Hélder Freire Costa e o teatro de revista. “Ninguém calava o Nicolau Breyner, nem a censura” /premium

09 Dezembro 2018

Na semana em que António-Pedro Vasconcelos estreia um filme sobre o Parque Mayer, o Observador conversa com o empresário Hélder Freire Costa, histórico produtor do Maria Vitória.

Nasceu há 78 anos na Rua das Janelas Verdes, mesmo em frente ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e trabalha no Parque Mayer desde há 54 anos. É o último dos empresários portugueses da revista à portuguesa, género teatral que foi imagem de marca do Parque Mayer durante quase todo o século XX. Ainda explora o velhinho Teatro Maria Vitória e por estes dias tem em cartaz “ParqueMania”, com Paulo Vasco e Miguel Dias, e direção de Flávio Gil.

Testemunha de um Parque Mayer há muito desaparecido – e já bem diferente daquele dos anos 30, agora retratado no novo filme de António-Pedro Vasconcelos –, Hélder Freire Costa foi patrão e amigo de autores, encenadores e atores que marcaram gerações na chamada Broadway portuguesa, espaço familiar e de boémia inaugurado em 1922 junto à Avenida da Liberdade.

Esta semana, sentou-se com o Observador para desfiar memórias, junto ao palco do Maria Vitória e de uma enorme fotografia de Ivone Silva (1936-1987), talvez a maior estrela de sempre da revista. Diz que já viveu muitas crises como empresário, mas nenhuma tão forte como a de 2011, quando o país esteve sob assistência financeira externa. Recorda com ironia os tempos da censura prévia. E afirma que a comédia pode tudo, só não pode ofender.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Qual é a memória mais antiga que tem do Parque Mayer?
Não sei a data, mas era criança e vim com um vizinho para ver uma revista no Variedades. Fiquei apaixonado. Muita luz, muita cor. Esta fórmula encantou-me, mas nunca sonhei algum dia ser artista ou empresário de teatro.

Como é que chegou ao Parque Mayer?
Trabalhava na Baixa, no Banco Lisboa e Açores, que hoje é o Santander. Fazia o expediente, mas não atendia o público. Estive lá um ano e fui despedido. Tinha 21 ou 22 anos e era um miúdo que gostava dos bailaricos. Organizava festas na Sociedade Ordem e Progresso, ali perto das Janelas Verdes. O Jaime Fernandes, que foi diretor da Rádio Comercial e da RTP, nasceu no meu bairro e também fazia parte da comissão de festas. Vivíamos a noite intensamente. Olhe, o Camané, o Hélder e o Pedro Moutinho são filhos de um grande amigo meu de infância que andava comigo nos bailes das coletividades, o Manuel Paiva. Um dia, cheguei ao banco e tinha ordem de despedimento, claro.

E um dia respondeu a um anúncio para empregado de escritório da Capitólio.
Exatamente. Fui ao Rossio entregar a resposta a um anúncio do Diário de Notícias. Não sabia o que era, sequer, sabia só que funções é que pediam. Um dia chego a casa e a minha mãe diz que tinha ligado um senhor Bastos, do Capitólio, que queria falar comigo por causa do anúncio. Para mim, Capitólio era sinónimo de cinema no terraço, não sabia que faziam teatro. Lá fui. Conheci o senhor Giuseppe Bastos [1911-1975], que viria a ser o meu primeiro patrão de teatro e meu mestre na profissão. Comecei como empregado de escritório e depois passei a secretário dele.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Aprendeu o quê com ele?
Tudo, toda a lide de teatro, como se procede, o que é o encenador, o que podem os atores fazer, tudo. Ele depois teve de regressar a África e entregou-me o mando, fiquei representante dele. A princípio, fiquei a gerir o Capitólio, mas ainda era tudo uma novidade para mim. Tive a sorte de encontrar uma companhia disciplinada, comandada pelo Eugénio Salvador, com o Humberto Madeira e a Anita Guerreira. Isto em 1964. Depois fui subindo os degraus. A empresa que hoje tenho é oriunda dessa que Giuseppe Bastos tinha fundado. Ele depois associou-se ao Vasco Morgado. Exploravam o Variedades, o Capitólio e o Maria Vitória. O ABC foi sempre à parte. Além disso, o Vasco Morgado tinha outros teatros fora do Parque Mayer: o Monumental, o Avenida, o Sá da Bandeira. Mais tarde, o Vasco Morgado ficou com Variedades e Capitólio e o Giuseppe Bastos ficou com o Maria Vitória. Em 1975, quando ele morre, a revista tinha uma força tremenda. Colocávamos bilhetes à venda com 15 dias de antecedência e esgotavam num só dia.

