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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

'Erik' quis salvar o amigo de uma "provocação fútil" e acabou morto, em Cascais. PJ deteve principal suspeito do esfaqueamento horas depois

'Mark' (nome fictício) seguia para um Alojamento Local quando um grupo o provocou e agrediu. Pediu ajuda a um amigo que veio protegê-lo e que acabou morto. PJ deteve principal suspeito.

Sofía estava a dormir em casa não muito profundamente, como tem acontecido nos últimos meses desde que deu à luz. Levantou-se da cama às 4h, quase instintivamente, para ver se estava tudo bem com a filha. Não ouviu nenhum barulho, mas as luzes repetitivas e azuis que davam cor às paredes da casa causavam-lhe alguma estranheza. Quando se aproximou da janela arregalou os olhos e, ainda estremunhada, assustou-se com o aparato da PSP e com o corpo já tapado na rua Afonso Sanches, bem no centro de Cascais.

“Sou argentina, para mim isto não é impressionante. Mas nunca tinha tido um corpo à porta”, explicou, lembrando, passadas algumas horas, a madrugada desta quarta-feira, quando um turista norte-americano correu em auxílio de um amigo que estava a ser provocado por três pessoas. Os confrontos verbais descambaram em agressões e um dos suspeitos, munido de uma arma branca, atacou violentamente a dupla de estrangeiros.

Turista americano foi morto à facada na madrugada em Cascais. Suspeitos já foram detidos

Uma das vítimas foi esfaqueada com maior agressividade “nos braços” e na cara, como descreveu mais tarde a Polícia de Segurança Pública através de um comunicado. Os agressores fugiram rapidamente num carro que estava estacionado na rua — que, apesar de ser mais conhecida pela oferta de restauração (com muitos cafés e bares), no troço em que aconteceu o crime há apenas dois restaurantes e dois edifícios em obras, além de vários apartamentos, como o de Sofía.

▲ Norte-americanos estavam perto desta árvores quando as autoridades chegaram ao local do crime

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Dado o reduzido movimento noturno naquele espaço — que contrasta com a agitação noturna dos bares espalhados pelas ruas mais próximas —, os suspeitos conseguiram fugir sem serem apanhados, numa fase inicial. Quando a argentina que vive em Cascais há dois anos chegou à janela, já só estavam os polícias, que foram acionados pelas 3h20 e realizaram manobras de suporte básico de vida ao norte-americano que tinha ido em auxílio do amigo. Nada foi possível fazer para reverter a sua condição e o óbito acabou por ser declarado no local.

A Polícia Judiciária — que na Grande Lisboa teve pouco descanso nos últimos dias (depois de ter sido assassinado um menor no Barreiro, esta quarta-feira um irlandês apareceu morto no antigo Casal Ventoso e três pessoas foram baleadas na Amadora) — assumiu as rédeas do caso e conseguiu identificar o carro usado na fuga. Não demorou muito até que os inspetores conseguissem, também, localizar os suspeitos e levá-los para a sede da PJ, em Lisboa, onde foram ouvidos. Apesar de ter sido avançado que todos tinham sido detidos, os responsáveis pela investigação confirmaram que apenas tinha sido detido “um homem de 23 anos, fortemente indiciado da prática de dois crimes de homicídio, um na forma consumada e outro na forma tentada”.

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Portugueses provocaram americano, que chamou amigo para ajudá-lo. Turista acabou esfaqueado até à morte

Mark, de 33 anos, regressava de madrugada ao alojamento local onde se encontrava hospedado no centro de Cascais, depois de um dia a passear por Lisboa com um amigo. Sem que nada o fizesse prever, foi abordado por três portugueses que não conhecia. O grupo provocou o turista e tentou mexer no chapéu que a vítima levava.

Descontente com aquela abordagem, o norte-americano interpelou os suspeitos no sentido de pararem de provocá-lo, o que não só não foi bem recebido, como resultou num escalar de tensão: Mark foi imediatamente agredido com três murros na cara. Sozinho na rua Afonso Sanches e com medo de sofrer mais agressões, telefonou ao amigo que estava a dois minutos (150 metros) dali, no Taj, uma discoteca muito procurada na zona.

