À volta de Claudemiro Teixeira reúne-se um verdadeiro clã. O espírito de entreajuda consegue suplantar o medo da morte que há anos o invade. Soma doenças várias, mas foi um enfarte agudo de miocárdio que o assustou a sério, abalando toda a estrutura familiar. Os netos dizem que a grande heroína desta história é a avó, Maria do Céu, companheira de Claudemiro há mais de 60 anos. “Se fosse mais nova, se calhar ainda ia estudar Medicina”, diz ela. Para cuidar do marido, pesquisa e informa-se a toda a hora. Cultiva uma horta biológica de que todos se orgulham, quase aboliu o sal e o açúcar da alimentação diária, sabe de cor os exercícios e ensinamentos da equipa de Reabilitação Cardíaca da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria (ULSRL).
Depois, há as filhas, que todos os dias passam lá em casa para garantir que haverá amanhã. E há os netos, já adultos, que montaram um ginásio ao avô. Mas também os bisnetos, cuja companhia funciona como antídoto para o desânimo. A par da família, há um médico cardiologista que o doente considera “outro filho”, e toda uma equipa na ULSRL.
Claudemiro atravessou o oceano para combater numa guerra que não era sua, e de lá, de Angola, trouxe esta família rede. Aos 84 anos, trava todos os dias uma batalha pela vida e pela longevidade.
A 19 de maio de 2023, quando regressava a casa com o marido, em passo lento de caminhada pelas ruas de Vieira de Leiria, no concelho da Marinha Grande, Maria do Céu Teixeira sentiu o chão a fugir-lhe. O marido, Claudemiro, que há 30 anos luta contra várias doenças — e por causa delas vive sem parte de um pulmão e do fígado — queixou-se de uma dor no peito. Chegados a casa, a dor parecia irradiar para as costas. Maria do Céu, 76 anos, habituada a cuidar do marido — e de toda a família — percebeu que as queixas se agudizavam e ligou às filhas. Em menos de nada estavam à porta de casa do pai para o levar ao hospital.
Chegadas à urgência do Hospital de Santo André (HSA), atual ULSRL, aguardaram na sala de espera, ao lado da mãe. “Tínhamos ido a Roma há pouco tempo, estávamos muito felizes, ainda hoje não percebo como aconteceu o enfarte”, diz ao Observador Maria do Céu. Um mês antes, a 19 de abril, o marido estivera na consulta do cardiologista Alexandre Antunes (que o acompanha há anos) “e estava tudo bem”. Mas naquele dia de maio, mês do coração, duas artérias que irrigam o órgão ficaram bloqueadas.
Não demorou muito até ser feito o diagnóstico: “O seu marido teve um enfarte”. Por mais que a experiência pudesse amenizar estas notícias, Maria do Céu preparou-se para reviver as angústias que habitam os corredores hospitalares. Porque 30 anos antes, o marido fora operado a um pulmão, depois a um abcesso amebiano do fígado [uma infeção causada por uma bactéria], sem contar com as cirurgias aos ombros e ao canal cárpico, em ambos os pulsos.
O marido haveria de ficar internado durante uma semana na sequência do cateterismo. Ao longo desses dias, Maria do Céu não arredou pé do hospital. Levava-lhe a comida confecionada em casa para garantir que se alimentava. “Ele sempre foi muito esquisito, muito difícil para comer”, diz. Ficava até à hora de visita seguinte. Ao final do dia, uma das filhas chegava com o jantar.
Maria do Céu conta que foi aprimorando esta apetência de cuidar. “Há muitos anos que me tornei cuidadora. Cuidei da minha mãe até aos 101 anos, do meu pai até aos 93. Assim, cuidar do meu marido foi uma coisa natural”, afirma, ela que é oito anos mais nova, embora dividam o dia de aniversário: 14 de dezembro.
Quando Claudemiro teve alta e voltou para casa, Maria do Céu esmerou-se ainda mais na cozinha: “Utilizo apenas produtos biológicos, tudo plantado e colhido por mim. Pouca carne, muito peixe — que compramos ali mesmo, na Praia da Vieira, acabado de sair do mar — e muito pouco sal”. Para juntar ao rol de doenças que apoquentam o marido, há ainda a diabetes. Nos bolos caseiros que ocasionalmente faz, Maria do Céu corta mais de metade do açúcar indicado na receita. E faz de conta que não vê quando uma das filhas traz um bolo de pastelaria ao pai, às escondidas.
Separa a medicação e é ela quem controla as tomas, num total de sete medicamentos por dia. Ao quadro clínico do marido junta-se ainda a apneia do sono. “Já tinha sido diagnosticada, mas depois do enfarte piorou muito. Agora dorme com uma máscara.”
