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Ricardo Reis, economista e académico ligado à London School of Economics (LSE)

Ricardo Reis, economista e académico ligado à London School of Economics (LSE)

Excedente orçamental? "Governo tem é de abrir os cordões à bolsa" para proteger as pessoas do coronavírus

Em entrevista, o economista Ricardo Reis diz que o Estado tem de dar à saúde os meios necessários para proteger as pessoas do Covid-19. "A dívida é para isso mesmo, não é para outros disparates".

A crise gerada pelo novo coronavírus tornou a recessão económica “um cenário provável” na zona euro. E também em Portugal há agora uma possibilidade real de termos uma fase de crescimento negativo. Porém, salienta o economista Ricardo Reis, professor na London School of Economics, também não se deve “excluir que, como esta tem sido uma crise sui generis, possa haver uma recuperação rápida”.

Nesse contexto, é crucial que o Estado vá além dos “anúncios” e tome medidas com mais “substância” e que assuma, a par com a banca, a responsabilidade de apoiar a economia e as empresas saudáveis, que têm de continuar a pagar salários apesar de eventuais dificuldades de liquidez no curto prazo. O que é certo, sublinha o economista em entrevista ao Observador por videoconferência, é que o Estado não deve olhar a meios para equipar os serviços de saúde dos recursos de que necessitam para debelar esta crise de saúde pública. “Temos de abrir os cordões à bolsa. É para isso que serve a dívida pública, não é para alguns dos disparates que foram feitos nos últimos 30 anos”, afirma. E remata: “Nem sequer devemos estar a pensar em excedente orçamental nesta altura”.

Dados revelados esta terça-feira confirmam que a economia da zona euro teve um crescimento muito fraco – 0,1% – no quarto trimestre, mesmo antes dos problemas do coronavírus. Falar no risco de recessão na zona euro é alarmismo, é pessimismo ou é um cenário possível ou, até, provável?
Mais do que alarmismo, é claramente, neste momento, um cenário provável. A economia da zona euro já em 2019 estava em alguma desaceleração – ainda longe de uma recessão mas em relativa desaceleração. Ora, o impacto do coronavírus e de todas as medidas em seu torno, que temos experimentado durante este primeiro trimestre, têm um inevitável impacto económico negativo. Estamos a falar de pessoas que não podem ir trabalhar. Se não podem trabalhar, não podem produzir; se não podem produzir, não podem investir – e é exatamente isto que o PIB é suposto medir.

Em Itália, mas em Portugal também?
Sim, a situação mais difícil vive-se em Itália, mas, estando todas as economias da zona euro interligadas, também haverá uma redução da produção e das vendas em toda essa área. Teremos partes importantes da nossa economia fechadas, fábricas fechadas, serviços fechados, sem vendas, sem produção. Portanto, parece-me bastante provável que, de facto, tenhamos uma contração na economia em 2020 à conta do coronavírus.

Poderemos ter dois trimestres consecutivos de quebra no PIB? A tal definição de uma “recessão técnica”?
Essa é a questão mais difícil que temos para responder. Ninguém sabe quão permanente ou quão persistente vai ser este choque. Estamos a falar de uma disrupção nas cadeias de produção de bens durante apenas alguns meses ou será que vamos ter vários meses de perturbação? É difícil perceber quão duradouro vai ser este choque. Além disso, ninguém sabe como é que, num choque como este, mesmo que imaginássemos que todas as pessoas voltam ao trabalho normalmente daqui a três ou quatro semanas, até que ponto é que a economia conseguiria recuperar nessa altura. Se pararmos um mês, será que conseguimos no mês seguinte produzir o dobro? Parece-me claro que não é possível substituir a produção em absoluto.

E nos próximos meses?
Será possível? Talvez. Parece-me improvável, mas isso depende da capacidade de transmitir e adiar produção, adiar compras, que nunca será perfeita e que poderá levar a alguma persistência, no tempo, dos efeitos desta crise. No entanto, ao contrário de outras, é uma crise bastante sui generis e que pode – é perfeitamente plausível isso acontecer – ser seguida de uma recuperação relativamente rápida, ao fim de um ou dois trimestres. Isso é um cenário possível.

Esta é uma crise bastante "sui generis" e que pode – é perfeitamente plausível que isso possa acontecer – ser seguida de uma recuperação relativamente rápida, ao fim de um ou dois trimestres. Isso é um cenário possível.
Ricardo Reis, professor da London School of Economics

Talvez na indústria, mas nos serviços é difícil imaginar que isso possa acontecer. Ou não?
Em algumas áreas pode ser mais fácil recuperar o tempo perdido, mas nos serviços não é tão fácil. Não podemos pôr um barbeiro a trabalhar 24 horas por dia, em agosto, para compensar as horas que não trabalhou em março.