Erik, um ano mais velho, foi rápido a sair do espaço de diversão noturna e a subir um troço da Travessa do Visconde da Luz, seguindo em auxílio do amigo agredido —, apesar de ter sido avançado que os dois seriam noivos, a PJ não confirmou essa relação. O norte-americano chegou à rua onde estava Mark e iniciou uma discussão com os três portugueses.

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Mais uma vez, a troca de palavras não foi bem recebida pelo grupo, pelo menos por um dos elementos, que resolveu pegar numa arma branca e atacou barbaramente os dois norte-americanos, com golpes na cara, nos braços e nas costas. Assim que se aperceberam da dimensão do ataque, o agressor e os outros dois elementos do grupo fugiram “para parte incerta” num carro estacionado perto do local, como descreveu a PSP.

Aconteceu tudo antes das 3h20, hora a que foi acionada a polícia e se dirigiu ao local, deparando-se já com os turistas ensanguentados — Mark estava sentando no passeio, apresentava ferimentos “ligeiros na face e cotovelo direito”, mas consciente e capaz de relatar aos agentes tudo o que tinha acontecido. Erik estava ao lado, prostrado no chão e deitado de costas, inanimado e sem sinais evidentes de vida.

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“Até à chegada dos meios de emergência médica, foram realizadas manobras de suporte básico de vida à vítima que se encontrava inanimada e prostrada no solo. Ao local deslocaram-se os bombeiros de Cascais e Estoril, prestando assistência médica necessária e possível, transportando a vítima que se encontrava consciente ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa [onde se encontra em estado grave, mas estável]. Relativamente à outra vítima, a equipa médica da VMER confirmou o óbito ainda no local, tendo o corpo sido removido para o cemitério da Guia, em Cascais, através da automaca dos Bombeiros da Parede”, relatou a PSP.

Os factos foram comunicados à PJ, que iniciou as diligências no local do crime, seguindo uma pista fundamental: a identificação do carro onde fugiu o agressor e que, ao que o Observador apurou, não lhe pertencia, apesar de ter sido ele a conduzir.

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Apesar de ser “geralmente calma”, moradores relatam algumas confusões na rua

A sair do Alojamento Local em que costuma fazer limpezas, uma mulher admite ao Observador que não estava no local quando aconteceu o homicídio; só chegou mais tarde, quando o aparato de jornalistas lhe indicou que algo teria acontecido. À conversa com uma moradora do prédio, foi reunindo algumas informações sobre o que tinha acontecido. A vizinha, mais velha, não se apercebeu de nada durante a madrugada porque dorme com tampões nos ouvidos desde que começou a ouvir discussões e quezílias mais constantes na esquina do prédio.

De avental vestido e pronto a abrir um restaurante do outro lado da rua, outro trabalhador recorda um assalto de que foi vítima, para corroborar a leitura de que aquela zona, apesar de ser “geralmente calma”, tem alguns desacatos. “Costuma haver alguma confusão ali na rua. Já fui assaltado aqui perto, também de madrugada. Levei uma pancada e até me roubaram as sapatilhas, mas nunca chegaram a apanhar os suspeitos.”

Desabafa que a polícia, segundo lhe contaram, se esforçou para apanhar o grupo que o roubou, mas por falta de câmaras de videovigilância nunca foi possível. Contactado pelo Observador no início deste ano, o município liderado pelo PSD (que continuou no poder depois das recentes autárquicas) garantiu que estava à espera de um visto do Tribunal de Contas para aprovar a instalação de mais de 400 câmaras, num investimento de 12,5 milhões de euros, em locais definidos pela PSP e GNR “nas suas respetivas áreas de competência” nas quatro freguesias do concelho. A instalação, confirmada em abril, torna Cascais numa das autarquias com mais dispositivos de vigilância em Portugal.

Sofía também depositava esperança nas câmaras de videovigilância para apanhar os fugitivos que andavam “por aí”, sendo surpreendida quando recebeu a informação de que os três já teriam sido intercetados pelas autoridades. “Ainda bem”, reage. “Há mais insegurança que antes, de certeza”, continua, ao apontar para o sangue que “está espalhado por todo o lado” desde a última madrugada.