Quando Claudemiro foi chamado pela Unidade de Reabilitação Cardíaca da ULSRL (que haveria de lhe devolver muita qualidade de vida), algumas semanas depois do enfarte, Maria do Céu assumiu o papel de acompanhante em toda a parte. Foi assim que percebeu a importância da caminhada de 30 minutos, duas vezes ao dia. Foi ela o motor desse exercício diário, que se mantém. E foi lá, com a equipa multidisciplinar, que aboliu velhos hábitos na confeção dos alimentos, como aquele de “colocar uns bagos de arroz ou massa na sopa”.
O casal diz que sempre foi muito cuidadoso com a saúde, mas à medida que os anos passam e as doenças de Claudemiro se multiplicam, tem redobrado cuidados. “O meu marido tem muito medo de morrer. Eu não, mas ele tem. E então faz de tudo para se manter cá o máximo tempo que puder. Eu tento dizer-lhe que não estamos cá para a vida inteira… mas não é fácil.” É muito cumpridor com os cuidados com a alimentação e com a caminhada. “Faz tudo o que os médicos mandam.” Trocam mensagens amiúde com o cardiologista, “sempre que surge alguma dúvida ou quando alguma coisa não está bem”, afirma Maria do Céu.
A mais velha das duas filhas do casal recorda os dias em que a família se revezava para ajudar no bem-estar do pai, depois do enfarte. Anabela Teixeira afligiu-se muito com o episódio, mas no hospital percebeu “que ele estava em ótimas mãos”. Quando compreendeu a importância do exercício físico na reabilitação cardíaca, a família aderiu à compra dos equipamentos para ter em casa. “Comprámos todos uma passadeira elétrica”, recorda Anabela. O enfarte do pai funcionou como gatilho para que toda a família adotasse hábitos de vida mais saudáveis, fosse no exercício ou na alimentação. “Trouxemos do hospital as imagens que explicavam como fazer e tentávamos que o meu pai fizesse igual, tal e qual como se fosse lá, na reabilitação”.
Anabela mora mais longe dos pais do que a irmã, já a caminho da Praia da Vieira. “Naqueles meses seguintes, tanto eu como a minha irmã, vínhamos a casa dos pais, e por vezes, os nossos maridos também”. O enfarte teve o condão de unir ainda mais aquela família, onde é “um por todos e todos por um. Se dói uma unha do pé a um, dói a todos”, explica. “Não há dia nenhum que não fale com eles para saber como estão, se precisam de alguma coisa. Posso dizer que somos filhas verdadeiramente presentes, sim”.
Apenas um ano separa as duas filhas de Claudemiro e Maria do Céu, uma delas já avó, apesar dos 58 e 59 anos, respetivamente. Cresceram muito juntas, e por ironia do destino acabaram a trabalhar na mesma conservatória de Registo Civil, na Marinha Grande. Moram perto dos pais, o que facilita o contacto diário.
De entre todos os membros da família, Paula era aquela que melhor percebia do tema enfarte, ou de como importa uma rede de apoio no tempo seguinte: o marido, treinador de futebol, tinha sofrido um há seis anos. “Eu já conhecia o processo e talvez por isso me preocupasse tanto”. Além disso, conhecia bem o pai. Nos dias em que esteve hospitalizado, também ela lhe levava a comida que sabia ser do agrado dele. Usava a hora de almoço para o visitar. Depois acabou por tirar uns dias de férias, para poder apoiar a mãe na recuperação do pai.
Ainda hoje, quase dois anos depois, Paula e Anabela ligam “várias vezes por dia”, para saber como está Claudemiro. Admite que nunca mais conseguiu relaxar por completo nem levantar o pé da preocupação. “Às vezes, basta a minha mãe ligar um pouco mais tarde, que já me parece fora de horas e temo logo que lhe tenha acontecido alguma coisa”.
“Uma das coisas que ele aprendeu foi a comer melhor: mais peixe do que carne. E antes não era assim”, explica Paula. A família tem esse “luxo” de viver ao pé do mar, e encomendar o peixe diretamente ao mestre da embarcação. Dentão é o preferido de Claudemiro. “A minha mãe faz com aquele tempero à moda de Angola, antes de pôr a assar. Sendo saudável, também é saboroso.”
