no Asia Group, assinalou que os europeus, os sul-coreanos e os japoneses estão no mesmo barco — e estão, de certa forma, dependentes dos Estados Unidos.

▲ Trump assina tarifas no Dia da Libertação

Getty Images

O motivo? Dependem da Defesa norte-americana. Apesar de ter tentando incentivar a sua autonomia, com receio da Rússia, os europeus precisam ainda da NATO. Na mesma linha, o Japão e a Coreia do Sul necessitam da segurança de Washington, devido à ameaça que a China representa na região. Isso significa que não podem retaliar com a mesma intensidade. Como assinala Kurt Tong, a UE, o Japão e a Coreia do Sul enfrentam um “dilema”: “Eles não podem arriscar ter um relacionamento antagónico com os Estados Unidos, mas, por outro lado, estão a ser maltratados [pelos Estados Unidos].”

Donald Trump sabe que a UE, o Japão, a Coreia do Sul e até Israel (ainda que de forma menos expressiva) precisam dos Estados Unidos para garantir a sua segurança. Em consequência, o Presidente norte-americano entende que tem a faca e o queijo de mão — e pode aplicar tarifas elevadas que sabe que desagradarão aos aliados.

China e sudeste asiático: os maiores prejudicados

Para Donald Trump, o principal antagonista dos Estados Unidos na comunidade internacional está bem definido: é a China. Não surpreende, assim, que o país tenha sido um dos mais afetados no “Dia da Libertação”: os EUA vão aplicar tarifas de 34%, juntando-se às de 20% que foram impostas no início do ano. Na totalidade, a taxa sobre os produtos chineses que entrarem em território norte-americano será, a partir de 5 de abril, de 54%.

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▲ China foi o país mais prejudicado pelas tarifas dos EUA

Bloomberg via Getty Images

A China também não é a única afetada por esta guerra comercial — os efeitos também se sentiram  noutras partes do sudeste asiático. Como parte da retaliação, os EUA aplicaram tarifas ao Camboja (49%), ao Laos (48%), ao Vietname (46%), ao Myanmar (44%) e à Tailândia (36%), uma vez que várias empresas chinesas se tinham deslocado para aqueles países para fugirem às tarifas norte-americanas, ou contribuem para a cadeia de abastecimento de Pequim, como lembra a CNN internacional.

Em declarações à Reuters, William Hurst, professor de Desenvolvimento Chinês na Universidade de Cambridge, admite que as “tarifas de Trump certamente não ajudarão as empresas chinesas e vão causar constrangimentos em alguns setores”. O especialista considera, no entanto, que não terão uma grande impacto na economia da China. “As exportações para os EUA já tinham menos importância para a China.”

"As tarifas de Trump certamente não ajudarão as empresas chinesas e vão causar constrangimentos em alguns setores, mas vão incentivar o comércio da China com outros países, desde a Europa, ao Sudeste Asiático e a África."
William Hurst, professor de Desenvolvimento Chinês na Universidade de Cambridge

Aliás, alguns especialistas antecipam que, contrariamente ao que Donald Trump desejava, a China pode sair mais forte. “As tarifas norte-americanas vão incentivar o comércio da China com outros países, desde a Europa, ao Sudeste Asiático a África”, prossegue William Hurst. Simultaneamente, Pequim já ameaçou impor “contramedidas” aos EUA para “salvaguardar os seus direitos e interesses”.

A curto prazo, as tarifas impostas por Donald Trump vão afetar o país que considera que é o maior rival dos Estados Unidos. No entanto, a China vai ter o mundo quase todo ao seu lado em protesto contra a política protecionista de Washington — e pode explorar a frustração que muitos sentem com os EUA para fortalecer a sua posição nas redes de comércio internacional.

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