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As duas maiores economias do mundo, cuja rivalidade se transformou em conflito aberto devido à “guerra comercial” iniciada por Trump, entraram num processo de divórcio litigioso que será “um desastre” para essas duas economias – a EUA e a China – mas que ameaça, também, desestabilizar as outras, incluindo a europeia. Os académicos e analistas financeiros ouvidos pelo Observador recusam a ideia de que o confronto entre as duas potências possa ser comparado a uma luta de boxe, em que cada lutador desfere golpes no adversário até que um caia e o outro saia vencedor. Dadas as interligações profundas entre as duas economias, uma analogia mais apropriada é a da divisão de um átomo, capaz de gerar uma explosão com estilhaços em todo o mundo.
O mundo caminha para um “desacoplamento económico descontrolado entre as suas duas maiores economias”, escreveram os economistas do Deutsche Bank numa nota enviada aos clientes no início da “guerra comercial” em curso. Mas João César das Neves, professor catedrático de Economia na Universidade Católica, defende que “as economias dos EUA e da China estão de tal maneira integradas que tentar separá-las, mesmo num horizonte de cinco anos, não seria fácil – obviamente, fazer isso de um dia para outro parece-me ser completamente impossível”.
“Nunca tivemos, desde Roma e Cartago [que travaram as Guerras Púnicas entre 264 a.C. e 146 a.C] até à rivalidade entre os EUA e a URSS nos anos 50/60, duas potências que se digladiam [economicamente] ao mesmo tempo que têm tanta interpenetração económica entre as duas”, salienta João César das Neves, acrescentando que “ambos são clientes e fornecedores um do outro, em simultâneo, vendem muita coisa um ao outro e dependem muito um do outro”.
É isso que faz com que esta “guerra” – que é comercial mas, também, geopolítica – seja algo que “nunca aconteceu na História”, afirma o professor da Católica, destacando, também, o facto de a China ser detentora de uma grande parte da dívida federal norte-americana – o segundo maior credor estrangeiro dos EUA, depois do Japão, com 761 biliões de dólares em Treasuries, segundo os últimos dados disponíveis.
Houve, aliás, suspeitas de que a China poderia ter despejado nos mercados parte dessa dívida, contribuindo para fazer subir os juros da dívida norte-americana e, dessa forma, levar Trump a recuar (com a “pausa” por 90 dias nas “tarifas recíprocas” aplicadas a quase todos os países). Mas, tenha a China tido, ou não, um papel nesse processo, o resultado é que as taxas alfandegárias cobradas nas importações chinesas não foram suspensas – pelo contrário, foram agravadas ainda mais. E os efeitos disso já se estão a fazer sentir.
“Para a economia norte-americana, isto é uma catástrofe”
Mais de 16% de todas as importações de bens que entram, anualmente, nos EUA são provenientes da China – país que supera até os vizinhos Canadá e o México como maior fornecedor de bens, em termos nacionais, para os EUA.
Para a economia americana, a entrada de bens chineses nas últimas décadas deu ao consumidor acesso a produtos mais baratos, libertando rendimento disponível aos norte-americanos, ajudando a controlar a inflação e permitindo que a economia dos EUA apostasse em setores mais inovadores, de maior valor acrescentando. É por isso, diz João César das Neves, que esta “guerra comercial” é “um desastre que pode dar cabo das relações económicas que se desenvolveram a nível global e está, sobretudo, a afetar de forma gravíssima a economia americana – para a economia americana, isto é uma catástrofe“.
No último quarto de século, desde que a China entrou na Organização Mundial do Comércio, os produtos chineses conseguiram ter grande penetração na economia norte-americana, muito assente no consumo privado – um caminho que já tinha começado em 1979, quando os dois países assinaram um acordo comercial. Um efeito colateral disso foi que o setor industrial perdeu postos de trabalho essencialmente em algumas regiões que nas gerações anteriores tinham sido o coração pulsante da indústria dos EUA – embora a economia, como um todo, tenha crescido a uma média anual de 2,1% desde 2000 (valor já descontado da inflação).
