A caminho do 5.º ano de atividade, a Faculdade de Medicina da Universidade Católica, em Rio de Mouro, Sintra, recebeu autorização da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) para admitir 100 alunos a partir do próximo ano letivo, uma duplicação da capacidade formativa atual — e uma evolução que a Católica tinha prevista desde início.
Em entrevista ao Observador, o diretor da Faculdade de Medicina da Católica, o hematologista António de Almeida, diz que o aumento de vagas é um “marco” para a instituição, que terá de ser acompanhado de um reforço do corpo docente. Questionado sobre se é necessário formar mais médicos em Portugal, António de Almeida defende que sim, lembrando que as necessidades da população, cada vez mais envelhecida, exigem um reforço do número de clínicos.
O diretor da Faculdade de Medicina da Católica recusa a ideia de que o aumento de vagas facilite o acesso ao curso de Medicina para os alunos com maior poder económico — ainda que a nota do último colocado no atual ano letivo tenha sido de cerca de um valor abaixo do último aluno a entrar numa das duas faculdades públicas de Lisboa. António de Almeida lembra ainda que a instituição que dirige atribui duas bolsas anuais destinadas a alunos com menos recursos e outras dez para premiar o mérito académico. O especialista realça a vertente predominantemente prática do curso de Medicina, com aposta na resolução de problemas e na comunicação médico-doente. Os alunos, adianta, têm acesso a estágio não só no Hospital da Luz, como também em seis Unidades Locais de Saúde da zona de Lisboa.
“Alunos têm de concorrer com os outros e ter competências para poder entrar”
Porque sentiram necessidade de aumentar o número de vagas para as 100 em 2025/2026?
O nosso plano inicial, e todo o projeto, foi construído com o objetivo de formar 100 alunos por ano. A autorização permite-nos seguir com isso. A Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) foi muito cuidadosa, porque, como é justo e legítimo, tem de assegurar a qualidade do ensino da Medicina. A avaliação inicial impunha-nos algumas condições, que cumprimos ao fim do primeiro, e depois do terceiro ano, e que têm a ver com a infraestrutura, corpo docente e locais de estágio. É um marco significativo que reflete a dedicação e o compromisso da nossa equipa em proporcionar uma formação médica de excelência.
Este ano tivemos o primeiro ano de alunos em estágios clínicos e demonstrámos à A3ES que não só temos capacidade para ter 50 alunos como também temos reserva para acrescentar outros 50 nos nossos hospitais parceiros.
▲ António de Almeida revela que a Faculdade de Medicina tem tido cerca de 200 candidatos por ano
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Esta duplicação dos alunos vai ser acompanhada por um aumento do corpo docente?
Vamos fazer algumas contratações, mas vamos, sobretudo, aumentar as horas do corpo docente que já temos. Temos 20 professores a tempo inteiro e mais de 100 a tempo parcial. Enquanto neste ano letivo temos 60 tempos completos, no próximo teremos cerca de 70.
Como tem evoluído o número de candidatos?
Tem-se mantido estável. Temos tido cerca de 200 candidatos por ano. Neste momento, temos 230 alunos na faculdade: no primeiro e segundo ano letivos temos 50; no terceiro, temos 80 porque houve uma falha de comunicação entre nós e a A3ES; no quarto ano, são 50.
Ao contrário das faculdades de Medicina públicas, a Católica também recebe alunos estrangeiros. Quantos são neste momento?
Temos dois alunos estrangeiros por ano letivo, oito no total. Temos também um contingente de acesso para alunos refugiados. Temos três alunos nesta condição, oriundos de zonas de conflito, como o Afeganistão e a Ucrânia. Temos ainda duas vagas por ano para alunos de famílias com rendimentos mais reduzidos e que tenham sido selecionados.
Qual é o valor da propina?
É de cerca de 18.500 euros por ano, dividido em dez mensalidades. É uma propina que foi calculada com base nos preços que se praticam nas faculdades de Medicina europeias e, sobretudo, com base nos cálculos da Ordem dos Médicos em relação ao custo estimado de formar um médico. Reconhecemos que é um valor alto, mas temos vários apoios: as duas bolsas por ano para alunos que não têm rendimentos para poderem pagar e 10 prémios anuais de mérito para toda a faculdade, que podem ser usados para descontar na propina. [n.e.: a propina num curso de Medicina numa instituição pública do ensino superior é de 697 euros]
Considera que, para os alunos com poder económico, o acesso ao curso de Medicina fica facilitado com o aumento de vagas no curso na Universidade Católica? A média do último colocado tem sido mais baixa do que nas universidades públicas na região de Lisboa.
Não diria que fique mais facilitado, porque têm de concorrer com os outros alunos e têm que ter o mérito de competências para poder entrar. A nota de entrada do último colocado neste último ano letivo foi de 16,8 [valores], mas tivemos muitos alunos a entrarem com 18 [n.e.: como termo de comparação, a nota de entrada do último colocado nas duas faculdades públicas da zona de Lisboa foi de 17,9 e 17,7 valores].
Ainda mantêm os mesmos critérios de acesso com que abriram o curso, em 2021, em que uma parte da média de entrada é resultado de uma entrevista prévia aos candidatos?
O que a legislação permite é que 15% da nota de candidatura seja composta por elementos de seriação, que podem ser uma entrevista, um exame interno, um portefólio. No nosso caso, 85% da nota é resultado dos exames do secundário (como nas universidades estatais) e os restantes 15% são compostos predominantemente por mini-entrevistas e também por um questionário motivacional. Por exemplo, cada candidato passa por oito entrevistas, de 10 minutos cada, em que avaliamos a comunicação, o comportamento ético, algumas componentes da área da saúde, conhecimento da área da saúde.
