Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Este verão vai servir para pôr à prova a capacidade portuguesa para lidar com os incêndios florestais, acredita o climatologista Carlos da Câmara, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e especialista em análise do risco de incêndios. Numa entrevista ao Observador, Carlos da Câmara avisa que “o fogo faz parte da paisagem mediterrânica”, mas que a crescente desertificação das zonas rurais deixou o país mais exposto aos incêndios e fez com que as populações deixassem de saber lidar com eles.

Salientando que o fogo só se entende através da análise do triângulo meteorologia-paisagem-atividade humana, Carlos da Câmara — um dos especialistas por trás da ferramenta de previsão de risco de incêndio Ceasefire — explica que as alterações climáticas estão a agravar as condições que permitem os incêndios florestais, restando melhorar o ordenamento do território e educar as populações. Até porque, diz, mais de 90% dos incêndios surgem por negligência humana.

A onda de calor verificada neste arranque de verão, associada à falta de limpeza, inventário e ordenamento do território na floresta portuguesa, podem levar o país a viver um verão semelhante ao de 2017 — ano em que incêndios de grandes dimensões fizeram mais de 100 vítimas mortais e que, de acordo com Carlos da Câmara, “é como os campos de concentração: uma pessoa não pode esquecer”.

Quais são as principais preocupações para este verão no que toca aos incêndios?
Eu diria que há uma primeira pergunta que é importante, que é nós percebermos o que é o fogo em Portugal, na Europa mediterrânica ou no mundo. Vou começar por uma coisa simples. Deve lembrar-se — todos aprendemos na escola — do chamado triângulo do fogo. Imagine um triângulo. Um dos lados diz combustível (para haver fogo é preciso haver qualquer coisa que arde); outro lado diz comburente ou oxigénio (para haver fogo é preciso oxigénio); o terceiro lado, que fecha o triângulo, diz ignição. Se eu conseguir cortar um dos lados do triângulo, nunca tenho fogo. No deserto do Saara há imensas condições para haver fogo, não há é nada para arder.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.