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A retórica voltou a subir de tom e os movimentos no terreno acompanharam as palavras. Os Estados Unidos reforçaram a sua presença militar no Médio Oriente com o envio de mais um navio de guerra para a região. O Presidente norte-americano, Donald Trump, admitiu um possível ataque contra território iraniano, avisou que o “tempo está a esgotar-se” e garantiu que a frota agora a caminho “é maior do que a enviada à Venezuela”. É uma resposta direta ao agravamento da situação interna do Irão desde o início de janeiro: protestos violentamente reprimidos, milhares de mortos, feridos e detidos, denúncias de execuções — e um regime que se enfraqueceu. Soma-se a isto a ameaça de que, caso os norte-americanos ataquem o país, haverá uma “resposta esmagadora” de Teerão. Impõe-se, assim, a questão: até onde estará Trump disposto a ir?
De acordo com várias fontes citadas pela agência Reuters, o Presidente dos Estados Unidos estará a ponderar realizar ataques a líderes ou forças policiais, consideradas responsáveis pela repressão dos protestos iniciados no final de dezembro. O objetivo, segundo as mesmas fontes, seria incentivar novos protestos, dando à população iraniana a perceção de que o regime perdeu o controlo e que existe apoio externo para uma eventual mudança de poder. Estaria, ainda, em cima da mesa um ataque muito maior, com o objetivo de ter um impacto duradouro, possivelmente contra os mísseis balísticos que podem atingir os aliados dos Estados Unidos no Médio Oriente ou os seus programas nucleares.
Para sustentar esta pressão, a Marinha norte-americana enviou mais um navio de guerra para o Médio Oriente, o USS Delbert D. Black, que já se encontra na região. Trump fala numa “grande armada” em movimento. “Temos uma frota enorme a dirigir-se em direção ao Irão. Talvez não seja preciso usá-la”, afirmou o líder norte-americano a bordo do Air Force One, antes de acrescentar que, se o Irão avançar com execuções de manifestantes, um eventual ataque norte-americano faria o ataque de junho de 2025 parecer insignificante.
⚡️BREAKING
Trump announces massive military build-up near Iran:
'We have a massive armada moving in the direction of Iran. We'll see what happens. We are watching them closely' pic.twitter.com/Gqa2JTlHp3
— Iran Observer (@IranObserver0) January 22, 2026
Para o historiador Bruno Cardoso Reis, esta é a forma de Washington mostrar pressão. “Temos aqui a concentração de meios militares adicionais muito significativos, portanto isso parece, para já, ser claramente uma forma de pressão militar sobre o Irão. Há aqui uma escalada de tensão e um risco real de um choque armado“, explicou ao Observador.
Esta ideia é também reiterada pela especialista em Relações Internacionais, Daniela Nunes. “Estamos provavelmente a observar uma lógica de pressão política muito forte, com riscos muito elevados e sobretudo com alguns benefícios que são altamente duvidosos”, afirmou ao Observador.
O precedente de 2025: porque é que o ataque a alvos militares e petrolíferos mudou tudo?
Até junho de 2025, apesar das tensões entre Teerão e Washington que já duram há décadas, os Estados Unidos evitavam ataques diretos contra território iraniano. Esta regra foi quebrada com a operação Midnight Hammer (Martelo da Meia-Noite, em português), um ataque coordenado e tecnicamente sofisticado levado a cabo pelos Estados Unidos contra três instalações nucleares iranianas, que envolveu 125 aeronaves norte-americanas, 14 bombas GBU-57 de 15 mil quilos e mais de 24 mísseis de cruzeiro Tomahawk disparados a partir de um submarino.
A operação militar em larga escala preparada ao longo de “meses” e “sem o mundo saber” durou apenas 25 minutos e não encontrou qualquer resistência por parte das forças iranianas, segundo explicou, na altura, o secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, e também o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, numa conferência de imprensa no Pentágono. De acordo com os dois responsáveis, a operação foi “um sucesso” e danificou “severamente” as infraestruturas iranianas.
O ataque teve três consequências estruturais: demonstrou que nem mesmo as instalações mais protegidas do Irão estão fora do alcance militar dos Estados Unidos; reduziu a credibilidade da dissuasão iraniana; e criou um precedente político que torna novos ataques mais plausíveis. Como explica Bruno Cardoso Reis, este ponto é fundamental para perceber o momento atual: Trump mostrou que está disposto a usar força militar direta contra o Irão, mas fá-lo-á de forma limitada, calibrada e com objetivos claros, evitando compromissos prolongados.