Nem o turista, que deixou de vir por causa desta crise…
Sim, há setores onde parece difícil que seja possível recuperar o que foi perdido agora. Mas, acima de tudo, a grande prioridade neste momento é a saúde das populações – mais do que o impacto na economia, é garantir a saúde das pessoas. Tratamos de um vírus bastante mortífero, pode ter um enorme impacto no bem-estar, na mortalidade, na vida das pessoas – tudo isso é mais importante do que saber se o PIB vai cair 1% ou 2%.

Mas Portugal tem uma economia muito dependente dos serviços. Está especialmente vulnerável?
A economia portuguesa é uma economia altamente integrada na zona euro e, portanto, qualquer choque negativo na zona euro alastra-se a Portugal. Quando a zona euro cai, Portugal cai também porque são esses os nossos principais mercados. Temos uma economia muito assente nos serviços, mas também o são outros países na zona euro. Somos uma economia aberta, mas há outras mais abertas – e o comércio internacional é onde se está a sentir mais o impacto desta crise. Por aí, poderemos ter menos impacto. Por outro lado, dependemos muito do turismo e esse é um setor muito vulnerável numa crise como esta, ainda mais sendo uma crise que leva as pessoas a ter medo de entrar em aviões. Ou seja, por aí o impacto pode ser pior. É muito difícil prever o saldo final para Portugal.

Portugal é menos exposto à quebra do comércio de bens, mas é mais vulnerável por via do turismo.

TIAGO CANHOTO/LUSA

Do ponto de vista económico, olhando para outras epidemias como esta – o SARS, por exemplo – que lições é que podemos tirar e que nos podem ser úteis agora?
Está a ser um impacto bastante diferente, porque, de facto, quer o SARS quer o H1N1 não se espalharam da forma como este vírus já se espalhou hoje. Não só o que se espera que se espalhe mas aquilo que já se espalhou, desde logo na Europa. O nível de pessoas infetadas já hoje podemos dizer que será claramente superior do que o que foi afetado pelo SARS ou pelo H1N1. Já estamos a falar de uma crise maior do que a causada por qualquer uma dessas, que implicaram mais medidas específicas na agricultura, na pecuária, etc. Aqui já estamos a falar de um impacto mais generalizado.

O Governo português, do que é possível saber, tem tomado as medidas certas do ponto de vista económico?
Repito: o mais importante é que se tomem as medidas certas para a saúde pública. Aí, não sou especialista. Mas, em termos económicos, o que temos visto é reação da política monetária – a decisão da Fed dos EUA de baixar os juros, para já – e a criação de linhas de crédito, que são importantes porque há empresas que perderam todas as suas receitas num prazo muito curto.

O Governo já anunciou uma linha de crédito de 100 milhões.
Sim, algumas das medidas parecem-me ainda pouco estudadas, mas também é injusto criticar o Governo por isso. Veja que nos EUA já se fala há algum tempo mas ainda nada foi feito. Também na questão dos layoffs e da capacidade de mandar alguns trabalhadores para casa – voltando depois de passar a crise, mantendo algum rendimento – também aí me parece que estamos a ver mais anúncios do que substância. Até na questão das baixas por quarentena ou prevenção também vi muito voluntarismo mas ainda pouco em termos de medidas concretas, bem pensadas, mas é injusto criticar o Governo neste momento porque a consciência da crise em Portugal tem, talvez, 10 dias. Espero que se esteja a trabalhar fortemente nesta matéria no Ministério da Economia e no das Finanças e espero que sejam anunciadas mais medidas a relativamente curto prazo.

Governo vai facilitar a suspensão temporária dos contratos de trabalho nas empresas mais afetadas pelo Covid-19

O objetivo do excedente orçamental, numa emergência como esta e com a expectável quebra do PIB, que é o numerador, é alcançável?
Se é alcançável? É. Mas deve ser alcançável? Essa é que é a questão que devemos levantar neste momento. Os excedentes, as almofadas financeiras, as poupanças são necessárias exatamente para se poderem usar em alturas de emergência. Nesta altura, até pelas consequências para a saúde pública, na vida dos portugueses – que é o mais importante, não só a qualidade de vida mas também a vida em si – parece-me que temos de abrir os cordões à bolsa, equipar o nosso sistema de saúde e dar aos seus profissionais todos os meios de que eles precisem para combater esta epidemia de uma forma eficaz. Para isso é que serve a dívida pública – mais do que para alguns dos disparates que talvez tenhamos feito nos últimos 30 anos. É nestas alturas que devemos gastar o que é preciso, pedir emprestado e pagar no futuro.

Excedente orçamental não é prioridade.
Nem sequer devemos estar a pensar em excedente orçamental nesta altura. Nos próximos meses temos é de garantir que há meios para combater esta crise de saúde pública. Depois, se a crise de saúde pública for debelada, daqui a um, dois, três meses, estando a saúde pública já garantida, aí sim podemos falar de quais as medidas económicas que podemos tomar em termos orçamentais. Mas, neste primeiro impacto, não é a questão mais importante.