[Vasco Morgado, Ausenda Bastos e Giuseppe Bastos. Foto sem data.]

Dois Grandes EMPRESÁRIOS!!!

Posted by Vasco Morgado on Tuesday, January 4, 2011

Qual foi a melhor revista que alguma vez produziu?
Houve várias, mas precisamente essa de 1975, “Até Parece Mentira” [escrita por Aníbal Nazaré, Henrique Santana e Nazaré Vaz], que foi a primeira revista verdadeiramente livre, feita já no pós-25 de Abril, essa acho que foi a melhor de todas. Esteve um ano e tal em cartaz, fazia duas sessões diárias e matinés aos domingos e feriados, e ainda fomos fazer uma digressão ao Porto.

Como é que define o teatro de revista?
É um teatro de crítica social e política, um teatro que fala pela boca do povo. Temos de tirar o pensamento do povo e as suas preocupações e fazer com que os autores criem um espetáculo a partir disso. O teatro de revista, em determinada altura, foi acusado de ser o teatro do regime, do Estado Novo. É absolutamente mentira. Brecht estava proibido em Portugal antes do 25 de Abril e, portanto, ninguém fazia, porque não era autorizado. Não se luta contra a censura não fazendo aquilo que é proibido, luta-se contra a censura fazendo aquilo que é proibido. O teatro de revista era sempre autorizado, porque contornava as situações, contornava a censura, mas fazia-se. “E Viva o Velho!” [1965] foi uma revista toda sobre o Salazar, com críticas tremendas. A censura inicialmente deixou passar, mas começou a estrangular aos poucos.

Como é que funcionava a censura no teatro de revista?
Enviámos os textos para o SNI [Secretariado Nacional de Informação], ali no Palácio Foz, nos Restauradores. Mandávamos os números e depois eles enviavam para trás, com cortes, estropiavam os textos. Os autores viam o que tinha sido cortado a percebiam o que podiam ou não aproveitar. Depois, passados dias, enviávamos números novos, ou versões emendadas. Passado um tempo, vinham novamente cortes. Palavras, frases, etc. Claro, se um número tinha uma crítica baseada numa palavra, e se eles tiravam essa palavra, o número ficava logo destruído. Passados dias, a censura devolvia outra vez os textos com cortes, cortes cada vez mais suaves. Começava a ser apertado para o empresário, porque aquilo de que ele mais necessitava era de estrear. Ao mesmo tempo já decorriam os ensaios, porque a companhia não podia estar parada. Finalmente, chegava o dia de fazermos um ensaio geral só para a censura. Vinha um grande grupo, que incluía representantes da igreja, para assistir a esse ensaio.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Só nesse momento é que sabiam que eram os censores?
Já sabíamos antes, porque ao fim de uns anos a trabalhar na área acabávamos por saber. Eram sempre os mesmos. Aliás, um deles, Coelho Ribeiro, foi mais tarde presidente da RTP, já depois do 25 de Abril. Esse era o mais brando. Era censor, mas mais brando, consentia coisas que os outros, os “coladistas”, não permitiam.

Recorda alguma história curiosa nesses ensaios gerais para a censura?
Uma vez, o grande Juan Soutullo, um cenógrafo, ainda vivo, que se chateava muito com a censura, apresentou uma coisa sofisticada em cena, mas percebia-se que havia ali marosca. O censor pediu para ver a maqueta do cenário. Ele apresentou uma maqueta que era um falo. O censor disse-lhe logo: “Pois, eu percebi que era isto, o número está proibido, faça outra coisa”. E adiou-se a peça por mais uns dias. Por norma, eles assistiam o ensaio e não diziam logo o que é que queriam cortar. Recebíamos uma carta, uns dias depois, a avisar. “Fulana de tal não pode vestir biquíni, tem de aparecer mais tapada”, por exemplo. Ainda guardo alguma correspondência dessa.

