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Cuidado com o que se deseja é a expressão que assenta como uma luva ao livro escrito pela ex-executiva do Facebook, Sarah Wynn-Williams. A antiga advogada e diplomata das Nações Unidas relata em Gente Pouco Recomendável — Uma história real sobre poder, ganância e idealismo perdido os sete anos de trabalho no Facebook como diretora de políticas públicas globais.
O livro, que rapidamente se tornou um sucesso de vendas nos EUA e Reino Unido, foi publicado esta semana em Portugal pela Editorial Presença. Ao longo de 352 páginas, a antiga executiva do Facebook — Meta desde 2021 — descreve contratempos e gaffes com chefes de Estado, batalhas internas de poder e relações laborais, no mínimo, questionáveis. As revelações sobre o crescimento da influência do Facebook são polvilhadas com descrições de viagens em jatos privados ou lutas por atenção entre os mais ricos no Fórum Económico de Davos. Ou de um Zuckerberg fã de karaoke, que oscila entre o reportório musical de filmes da Disney e I Want It That Way, dos Backstreet Boys (em 2018, foi notícia por cantar o tema com Kanye West num karaoke).
Na qualidade de diretora de políticas globais da rede social, Wynn-Williams tinha um contacto privilegiado com os dois principais rostos da empresa: Mark Zuckerberg, fundador e CEO, e Sheryl Sandberg, que foi diretora de operações e número 2 de Zuckerberg. Sandberg saiu da empresa em junho de 2022, ditando o fim de uma das duplas mais poderosas do mundo tecnológico.
14 anos depois… Saída de número dois do Facebook põe fim à longa parceria que mudou a internet
Wynn-Williams juntou-se ao Facebook no início de 2011, quando a rede social estava numa fase bem diferente. Zuckerberg ainda usava os famosos hoodies, era dono de uma única rede social (atualmente tem também o Instagram e a Threads) e ainda havia mercados por conquistar. Em 2017, a executiva foi despedida por “fraco desempenho e comportamento tóxico”, segundo a companhia.
Nessa altura, a empresa já estava num ponto bem diferente. O escrutínio em relação à tecnológica aumentou, assim como as exigências de pagar impostos em diversos países. E a suposta “revolução” da conectividade já tinha dado lugar ao debate sobre a desinformação. Meses mais tarde, já em 2018, rebentou o escândalo da Cambridge Analytica, deixando a nu o papel e a influência do Facebook em momentos como o Brexit e as presidenciais norte-americanas de 2016.
Cambridge Analytica. Um ano “horribilis” depois, o Facebook não voltou a ser o mesmo
Gente Pouco Recomendável está longe de ser o único livro crítico à empresa de Mark Zuckerberg. Vários whistleblowers já publicaram livros sobre a empresa, como Christopher Wylie ou Frances Haugen, que o Observador entrevistou em 2024. Mas, até agora, Gente Pouco Recomendável é o livro que a empresa mais se esforçou para silenciar.
Em março de 2025, no mesmo mês em que foi lançado nos EUA, o Facebook recorreu ao centro de arbitragem privado American Arbitration Association para impedir a publicação. A tecnológica alegou que a empresa sofreria “danos imediatos e irreparáveis” com a chegada às livrarias. O livro não foi proibido, mas foi uma meia vitória para a rede social. A autora está impedida de fazer ações de promoção do livro ou dar entrevistas. De qualquer forma, a obra beneficiou desta tentativa de proibição. Na edição em Portugal, a sinopse inclui a descrição “o livro que Mark Zuckerberg tentou silenciar… e, muito provavelmente, com boas razões para isso”.
Publicamente, a empresa classificou a perspetiva de Sarah Wynn-Williams como “uma mistura de alegações desatualizadas e já anteriormente relatadas e de acusações falsas” sobre os executivos. A Meta alega ainda que “uma investigação, na altura”, determinou que “fez alegações enganosas e infundadas de assédio”.
Do idealismo de mudar o mundo até ver o Facebook com outros olhos
Na versão original, o livro tem o título Careless People, uma referência ao clássico O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. “Era uma gente estouvada, a Daisy e o Tom — despedaçavam coisas e pessoas e, depois, entrincheiravam-se no seu imenso dinheiro ou na sua insensatez, (…), e deixavam aos outros o cuidado de varrer os estragos por eles produzidos…”, lê-se na introdução. Ao longo do livro, Wynn-Williams retrata uma empresa gerida por pessoas comparáveis às personagens do clássico de 1925, em muitos casos orientadas pela ambição de crescimento do negócio. Mas nem sempre foi esta a visão da autora, admite.
