Dark Mode 153kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

"$4MIL" em inglês não são 4 mil dólares, mas sim 4 milhões: foi esse o erro de João

NIKOLAY DOYCHINOV/AFP via Getty Images

"$4MIL" em inglês não são 4 mil dólares, mas sim 4 milhões: foi esse o erro de João

NIKOLAY DOYCHINOV/AFP via Getty Images

João. A história do emigrante português que terá ganhado 4 milhões na raspadinha e a quem enganaram pagando 4 mil /premium

João DaPonte chegou aos EUA há 4 anos. Não sabe falar ou ler inglês. Pensou que tinha ganhado 4 mil dólares numa raspadinha. Eram 4 milhões. Acusa duas portuguesas de o enganarem. Esta é a história.

    Índice

    Índice

Imagine que compra uma raspadinha premiada em milhões, acha que ganhou apenas uns milhares e acaba enredado num alegado esquema de fraude que chega aos jornais. É assim que se resume numa frase uma história que quase dava um filme.

O caso começou a 23 de novembro do ano passado. Nessa manhã, João Luís DaPonte, 63 anos, emigrante português natural da ilha açoriana de S. Miguel a viver na cidade norte-americana de New Bedford, Massachusetts, foi comprar raspadinhas ao Café San Paulo. Gastou 20 dólares em cinco bilhetes: um de 10 dólares, outro de 5, dois de 2 e ainda um de 1. Mal sabia a sorte que acabara de ter. Quando raspou o cartão mais caro, de 10 dólares, chamado “Gold Rush”, não podia acreditar: tinha ganhado, pensava ele, 4 mil dólares — foi o valor que leu inscrito abaixo do premiado número 26, “$4MIL”.

O português — casado e pai de dois filhos — nunca tinha ganhado um valor tão elevado numa raspadinha. Estava eufórico, feliz. Quando chegou a casa, pediu logo à mulher que tirasse uma fotografia à raspadinha vencedora. Era um bocadinho do seu sonho americano. A imagem foi captada pelas 11h30 (hora local) desse dia 23 de novembro e, agora, figura como prova essencial no processo movido pela advogada de João DaPonte contra duas mulheres que ele acusa de o tentarem defraudar.

É que se a princípio o emigrante português pensou ter vencido 4 mil dólares, o caso tornou-se muito diferente quando percebeu que o prémio era, afinal, de 4 milhões (quase 3,7 milhões de euros). Uma imagem deste tipo de raspadinha permite perceber que não existe sequer a opção de “4 mil dólares”. Mais: que João Luís teve mesmo muita sorte porque a probabilidade de ganhar o maior prémio —4 milhões — é de 1 em 6 milhões de tentativas.

Imagem retirada da página www.masslottery.com

Terá sido a dificuldade com a língua inglesa que primeiro levou João a confundir o valor do prémio: leu “$4MIL” em português, como se fossem quatro mil dólares e não 4 milhões, alega no processo. E também esse o motivo pelo qual pediu ajuda para levantar o dinheiro. E é aqui que o caso começa e tudo se torna numa investigação judicial.

Terá sido a dificuldade com a língua inglesa que primeiro levaram João a confundir o valor do prémio: leu "$4MIL" em português, como se fossem quatro mil dólares e não 4 milhões, alega no processo. E também esse o motivo pelo qual pediu ajuda para levantar o dinheiro.

Nesse pedido de ajuda para levantar o bilhete premiado, o emigrante premiado terá sido enganado, como se lê na ação civil que deu entrada a 3 de janeiro no Tribunal Superior de Bristol e a que o Observador teve acesso. A ação foi movida contra Maria Oliveira e Susana Gaspar, as duas mulheres acusadas de “criar e implementar um esquema” para defraudar João DaPonte. As duas, ambas na casa dos 50 anos, são portuguesas, também com origens nos Açores, segundo o que o Observador conseguiu apurar.

O caso passo a passo, segundo a acusação

A 26 de novembro, pelas 8h da manhã, três dias após a compra do bilhete vencedor, João Luís DaPonte estava novamente a caminho do Café San Paulo quando “se cruzou” com Maria Oliveira, conhecida na zona por levantar raspadinhas em nome de outros residentes (muitos portugueses, da grande comunidade local), pessoas que o açoriano conhecia por frequentarem os mesmos cafés que ele. João sabia que Maria Oliveira, uma das mulheres que agora processou, costumava ficar com uma percentagem dos bilhetes premiados. Pediu-lhe, então, que levantasse a raspadinha em seu nome e os dois combinaram encontrar-se no Tony’s Café, também em New Bedford, ao meio-dia, para ela lhe entregar o dinheiro.

