Isaura virou a página da Eurovisão, mas continua orgulhosa do seu jardim

10 Junho 2018

Apesar do mau resultado na Eurovisão, Isaura defende que "O Jardim" é uma boa canção. Não se arrepende de nada e admite ter ficado contente com toda a experiência. Este mês, lança o primeiro álbum.

“De repente perco a minha avó, que era a minha melhor amiga. Como é que se lida com isso?” Sentada na receção do Hotel HF Fénix Music, em Lisboa, onde, nesta terça-feira, fez um showcase privado de apresentação do seu primeiro álbum, Isaura contou ao Observador que passou três meses sem saber como responder a esta pergunta. Três meses em que não fez “absolutamente nada”, apesar de ter começado a compor um disco meio ano antes. A reação à perda tornou Human completamente diferente do que tinha previsto quando começou a fazer o disco. E inspirou também a composição de “O Jardim”, tema que dedicou à avó, Zaida Lourenço, e que levou à última edição do Festival Eurovisão da Canção.

A capa do álbum de estreia de Isaura, que chega às lojas e ás plataformas de streaming esta sexta-feira, 8 de junho

Quando começou a trabalhar no álbum, a cantora e compositora, atualmente com 28 anos, era já uma promessa da música portuguesa. Isaura já tinha passado por um programa televisivo, a “Operação Triunfo”, e editado uma primeira coleção de cinco canções originais. A aposta era já na canção pop eletrónica, à época muito marcada pelos sintetizadores. Eram canções de tom íntimo e delicado, mas com pulsação de pista de dança.

Para o álbum, Human — que poderá ser ouvido já a partir desta sexta-feira, dia 8 de junho — a ideia era incorporar elementos de outros géneros musicais, como o R&B digital e o hip-hop, mas também fazer canções de andamento rápido, algo festivas, aludindo a temas pessoais, como o seu percurso até aqui (“Don’t Give Up” e “High Away”), a dificuldade em gerir o tempo (“Busy Tone”) e a relação com o outro (“I Need Ya”).

"É-me natural usar a música como expressão do que se passa comigo, portanto foi natural começar a fazer outras canções."
Isaura

Algumas dessas canções iniciais já estavam estruturadas quando Isaura perdeu a avó e acabaram por ficar no álbum. Mas o “lado B” do disco, como a cantora lhe chama, foi feito durante o último ano e reflete essa perda. Do sétimo tema (de 14) em diante, as canções são mais etéreas, menos luminosas e com alguns momentos de catarse. E os próprios títulos são disso elucidativos: “I Keep Persisting” (com participação do rapper Prof Jam), “I Miss You” e “Gone Now”, por exemplo.

[“Closer”, um dos ‘singles’ do novo disco de Isaura:]

“É-me natural usar a música como expressão do que se passa comigo, portanto foi natural começar a fazer outras canções”, explicou ao Observador a autora de “O Jardim”. É que a Isaura aconteceu “uma coisa com que toda a gente se identificará”: estava na “sua vida”, aconteceu algo que não planeou e teve “de lidar com isso, fazer o melhor com o que tinha.” “Tentei pegar em canções mais uptempo [de ritmo acelerado] que tinha pendentes e não consegui, não me apetecia fazer aquilo, não era o que estava a sentir, não tinha vontade”, revelou durante a conversa.

Se o luto acabou por ser a causa da dissonância entre primeira e segunda metade de Human, também levou Isaura de volta a um estilo de composição que lhe é mais confortável. Para as canções menos luminosas, requisitou menos o contributo de outros produtores (Diogo Piçarra, Karetus, Lhast e Fred Ferreira foram alguns dos que trabalharam nos arranjos do álbum) e assumiu a tarefa ela mesma. Precisamente porque as canções “mais nostálgicas, mais melancólicas” são-lhe “mais naturais”.

