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O cardeal George Pell, antigo arcebispo de Sydney e responsável pelas finanças do Vaticano, foi absolvido de todas as acusações pelo Supremo Tribunal da Austrália

AFP/Getty Images

O cardeal George Pell, antigo arcebispo de Sydney e responsável pelas finanças do Vaticano, foi absolvido de todas as acusações pelo Supremo Tribunal da Austrália

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George Pell. Como o ministro das Finanças do Papa passou de inimigo público n.º 1 a inocente /premium

Condenado em 2019 e rosto do escândalo dos abusos sexuais na Austrália, o ex-conselheiro do Papa Francisco foi absolvido de todas as acusações. Durante o processo, teve sempre o apoio de Bergoglio.

George Pell chegou ao Vaticano em 2014 para arrumar fantasmas do passado relativos às duvidosas finanças da cúpula da Igreja Católica, mas seriam os seus próprios fantasmas a transformá-lo no protagonista de um escândalo de pedofilia a nível global — primeiro pela forma como lidou com os abusos sexuais na sua diocese australiana, depois pelas acusações que caíram sobre ele próprio.

Há apenas seis anos, o cardeal australiano tinha sido nomeado pelo Papa Francisco para o recém-criado Secretariado para a Economia, tornando-se numa espécie de ministro das Finanças da Santa Sé e ascendendo ao terceiro lugar na hierarquia do Vaticano, para pôr fim aos casos de corrupção e acusações de lavagem de dinheiro que duravam desde o escândalo do Vatileaks.

Não foram, contudo, os méritos económicos que colocaram George Pell nas manchetes dos jornais de todo o mundo. Em 2019, o ex-arcebispo de Sydney foi condenado a seis anos de prisão por ter abusado sexualmente de dois rapazes nos anos 90. Pell tornou-se assim no mais destacado membro da hierarquia católica a ser considerado culpado — e efetivamente preso — por abuso sexual de menores. Entretanto, já o Vaticano o tinha dispensado dos seus cargos, quer como prefeito do Secretariado para a Economia, quer como membro do conselho de consultores do Papa Francisco.

O cardeal George Pell, que esteve preso durante mais de um ano, foi absolvido pelo Supremo Tribunal australiano e saiu em liberdade esta terça-feira

Getty Images

Esta terça-feira, porém, deu-se a reviravolta final: após mais de um ano de prisão e de anos a fio de investigações pelos tribunais e pela comissão criada pelo governo australiano para os abusos na Igreja, o Supremo Tribunal da Austrália absolveu George Pell de todas as acusações.

As cartas polémicas e a metáfora do camionista

As polémicas a gravitar à volta de George Pell remontam à década de 70, poucos anos depois de ter sido ordenado padre e ter começado a trabalhar na diocese de Ballarat. Naqueles anos, Pell esteve sob as ordens do bispo Ronald Mulkearns, que mais tarde viria a admitir ter escondido dezenas de casos de abuso sexual naquela diocese do sul da Austrália para tentar proteger a reputação da Igreja Católica.

Nessa altura, Pell chegou a partilhar uma casa sacerdotal com o ex-padre Gerald Ridsdale, atualmente preso por ter abusado sexualmente de pelo menos 65 crianças — muitas enquanto trabalhava na diocese de Ballarat. Em 1993, Ridsdale foi expulso do sacerdócio pela Igreja Católica.

Porém, seria com a nomeação para liderar a arquidiocese de Melbourne, em 1996, que George Pell assumiria um papel central na polémica dos abusos sexuais. Numa altura em que, a nível global, começavam a emergir dezenas de denúncias de abusos sexuais cometidos por membros do clero, o então arcebispo criou um programa de apoio — o Melbourne Response —, com o objetivo de encorajar as vítimas a partilharem as suas histórias.

Segundo um relatório da Royal Commission que investigou os abusos na Igreja australiana, o programa tinha como objetivo garantir que todas as denúncias eram investigadas por comissões independentes e dar apoio psicológico e financeiro às vítimas. Mais tarde, porém, viriam a emergir denúncias de que a arquidiocese usava aquela forma de apoio para, na verdade, comprar o silêncio das vítimas.