Gerou-se um gigantesco desequilíbrio na balança comercial de bens: os EUA exportam anualmente 144 mil milhões de dólares em bens para a China, ao passo que em sentido contrário viajam 439 mil milhões. Para Trump, este desequilíbrio da balança comercial (de bens) significa que a China tem vindo a “roubar [os EUA] à descarada” – embora o Presidente dos EUA não refira que, nos serviços, os EUA têm com a China um excedente de 278 mil milhões (2023), sobretudo turismo e serviços empresariais e financeiros.
Organização Mundial do Comércio passa a prever uma contração do comércio global de bens
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A Organização Mundial do Comércio (OMC) alertou na quarta-feira que as perspetivas para o comércio global se “deterioraram acentuadamente” fruto das mudanças tarifárias determinadas pelo Presidente dos EUA, Donald Trump.
No relatório “Perspetivas e Estatísticas do Comércio Global”, a OMC estima, com base nas tarifas atualmente em vigor (e considerando a suspensão de 90 dias das “tarifas recíprocas”), o volume do comércio mundial de bens deverá cair 0,2% em 2025, podendo, depois, registar uma recuperação “modesta” de 2,5% em 2026.
A nova estimativa de um declínio de 0,2% no comércio mundial (de bens) em 2025 é quase três pontos percentuais inferior ao que teria sido num cenário de base de “tarifas baixas”, acrescenta a OMC, que acrescenta que o declínio será particularmente acentuado na América do Norte, onde as exportações deverão cair 12,6% este ano.
A China, por seu lado, aplicou os proveitos da exportação de bens para os EUA e para o resto do mundo no desenvolvimento das suas infraestruturas e na compra de ativos noutras geografias, nomeadamente garantindo um acesso – agora e no futuro – aos recursos naturais de que o país necessita para continuar a desenvolver-se. Convicto de que a China, embora perca economicamente, está a ter ganhos diplomáticos importantes, João César das Neves argumenta que os chineses “estão a usar isto para mostrar ao terceiro mundo que os EUA são aquilo que eles sempre disseram que eles eram, a confirmar todo o mal que a China sempre disse sobre eles”.
Cenário “extremo”, mas “plausível”, pode tirar 1,6% ao crescimento mundial
Um cenário extremo nesta “guerra comercial”, em que as tensões comerciais continuam a escalar e as negociações em curso não atenuam as “tarifas recíprocas” anunciadas (e suspensas) por Trump, poderá fazer esfumar 1,6 pontos percentuais ao Produto Interno Bruto (PIB) global, calcula a consultora financeira britânica Capital Economics num exercício de previsão de vários cenários.
Embora extremo, esse cenário é “plausível“, sublinha a consultora financeira, salientando que isso é mais do que os 1,5 pontos percentuais que se estima que a crise da dívida soberana europeia tenha retirado ao ritmo de crescimento global, na década passada. Nesse cenário, “o PIB global iria crescer 2,2% em 2025 e 2,3% em 2026, o que seria mais baixo do que o crescimento mundial em 2008 [o ano do colapso do Lehman Brothers] e sensivelmente o mesmo crescimento que houve em 2001 após o estouro da ‘bolha das dotcom‘”.
Com as tarifas aplicadas pelos EUA e pela China, que já atingiram níveis que há poucos meses seriam considerados inimagináveis, muitos produtos que a “fábrica do mundo” se acostumou a produzir nas últimas décadas vão ter um caminho mais difícil até ao consumidor norte-americano. Esse consumidor já sofreu um aumento médio de 24% nos preços nos últimos cinco anos, devido ao surto inflacionista, e agora poderá ter de pagar mais para ter acesso a alguns bens do dia a dia.
Mobília, eletrodomésticos, peças industriais e brinquedos são alguns dos principais produtos produzidos pelas fábricas sediadas na costa leste da China e que, agora, arriscam ficar sem destino viável. Se as tarifas aplicadas por Donald Trump – as que já foram anunciadas ou, eventualmente, outras que venham a ser lançadas se a escalada na “guerra comercial” continuar – a China irá ver-se numa situação de excesso de capacidade industrial.
O conflito comercial lançado por Donald Trump apanha a economia chinesa numa fase “muito frágil”, com desafios demográficos e uma “bolha” imobiliária que se está a tentar esvaziar de forma controlada – o que já seria uma missão difícil se se mantivesse o “crescimento sincronizado” em que a economia mundial tem vivido mas será ainda mais complicado se se confirmarem os receios de estagnação ou, mesmo, recessão.