▲ Em junho de 2025, Trump ordenou o ataque a três instalações nucleares iranianas
Samuel Corum / POOL/EPA
“Acho que é possível realmente um confronto, ou seja, Donald Trump já mostrou no passado que está disposto a atacar o Irão, embora a verdade é que sempre o fez de uma forma relativamente limitada”, afirmou Bruno Cardoso Reis, acrescentando que aquilo que parece ser o foco de Trump é a questão do programa nuclear”.
Quantos navios estão no Médio Oriente? E o que valem militarmente?
Os Estados Unidos têm várias bases espalhadas em países do Médio Oriente: Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Jordânia, Kuwait e Qatar. No entanto, não é possível saber ao certo quantos navios estão na região, embora o Comando Central das Forças Armadas norte-americanas (CENTCOM) tenha confirmado, no início desta semana, a mobilização de um grupo naval para promover segurança regional: o USS Delbert D. Black e o USS Abraham Lincoln, um porta-aviões de propulsão nuclear com 333 metros de comprimento, capaz de operar durante anos sem reabastecimento.
Sailors aboard USS Abraham Lincoln (CVN 72) perform routine maintenance as the aircraft carrier sails in the Indian Ocean, Jan. 26. The Abraham Lincoln Carrier Strike Group is currently deployed to the Middle East to promote regional security and stability. pic.twitter.com/dkuN946hce
— U.S. Central Command (@CENTCOM) January 26, 2026
O Lincoln funciona, segundo explica a Al Jazeera, como um aeródromo flutuante, que transporta o Carrier Air Wing 9, com cerca de 65 aeronaves, incluindo caças F/A-18E Super Hornet, usados para ataques de precisão, reconhecimento e reabastecimento em voo. O grupo é escoltado por três contratorpedeiros da classe Arleigh Burke (USS Frank E. Petersen Jr., USS Spruance e USS Michael Murphy), que são capazes de lançar mísseis Tomahawk, realizar defesa antimíssil e combater submarinos.
Normalmente, estes grupos incluem ainda um cruzador de mísseis guiados, um submarino de ataque e navios de apoio logístico. A estes, juntam-se caças F-15E destacados para a Jordânia, aviões de reabastecimento no Qatar e exercícios aéreos anunciados pelo CENTCOM para demonstrar a capacidade de “desdobrar, dispersar e sustentar poder aéreo de combate”.
▲ Bases militares norte-americanas no Médio Oriente
Anadolu via Getty Images
No terreno, segundo o New York Times, estima-se que entre 40 a 50 mil militares norte-americanos estejam estacionados no Médio Oriente, distribuídos por oito bases permanentes e várias posições avançadas. Este dispositivo norte-americano montado no Médio Oriente não serve apenas para atacar: serve também para defender bases, proteger aliados e conter respostas indiretas iranianas.
Teerão não fica de braços cruzados: drones, mísseis e uma “resposta esmagadora” a qualquer ataque
Em junho, os iranianos não ofereceram qualquer resistência ao ataque norte-americano. Desta vez, é diferente. O primeiro vice-Presidente do Irão, Mohammad Reza Aref, avisou esta quinta-feira que o país se deve preparar para a guerra perante a ameaça dos Estados Unidos de usar a força militar contra a República Islâmica.
“Devemos estar preparados para a guerra. A República Islâmica do Irão nunca inicia uma guerra, mas se lhe for imposta uma, defender-se-á com força”, afirmou Mohammad Reza Aref, citado pela agência de notícias iraniana ISNA.
Também o chefe do Exército do Irão, o general Amir Hatami, prometeu esta quinta-feira uma resposta arrasadora a qualquer ataque dos Estados Unidos, apesar da ineficácia defensiva demonstrada por Teerão na Guerra dos 12 Dias contra Israel, em 2025, na qual também participaram os Estados Unidos com o ataque às instalações nucleares iranianas
Hatami anunciou na televisão estatal que, face às ameaças norte-americanas, o Exército tem como “prioridade reforçar os ativos estratégicos com vista a uma resposta rápida e esmagadora a qualquer invasão e ataque”. Sob as suas ordens, as unidades de combate receberam “mil drones estratégicos” fabricados pelo “exército em cooperação com o Ministério da Defesa”.
Os aparelhos foram concebidos “de acordo com as novas ameaças e as lições aprendidas com a guerra de 12 dias” com Israel, acrescentou a televisão estatal iraniana, citada pela agência de notícias France-Presse . O Irão possui uma forte indústria de drones e mísseis. Em 2024, apresentou um modelo com um raio de ação de dois mil quilómetros e capacidade de voo de 24 horas, segundo a agência noticiosa espanhola EFE.