O cardeal George Pell mantém até hoje que a sua abordagem ao problema dos abusos sexuais na Igreja Católica australiana foi pioneira

AFP via Getty Images

No livro “Luxúria”, editado em 2017, o jornalista italiano Emiliano Fittipaldi (um dos jornalistas envolvidos no Vatileaks) revelou o conteúdo das cartas enviadas pelo então arcebispo George Pell às vítimas de abuso sexual na arquidiocese de Melbourne. Numa carta enviada à família de Emma Foster, que sofreu abusos sexuais cometidos pelo padre australiano Kevin O’Donnell, Pell reconhece que não é possível “mudar o que aconteceu no passado” e anexa uma outra carta, enviada em seu nome por uma sociedade de advogados, com o objetivo de discutir os detalhes do pagamento da compensação financeira à família da vítima, no valor de 50 mil dólares.

Nessa carta, a sociedade de advogados esclarece que o pagamento daquele valor é uma “alternativa realista a uma litigação que, de outra forma, será vigorosamente defendida” pela arquidiocese. De acordo com a carta, a vítima teria — ao atingir a maioridade — de assinar uma declaração a libertar o arcebispo de qualquer acusação futura relacionada com abusos sexuais e ficar sujeita a um acordo de não-divulgação relativamente à compensação que tinha recebido.

Estes documentos, segundo disse Fittipaldi numa entrevista ao Observador em 2017, mostram que “Pell sabia muito bem o que estava a fazer, como estava a tentar defender a Igreja, defender os cofres da Igreja” e “demonstram sem sombra de dúvida o nível ético e moral de Pell”.

Quando, em 2001, foi nomeado para ocupar o cargo de arcebispo de Sydney, considerada a posição mais relevante da Igreja Católica australiana, Pell levou para aquela arquidiocese as mesmas práticas. Ali, o caso mais conhecido seria o de John Ellis, um advogado que tentou processar a arquidiocese de Sydney em 2007 por ter sofrido abusos sexuais durante a década de 70, altura em que era acólito numa igreja da cidade, cometidos por um padre da arquidiocese. O processo acabaria por cair porque o tribunal entendeu que a Igreja Católica não podia ser processada. Estima-se que a Igreja tenha gasto 1,5 milhões de dólares australianos na sua defesa naquele caso — mas o cardeal Pell afirmou não conhecer os detalhes do processo, incluindo os valores em jogo.

"Se um camionista der boleia a uma mulher qualquer e abusar dela, não acho que seja apropriado, porque é contra as suas políticas, que a administração da empresa seja responsabilizada"
Cardeal George Pell

Num outro depoimento perante a Royal Commission, Pell fez a comparação que motivaria em grande medida a raiva de que ainda hoje é alvo por parte dos australianos: “Se um camionista der boleia a uma mulher qualquer e abusar dela, não acho que seja apropriado, porque é contra as suas políticas, que a administração da empresa seja responsabilizada”.

Afastamento no Vaticano e condenação em tribunal

A Royal Commission destinada a investigar os abusos sexuais na Igreja Católica australiana, lançada em 2012 por iniciativa da primeira-ministra Julia Gillard, ouviu por diversas vezes o cardeal George Pell, que foi um dos protagonistas da investigação. Repetidamente, Pell reconheceu que a Igreja nem sempre agiu como devia na forma como lidou com os crimes e pediu desculpa às vítimas pela inação das instituições. Mas negou sempre, e até hoje, as acusações de abuso que recaíam sobre ele próprio.

Em fevereiro de 2016, o jornal Herald Sun noticiou que a polícia do estado australiano de Victoria estava a investigar alegações de abuso sexual contra Pell, relativas a crimes que o cardeal teria cometido quando era padre na diocese de Ballarat e também já enquanto arcebispo de Melbourne. O gabinete de Pell, que por aquela altura era já o responsável pelas finanças do Vaticano, desmentiu categoricamente as alegações e lembrou que já 15 anos antes o cardeal havia sido absolvido das falsas acusações de abuso sexual de um jovem num campo de férias na década de 60.

Por esta altura, chamado novamente a depor perante a Royal Commission, George Pell pediu para passar a fazê-lo por videoconferência a partir de Roma, uma vez que o seu médico o aconselhou a não viajar por motivos de saúde. O pedido, aceite pelas autoridades australianas, provocou uma onda de críticas contra o cardeal, acusado de “cobardia” por não querer enfrentar a justiça australiana.

Pell só voltaria a viajar para a Austrália no verão de 2017, depois de ter sido formalmente acusado pelo Ministério Público australiano de abuso sexual de menores. O cardeal regressou “para se defender vigorosamente e limpar o seu nome”, uma vez que estava “completamente inocente das acusações”, segundo disse na altura a arquidiocese de Sydney.

