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“A culpa é toda dele!!!” Com a sua retórica explosiva, numa publicação na rede social Truth Social Donald Trump acusava Gavin Newsom, o governador da Califórnia (para quem arranjou uma alcunha, Gavin “Newscum” — passível de ser traduzido como “Nova escumalha”), de ser o principal responsável pelos incêndios que lavram em Los Angeles desde o início da janeiro. Noutro post, o chefe de Estado disse que não ia “aceitar mais desculpas do governador incompetente”. Não ficou sem resposta. À CNN internacional, o democrata atirou: “Há pessoas que estão a fugir, que perderam a vida, há crianças que perderam as escolas, famílias separadas, igrejas queimadas — e este tipo quer politizar isto”.
Foi o reatar de uma guerra política que já vem do primeiro mandato do atual Presidente. Governador desde 2019, Gavin Newsom, um dos democratas mais leais a Joe Biden, nunca teve uma relação fácil com Donald Trump — e os próximos tempos prometem ser tensos. Aliás, esta sexta-feira, poderá ter-se um vislumbre, dado que o republicano anunciou que vai visitar a Califórnia. Mesmo assim, ainda não informou a equipa de Gavin Newsom quando é que chega — nem sequer o que vai visitar em concreto.
Encontrar-se com Gavin Newsom? “Não sei, ainda vou pensar sobre isso”, respondeu Donald Trump à Fox News na primeira entrevista desde que tomou posse. Na mesma ocasião, o Presidente norte-americano ameaçou cortar a ajuda federal entregue à Califórnia para lidar com os fogos que ainda lavram no estado e que obrigaram, ainda esta quarta-feira, a que fossem emitidas ordens de evacuação: “Acho que não devíamos dar dinheiro nenhum à Califórnia”.
Na base da possível decisão de Donald Trump está a alegada má gestão de recursos hídricos adotada pelo governador da Califórnia. Para o Presidente norte-americano, Gavin Newsom não “permitiu que milhões de litros de água” oriundos do norte do estado “fluíssem diariamente para outras partes da Califórnia”. O Presidente norte-americano sugeriu que o líder californiano podia ter “motivos políticos” para fazer isso, aludindo à possibilidade de o democrata encarar esta crise como uma forma de fazer frente ao Presidente — e ganhar balanço para uma candidatura às primárias democratas de 2028.
No Partido Democrata, o nome de Gavin Newsom está a circular como um dos favoritos para suceder à antiga vice-presidente, Kamala Harris, para concorrer primeiro às eleições primárias e depois às presidenciais de 2028. Pertencente à ala mais moderada dos democratas (apesar de liderar um dos estados mais à esquerda nos Estados Unidos), o governador da Califórnia é uma das figuras de proa para a resistência contra Donald Trump.
A relação entre os dois é, portanto, pautada pela rivalidade política. Mas se Gavin Newsom é acusado de usar os fogos para se promover politicamente, os republicanos também estão a ser acusados de usarem os incêndios em Los Angeles para enfraquecer a imagem do governador, expondo as suas falhas.
▲ Gavin Newsom no terreno
Getty Images
Corte de ajuda à Califórnia pode mesmo acontecer? Pode, mas não é fácil
O Presidente norte-americano nunca confirmou que iria cortar a ajuda à Califórnia — apenas deixou uma ameaça. Porém, sobre o tema da discórdia — a má gestão dos recursos hídricos —, o gabinete do governador já esclareceu que esse é um não assunto e que isso não está relacionado com o deflagrar dos incêndios. Vários especialistas citados na imprensa norte-americana concordam que os fogos no sul da Califórnia não foram causados pela alegada água que não chega desde o norte do estado.
Em todo o caso, será difícil para Donald Trump travar por completo a ajuda que chega à Califórnia. O motivo? O antigo Presidente norte-americano, Joe Biden, já aprovou, a 7 de janeiro, a assistência federal concedida através da FEMA, a Agência Federal de Gestão de Emergências, para a população afetada pelos incêndios em Los Angeles. Dito doutro modo, já há fundos a chegar à Califórnia, destinados a garantir “abrigo temporário, reparação de casas, empréstimos para cobrir propriedades que não tinham seguro e outros programas para ajudar indivíduos e empresários a recuperar dos efeitos do desastre”.