Vários anos após a saída da rede social, confessa, de forma algo “envergonhada”, que foi o “idealismo” que a levou ao Facebook. Nascida em Christchurch, na Nova Zelândia, Sarah é a mais velha de quatro irmãos e teve uma infância normal, tirando o episódio de ter sobrevivido a um ataque de tubarão aos 13 anos — a barbatana figura tanto na capa da edição original do livro quanto na edição portuguesa.
O livro chegou às livrarias portuguesas a 21 de janeiro
Tornou-se advogada e, mais tarde, entra no mundo da diplomacia. Trabalhava nas Nações Unidas quando começou a acompanhar mais a sério o Facebook. Estávamos em 2009 e “ainda era possível ser otimista em relação ao Facebook, naqueles dias de inocência em que se podia ter esperança na Internet”, escreve.
Decide que quer estar no centro da ação e o primeiro passo é conseguir um emprego no Facebook. “Não me lembro de alguma vez ter desejado tanto uma coisa”, relata. Pedinchou uma entrevista na empresa através de amigos em comum (descobertos na rede social, claro), entre eles Marne Levine, nomeada vice-presidente de políticas públicas globais no verão de 2010. “O Facebook precisa de um diplomata”, argumentou na entrevista. No livro, Wynn-Williams fala num “potencial insuperável” da empresa e assume que antecipava que se passaria “a fazer política no Facebook”, mas que a rede social não estaria ainda desperta para tal.
Recebeu uma “rejeição arrasadora” após a entrevista. O Facebook queria crescer, não estava preocupado com geopolítica (ainda). Wynn-Williams não desistiu. A 22 de fevereiro de 2011, quando Christchurch, a sua terra natal, é assolada por um terramoto que matou 185 pessoas, recorreu à rede social para comunicar com a família do outro lado do mundo. Voltou a contactar Marne Levine (hoje diretora de negócio da Meta) e contou-lhe a sua experiência. Após algumas reviravoltas e uma série de entrevistas para outra função no Facebook foi, finalmente, contratada como diretora de políticas públicas globais. “Só não tenho a certeza de que haja trabalho suficiente para fazer estas coisas (…)”, ouviu da nova chefe.
“Mal sabia no que me estava a meter”, descreve a autora. A “resistência” é no Facebook uma “qualidade fundamental para se ter”, percebeu logo nos primeiros meses. “O esforço, a produtividade e o sacrifício de tudo o resto na vida são valorizados, a ponto de essa valorização se assemelhar a um fetiche”, diz. Trabalha com “intensidade esmagadora” nos primeiros meses ainda com a visão dos óculos “cor-de-rosa”: “Trabalhar no Facebook não é um emprego; é a tua vida. Eu não questiono isso.”
Com o passar do tempo, as funções de Sarah Wynn-Williams começaram a multiplicar-se. Em 2012 é-lhe pedido que leve Javier Oliván (atual diretor de operações da Meta) a Cartagena, na Colômbia, para “se divertir” e garantir que não abandona a empresa. Em 2013, ordenam-lhe que vá sozinha ao Myanmar resolver o bloqueio decretado ao Facebook, numa série de peripécias num país ainda a dar os primeiros passos na internet. Nessa viagem, já estava grávida, mas “tinha demasiado medo” de contar às chefias.
Meses depois, em janeiro de 2014, rebentam-lhe as águas numa reunião. Já no hospital, recebe uma mensagem com um pedido. A diretora de operações está prestes a reunir-se “inesperadamente” com a Presidente do Brasil [Dilma Rouseff]l em Davos e quer temas para discutir com ela. “Estou na sala de partos, com os pés nos estribos, em trabalho de parto. Pouso o telemóvel e pego no portátil. Começo a escrever.” Anos depois, diz-se “envergonhada” pelo seu comportamento e admite que não pode “culpar inteiramente o Facebook”. Mas também diz que, na empresa, “não tinha escolha”.