▲ As fotografias tiradas pela janela de Sofía

Sem dados que permitam concluir que a criminalidade aumentou, a autarquia refutou, em julho, que o crime seja um problema e acusou outros partidos de quererem tirar dividendos com essas insinuações. “Tivemos há dias o Conselho Municipal de Segurança. No concelho, os crimes baixaram. Cascais não tem um problema de segurança. Só quem pensa que tira vantagens políticas dizendo mal de Cascais é que aposta [nesse discurso]”, disse Carlos Carreiras, antecessor de Nuno Piteira Lopes na liderança do município.

O dono de uma outra loja nas redondezas também tem criticas a apontar à segurança naquela zona, sobretudo perto do bar de onde, segundo a PSP, saiu Erik. “É sempre uma confusão aqui, à noite está cheio de jovens que bebem muito e depois não se controlam. Já me partiram a minha montra”, diz, enquanto aponta para o vidro rachado. Apesar de acreditar que o confronto entre os portugueses e os norte-americanos começou no Taj, fonte da PJ revela que, para já, essa hipótese não é tida como relevante.

Ainda à porta do restaurante, o cozinheiro ouvido pelo Observador reforçou que não depositava grandes esperanças na busca das autoridades pelos suspeitos, uma vez que achava que ninguém teria assistido ao crime. “Aqui fecha tudo até à meia-noite. Mesmo no resto da rua [onde há mais movimento], fecham pela 1h”. Certo é que depois de uma “intensa e ininterrupta ação de investigação iniciada logo após o conhecimento da prática dos crimes”, foi possível deter o principal suspeito.

▲ Vítima mortal saiu desta discoteca quando recebeu uma chamada do amigo a pedir ajuda

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Jovem acabou detido depois de ter tentado fugir num carro que não era seu

O trabalhou começou assim que as autoridades tiveram conhecimento do crime cometido em Cascais. A Pj entrou em ação depois da intervenção inicial da PSP no local, que fez a preservação dos elementos suspeitos e a recolha das declarações iniciais de Mark, antes de o norte-americano ser levado para o hospital. Cerca de dez horas depois, começou a ser espalhada pela comunicação social a notícia da detenção dos três elementos do grupo.

Ao Observador, depois de a PJ ter emitido um comunicado a revelar uma detenção, fonte ligada à investigação assumiu que “nunca esteve em cima da mesa” a detenção de todos os membros do grupo. “Pelo facto de estarem três pessoas, não quer dizer que há participação criminosa dos três”, resume. Até ao momento, só é possível recolher elementos que apontem no sentido de haver responsabilidade criminal de apenas um dos suspeitos, o que terá agredido os turistas norte-americanos com uma faca.

Com a investigação ainda a decorrer, os inspetores admitem, por enquanto, que as agressões foram provocadas “por motivos aparentemente fúteis, entre o agressor e as duas vítimas” — primeiro, de forma verbal, com troca de insultos; e, depois, com o esfaqueamento por um jovem português de 23 anos que, segundo o Correio da Manhã, não tem cadastro e trabalha num bar perto da rua onde ocorreram os desacatos.

Depois do ataque, o agressor entrou num carro que, ao que o Observador apurou, não era dele e fugiu. A identificação da matrícula deste veículo, onde o suspeito ainda tinha a arma branca que utilizou, foi um passo primordial para a investigação. Localizados os três suspeitos — que se conheciam —, a PJ levou-os para a sede nacional, na rua Gomes Freire, em Lisboa.

Interrogado na presença do advogado, a PJ formalizou a detenção do suspeito das agressões “com base em suporte probatório de natureza testemunhal, documental e pericial obtido”, estando agora “fortemente indiciado da prática de dois crimes de homicídio, um na forma consumada e outro na forma tentada, ambos praticados com uso de arma branca”. Será presente a primeiro interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação adequadas.

Contactada pelo Observador, a embaixada norte-americana nos Estados Unidos da América confirmou que estava “a par” do ataque a dois cidadãos dos EUA em Cascais. “Quando um cidadão americano morre no estrangeiro, podemos prestar assistência consular ao representante legal, parente mais próximo e/ou família. Dependendo da situação, isso pode incluir contactar e informar os parentes mais próximos sobre o falecimento, fornecer informações sobre as opções de enterro no local ou repatriação dos restos mortais para os Estados Unidos, auxiliar o representante legal com questões relativas à disposição dos bens pessoais e/ou património do cidadão americano e preparar um relatório”, explicaram.

Os nomes das vítima de nacionalidade norte-americana são fictícios

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