Daniela Nunes explicou ao Observador que “esta ideia de [os Estados Unidos] atacarem seletivamente lideranças e forças e instituições que, como sabemos, são responsáveis pela repressão no Irão, com o objetivo de inspirar a população, não é exatamente nova em Washington e para Washington”.
“Parte-se aqui do contexto de que, removendo o medo e sinalizando o apoio externo, acaba por se criar um efeito dominó que leva à queda do regime. Agora, o problema é que esta lógica tem um histórico muito fraco quando aplicada a regimes como o iraniano”, disse, explicando que “o Irão não é um Estado tão frágil, nem tão isolado, na medida em que tem um aparelho de segurança robusto e tem uma elite política muito habituada a operar sobre pressão externa”.
“Portanto, qualquer ação militar norte-americana, mesmo que cirúrgica, encaixava muito facilmente naquilo que é uma narrativa histórica no Irão”, clarificou.
A especialista em Relações Internacionais considera ainda que a possibilidade de uma intervenção externa em contextos de instabilidade interna levanta um paradoxo. “Protestos que nascem de frustrações económicas ou sociais podem rapidamente ser reconfigurados pelo regime como atos de traição ou como resultado de ingerência estrangeira”, explicou. Este enquadramento permite às autoridades deslegitimar a contestação interna e justificar mecanismos de repressão mais severos.
Nesse sentido, uma eventual intervenção norte-americana poderia, por um lado, facilitar ou validar ações repressivas por parte do regime e, por outro, dificultar a mobilização popular, tornando-se, no conjunto, contraproducente. “A presença ou o apoio externo acaba muitas vezes por retirar autenticidade aos protestos aos olhos da população”, sublinhou.
Para além do impacto interno, Daniela Nunes chamou a atenção para um segundo risco que considera importante: o risco regional. Uma resposta do Irão a uma intervenção dos Estados Unidos, mesmo que limitada ou cirúrgica, dificilmente seria direta ou simétrica. “É muito pouco provável que o Irão responda de forma frontal. A resposta passaria, antes, por pressionar os aliados dos Estados Unidos, como já se verificou anteriormente. Esta retaliação poderia assumir várias formas, desde ações no Golfo a ataques indiretos ou diretos contra Israel, num cenário de escalada difícil de controlar. “Estamos a falar de uma dinâmica com um potencial de alargamento muito rápido e com riscos significativos de escalada regional”, alertou, por fim, a especialista.
No dia 23 de junho do ano passado, o Irão atacou a base militar dos Estados Unidos no Qatar, num ato simbólico de retaliação. O ataque, considerado “muito fraco”, fez com que Trump anunciasse um cessar-fogo entre israelitas e iranianos após os 12 dias de guerra.
Frota dos EUA no Médio Oriente “é maior do que a enviada à Venezuela”
Donald Trump fez questão de comparar esta mobilização com a operação na Venezuela, realizada no início deste mês, quando as forças norte-americanas capturaram Nicolás Maduro numa operação relâmpago. “Esta frota é maior do que a enviada à Venezuela”, escreveu o líder norte-americano na Truth Social, sublinhando que “assim como no caso da Venezuela, [a frota] está pronta, disposta e apta a cumprir sua missão rapidamente, com velocidade e violência, se necessário”.
A mensagem de Trump é dupla: por um lado, mostra capacidade militar dos Estados Unidos; por outro, sugere que mudanças de regime são possíveis, mesmo contra governos que parecem protegidos, tal como o da Venezuela.
União Europeia alerta: “Escalada militar poderia ter graves repercussões sobre a estabilidade regional”
O reforço da presença militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico aumenta a preocupação internacional sobre um possível ataque contra o Irão. A Comissão Europeia avisou, esta quarta-feira, que qualquer escalada militar no Irão “poderia ter graves repercussões” na estabilidade do Médio Oriente, pedindo contenção e que se dê uma “oportunidade à diplomacia“.
Estes avisos foram deixados pelo porta-voz da Comissão Europeia para os Assuntos Externos e Política de Segurança, Anouar El Anouni, na conferência de imprensa diária do executivo comunitário, após ser questionado sobre como é que a União Europeia está a ver o reforço da presença militar dos Estados Unidos no Médio Oriente e o facto de Donald Trump não descartar uma intervenção militar no Irão.
“Exortamos todas as partes, tanto os atores estatais como não estatais, a respeitarem o Direito Internacional, mostrarem contenção e absterem-se de qualquer ação suscetível de criar uma nova escalada no Médio Oriente”, afirmou.
O porta-voz da Comissão Europeia salientou, ainda, que “os princípios do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas devem ser respeitados em todas as circunstâncias”.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]