“Quando estou cheia de energia, a explodir de contente, não me apetece fazer música. Vou fazer outras coisas, estar com os meus amigos, dar uma volta. Quando procuro mais a música é quando estou mais pensativa, mais calminha. Embora vá contrariando isso. Pelo que estava a sentir, achei que fazia mais sentido ser eu a desenvolver aquelas texturas, indo buscar outros produtores para fortalecerem o lado mais rápido, mais pop, talvez um bocadinho mais comercial do álbum”, disse.

"Não sou muito alternativa nem muito comercial, estou ali no meio. E isso baralha as pessoas. Não faço música de um só género, desafio-me a testar vários."
Isaura

O resultado final foi um álbum com duas faces, não só pelo tom das canções (mais rápidas e efusivas na primeira metade, mais melancólicas e íntimas na segunda), mas também pela dificultar de o catalogar como um disco de música pop ou música alternativa. Há tempos, numa entrevista, Isaura dizia que a música que faz é considerada “alternativa” em Portugal mas é “pop mainstream” no Reino Unido e em Los Angeles. Talvez seja um pouco das duas. Ao Observador, confirmou que tem um pé em cada universo.

“Não sou muito alternativa nem muito comercial, estou ali no meio. E isso baralha as pessoas. Não faço música de um só género, desafio-me a testar vários. O disco passa pela pop eletrónica, synthpop e hip hop.” As suas canções, explicou, têm todas “estrutura de canção [pop]”. Os arranjos é que podem ser diferentes. “Claro que quero que as canções cheguem ao maior número de pessoas mas a intenção de que elas passem ou não passem em muitas rádios, que sejam mais ou menos comerciais, são coisas que tive de pôr um bocadinho de parte para poder fazer o que gosto e queria fazer.”

Isaura lançou esta semana o seu primeiro álbum de originais, "Human", profundamente marcado pela perda da avó

Rui Unas, duas fãs e “um dia mesmo bonito”

A primeira apresentação do álbum em palco, nesta terça-feira, dia 5 de junho, teve acesso limitado. Para o showcase no HF Fénix Music, Isaura convidou imprensa, família, amigos, alguns músicos que trabalharam no disco (estava presente a dupla Karetus, por exemplo) e outros colaboradores seus, como managers e funcionários da editora Universal Music Portugal, que lançou o disco. Afinado o som durante o soundcheck, desaparecido o sol que incidia fortemente no palco durante a tarde, Isaura começou a tocar as canções novas com a sua banda já depois das 19h.

“Muito obrigada por terem vindo. Sofro verborreia quando estou em palco, mas tenho de  vos agradecer. Hoje é um dia especial para mim. Raramente reservamos um dia para festejarmos e ficarmos contentes. É um dia mesmo bonito, obrigada”, disse, entre canções. Entre o público estava, por exemplo, o humorista Rui Unas, que a entrevistou recentemente. No final, disse ter “gostado” do showcase, sobretudo pela vibe que a cantora transmitiu em palco.

Andreia e Margarida, de 19 e 21 anos, duas fãs que conseguiram acesso ao mini-concerto através de um passatempo no Facebook, também estavam entre a audiência. Ao Observador, as duas jovens admitiram que só conheciam os singles de antecipação do novo álbum e que estes “superaram as [suas] expectativas”. Andreia segue Isaura “desde que ela começou”, Margarida tornou-se fã mais recentemente, após a participação e vitória da artista e de Cláudia Pascoal no Festival da Canção, em março. “Só foi pena o resultado” na Eurovisão, admitiu a fã.

A canção ficou em último lugar na final, que decorreu no passado mês de maio na Altice Arena, em Lisboa. Não teve a pior pontuação de sempre na competição, mas quase: Isaura e Cláudia Pascoal receberam apenas 39 pontos. Um ano antes, Salvador Sobral saiu vencedor com 758.