À hora certa, João DaPonte chegou ao café onde esperou “pacientemente por ela”. À medida que o tempo ia passando, ia ficando cada vez mais nervoso. O relógio marcava as 15h quando, finalmente, Maria Oliveira, ao volante de um carro, tocou a buzina e acenou para que João fosse ao seu encontro. Quando se aproximou do carro, ela disse-lhe que quase perdera o bilhete e, de seguida, entregou-lhe um envelope do “Bank 5”, um banco local, com 38 notas de 100 dólares no interior, fazendo um total de 3.800 dólares. Era o valor do prémio que João pensava ter ganhado, já pagos os impostos. Depois de contar o dinheiro, insistiu que ela ficasse com 200 dólares de comissão. Ao início, Maria não quis aceitar o valor, mas após alguma insistência acabou por aceder ao pedido.

Estes são pelo menos os passos que a defesa de João descreve no processo que está agora em tribunal. Mas a história continua e agrava-se quando o emigrante português conta que percebe que foi enganado.

"Nesse momento, um sentimento horrível tomou conta de mim e senti que havia sido roubado", diria mais tarde DaPonte em tribunal, citado pelo jornal Portuguese Times, referindo-se ao momento exato em que o amigo lhe chama à atenção para valor correto. DaPonte, que não sabe falar ou ler inglês, pensou ter ganhado 4 mil dólares porque no bilhete estava a abreviatura "MIL", que julgou erradamente corresponder a "mil" na língua nativa.
João DaPonte, o queixoso

Esse momento acontece quando, a 10 de dezembro, João DaPonte entrou noutro café de portugueses, “O Escondidinho”, pelas 05h (hora local). Um amigo, João Luís Rocha — mais conhecido pelo apelido, Rocha —, contou-lhe a história que já fazia furor na comunidade. A de como Maria de Oliveira, que trabalha para Susana Gaspar na padaria Goulart Square Bakery, foi ao Café San Paulo comprar uma raspadinha para a patroa e como ganhou 4 milhões de dólares num bilhete “Gold Rush” de 1o dólares.

Surpreendido com a coincidência, DaPonte admitiu a Rocha que dias antes fora ele a ganhar 4 mil dólares com uma raspadinha daquelas, comprada no mesmo local. Contou-lhe e mostrou-lhe no telemóvel a fotografia do bilhete vencedor, tirada pela mulher a 23 de novembro. Rocha olhou para a foto e comentou com DaPonte que estava enganado. O prémio era, na verdade, 4 milhões de dólares. Foi a primeira vez que João diz que se apercebeu que fora roubado.

“Nesse momento, um sentimento horrível tomou conta de mim e senti que havia sido roubado”, diria mais tarde o português em tribunal, citado pelo jornal Portuguese Times, referindo-se ao momento exato em que o amigo lhe chama à atenção para o valor correto. DaPonte, que não sabe falar ou ler inglês, pensou ter ganhado 4 mil dólares porque no bilhete estava a abreviatura “MIL”, que julgou erradamente corresponder a “mil” na língua nativa.

Apesar de tudo, João achou que precisava de confirmação e dirigiu-se no mesmo dia a uma loja de conveniência onde mostrou novamente a fotografia do bilhete que comprara em finais de novembro. Aí confirmou que aquela era a raspadinha vencedora dos 4 milhões de dólares. Segundo a acusação, acabou depois por descobrir que Susana Gaspar, a patroa de Maria Oliveira, reclamou o prémio com o que acredita ser o seu bilhete — situação que o fez contratar a advogada Gayle deMello-Madeira para o representar em tribunal.

Ambas residentes também em New Bedford, Maria Oliveira e Susana Gaspar negam todos os factos, tal como consta na resposta da defesa a que o Observador também teve acesso. Os milhões nas mãos de Susana Gaspar chegaram, inclusivamente, a ser noticiados por meios locais.

Uma rua no centro de New Bedford

Dina Rudick/The Boston Globe via Getty Images

Feita a descoberta, José Pires e Arnaldo Oliveira — amigos de João DaPonte e de Susana Gaspar — decidiram intermediar o caso com um encontro. Foram falar com Susana ao seu apartamento a 15 de dezembro. Segundo a acusação, Pires disse depois a João DaPonte que Susana se defendeu dizendo ter sido enganada por Maria Oliveira. Disse que Maria lhe garantira ter encontrado o bilhete e que ambas tinham combinado dividir entre si o valor ganho. Susana confirmou ter sido ela a levantar o prémio de 2,6 milhões de dólares (aos quais seria preciso descontar 800 mil dólares em impostos) que depositou numa conta bancária. Também contou que Maria lhe estava pedir a sua parte, mas que ainda não lhe a tinha entregue.