Além disso, desde a pandemia de Covid-19 a China perdeu investimento estrangeiro, tendo-se tornado cada vez mais difícil nos últimos anos fazer negócios naquele país devido às apertadas regras de segurança nacional que constrangem a atividade das empresas. João César das Neves admite, no entanto, que, “com isto, até pode aumentar a confiança e a união dentro da China – quando se arranja um tipo lá fora para atirar as culpas de muito do mal que acontece, as coisas ficam mais fáceis. Aliás, Fidel Castro viveu assim 50 anos, atirando as culpas para o vizinho americano”.
Também ouvido pelo Observador, Manuel Caldeira Cabral, ex-ministro da Economia (de António Costa), defende que este “desacoplamento descontrolado” é um “processo extremamente negativo para o mundo ocidental porque os EUA e a Europa unidos são muito maiores do que a China“, ou seja, “conseguem liderar um bloco que traz consigo a América do Sul e partes da África” e “trazer para o seu lado a Índia, outros países asiáticos como o Japão e também a Austrália, por exemplo”.
Agora, “esta mudança radical dos EUA, em que a administração Trump defende o contrário do que os EUA sempre defenderam, é uma clara ameaça à ordem mundial que foi criada e imposta pelos EUA, baseada no liberalismo, no multilateralismo e num sistema em que os países mais desenvolvidos sempre deram algumas vantagens aos países menos desenvolvidos”, afirma Manuel Caldeira Cabral, acrescentando que “ao nomearem como inimigos os países que têm sido aliados, os EUA estão a dividir radicalmente o mundo ocidental, tornando o mundo ocidental mais pequeno e tornando também os EUA mais pequenos”.
“É uma nova ordem internacional estranha em que o até agora líder não só não quer liderar como quer destruir o bloco que tanta prosperidade lhe deu“, remata o ex-ministro da Economia. Já a China, depois de décadas em que limitou o investimento estrangeiro na sua economia e subsidiou as suas empresas até garantir que estas tinham o músculo necessário para concorrer nos mercados exteriores, agora aproveita esta “guerra comercial” lançada pelos EUA para aparecer como o defensor do comércio livre e aberto.
Xi duro de roer. China não mostra medo do conflito e resposta vai além das tarifas
Vários países visados pelas tarifas estão a assumir uma atitude mais conciliatória, embora alguns – como o bloco europeu – estejam a mostrar que, mesmo a contragosto, estão disponíveis para retaliar. Mas a China tomou uma abordagem mais confrontacional, respondendo a cada novo aumento de tarifas anunciado por Trump em algumas horas ou, no máximo, em poucos dias.
“O céu não vai cair.” China reage às tarifas de forma firme, paciente — e com memes na internet
A retórica de Pequim é dura: a China garantiu, desde a primeira retaliação às tarifas anunciadas por Donald Trump no seu “Dia da Libertação” (2 de abril), que irá “lutar até ao fim”. As tarifas impostas sobre as importações da China, por Donald Trump, já ascendem a 145% (sem contar com outras tarifas, como as lançadas devido ao fentanil) – e, em sentido contrário, os produtos feitos nos EUA passaram a pagar uma taxa alfandegária de 125% quando entram na China.
Trump sabe que tem em Xi Jinping um rival duro de roer. O Presidente chinês não só sobreviveu como triunfou nas purgas políticas do partido comunista chinês no final do século passado. E, embora as ideias de política externa de Trump sejam completamente diferentes das de presidentes como Joe Biden ou Barack Obama, aos olhos de Xi Jinping todos os líderes norte-americanos partilham o mesmo sonho: derrubar o regime que controla a China.
Mas o próprio Xi Jinping tem evitado falar, em viva voz, sobre esta “guerra comercial”. Todas as declarações e respostas aos EUA têm sido protagonizadas por membros do governo e Xi Jinping só nos últimos dias apareceu, ao lado do espanhol Pedro Sánchez, a lembrar que “não há vencedores” nas guerras comerciais – e pedindo à Europa que, ao lado da China, combata o bullying tarifário.
Até então, os jornais chineses (submissos ao regime) apenas vinham recuperando algumas declarações de Xi Jinping durante a primeira guerra comercial de Trump, em 2018, como quando declarou que “a economia chinesa é um oceano, não é um lago”.