O cardeal George Pell foi nomeado pelo Papa Francisco em 2014 para colocar em ordem as finanças do Vaticano

L'Osservatore Romano/EPA

O ministro das Finanças do Vaticano foi acusado de cinco crimes de abuso sexual de menores. Porém, o facto de os crimes dizerem respeito a dois períodos temporais distintos — alguns crimes datavam da década 70, outros da década de 90 —, o tribunal decidiu conduzir dois julgamentos em paralelo. Pell viria a ser condenado por crimes que teriam sido cometidos na década de 90 contra dois rapazes que o auxiliavam na catedral de São Patrício, em Melbourne, na altura em que o prelado era arcebispo naquela cidade do sul da Austrália.

O processo baseou-se, essencialmente, no testemunho de uma das alegadas vítimas, porque a outra morreu em 2014, vítima de overdose de heroína. O homem contou em tribunal que, em dezembro de 1996, ele e um colega — ambos com 13 anos — abandonaram discretamente a procissão do coro no final de uma missa na catedral de São Patrício e fugiram para a sacristia para beber o vinho usado na missa. Foi nesse momento que o arcebispo Pell entrou na divisão e os apanhou em flagrante, advertindo-os e dizendo-lhes que não podiam estar a fazer aquilo.

Depois, segundo o relato do homem, o arcebispo começou a abrir as vestes litúrgicas, que ainda tinha vestidas após o final da missa, de forma a mostrar-lhes o pénis, e obrigou os dois menores a fazerem-lhe sexo oral. O arcebispo teria ainda acariciado os genitais dos menores enquanto se masturbava, de acordo com o testemunho prestado em tribunal. Mais tarde, já em 1997, Pell teria repetido o ataque a uma das crianças.

Em agosto de 2018, os jurados não conseguiram chegar a um consenso sobre a culpabilidade de Pell e o julgamento voltou ao início. Em dezembro, já com um novo júri e depois de reavaliado o caso, George Pell foi considerado culpado de cinco crimes contra os dois menores.

Antigo número 3 do Vaticano e conselheiro do Papa Francisco considerado culpado de abusos sexuais

Um dia depois de o tribunal se decidir pela culpa do cardeal, o Papa Francisco decidiu afastar Pell e um outro cardeal, o chileno Javier Errázuriz, do C9, o conselho de nove cardeais que aconselhava o líder da Igreja nas decisões mais importantes. A justificação oficial do Vaticano foi a idade avançada de ambos os cardeais. Mas ambos estavam envolvidos em acusações de ocultação de abusos sexuais nos seus países. Dois meses depois, chegava do Vaticano a confirmação de que Pell tinha sido afastado de vez do cargo na Secretaria para a Economia.

O cardeal negou sempre as acusações e recorreu de todas as decisões do tribunal. O recurso apresentado pelos advogados de Pell depois da condenação viria a tornar-se num dos momentos mais marcantes de todo o processo e a contribuir para o já irreversível afundamento da reputação do cardeal. Em tribunal, o advogado Robert Richter descreveu a atuação como “não mais do que um simples caso de penetração sexual em que a criança não participou voluntariamente ou ativamente”. A expressão usada (ainda mais forte no original inglês, “plain vanilla sexual penetration case”) provocou uma onda de indignação entre as vítimas de abuso sexual e obrigou o advogado de Pell a pedir desculpa publicamente.

O advogado de George Pell, Robert Richter, viu-se obrigado a pedir desculpa pelas palavras que usou em tribunal

ERIK ANDERSON/EPA

George Pell esperou três meses pela leitura da sentença, que chegou em março de 2019: seis anos de prisão. O juiz classificou os crimes cometidos pelo cardeal como “hediondos”, mas acabou por reduzir a pena (que podia ir até aos 50 anos) devido à idade avançada de Pell e à “vida irrepreensível” que levou à exceção daqueles dois crimes. O cardeal foi levado diretamente para a prisão pelas autoridades, evitando a manifestação contra si à porta do tribunal. Entre os cartazes empunhados pelas associações de defesa das vítimas, uma fotografia de Pell a acompanhar Gerald Ridsdale a uma sessão em tribunal na década de 90, com a legenda “companheiros”.