Passadas tantas décadas, o que é pensa desse tempo?
Às vezes, quando conto aos meus filhos eles não acreditam. “Ó pai, mas como é que vocês viviam com isso?” Vivíamos! Furávamos, insistíamos e teimávamos, mas vivíamos com isto. Em determinada altura, quando foi a abertura marcelista, houve uma breve tentativa de melhorar as coisas. Mas só durou o tempo de uma revista aqui no Maria Vitória. Não queriam brejeirices, mas autorizavam que os textos falassem de política, desde que não houvesse ofensas. O Teatro ABC tentou fazer o mesmo e proibiram. Foi uma abertura breve, mas o regime arrependeu-se logo. Visto agora, tudo aquilo era um disparate. Sobretudo o teatro de revista era muito perseguido, exatamente pela liberdade criativa que havia. Uma vez, num ensaio para a censura, a Ivone Silva disse o texto a correr, para eles não perceberem, e o censor perguntou-lhe se era assim que ela iria falar quando a peça estivesse em cena. E ela respondeu que sim, claro, “o número é mesmo assim”. A verdade é que eles ainda voltavam de vez em quando. Apareciam de repente, quando a revista já estava em cartaz. Nós sabíamos que eles entravam, porque havia um camarote da autoridade, era mesmo assim que se chamava, e eles tinham de apresentar um cartão à entrada. Depois mandavam uma carta a dizer que o ator “x” estava a abusar, que tinha de ter cuidado.

Houve algum espetáculo totalmente proibido?
Isso não, porque seria chocante. Poderíamos era ter a proibição total de um número de um certo ator, sobretudo daqueles atores que eles consideravam de esquerda. Em noites em que não estavam censores, eles diziam o texto como queriam, sem cortes. Ninguém parava os atores, nisso, eles são tremendos. Por exemplo, ninguém calava o Nicolau Breyner, nem a censura, porque era respeitado pelo público e dizia mesmo o que tinha a dizer. Os censores saíam daqui danados e depois mandavam uma carta.

[Ivone Silva, Júlio César, Mariema e Giuseppe Bastos ao centro. Hélder Freire Costa surge atrás de Giuseppe Bastos. Foto sem data]

Ivone Silva, Julio Cesar, vitor Mendes, Giuseppe Bastos, Helder Costa…

Posted by Vasco Morgado on Tuesday, January 4, 2011

É verdade que a democracia esvaziou a revista e por causa disso o Parque Mayer entrou em decadência?
As pessoas disseram isso, mas não é verdade. A revista até ali era comedida, não dizia tudo o que pensava. Umas vezes dizia quase tudo, outras vezes não podia e os artistas engendravam maneira de contornar. Depois do 25 de Abril toda a gente achou que era bonito por as mamas de fora e dizer todos os disparates em palco. O público não gostou. Tem de haver subtileza. As pessoas gostam que a gente diga nas entrelinhas, como em tudo na vida. No jornalismo é a mesma coisa: quando atira o disparate todo cá para fora, as pessoas não gostam. É preciso dizer de uma forma elegante, isso as pessoas adoram.

Como está hoje a revista?
Hoje estamos a falar para pessoas com formação e inteligência. Podemos dizer tudo, mas não podemos ofender as pessoas. Uma das coisas que eu nunca permito aqui, e dou-me bem com os autores nesse sentido, porque eles compreendem que tenho razão, é que não se pode criticar um político ofendendo-o. Os políticos estão num plano em que têm de se sujeitar à crítica e nós podemos criticar, mas sempre respeitando a pessoa, porque tem família e tem filhos. A liberdade não permite tudo, não permite ofender.