▲ Xi Jinping, o Presidente chinês, disse em 2018, na primeira guerra tarifária iniciada por Trump, que "a economia chinesa é um oceano, não é um lago".
NICOLAS ASFOURI/AFP via Getty Images
A resposta da China às tarifas de Trump não tem sido dada apenas através das taxas alfandegárias: Pequim deu entrada de uma queixa na Organização Mundial do Comércio e, ao mesmo tempo, colocou várias empresas norte-americanas numa lista de “entidades não confiáveis”, impedindo-as de operar na China. Pequim chegou ao ponto de recomendar aos seus cidadãos que não viajem para os EUA, como turistas ou como estudantes.
Além disso, a China suspendeu as exportações de uma vasta gama de minerais e ímanes, noticiou nesta segunda-feira o The New York Times. Essa suspensão ameaça cortar o fornecimento de componentes essenciais aos fabricantes de automóveis, fabricantes aeroespaciais, empresas de semicondutores e forças militares em todo o mundo.
Os materiais em causa são, segundo o jornal, usados para montar vários produtos desde carros e drones até robôs e mísseis. Mas a saída destes produtos de vários portos chineses foi interrompida até que o governo chinês elabore um novo sistema regulamentar para a sua venda ao exterior. O risco, provável, é que esse novo sistema possa impedir permanentemente que os fornecimentos cheguem a determinadas empresas, incluindo as empresas militares americanas.
Importadores cancelam encomendas. Fábricas chinesas mandam trabalhadores para casa
Todos os anos circulam entre um país e outro quase 600 mil milhões de dólares em bens, um valor que, agora, deverá inevitavelmente descer. Segundo o The Wall Street Journal, já há fábricas nos EUA a cancelar encomendas e na China há já indústrias a mandar os trabalhadores para casa.
O jornal dá como exemplo o caso de um importador californiano de materiais para eletrodomésticos que, ao serem anunciadas as novas tarifas por Donald Trump, falou com o fornecedor chinês de placas de alumínio para tentar travar a última encomenda regular que tinha feito e que, quando chegar aos EUA, já irá pagar as taxas agravadas. Já não foi a tempo de cancelar a encomenda mas, diz o empresário, a menos que haja um acordo político para acabar com a “guerra comercial”, esta foi a sua última encomenda.
E depois? Onde é que esse empresário, que se chama Arlen Nercessian, vai buscar as placas de alumínio de que precisa? “Não tenho qualquer hipótese de arranjar isto aqui nos EUA”, respondeu, admitindo que a busca de alternativas poderá obrigá-lo a dispensar colaboradores e poupar custos de outras formas, incluindo deixar de viajar para as feiras onde habitualmente promove os seus produtos.
São histórias como esta que levaram um dos banqueiros mais poderosos do mundo, Jamie Dimon, líder do JPMorgan Chase, a aproveitar uma entrevista ao canal televisivo favorito de Trump – a Fox News – para dar conta da “conversa recessionária” que lhe chegara aos ouvidos. Essa “conversa recessionária”, que Dimon estará a ouvir dos empresários, levou o banqueiro a considerar que o “cenário mais provável” para os EUA seria uma recessão, caso nada fosse feito. Horas depois, Trump anunciava a “pausa” de 90 dias nas tarifas a todos menos à China.
Isso aconteceu na semana anterior. Nesta última, Jamie Dimon deu outra entrevista, desta feita ao Financial Times, onde instou Donald Trump a abrir uma linha negocial com a China. “Penso que neste momento não há qualquer negociação a decorrer – e não é preciso esperar um ano para que isso aconteça, pode ser algo a iniciar amanhã”, afirmou o presidente do JP Morgan Chase. Até ao momento, porém, nem Trump nem Xi Jinping quiseram dar parte de fraco e pegar no telefone para iniciar uma negociação.
▲ Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, terá sido decisivo para levar Trump a "pausar" as tarifas. E, agora, pede um diálogo entre os EUA e a China.