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Como explica a revista Grist, mesmo que o Congresso até não permita o envio de mais fundos para a Califórnia, a FEMA tem fundos suficientes para assegurar as necessidades básicas das vítimas. “Não digo que não seja impossível, mas seria difícil para qualquer administração tentar reter os fundos arbitrariamente. É como escrever um cheque, é difícil de cancelar depois de já estar escrito”, comentou à Grist Craig Fugate, que liderou a Agência Federal de Gestão de Emergências com Barack Obama na presidência.
Ainda que as necessidades mais básicas estejam asseguradas, a FEMA pode não ter verbas suficientes à sua disposição para as obras de reconstrução de que o estado precisará. Num momento em que os fogos ainda lavram, é difícil fazer a total contabilização das perdas. É nesta fase do processo que será mais fácil Donald Trump cortar a ajuda enviada para a Califórnia, se bem que, tendo uma das economias mais robustas nos Estados Unidos, as autoridades californianas conseguiriam suportar alguns dos custos.
Não a totalidade, ainda assim. Mas também é certo que é o Congresso — e não a presidência — que aprova pacotes de ajuda a longo prazo para a reconstrução após desastres naturais. Neste contexto, o líder da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, já deixou um aviso de que os republicanos apenas aprovarão um programa em troca de algumas condições, que ainda não foram especificadas. “Somos todos norte-americanos e os norte-americanos afetados precisam e merecem ajuda. Mas também já abordámos as nossas preocupações com a governação do estado da Califórnia — em termos estatais e locais — na medida em que existe responsabilidade na dimensão do desastre. É algo que precisa de ser cuidadosamente discutido.”
Nesse sentido, usando da sua influência junto dos republicanos, Donald Trump pode colocar entraves à ajuda federal enviada para a Califórnia. Gavin Newsom, numa carta enviada a Mike Johnson, já recordou que “historicamente, a ajuda federal para a área dos desastres foi providenciada sem condições”. Recordando o que aconteceu com o furacão Helene (que atingiu a Carolina do Norte no final de setembro de 2024), o governador insistiu que a História prova que “os norte-americanos ajudam os norte-americanos”, independentemente do local em que os desastres naturais ocorrem.
▲ Trump pode pressionar o Congresso a agir para travar os apoios à Califórnia
Getty Images
Porém, Donald Trump nem sempre acede a esses pedidos. Em 2017, o republicano foi bastante criticado pela maneira como geriu as consequências do furacão Maria, que devastou Porto Rico e que causou a morte de três mil pessoas. O Presidente norte-americano foi acusado de não providenciar a ajuda necessária às autoridades locais, ainda que o próprio tenha rejeitado quaisquer responsabilidades.
A rivalidade com o governador que “não se verga a Trump” e o Presidente que gosta de ridicularizar os políticos da Califórnia
Numa carta enviada a Donald Trump em meados de janeiro, o governador da Califórnia insistiu que o Presidente não “deve politizar a tragédia humana e espalhar desinformação”. “Centenas de milhares de norte-americanos — que ficaram sem casa e que têm medo do futuro — merecem ver que todos nós estamos a trabalhar para os melhores interesses para assegurar uma recuperação rápida”, apelou, sendo que o republicano nunca lhe respondeu, mantendo um tom hostil.
No discurso da tomada de posse na segunda-feira, o Presidente norte-americano lamentou os incêndios que deflagraram em Los Angeles, mas não deixou de mandar uma farpa; salientou que “ninguém é capaz” de fazer algo para prevenir os fogos. “Isso vai mudar.” Tal como aconteceu noutras vezes, Donald Trump não ficou sem resposta. No X, Gavin Newsom garantiu que a Califórnia está “pronta para trabalhar com a administração Trump-Vance” neste “momento crítico” que os Estados Unidos atravessam, em que é necessário “respeito mútuo”.