Há quem defenda que a liberdade de expressão inclui o direito a ofender?
Não estou de acordo. A pessoa que ofende, porque gosta de ofender, pode dizer: se não gostou, vá para tribunal. Ora, sabemos como são os tribunais em Portugal: são caros e demoram anos.

Sabemos que teve problemas durante a crise que começou em 2011.
Passei um mau bocado, sim. Foi a pior crise que tive aqui no Parque Mayer. Já tinha tido uns problemas nos anos 90, mas nada que se compare. Enterrei aqui muito dinheiro, fiquei a dever a muitas pessoas, mas agora já quase não tenho dívidas, tenho vindo a pagar tudo. De repente, as coisas também começaram a melhorar. Esta união entre o Presidente da República e António Costa, mais o ministro das Finanças, arranjou uma solução para o país. Não sabemos aonde isto vai dar, mas já começámos a ver a luz ao fundo do túnel.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A concessão do Capitólio a privados, iniciada há quase um ano, tem ajudado a revitalizar o Parque Mayer?
Tem trazido gente diferente, mas não sei se chama gente aqui para o Maria Vitória. No meio da multidão, alguns virão aqui, sim. E nós também lhes damos público a eles.

Quem é o seu público hoje?
Temos pessoas de todas as idades. Sou do tempo em que vínhamos com a família à revista. Hoje a mãe tem carro e vai para um sítio, o pai tem carro e vai para outro, e os filhos também têm carro e vão para outro sítio. No meu tempo era diferente. Mas tenho muitos jovens aqui e pessoas da terceira idade. De tudo.

Em janeiro vai baixar o preço dos bilhetes, quando o IVA dos espetáculos passar para 6%?
Isso não, porque o preço foi o mesmo quando o IVA subiu para 13%. Os empresários é que aguentaram essa chicotada. Agora que o IVA baixa, vamos manter o preço.

Foi à antestreia do novo filme de António-Pedro Vasconcelos?
Fui e acho que é um filme excelente. Faz um retrato de uma época que já não vivi, mas há ali personagens parecidas com muitas que conheci nesta vida do teatro.

[trailer de “Parque Mayer”, de António-Pedro Vasconcelos]

Como é que descreveria o Parque Mayer das décadas de 60, 70 e 80?
Há três livros sobre o Parque Mayer escritos pelo Luciano Reis e pelo Jorge Trigo. O prefácio do terceiro volume fui eu que escrevi, a contar como era o Parque quando aqui cheguei. Havia muitos restaurantes, havia o Guarda-Roupa Paiva, onde as grandes figuras iam alugar casaca para cerimónias, havia o Chico Carreira, um homem ligado aos toiros, havia A Varina, que hoje é o restaurante Gina, havia barraquinhas de chocolates e de sumo de uva. Era um mundo. Eu às vezes parava ali ao pé do Consulado de Espanha para ver as pessoas que entravam e saíam. De manhã, os fornecedores e os empregados dos restaurantes. De tarde, vinham os atores, porque havia sempre ensaios em algum dos teatros.

Nunca pensou ser encenador?
Nunca. Cada um tem a sua função e respeito muito o encenador. A experiência que tenho de teatro, dá-me para encenar. Mas nunca quis. É um lugar sagrado. Não se pode misturar o empresário com o encenador. O patrão a encenar não permite que os atores deitam cá para fora o talento todo que têm.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ainda vem ao Maria Vitória todas os dias?
Já não. Venho sempre aos espetáculos, claro, mas agora o meu filho [Diogo Costa] está aqui e estou sempre em contacto com ele.

Tem três filhos?
Um nascido em 1978, outro em 1991 e outro em 1999. O que tem 26 anos é que está agora no Maria Vitória.

Vai ser o seu sucessor?
Vamos ver. Ele tem vontade disso, mas não sei se é o melhor para ele.

Quando hoje aqui vem, como é que sente o Parque Mayer?
Já estive de luto. Há uns anos, estava aqui sozinho com a Gina, o Parque todo pintado de negro… Era uma vergonha. Neste momento, tenho esperança. O Parque Mayer foi sempre o que cada época obrigou a que fosse. Agora é a época de acreditar e de olhar para a frente.

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