Ao longo do livro, a lista de red flags detetada por Wynn-Williams vai crescendo. Ainda que admita a relutância em auxiliar em alguns temas, em várias ocasiões foi conivente com as táticas da empresa. Relata situações de perigo para os funcionários em países como a Coreia do Sul e mesmo no Brasil, em que um dos executivos chegou a estar preso. Em março de 2016, Diego Dzodan, vice-presidente do Facebook para a América Latina, foi detido em São Paulo quando a empresa se recusou a fornecer mensagens do WhatsApp num caso de suspeitas de tráfico de droga. A postura de Zuckerberg? Tentar fazer uma publicação sobre a reação “comovente” e a disponibilidade do funcionário detido no Brasil em proteger a empresa.
▲ Sarah Wynn-Williams critica as ações de vários executivos do Facebook, incluindo o fundador Mark Zuckerberg
TASOS KATOPODIS/EPA
Nos primeiros anos, Zuckerberg era desligado da política. Depois viu na China a sua “baleia branca”
Até certo ponto, o livro de Wynn-Williams reforça a imagem de Zuckerberg de um multimilionário nem sempre confiante e inclinado a favorecer os seus pares: os engenheiros. É até citado um email de Zuckerberg em que resolve os problemas de forma final: “Quem manda sou eu”.
Em vários capítulos é feita referência a uma “política rigorosa” do empresário: “nada de compromissos antes do meio-dia”. Ou até uma imagem algo infantilizada, com um acordo implícito entre conselheiros e assistentes para deixar Zuckerberg ganhar qualquer jogo de tabuleiro, do Catan a Ticket to Ride.
Nos primeiros anos de trabalho da neozelandesa na rede social, o Facebook tinha uma relação algo distante com o mundo político. Ou, especificamente da parte de Zuckerberg, de evidente desinteresse. O patrão do Facebook só queria “briefings que não sejam mais longos do que um texto que possa ler no ecrã do seu telemóvel sem ter de fazer scroll”. Mas Wynn-Williams começa a trabalhar na aproximação dos executivos do Facebook aos governos globais. No fim, ficou com um amargo de boca quando ficou a ver, “sem esperança, como eles se aproximavam de regimes autoritários como o da China e enganavam as pessoas sem se importarem com nada disso”.
Em algumas passagens, Sarah Wynn-Williams retrata um Zuckerberg intimidado por Angela Merkel, então chanceler da Alemanha, um país particularmente crítico do Facebook. Ou de ego frágil quando Xi Jinping, Presidente chinês, recusa a “honra” de “dar o nome” ao primogénito do CEO do Facebook.
Mas, na sua reta final no Facebook, já em 2016, vê um Zuckerberg cada vez mais confortável nos meandros políticos. Escreve que passou “muito tempo a tentar ajudar o Mark a sentir-se à vontade com presidentes e primeiros-ministros e a pô-lo como um protagonista na cena política mundial”. “À medida que a sua importância aumenta, o seu respeito pelos outros diminui”, lamenta.
▲ A antiga diretora trabalhou no Facebook de 2011 a 2017
JOHN G. MABANGLO/EPA
Em relação à China, Sarah Wynn-Williams fala num esforço de anos por parte do CEO da rede social. Mark Zuckerberg aprendeu até a falar mandarim e dedicou “a maior parte de 2014” a perceber como levar o Facebook para a China. Ao longo do livro, Wynn-Williams relata as tentativas de aproximação da rede social ao país, com Zuckerberg interessado em fisgar os potenciais 650 milhões utilizadores. “Para o Mark, é difícil imaginar um futuro para o Facebook que não inclua a China.”
Para tentar a aproximação ao mercado chinês, o Facebook destacou Vaughan Smith, um neozelandês da equipa de desenvolvimento empresarial. Wynn-Williams recusou-se a trabalhar nas áreas ligadas à China e descobriu que os novos utilizadores na China seriam obrigados a concordar com uma política “que revela que o governo chinês terá acesso aos seus dados — e os utilizadores existentes em Hong Kong serão forçados a aceitar novos termos de serviço”. “Certamente não há maneira de o Facebook utilizar os dados dos utilizadores de Hong Kong como parte de um acordo para entrar na China”, escreve. Mas, numa dada fase, seria esta a estratégia base da abordagem ao mercado chinês.
A antiga diretora de políticas públicas globais descreve que a “equipa trabalhou na oferta de um serviço VIP a outras páginas do Partido Comunista Chinês”. E, mesmo bloqueado, o Facebook estava a ganhar dinheiro com os anúncios na China, diz a ex-executiva. Até hoje, o Facebook não está disponível oficialmente no mercado chinês.