Perante tantas coincidências, Susana Gaspar diz que o seu advogado de defesa vai entrar em contacto com a de João.

"Batemos à porta [de Susana Gaspar]. Quem abre é o marido. Como não o conhecia, apresentei-me. Quando entrámos, ela estava sentada com um ar muito triste. Disse-lhe 'Não queiras passar por isto dos tribunais'. Ela concordou e disse que a Maria [Oliveira] tinha inventado a história de que tinha encontrado o bilhete. 'Ela enganou-me'", disse.
José Pires, amigo de João DaPonte

Ao Observador, José Pires, de 63 anos e natural de São Miguel, tal como João Luís DaPonte, confirma que se encontrou com Susana Gaspar num domingo, às 09h, em casa dela. Antes do encontro, o emigrante português consultou a advogada DeMello-Madeira e ambos combinaram que o melhor seria José Luís ir acompanhado de uma terceira pessoa para servir de testemunha. “Batemos à porta. Quem abre é o marido. Como não o conhecia, apresentei-me. Quando entrámos, ela estava sentada com um ar muito triste. Disse-lhe ‘Não queiras passar por isto dos tribunais’. Ela concordou e disse que a Maria [Oliveira] tinha inventado a história de que tinha encontrado o bilhete. ‘Ela enganou-me'”, disse. Do encontro ficou combinado que os advogados de ambas as partes falariam entre si e que uma transferência seria feita para a conta de João Luís. “O marido dela até agradeceu. Depois disso nunca mais atendeu o telefone e nunca mais quis falar comigo.”

(No mapa é possível perceber que a padaria onde trabalham Maria Oliveira e Susana Gaspar é ao lado do café onde foi comprada a raspadinha milionária)

A 20 e 31 de dezembro, sem ter recebido qualquer contacto por parte do advogado de defesa de Susana Gaspar — Walter P. Faria –, a defesa de João recorreu a outros meios. Nesses dias duas cartas de notificação foram entregues em mão por um agente da polícia a Susana. Na primeira alegava-se que o emigrante português era o dono legítimo da raspadinha premiada; na segunda, entre outros detalhes, solicitava-se uma reunião entre as partes a ter lugar até sexta-feira, 3 de janeiro de 2020 — esta carta exigia uma resposta até ao dia 2, caso contrário a acusação iria recorrer a medidas legais. Nos documentos que o Observador consultou, a acusação refere um artigo publicado na página oficial da Massachusetts State Lottery sobre Susana Gaspar, afirmando que ela era a “segunda vencedora do prémio de 4 milhões” e que optara por receber 2,6 milhões de dólares em dinheiro (antes dos impostos). A notícia já não se encontra disponível no site.

Falta falar de Maria. Segundo o Portuguese Times, Maria Oliveira negou “em declaração juramentada” a história relatada por João Luís DaPonte sobre ela. Incluindo a versão de que levanta bilhetes premiados por outras pessoas. O diretor do jornal explica que existe a hipótese de João Luís ser um emigrante ilegal, razão pela qual terá pedido a terceiros para levantar a raspadinha. Conta também que Gayle DeMello-Madeira, a advogada do açoriano, é uma figura muito conhecida entre a comunidade portuguesa em New Bedford.

Anúncio publicado no jornal Portuguese Times, que tem Francisco Resendes na direção

A advogada conseguiu que o tribunal aceitasse a moção de João para que o valor do bilhete fosse depositado numa conta sob custódia do tribunal. A 10 de janeiro de 2020, um cheque no valor de 1.658.672,80 dólares foi entregue ao Tribunal Superior de Bristol. O dinheiro ficará retido até que o caso seja resolvido.

"Falamos disso quase todos os dias. Ele mostrou a fotografia do bilhete a muita gente", conta-nos um local que prefere não ser identificado e que, garante, também viu a fotografia no telemóvel do emigrante português.
Testemunha que preferiu manter o anonimato

As notícias locais e o “choque” na comunidade

O caso chocou a comunidade de emigrantes portugueses em New Bedford que, diz José Pires, de 63 anos e amigo de João Luís DaPonte, “tem valores e princípios”, pelo que está “tendencialmente do lado dele”. “É preciso ter estômago”, comenta ainda, referindo-se às duas mulheres alegadamente fraudulentas compatriotas e conterrâneas (ambas dos Açores) de João. Os media tem seguido a história ao detalhe.