Ainda mantêm o contingente para alunos descendentes de beneméritos, uma excecionalidade que levantou polémica há três anos, quando um estudante entrou na faculdade com uma média de 15 através deste regime?
Seguimos a legislação nacional. Neste momento, temos o contingente geral, o contingente internacional (para alunos extracomunitários e não oriundos de países de língua oficial portuguesa) e depois temos os contingentes especiais, para filhos de diplomatas, atletas de alta competição, pessoas com deficiência, etc.
Mas eliminaram esse contingente dos beneméritos?
Não. Esse contingente é da Universidade Católica, não é exclusivo da faculdade de Medicina.
“Temos de mudar a maneira como encaramos as tarefas do médico”
Com esta duplicação do número de vagas da Universidade Católica, teremos mais 50 médicos formados a cada ano em Portugal. Faz sentido continuarmos a aumentar as vagas? Precisamos de formar mais médicos em Portugal?
Ao aumentarmos o número de alunos, aumentamos também a massa crítica. Não temos nenhuma ilusão: com 100 alunos por ano, não vamos resolver os problemas de falta de médicos do SNS nem inundar o SNS com médicos. O nosso contributo não vai ser ao nível quantitativo, mas sim ao nível qualitativo, de podermos formar médicos de uma maneira diferente.
▲ António de Almeida defende mais vagas em Medicina. "Vamos certamente precisar de mais médicos para a mesma população — que está mais envelhecida"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mas o problema de Portugal é a falta de médicos ou é não conseguirmos reter os que existem no SNS?
Eu sou diretor de uma faculdade, não sou gestor de saúde. Mas posso dizer-lhe que a Medicina mudou muito. E temos de mudar a maneira como encaramos as tarefas do médico, para que este deixe de ser aquele que trata a doença para ser aquele que promove a saúde. E, se estamos a expandir as competências dos médicos (para a vigilância, para que tenha um papel mais preventivo), vamos certamente precisar de mais médicos para a mesma população — que está mais envelhecida, o que acarreta mais doenças crónicas. Precisamos de médicos.
Portanto, é favorável ao aumento geral das vagas?
Sim. Enquanto faculdades, temos de formar pessoas para que possam ter a sua profissão. Mas o que é essencial é que, quando aumentamos as vagas, consigamos manter a qualidade do ensino. É por isso que todas as faculdades se têm debatido.
No que diz respeito à formação, o que diferencia a faculdade de Medicina da Católica das faculdades públicas?
A nossa formação tem um cariz muito prático e aplicado. Desde o primeiro ano que os nossos alunos têm aulas de competências médicas, como a comunicação. Os alunos aprendem, numa primeira fase, a apresentar-se ao doente, e depois vai aumentando de complexidade, até terem de lidar com uma senhora que teve um aborto espontâneo. Lidam também com doentes com colesterol alto ou cancro.
Aumentam também os conhecimentos com competências clínicas, como auscultar pulmões, apalpar abdómens, retirar sangue, etc. Ao mesmo tempo, todo o conhecimento teórico é ensinado com o método de resolução de problemas, em que os alunos aprendem os sistemas do corpo humano através da resolução de problemas. Dessa forma, conseguem aplicar o conhecimento a casos de vida real. Isto faz com que, depois, nos anos clínicos, os alunos tenham um raciocínio bastante desenvolvido.
Temos um método educativo diferente, focado no estudante, diferente do que têm faculdades maiores, com métodos mais tradicionais.
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“Os alunos não são meros observadores”
Referiu-se à atenção que dão à comunicação. Considera que, na Medicina atual, está a perder-se a ligação médico-doente? É necessário reforçar essa competência na formação?
A Medicina atual é muito exigente, temos muita informação. Isso tem um impacto enorme no tempo do médico. Não acredito que se esteja a perder essa ligação, mas temos de fomentar e ensinar técnicas de comunicação que são muito importantes.
Com que instituições de saúde é que a faculdade de Medicina da Católica trabalha?
O nosso hospital-escola é o Hospital da Luz Lisboa, que cumpre todos os requisitos de um hospital universitário. Mas temos acesso a todos os hospitais do grupo Luz Saúde, em todo o país. A maioria dos nossos estágios estão organizados na região de Lisboa, porque é importante garantir a qualidade do ensino e a formação dos professores.
Além disso, temos acordos com as Unidades Locais de Saúde da zona de Lisboa: Estuário do Tejo, Amadora-Sintra, Loures-Odivelas, Santa Maria, São José e Lisboa Ocidental. Desta forma, os nossos alunos têm acesso aos centros de saúde e aos hospitais, o que nos permite ter uma variedade enorme de ambientes clínicos.
Um dos elementos que nos diferenciam é que, quando os alunos chegam aos estágios clínicos, temos supervisores clínicos, que têm um a dois alunos que acompanham sempre. Os alunos têm uma integração muito melhor na equipa, não são meros observadores. Têm uma participação ativa: vão ver os doentes, vão fazer histórias clínicas, vão propor exames, ajudam e acompanham os doentes. A maior parte dos estágios dura três meses ou mais, o que significa que o aluno tem tempo de se integrar na equipa e de ter uma experiência profissional.
Têm também dois centros de investigação já constituídos.
Em qualquer centro académico é essencial termos investigação de elevada qualidade. Temos um centro coordenado pelo professor Pedro Simas, dedicado ao funcionamento das células e que tem equipamento muito sofisticado. Está alojado no Instituto Gulbenkian de Ciências.
O segundo centro está diretamente relacionado com áreas com impacto nos doentes, como vacinas, novas terapêuticas. Neste centro, fazem-se estudos laboratoriais, para tentar descobrir novas estratégias para ajudar os doentes.