Durante anos, Sarah Wynn-Williams consegue manter-se afastada dos projetos para a China. Mas nem foi esse mercado que representou a gota de água que fez transbordar o copo. Em 2016, apercebe-se de que é tempo de sair do Facebook após o falhanço do projeto Internet.org, uma iniciativa para levar conectividade a países sem internet.
Apresentado em 2013, foi fortemente contestado em vários países, incluindo o Brasil, já que só permitia o acesso à rede social e a um conjunto de páginas, infringindo o princípio de neutralidade e abertura da web. Vários países impediram o acesso à ferramenta. Nos países em que foi autorizado, como Nigéria, Madagáscar, Argélia e Bielorrússia, o Facebook passou a ser uma parte central da internet.
Refugiados rohingya processam Facebook por propagar mensagens de ódio
O Myanmar foi acusado de genocídio da minoria muçulmana do país, os Rohingya, para o qual terá contribuído alegadamente desinformação no Facebook. “A verdade aqui é incontornável. O Myanmar estaria muito melhor se o Facebook nunca tivesse lá chegado”, afirma Sarah Wynn-Williams, criticando a falta de ação da equipa de liderança do Facebook.
▲ Sheryl Sandberg foi a número dois do Facebook até 2022
Getty Images
Sheryl Sandberg e as contradições da suposta revolução “Lean In”
“Ela liga o carisma” e transforma-se em alguém “glamorosa”. É desta forma que a ex-diretora de políticas globais descreve Sheryl Sandberg, então diretora de operações. “Brilha. Como se fosse a estrela do seu próprio espetáculo, irradiando confiança e charme.”
Sandberg ganhou destaque no mundo tecnológico ao trabalhar na Google. Quando foi contratada pelo Facebook, para profissionalizar a jovem empresa, já era um nome cimentado no meio.
Sheryl Sandberg, a número 2 de Mark Zuckerberg, deixa Meta após 14 anos na empresa
Se a visão de Wynn-Williams em relação a Sandberg começa por ser de fascínio, não demora muito tempo a alterar-se. O retrato feito no livro não é favorável a Sandberg, com alegações de que seria movida por interesses e relações pessoais. Nas idas anuais a Davos, por exemplo, a autora sugere que a dificuldade era “gerir o desejo, cada vez maior, de Sheryl estar na ribalta”.
Wynn-William não passou ao lado do inevitável movimento Lean In. Em 2013, a número dois do Facebook lançou o livro Lean In, em que incentivava as mulheres a ter mais ambição profissional sem descurar a vida familiar. Amplamente promovido, tornou-se um bestseller do New York Times. Em março de 2014, chegou a Portugal através da Editorial Presença, com o nome Faça Acontecer, Lean In — Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar. Mas, segundo Sarah Wynn-Williams, as funcionárias do Facebook teriam sido “incentivadas” a fazer “voluntariado” em ações ligadas ao livro.
Com o passar do tempo, Wynn-Williams notou o que diz serem as contradições de Sandberg entre o livro e a realidade. Numa avaliação de desempenho ouviu falar em alegadas queixas de colegas que ouviam, em chamadas, a filha bebé a chorar. “Sê inteligente e contrata uma ama filipina” terá sido o conselho de Sandberg quando a neozelandesa teve a primeira filha. A autora deixa claro que, em vários momentos, não seria bem visto falar sobre emergências familiares dentro da empresa. “Não deixes que a Sheryl saiba. Ela precisa de pensar que toda a vossa atenção está focada nela”, ouviu antes de uma viagem para Davos.
Na altura das marchas feministas de 2017, após a primeira tomada de posse de Donald Trump, Sandberg teria ignorado o movimento, preocupando-se antes com o que a primeira-dama Melania tinha vestido.
Também é descrito um episódio em que Sheryl Sandberg teria dado “instruções” à assistente para comprar lingerie para as duas, “sem limites de orçamento”, uma despesa que terá rondado os 13 mil dólares. Mas Sarah aponta uma das viagens para Zurique como o ponto em que a relação com a diretora de operações mudou em definitivo. Sarah Wynn-Williams relata que Sandberg insistiu que partilhasse a cama no quarto que o jato privado tinha. Recusou. “Esperava que a minha enorme barriga deixasse claro que o meu colo não estava disponível para a minha colega de trabalho ou para a minha chefe”, escreve no livro, racionalizando: “Não quero fazer isto por todas as razões óbvias — não seria correto que um COO masculino pedisse isto e não é correto que uma mulher o faça”.