Eurovisão: “Tinha esperança porque acho genuinamente que é uma boa canção”

Em conversa com o Observador, Isaura reconheceu que o resultado na final da Eurovisão, onde participou com o tema “O Jardim”, foi “pesado”, mas que a experiência “foi bonita, foi muito positiva”. “Pude mostrar uma canção em português, fazê-lo através da Cláudia [Pascoal] que a interpretou muito bem. Nem quando estava no sofá a ver as pontuações e me apercebi de que íamos ficar em último lugar, fiquei triste. Fiquei genuinamente contente com esta oportunidade e experiência, saí de lá muito mais rica”, admitiu, ainda que tenha tido esperanças de alcançar uma posição melhor na Eurovisão.

"Acreditava na canção ['O Jardim']. Ouvi as outras todas e acreditava que a nossa merecia um lugar aceitável, mas isso é a minha opinião pessoal. Só conseguimos ver o mundo do lugar que ocupamos."
Isaura

“Tinha esperança porque acho genuinamente que [‘O Jardim’] é uma boa canção. Se não achasse, não a tinha colocado nunca a concurso. Acreditava na canção. Ouvi as outras todas e acreditava que a nossa merecia um lugar aceitável, mas isso é a minha opinião pessoal. Só conseguimos ver o mundo do lugar que ocupamos”, afirmou, acrescentando que sabia que “ia ser difícil”. “É fácil saber ganhar mas também é muito importante saber perder”, disse ainda, mostrando-se “orgulhosa da canção e da interpretação da Cláudia”.

Dúvidas houvesse da qualidade da música que compôs e da prestação na grande final, quando o evento terminou, “tinha as redes sociais cheias de mensagens de pessoas a dizer que gostavam muito da canção”. “Pessoas fãs da Eurovisão mas também colegas de profissão, a convidarem-me para coisas, para termos projetos, para escrever para eles. Isso deu-me alguma validação do que tinha feito”, contou ao Observador.

"O Jardim", música composta por Isaura para participar no Festival do Canção, ficou em último lugar na Eurovisão

Human, um virar de página

Human, o primeiro álbum, é um virar de página. Isaura sabe que, para o bem ou para o mal, a fama e a notoriedade podem ser passageiras, que é preciso trabalhar sempre mais e mais para conseguir resultados. E isso tem até muito mais importância do que o talento natural, afirmou ao Observador, recordando ainda que, na “Operação Triunfo”, tinha colegas que “acreditavam que a vida deles ia mudar [só] por aparecerem no programa”.

“O talento é quase irrelevante”, afirmou. “Sempre acreditei nisto: em qualquer coisa que nos predisponhamos a fazer, a persistência, a disciplina, o empenho e a forma como nos damos com os outros — se somos educados ou não, por exemplo — contam mais do que o talento. Conheço pessoas que têm uma voz incrível e uma presença gigante em palco e não têm disciplina nenhuma. Nunca fizeram nada com o talento que têm.”

Agora que concluiu o álbum e que está prestes a começar a apresentá-lo ao público, a cantora e compositora que em pequena já era eclética (ouvia Nirvana, música brasileira, Oasis e “música eletrónica muito duvidosa” que passava no canal de televisão alemão Viva), não tem nenhum plano concreto de futuro. Afinal, Isaura está “sempre a mudar” de gostos e influências — acredita que, daqui a um ano, “estará a fazer canções muito diferentes”. Mas uma coisa de que tem certeza — de que não quer abdicar da liberdade de fazer o que bem lhe apetecer.

[“Gone Now”, tema do novo disco de Isaura:]

É também por isso que quer continuar a conciliar a música com o emprego que tem a full-time que num “escritório virtual”, que lhe dá alguma flexibilidade para poder escolher horários, local de trabalho e que lhe permite concentrar-se em “fazer música que goste” e de que se orgulhe. Isto “sem ter de tomar decisões com base no dinheiro ou na necessidade de ter um salário”. E isso é o mais importante.

Texto de Gonçalo Correia, fotografia de João Porfírio.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: gcorreia@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)