As our nation observes the peaceful transfer of power, we are reminded of the enduring principles that underpin our democracy: finding common ground and striving toward shared goals.⁰⁰In the face of one of the worst natural disasters in America’s history, this moment…
— Gavin Newsom (@GavinNewsom) January 20, 2025
Nas redes sociais, as provocações entre o Presidente e o governador da Califórnia sucedem-se. Se Donald Trump o critica, Gavin Newson aproveita para responder e para até fazer fact-checks às declarações do chefe de Estado. No entanto, o líder californiano tenta sempre apelar ao respeito e manter um tom mais institucional.
À Associated Press, Jack Pitney, cientista política na Universidade Claremont McKenna na Califórnia, refere que Gavin Newson tem tentado equilibrar dois papéis, algo que caracteriza como “muito difícil”: “Como governador da Califórnia, ele precisa de trabalhar com o Presidente para obter ajuda federal para o estado. Como figura da política nacional, ele sente-se pressionado a atacar Trump. É difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo, em particular com um Presidente com uma pele tão fina”.
Embora nunca tendo abertamente declarado o seu desejo de concorrer às primárias democratas de 2028, não é segredo para ninguém que Gavin Newsom gostava de tentar a sua sorte na corrida para ser o candidato do Partido Democrata às presidenciais e depois chegar à Casa Branca. Aliás, em 2023, nas primárias, até se especulou que o governador da Califórnia poderia tentar a sua sorte contra Joe Biden. Porém, o democrata manteve-se leal ao antigo Presidente, com quem mantém uma relação bastante próxima.
▲ Biden e Newsom continuam próximos nos últimos tempos
AFP via Getty Images
Para concorrer às primárias democráticas, como conta a imprensa norte-americana, o plano de Gavin Newsom consiste em esperar pelo fim do seu mandato enquanto governador, que acontece em 2026, e começar a preparar terreno para as primárias como um candidato da ala mais moderada dentro do Partido Democrata. No entanto, os incêndios que devastam Los Angeles na reta final do mandato podem deixar uma mancha no currículo, difícil de apagar.
A congressista democrata Jasmine Crockett afirmou à AP que o modo como controla a “narrativa dos fogos” vai ser fundamental para as suas chances de concorrer às primárias de 2028. Se a reputação de Gavin Newsom não sofrer mazelas, o democrata deverá candidatar-se; caso contrário, pode afastá-lo por completo. Daí que o governador da Califórnia apareça frequentemente nos canais de televisão, responda a todas as acusações que lhe são lançadas e tenha estado no terreno perto dos californianos afetados pelos fogos.
Jasmine Crockett refere que o governador da Califórnia é capaz “de dar um murro na mesa” e enfrentar Donald Trump, não se “vergando” às vontades republicano. “Eu penso que ele tem a força que as pessoas procuram em alguém na liderança”, assinala a congressista, que concede, contudo, que articular essa postura com uma de governador responsável é “difícil”.
Para Donald Trump, a oposição a Gavin Newsom também lhe dá frutos. O Presidente norte-americano pode querer inviabilizar a candidatura às primárias democratas daquele que pode ser um rival no futuro. Os apoiantes do Presidente também veem com bons olhos esta animosidade, como explica o analista Dan Walters num artigo no jornal californiano Cal Matters: “Politicamente, Trump não deve nada à Califórnia”.
Como é um estado profundamente democrata e um dos mais à esquerda nos EUA, é um alvo fácil para Donald Trump. “Humilhar os políticos da Califórnia provavelmente merece o aplauso dos seus apoiantes noutros estados, que veem a Califórnia como uma fossa de políticas de esquerda loucas, que causam miséria e crime”, prossegue Cat Matters.
Há muito a separar o Presidente norte-americano — que não tem pudor em ridicularizar os seus rivais — e o ambicioso governador da Califórnia, que não se quer vergar ao poder de Donald Trump. No entanto, esta relação disfuncional pode ser proveitosa para os dois. Mas Gavin Newsom é quem tem mais a perder, caso não consiga manter o controlo da situação.