João Luís DaPonte e José Pires são ambos oriundos da cidade de Lagoa, em São Miguel. Um está nos EUA há 4 anos e o outro há 40. “Ele é espetacular como amigo. Muito divertido, um mãos largas e muito bom rapaz”, continua a contar por telefone. João sempre teve o hábito de jogar nas raspadinhas (um hábito talvez levado dos Açores). Quando soube que fora enganado, a primeira pessoa que contactou foi José, que depois fez de intermediário entre as duas partes. “É uma história estranha”, garante. “O João Luís deu o bilhete a uma pessoa que, aqui, não tem muito crédito. Ela é bartender e trabalha a part-time na padaria”, diz, referindo-se a Maria Oliveira. “Ele mostrou-me a foto [do bilhete] e disse que a tinha tirado há 10 ou 12 dias. Uma coisa dessas não se inventa.”

Um bilhete da lotaria de Massachusetts a ser emitido numa máquina própria

Pat Greenhouse/The Boston Globe via Getty Images

Já Kim trabalha no Café San Paulo há cerca de um ano, espaço onde tudo começou. Não estava no café quando João DaPonte terá comprado a raspadinha milionária, mas, de tanto ouvir falar, sabe que o emigrante português a comprou numa máquina. Bastou-lhe carregar num botão naquela manhã de novembro. “Ouvimos muitas opiniões”, diz ao Observador, para depois rematar num português falado com dificuldades: “Não temos nada que ver com isso”.

Do outro lado da rua, no café O Escondidinho, onde João DaPonte terá descoberto que foi roubado, a história também é assunto diário, até porque “vem nas notícias”. “Falamos disso quase todos os dias. Ele mostrou a fotografia do bilhete a muita gente”, conta-nos um local que prefere não ser identificado e que, garante, também viu a fotografia no telemóvel do emigrante português. “Dizia $4MIL.” Sobre o caso, esclarece ao Observador que Maria Oliveira “tem fama” de trocar as raspadinhas de terceiros e de ficar com uma comissão. As trocas, diz, são “favores”. “Daquilo que sei, elas terão enganado o senhor”, comenta sem dar garantias. João DaPonte, cliente habitual daquele café, continua lá a ir com frequência.

“Isto vai resolver-se muitíssimo bem. As senhoras vão levar um aperto no tribunal. A razão está do lado do senhor João Luís”, adianta ainda de forma entusiasta José Pires. Questionado sobre o que pensa de duas compatriotas poderem ter enganado o amigo, comenta apenas: “Sinto-me triste. A gente na nossa terra não é assim, mas às vezes o dinheiro… Talvez ela tenha sido levada pelo impulso, é muito dinheiro”.

A lotaria requer "prova de identificação positiva" para prémios de ou acima de 600 dólares, pelo que se exige um documento de identificação com a respetiva assinatura (pode ser a carta de condução ou o passaporte, por exemplo) e prova do número de Segurança Social.

O que é preciso para levantar uma raspadinha milionária

Todos os locais que vendam bilhetes da lotaria de Massachusetts (Massachusetts State Lottery, em inglês) podem pagar prémios inferiores a 600 dólares. Valores iguais ou superiores a 600 dólares e até 100 mil dólares (incluindo) podem ser reclamados em qualquer escritório da lotaria — existem postos em Dorchester, Braintree, New Bedford, Springfield, Woburn e Worcester. Já prémios acima de 100 mil dólares precisam de ser reclamados única e exclusivamente na sede da lotaria em Dorchester, ou seja, o local onde João DaPonte (ou Maria Oliveira) teria de obrigatoriamente levantar a raspadinha milionária “Gold Rush”. A sede está sensivelmente a uma hora de distância de carro da cidade de New Bedford.

A lotaria, tal como se no respetivo site, requer “prova de identificação positiva” para prémios de ou acima de 600 dólares, pelo que se exige um documento de identificação com a respetiva assinatura (pode ser a carta de condução ou o passaporte, por exemplo) e prova do número de Segurança Social (como carta de condução ou cartão da Segurança Social) — uma situação que se provaria impossível no caso de um emigrante ilegal querer levantar um bilhete milionário. Na página da lotaria é ainda explicitado que é importante que a pessoa vencedora assine a parte detrás do bilhete premiado de forma a “estabelecer a sua propriedade”. “Sem a assinatura no verso, o bilhete da lotaria é considerado ‘instrumento do portador’ e pode ser reivindicado por qualquer pessoa que o apresentar.”

O processo é ainda bastante recente e encontra-se na fase da investigação. Terminado este período, os advogados de ambos os lados podem apresentar moções sobre o caso. É provável que uma data de julgamento seja marcada em meados de 2021. O Observador tentou contactar os advogados de acusação e de defesa — DeMello-Madeira e Walter P. Faria —, mas até ao momento não obteve qualquer resposta. O Observador tentou ainda contactar Susana Gaspar através da Goulart Square Bakery e também não obteve resposta.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.