Todo o percurso académico do neto Fábio, 30 anos, foi feito na área da criminologia, embora profissionalmente tenha enveredado por outra vida: é perito numa seguradora. Fala com o filho ao colo, um bebé de quatro meses, a alegria da casa nos fins de semana em que a família consegue reunir-se por inteiro. Fábio mora em Lisboa com a mulher e o filho e era lá que estava quando a mãe lhe ligou a avisar do enfarte do avô. A ligação familiar foi sempre muito forte. Fábio e os primos cresceram todos ali, entre a horta da avó e a oficina do avô. Tanto assim é, que chegaram a ir de férias juntos, sem os pais. Agora que já são adultos, e alguns vivem mais longe, também eles, netos, ligam “quase todos os dias”.
Depois de saber do enfarte, precisou de ganhar coragem para ir visitar o avô. “Acho que nessa semana não consegui fazer nada, nem um dia consegui trabalhar”, recorda. Quando voltou a Vieira de Leiria e percebeu que o avô recuperava com ajuda da reabilitação, ele, a mulher e os primos uniram esforços: “Montámos um miniginásio ao meu avô, com a passadeira, a bicicleta, uma televisão, tudo o que precisa para o exercício”.
Fábio já vira o caso do pai, agora o do avô, e por isso vai subindo de tom “aquela campainha a dizer-me que também eu tenho que fazer exercício e ter mais cuidado”, diz. Como é fumador, sabe que isso representa um risco acrescido. E elenca os vários membros da família paterna que sofreram de doença cardíaca. “Falta cair-me a ficha”, admite. E olha para o avô “como um exemplo”. “Porque mesmo com esta idade, faz exercício todos os dias”.
O pequeno Nathan tinha apenas cinco anos quando o bisavô sofreu o enfarte, mas lembra-se bem dos dias passados lá em casa. Depois dos netos, são agora os bisnetos quem ocupa a casa da família Teixeira. E este foi fundamental na recuperação do “tátá” — como lhe chama, desde sempre.
“Eu gosto que ele me construa carrinhos de madeira. E fico ali com ele a falar, a falar…”, conta Nathan, que aos dois anos começou a juntar as letras e a ler. Agora, aos sete, no primeiro ano da escola, lê tudo sem hesitações. Gosta mais de português do que de matemática, e talvez por isso discuta as contas com o avô, na pequena oficina onde são construídos os brinquedos de madeira — um passatempo de Claudemiro.
“Lembro-me que quando ele ficou doente do coração tinha de ter mais cuidado, não podia esforçar-se muito”, recorda Nathan, numa alusão ao cansaço, à função cardíaca então comprometida.
Nas conversas, foi ouvindo e captando ensinamentos: “A avó Céu já me explicou que temos de ter muito cuidado com o coração, por exemplo, com a comida. E eu, às vezes, como muito, gosto muito de doces, e isso não é bom”. Para compensar, esforça-se como extremo-direito da equipa de infantis do Industrial Desportivo Vieirense porque quando crescer quer ser jogador de futebol. Tem um ídolo, desde muito pequeno: Cristiano Ronaldo. E uma inspiração – o tátá Claudemiro.
Se é certo que a cardiologia desempenha um papel vital no programa de reabilitação cardíaca, não menos importante é cada uma das valências deste projeto da ULSRL. É o caso da Medicina Física e de Reabilitação, a cargo da médica Filipa Januário, que bem se lembra de quando recebeu no consultório Claudemiro Teixeira, referenciado pelo cardiologista Alexandre Antunes. “O objetivo era ser integrado num programa de Reabilitação Cardíaca, que consiste numa intervenção multidisciplinar [que inclui profissionais de várias áreas e especialidades], que compreende a educação do doente, o controlo de fatores de risco cardiovascular, o aconselhamento sobre atividade física e a prescrição de exercício”, recorda.
Nesta consulta, “há uma avaliação biopsicossocial do doente, que inclui a análise dos exames complementares de diagnóstico efetuados; a realização de exame objetivo do sistema cardiorrespiratório, musculoesquelético, neurológico e estado nutricional, bem como avaliação das condições psicológicas e sociais, qualidade de vida e limitações no quotidiano, hábitos de atividade física e sedentarismo”, acrescenta Filipa Januário. E sublinha que “nos doentes idosos, como o Sr. Claudemiro, é importante observar se existe fraqueza muscular e questionar a existência de outras doenças que são mais prevalentes nesta faixa etária”. Foi o que fez. Recorda dessa época “um doente muito motivado e cumpridor das orientações dadas durante o programa de Reabilitação Cardíaca”.
Filipa Januário especializou-se em Medicina Física e de Reabilitação, em 2013. Um ano depois ingressou nos quadros do Centro Hospitalar de Leiria. Desde o início integra a Unidade de Reabilitação Cardíaca, criada em 2017, a par de outros profissionais de saúde, como fisioterapeutas, enfermeiros e nutricionistas, e enfatiza a importância da equipa multidisciplinar. No caso dos doentes idosos, a sua área ganha especial relevo, por se tratar de pessoas que normalmente têm associada “patologia musculoesquelética”.