“Uma pena injusta por causa da intransigência”

Durante todo o processo, o Vaticano evitou ao máximo pronunciar-se sobre o caso que envolveu o cardeal Pell, ainda que em causa estivesse a terceira figura da liderança da Igreja Católica. Tanto o Papa Francisco como os porta-vozes oficiais do Vaticano repetiram vagamente a sua confiança nas autoridades australianas e a disponibilidade da Igreja Católica para colaborar com as autoridades na descoberta da verdade.

Numa entrevista que deu ao Observador em 2017, numa altura em que já era investigado pelas autoridades australianas, o cardeal George Pell mostrou-se “grato pelo apoio” do Papa e negou todas as acusações. Chegou a deixar uma suspeita: “Questiono-me até que ponto os meus problemas na Austrália estarão de alguma forma relacionados com as reformas que estou a fazer aqui. Mas trata-se de uma mera hipótese, não tenho provas firmes disso”.

Na mesma entrevista, Pell sublinhou:. “É bastante irónico que eu, apesar de ter sido o primeiro a implementar uma abordagem compreensiva, seja visto como o símbolo de um velho mundo que eu fiz mudar”. E deixou a garantia: “Se eu me visse como um verdadeiro embaraço para o Papa, parava amanhã. Não estou aqui para embaraçar a Igreja. Estou aqui para garantir que sou tratado de forma justa, tal como quero que se faça justiça em relação ao dinheiro. De certa maneira, estou a fazer com o dinheiro o que fiz com a pedofilia em 1996”.

Testemunhas presentes na missa após a qual os abusos teriam acontecido “descreveram os movimentos” de George Pell “após a conclusão da missa solene de domingo de uma forma que é inconsistente com o relato” da alegada vítima.
Supremo Tribunal da Austrália

Esta terça-feira, o Supremo Tribunal da Austrália, a quem a defesa de Pell recorreu depois da condenação, deu razão ao cardeal e decidiu absolvê-lo das acusações. Num resumo da decisão divulgado pelo tribunal, os juízes do Supremo Tribunal da Austrália explicam o que os levou a refutar a decisão já tomada pelo Supremo Tribunal do estado de Victoria de negar a absolvição de Pell.

Os juízes começam por recordar que a condenação resultou do “segundo julgamento destas acusações, depois de o júri no primeiro julgamento não ter sido capaz de chegar a um consenso nos seus veredictos”. Apesar de atribuírem credibilidade ao testemunho da alegada vítima, os juízes acrescentam que viram as gravações de um conjunto de outras testemunhas, presentes na missa após a qual os abusos teriam acontecido, “que descreveram os movimentos” de George Pell “após a conclusão da missa solene de domingo de uma forma que é inconsistente com o relato” da alegada vítima.

O Supremo deixa claro que o tribunal de instância inferior não teve em consideração “a possibilidade razoável de a ofensa não ter ocorrido” e de haver “dúvida razoável quanto à culpa” de George Pell.

Para os juízes, o relato da vítima não bate certo com três elementos: em primeiro lugar, Pell costumava cumprimentar os fiéis após a missa de domingo na escadaria em frente à catedral, processo que demorava vários minutos, o que impossibilitaria o cardeal de estar na sacristia no momento em que os dois jovens abandonaram a procissão do final da celebração; em segundo lugar, a prática católica, que era seguida na catedral de São Patrício, mandava que o arcebispo estivesse sempre acompanhado no interior da igreja enquanto estava com as vestes litúrgicas, uma vez que se encontrava ainda em celebração; e, por fim, o movimento de entradas e saídas na sacristia de uma catedral após a conclusão de uma missa, com várias pessoas a arrumarem o local e os objetos usados na celebração, impossibilitariam que o arcebispo e os dois menores estivessem sozinhos na divisão.

Supremo Tribunal da Austrália anula sentença do cardeal George Pell condenado por pedofilia

Esta terça-feira, depois de conhecida a decisão do Supremo Tribunal da Austrália sobre George Pell, o Papa Francisco rezou no Vaticano por todos os que recebem uma “sentença injusta”. Embora não tenha feito nenhuma referência explícita ao caso do cardeal australiano, o Papa argentino falou sobre a perseguição de que Jesus Cristo foi alvo durante os dias que antecederam a crucificação e afirmou: “Ele foi julgado com intransigência, embora sendo inocente. Gostaria de rezar, hoje, por todas as pessoas que sofrem uma pena injusta por causa da intransigência”.

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