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Os dados das transportadoras marítimas também já estão a mostrar um abrandamento do comércio entre os EUA e a China. As reservas diárias de transporte de cargas entre os EUA e a China caíram em cerca de 25% desde o final de março (em comparação com o mesmo período do ano passado), de acordo com os números da plataforma Sonar Container Atlas. Além dos importadores norte-americanos que estão a cancelar encomendas, outros estão a manter os produtos em armazéns, tentando adiar ao máximo o pagamento das tarifas à espera que elas possam, de um momento para o outro, ser eliminadas ou substancialmente reduzidas.
Do outro lado da barricada, o The Wall Street Journal falou com o gestor de uma fábrica de brinquedos e peluches em Shenzhen, no sul da China, que revelou que, entre 70% e 80% da faturação da empresa é obtida nos EUA, e que, com as tarifas lançadas por Trump, as encomendas podem deixar de chegar. Outra fábrica, em Guangdong, já mandou os trabalhadores para casa devido ao “profundo choque causado pelas novas políticas comerciais”, segundo um email interno da empresa citado pelo jornal norte-americano.
Até a gigante Amazon já cancelou algumas encomendas a produtores chineses, depois de as tarifas terem sido anunciadas, noticiou o The Wall Street Journal. “A China vai sofrer muito com isto porque, de facto, exporta muito para os EUA e mesmo o que exporta para países como o México, muitas vezes, são produtos que depois acabam nos EUA”, afirma Manuel Caldeira Cabral. Se, por um lado, “a China vai ficar com excesso de capacidade, por outro lado em algumas áreas vamos ter indústrias americanas paradas por falta de componentes que são fabricados na China”, acrescenta o economista.
Os empresários dos EUA receiam que mudar a produção da China para os EUA não é uma opção viável sobretudo porque as políticas anti-imigração de Trump também podem comprometer essa pretensão pela escassez de mão de obra. Além disso, há quem tenha dúvidas em avançar com pesados investimentos pela eventualidade de, depois, ficar prejudicado por alguma alteração na orientação política de Trump – ou, mesmo, uma possível mudança da maré política daqui a três anos e alguns meses, que possa reverter tudo isto.
“Porque é que devemos investir milhões de dólares na adaptação a uma política que, depois, muito provavelmente irá falhar ou ser alterada?”, afirma ao The Wall Street Journal Jacob Rothman, empresário que opera na China e em outros mercados asiáticos, exportando para os EUA.
Por outro lado, com a retaliação chinesa, o setor agro-pecuário norte-americano irá enfrentar maiores barreiras na exportação de produtos como carnes e soja. No primeiro mandato de Trump, quando este aplicou tarifas à China (que hoje parecem comparativamente suaves), esse setor já se ressentiu das medidas retaliatórias que Pequim lançou – o que levou a que a (primeira) administração Trump tenha tido de dar apoios setoriais que quase igualam a receita obtida com as tarifas pagas à entrada nos EUA.
“Não é bluff”. Trump tem economia para suportar a “dor” de “ir até ao fim” nas tarifas
À medida que a “guerra comercial” sobe de tom, o risco é que Trump decida apertar a pressão sobre a China impedindo os bancos e outras empresas de serviços financeiros de operar nos EUA. A Casa Branca poderia, também, exercer a sua influência para tentar expulsar os bancos chineses do sistema internacional de pagamentos SWIFT, uma sanção que foi aplicada à Rússia poucas semanas após a invasão da Ucrânia.
A gravidade do impacto na economia, porém, é o que leva João César das Neves a acreditar que esta “guerra comercial” não irá durar muito tempo e, a dada altura, Trump terá de recuar. “Isto não é sustentável, não é possível manter uma coisa destas muito tempo”, diz o professor da Católica. “O impacto é de tal maneira devastador no bem-estar das pessoas, na produção, que é puramente impossível continuar a tomar medidas com base nos delírios de um louco, auto-centrado, narcisista e que tem uma visão económica tacanha, mercantilista, do século XVI, e que não faz a mínima noção do impacto que isto está a ter na economia”.
“Consequências graves” para a economia global. Europa receia inundação de produtos chineses
As “perturbações significativas no comércio entre os EUA e a China terão consequências graves” para a economia mundial, não apenas para os EUA e para a China, avisou a agência Morningstar DBRS numa nota publicada a 10 de abril. “Embora, provavelmente, todas as regiões do mundo percam [devido à ‘guerra comercial’], a nossa pesquisa revela que as regiões da Ásia e da Europa são as mais expostas a um choque tarifário, ao passo que algumas economias nas Américas e no Médio Oriente estão comparativamente mais protegidas”, acrescenta a agência financeira.