Esta intervenção terapêutica é proposta, e se o doente aceitar, avança-se para o programa de Reabilitação Cardíaca, adianta a fisiatra. “O que acontece é que o nosso tempo de espera pode demorar alguns meses”, explica, adiantando que a ULSRL partilha os mesmos dilemas da realidade nacional. Segundo o Grupo de Fisiopatologia de Esforço e Reabilitação Cardíaca da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), esta não é uma área de fácil desenvolvimento em Portugal. Os números comprovam que estamos longe da taxa de participação de doentes recomendada — que se situa acima dos 30%. “Em 2014, apenas 8% dos doentes com enfarte acediam a programas de RC, e em 2019, o número de doentes cardíacos incluídos era de 9,3%”, pode ler-se no site da SPC.
“Infelizmente, nem todos os doentes têm acesso à reabilitação”, diz. E acrescenta que durante o mês de abril deste ano, a equipa conseguiu unir esforços para duplicar a oferta em termos de vagas que o hospital tem para estes programas — que ainda não é suficiente para as necessidades identificadas — e são avaliadas caso a caso. Assim, foi possível adicionar um segundo grupo ao já existente (cada um com oito doentes). Tal foi possível também devido à ajuda de duas empresas da região de Leiria, o que possibilitou a compra de equipamentos. “O gerente de uma delas foi nosso utente e assistiu às nossas limitações em termos de material”, diz.
“Com isso, estamos a conseguir diminuir o tempo de espera, que era maior no mês passado. A resposta em tempo útil é essencial para termos mais sucesso no tratamento destes doentes”. Alguns são prioritários devido “ao risco, à severidade da doença e a alguns fatores que podem condicionar a chamada mais rápida”. A reabilitação cardíaca, diz a médica fisiatra, “melhora a capacidade de fazer exercício e a qualidade de vida”. E, muito importante, “reduz a mortalidade”.
Quando uma médica do serviço de urgência do HSA lhe comunicou que sofrera um enfarte agudo de miocárdio, e que precisaria de ser submetido a um cateterismo [procedimento médico que permite observar e desobstruir as artérias], Claudemiro Teixeira teve um duplo sentimento: “Por um lado, a sorte de estar vivo, de sobreviver ao ataque cardíaco. Por outro, pensei: já tenho bem a minha conta de doenças, passava bem sem isto”. O resto não eram mazelas da idade, como se possa pensar. Até determinada altura foi “um rapaz saudável”, nascido nos arredores do Porto, que se enamorou de Maria do Céu, em Angola, quando lá combatia na guerra do Ultramar. Nesse tempo “comia duas travessas de bifes com batatas fritas”, como recorda. Foi lá que casaram e tiveram as duas filhas, e contavam viver por muitos anos, não fora a independência do território.
Chegado a Portugal, com o rótulo de “retornado”, Claudemiro e a mulher arranjaram emprego na secretaria da Escola Secundária da Vieira de Leiria, onde a família dela os acolheu. Ao mesmo tempo, dedicou boa parte da vida ao associativismo, ao leme da direção dos Bombeiros Voluntários. Na viragem da idade, por volta dos 50 anos, começaram os problemas de saúde. As dificuldades respiratórias persistentes acabaram na sala de operações do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, atual Unidade Local de Saúde de Coimbra, às mãos da equipa do cirurgião Manuel Antunes. “Tiraram-me um quarto do pulmão”, recorda.
Mais tarde, haveriam de lhe diagnosticar uma infeção causada por uma bactéria [abcesso amebiano] “talvez provocada pelas águas de Angola”, que levou à remoção de uma parte do fígado. Mas haveria de ser o coração a traí-lo, aos 82 anos. O enfarte deixou sequelas, que a equipa multidisciplinar da Reabilitação Cardíaca conseguiu reverter, apesar da idade. “Foi essa equipa que me devolveu anos de vida”, explica Claudemiro, elencando o conjunto de médicos e técnicas que o acompanharam.
Foi vencendo o cansaço pelos exercícios diários, pelas caminhadas, pela mudança na alimentação. Agora todos os dias tem esse objetivo, de se exercitar. “Dou a minha volta diariamente, e com cada vez menor dificuldade”, conta. O casal é proprietário de uma sapataria na vila, que funciona como antídoto para o sedentarismo. Em casa, Claudemiro dedica-se ao que gosta de fazer: objetos em madeira. Todos os netos e bisnetos têm brinquedos feitos à mão por este avô, cujo coração tem sempre espaço para mais um.
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