▲ Joel Kaplan é atualmente presidente de políticas globais da Meta
Bloomberg via Getty Images
A viragem para os anúncios políticos e o alegado assédio de Joel Kaplan
Outra das personalidades que é amplamente mencionada no livro é Joel Kaplan, hoje em dia presidente de políticas globais da Meta, sucedendo ao britânico Nick Clegg.
Kaplan, de 56 anos, entrou para o Facebook no mesmo ano que Sarah Wynn-Williams. Estudou em Harvard, onde conheceu Sheryl Sandberg, com quem namorou. Foi fuzileiro e chefe de gabinete-adjunto do Presidente George W. Bush entre 2006 e 2009. Segundo o relato de Wynn-Williams, teve uma passagem “acidentada” de agente político e lobista para o mundo da tecnologia. Em alguns momentos, a autora descreve uma relação forte entre Kaplan e o Departamento de Estado dos EUA. “Quando alguma coisa corre mal fora dos EUA, ele vira-se imediatamente para o Departamento de Estado para resolver”, quase como se o governo fizesse parte do Facebook.
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É a Kaplan que Wynn-Williams atribui a responsabilidade dos anúncios políticos na plataforma. Quando chega ao cargo de vice-presidente de políticas públicas globais, em outubro de 2014, tornando-se chefe direto, Kaplan “começa a contratar uma equipa de marketing para pressionar os políticos — aqui e no estrangeiro — a tornarem-se anunciantes”. Sarah Wynn-Williams resume que “o dinheiro determina a voz que é ouvida em todas as questões, desde as armas ao aborto, e muito mais”. Um sistema que o Facebook introduziu “a nível mundial de forma furtiva”, escreve a neozelandesa.
Kaplan reage com estranheza quando Wynn-Williams lhe explica que seria ilegal usar o Facebook para organizar comités de ação política no estrangeiro. “Precisamos” de canalizar o dinheiro “para os nossos principais aliados no estrangeiro”, terá dito o executivo, não gostando de ouvir a resposta de que uma ação do género poderia ser considerada “suborno e corrupção na maioria dos países”.
Um pouco por todo o mundo, a presença de anúncios políticos no Facebook multiplicou-se. Em 2016, o escrutínio que deu a primeira vitória a Donald Trump foi até apelidado como “eleições Facebook”. Mesmo após o resultado, a equipa de gestão negou a responsabilidade da empresa na vitória de Trump pelos anúncios e desinformação. Numa conferência, dias após a eleição, Mark Zuckerberg chegou a dizer que “era uma ideia bastante louca” que “as notícias falsas no Facebook, que é uma parte muito pequena de conteúdo, tenham, de alguma forma, influenciado a eleição”.
Dias depois, a bordo de um jato privado de regresso de Lima, no Peru, Zuckerberg não esconde a “fúria” pelo encontro em que Barack Obama censurou “o papel que o Facebook desempenhou nas eleições e não só”. “Não está habituado a críticas francas de alguém mais poderoso do que ele”, escreve Sarah Wynn-Williams.
Fora do mundo político, na reta final da sua passagem pelo Facebook a então diretora de políticas globais debate-se com o denunciar ou não os avanços de Joel Kaplan. Refere que o executivo lhe fez perguntas estranhas sobre amamentação, que pediu a sua presença em reuniões durante a licença de maternidade e comentários sobre o seu aspeto físico. Quando regressou ao trabalho, após a licença, foi sujeita a uma avaliação de desempenho em que lhe foi dito que alguns “colegas acharam difícil interagir contigo”.
Quando percebe que há “problemas sistémicos de assédio sexual” no departamento de Kaplan decide descrever o problema aos superiores. “Quando acabo de falar, diz-me que tem a certeza de que tudo isto tem solução e que se vai resolver sozinho”, relata. E se não acontecer? “Terei todo o gosto em escrever-te uma carta de recomendação”, foi-lhe respondido. Meses depois, foi despedida.
Atualmente, Sarah Wynn-Williams dedica-se a “trabalhar em diferentes aspetos da política de inteligência artificial (IA)”, diz no livro, concretizando que está a debruçar-se sobre as “negociações não oficiais entre os EUA e a China sobre as armas de IA”.