"Nem sequer devemos estar a pensar em excedente orçamental nesta altura. Nos próximos meses temos é de garantir que há meios para combater esta crise de saúde pública."
Ricardo Reis, professor na London School of Economics

Do ponto de vista das empresas, que têm de pagar salários e estão receosas em relação a estes riscos, o que é que é importante ter presente?
Nesse ponto, o sistema financeiro tem, de facto, um papel crucial. E se for necessário um apoio público, assim seja. Março vai ser um mês terrível em termos de receitas, não se aliviando, muitas vezes, as despesas como os pagamentos aos trabalhadores. Como tal, este vai ser um mês terrível. Mas, esperamos nós, este mês terrível poderá ser compensado com uma recuperação – que será maior ou mais pequena consoante a persistência do choque – nos próximos meses. Logo, a solução para um choque temporário (embora drástico e súbito) é pedir emprestado para pagar no futuro.

Devem recorrer aos bancos?
Neste momento, é altura de as empresas se virarem para os seus bancos, para as suas linhas de crédito, e cabe neste momento ao setor financeiro ter a capacidade para canalizar a poupança para esses casos em que as empresas podem ter dificuldades sem que isso seja fruto de fraca qualidade do seu produto ou fraca procura pelo seu serviço, em circunstâncias normais. É uma crise de liquidez, não pode acontecer que empresas saudáveis, que daqui a uns meses seriam novamente perfeitamente rentáveis, sofram demasiado neste momento só porque há um choque de tesouraria.

"Cabe neste momento ao setor financeiro ter a capacidade para canalizar a poupança nos casos em que as empresas saudáveis podem ter dificuldades. E o Estado tem um papel também"

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Esta é uma crise cujo impacto psicológico, ao nível das estruturas económicas globais, pode ser comparável ao 11 de setembro? Fala-se de recuo na globalização, de reshoring, de dependência excessiva de cadeias de fornecimento globais… Até que ponto é que esta crise pode alimentar essas tendências?
Muitas empresas, sobretudo as maiores, multinacionais, descobriram que, mais do que o offshoring em si, tinham deslocalizado imensa produção para a concentrar num sítio só: na China. E descobriram, em fevereiro, que pôr todos os ovos no mesmo cesto é um risco enorme. Ter a cadeia de produção toda em risco porque, de repente, uma zona do mundo está bloqueada não é boa ideia, é um risco grande. E desta vez foi um vírus, mas na próxima pode ser um terramoto ou um choque político.

É de esperar, então, mais diversificação?
Sim, poderá ser de esperar maior diversificação no sentido de se tentar garantir cadeias de valor mais diversificadas, cadeias de produção mais diversificadas, porque vai haver uma maior consciencialização do enorme risco que é ter a cadeia de produção demasiado virada apenas para o fator “menor custo”, porque isso vem com um risco adicional. Esse impacto será bastante claro.

"É altura de as empresas se virarem para os seus bancos, para as suas linhas de crédito, e cabe neste momento ao setor financeiro ter a capacidade para canalizar a poupança para esses casos em que as empresas podem ter dificuldades sem que isso seja fruto de fraca qualidade do seu produto ou fraca procura pelo seu serviço, em circunstâncias normais."
Ricardo Reis, professor na London School of Economics

Haverá, então, uma maior tendência para reshoring, voltar a trazer parte da produção para os países de origem – ou apenas essa maior diversificação para fora da China?
É preciso apontar que já nos últimos dois, três anos isso já estava a acontecer, em certa medida. Vimos, claramente, que os tempos de deslocalizar a produção para a China já se tinham revertido e já estava a haver bastante retorno da produção. Não sei se esta crise vai acelerar esse processo, mas também é preciso ver qual será a reação política a estes choques.

Como assim?
Com Donald Trump, sobretudo, já tínhamos visto uma retirada da globalização pelo movimento das guerras comerciais. Que implicações terá esta crise do coronavírus para as guerras comerciais? Vamos ver, podemos imaginar vários cenários. Por um lado, o medo do estrangeiro, do que vem de fora, pode sair mais agudizado. Embora, na minha perspetiva, esta crise até mostra o oposto: é precisamente porque há uma ligação entre os diferentes países, entre os diferentes povos, que o impacto está a ser partilhado por todos mas, por essa razão, está a ser mais ligeiro para todos. No mundo anterior à globalização, em que os países tinham as fronteiras fechadas, o choque que um país como a Itália teria, num momento como este, por exemplo… se não pudesse importar os bens de primeira necessidade, se não pudesse contar com as suas poupanças no estrangeiro para agora as usar como despesa na saúde, o impacto seria muitíssimo maior num país como o que está a acontecer neste momento em Itália. Portanto, até olho para o que está a acontecer neste caso como um triunfo da globalização.

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