O impacto global vai ser sentido “através de vários canais”, diz a Morningstar DBRS. Numa primeira fase, “a incerteza sobre as políticas deverá enfraquecer a procura global por bens e serviços, à medida que as famílias e as empresas em todo o mundo se retraem no consumo e no investimento até que exista melhor visibilidade sobre as futuras taxas alfandegárias”. Ligado a esse efeito está o risco de “os mercados financeiros se tornarem mais avessos ao risco, levando a maior volatilidade nos fluxo de capitais”.
A Morningstar DBRS prevê que as tarifas mais elevadas – entre aquelas que são lançadas por Trump e as respetivas retaliações – irão “reduzir”, ao mesmo tempo que irão “reorientar”, os fluxos de comércio mundial. “Acreditamos que a reorganização do comércio, que irá resultar, irá levar a perdas de eficiência, o que irá traduzir-se em preços mais elevados para os consumidores”, afirma a Morningstar DBRS, acrescentando que “tanto nos países como nas empresas, emergirão ganhadores e perdedores, ao longo do tempo, à medida que os nossos padrões comerciais se desenvolvem”.
▲ As reservas diárias de transporte de cargas entre os EUA e a China caíram em cerca de 25% desde o final de março.
JEROME FAVRE/EPA
Tentando perceber quem podem ser esses “ganhadores” e esses “perdedores”, a consultora financeira britânica Capital Economics fez um estudo onde concluiu que “poderá haver alguns países que conseguirão ganhar quota no mercado norte-americano”. Dependendo da forma como correrem, nos próximos meses, as negociações para a eliminação ou redução das “tarifas recíprocas”, países como o México, Taiwan, Indonésia, Filipinas e, até, Alemanha e Itália podem vir a ter algum benefício. Mas a Capital Economics salienta que, “mesmo nesses casos, quaisquer benefícios serão contrabalançados” pela pressão que a China irá fazer para exportar os seus produtos.
“A generalidade das economias avançadas não irá ter quaisquer ganhos com as tarifas elevadas lançadas pelos EUA, já que irão ter custos significativos para as suas indústrias internas e ameaças à sua segurança, consequência do contínuo avanço da China”, salienta a Capital Economics, acrescentando que, “à medida que a China tenta redirecionar as suas exportações para outros mercados, as indústrias desses países vão sentir ainda mais pressão – basta ver que os custos unitários do trabalho na China correspondem a cerca de um quinto dos custos em França, por exemplo”.
A União Europeia poderá estar particularmente vulnerável, uma vez que sofre há vários anos com a concorrência de produtos artificialmente baratos vindos da China – desde automóveis até brinquedos e peças industriais – e que, agora, a China irá querer escoar para mercados como o europeu. Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, prometeu “trabalhar construtivamente” com a China, alertando para os “efeitos indiretos” das tarifas norte-americanas e prometendo monitorizar de perto o influxo de produtos chineses.
“Não podemos absorver o excesso de capacidade global nem aceitaremos dumping no nosso mercado”, disse Von der Leyen após a entrada em vigor das tarifas de Trump, reconhecendo o risco de desestabilização da indústria interna – que já tinha os seus problemas antes da investida tarifária dos EUA – devido à previsível concorrência mais agressiva por parte da China.
No caso específico dos automóveis, a União Europeia já aplicou, em outubro, tarifas entre 17% e 38% na importação de veículos da China, além da tarifa-base de 10% e “a expectativa é que as economias avançadas, fora dos EUA, vão continuar a levantar mais barreiras ao comércio e ao investimento com a China, de uma forma localizada e setorial”, diz a Capital Economics.
A imprensa norte-americana noticiou na quarta-feira que a administração Trump tem como prioridade, nas negociações, levar a União Europeia e outros blocos a ajudarem os EUA a isolar a China, evitando também que os produtos chineses usem esses países como “escala”. Mas a Capital Economics duvida que os EUA tenham “muito sucesso em fazer isso com vários países ricos – não podemos esquecer que o Japão e a Alemanha exportam quase tanto para a China como exportam para os EUA”.