João Cotrim Figueiredo soube este domingo à noite que ia deixar de andar nas nuvens e afinal o céu lhe ia cair em cima. Através de contactos comuns, tomou conhecimento de uma publicação na rede social Instagram em que uma antiga assessora da Iniciativa Liberal o acusava de assédio — citando expressamente três frases que o próprio lhe terá dirigido de cariz sexual. O Observador sabe que estas alegações de assédio circularam na IL há cerca de dois anos.
A assessora, atualmente colocada num gabinete do Governo, lançou a acusação numa story partilhada apenas com “Amigos Chegados”, opção que permite ao utilizador restringir como pretender o número de pessoas que acede àquele conteúdo. No entanto, a mesma imagem começou a circular durante a noite de domingo, a chegar às redações na manhã de segunda-feira e rapidamente se espalhou por mensagens de Whatsapp e pelas redes sociais. Esta mesma manhã, o Observador entrou em contacto com a autora da denúncia, que não quis prestar qualquer esclarecimento ou sequer confirmar a veracidade daquela imagem.
Essas mensagens começaram a chegar à dezena e meia de jornalistas que faz a cobertura da campanha de Cotrim enquanto o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal estava numa ação de campanha na Covilhã, mais concretamente na UBI Medical, a conhecer histórias de startups. Segundo Dina Pereira, a anfitriã que o guiou pelo espaço, fez muitas perguntas e mostrou interesse em conhecer todos os projetos.
Quando acabou a visita, ainda gravou um vídeo para o filho de 11 anos da gestora da UBI Medical, e depois isolou-se durante 12 minutos com o seu assessor de imprensa — que já sabia que muito possivelmente algum jornalista iria confrontar o candidato com as alegações de assédio. Juntos, estiveram a preparar a resposta.
▲ O momento em que Cotrim negou as acusações de assédio à ex-assessora da IL
LUSA
Comunicado refere que a denunciante trabalha para o Governo
Antes de o candidato se colocar à frente dos microfones de semblante carregado, tal como toda a equipa, o seu diretor de logística avisou a conselheira política Liliana Reis (a ex-deputada da AD que tem estado sempre ao lado de Cotrim nesta campanha) de que a ideia era saírem todos mal João Cotrim Figueiredo terminasse a sua declaração, sem responder a mais perguntas. Acabou por não ser exatamente assim.
Surgiu com um papel dobrado em quatro, com umas notas impercetíveis, onde é possível decifrar as palavras “falso” (referiu que a alegação era “absolutamente falsa”) e “suja” (condenou a “política suja”). Cotrim negou qualquer assédio, anunciou um processo por difamação à antiga assessora, e prometeu continuar a campanha: “Não me vão amedrontar!”, declarou o ex-presidente da Iniciativa Liberal.
Pelo meio, garantiu estar “de consciência absolutamente tranquila” em relação a acusações de assédio, desde que está na vida política e nos seus 40 anos de vida profissional. E desafiou: “Perguntem a qualquer das dezenas de mulheres que trabalharam comigo ao longo destes anos se têm alguma razão de queixa, incluindo as mulheres que trabalharam comigo na altura dessa senhora”.
Ainda respondeu a três ou quatro perguntas antes de sair do local e poucos minutos depois a sua candidatura já estava a divulgar um comunicado em que refere que irá avançar com um processo por difamação contra a autora da alegação de assédio, “independentemente das suas circunstâncias e das funções que exerce num dos gabinetes do atual Governo”.
A única novidade relevante do comunicado face às declarações que tinha prestado é mesmo esta identificação da dependência profissional da sua antiga assessora em relação ao Governo da AD (cujos partidos apoiam a candidatura de Marques Mendes). Não é diretamente lançada qualquer suspeita de ter sido essa a motivação, mas é feita a referência a essa circunstância, por razões que, para já, não são evidentes. O Observador procurou uma reação oficial do Governo, que não quis pronunciar-se sobre esta questão.
As mulheres da IL que se juntaram para defender Cotrim
Esta segunda à noite, começaram a ser feitas partilhas nas redes sociais de várias mulheres da Iniciativa Liberal em defesa do candidato. Muitas delas trabalharam com Cotrim no Parlamento no mesmo período reportado pela autora da denúncia: a deputada Joana Cordeiro, a ex-deputada Patrícia Gilvaz, Cláudia Neto e as funcionárias do gabinete Paula Almeida e Amanda Santos. Organizaram-se, aliás, para publicar uma carta aberta conjunta, que foi divulgada esta terça-feira de manhã.
30 mulheres escrevem carta aberta a defender Cotrim e a apontar “ligeireza irresponsável”
Apesar de já saber desde a véspera que havia o risco de a mensagem com a acusação de assédio se tornar conhecida, João Cotrim Figueiredo manteve as três ações de campanha previstas para o dia. Arrancou no mercado do Fundão, sempre ao lado de Liliana Reis, que é da terra, e guiou o candidato pelas várias bancas de venda. Foi uma ação normal de campanha, tirando as declarações no final.
O candidato vinha preparado para responder aos muitos ataques da véspera de outras candidaturas (de “lobo” a “queque”), a dizer que ia estampar essas críticas numa t-shirt e vesti-la com orgulho, e a acusar os adversários de estarem “um bocadinho desorientados”.
Depois surgiu uma pergunta sobre o desafio de André Ventura, que anunciou que, numa segunda volta em que ele não esteja, votaria em qualquer candidato contra António José Seguro. E lançou o repto aos outros candidatos para fazerem o mesmo.
Vários elementos da Iniciativa Liberal lamentaram ao longo do dia que o candidato não se tenha limitado a dar a resposta política redonda de que quem ia passar à segunda volta era ele. Por norma, Cotrim Figueiredo tem resistido a dar respostas vagas, quase como se fugir a uma pergunta com um dilema difícil fosse pior do que ficar numa situação politicamente embaraçosa. Foi o que aconteceu esta segunda-feira.
“Não excluo qualquer candidato, mas teria de fazer uma reflexão profunda sobre de que candidatos vamos estar a falar. O André Ventura dos últimos quatro dias eu ainda não conhecia. Moderou o discurso e parece um político diferente”, começou por dizer. Questionado especificamente sobre a hipótese de votar em Ventura, afirmou: “Teria de fazer uma reflexão muito grande, não excluo ninguém. Não vou excluir ninguém nesta altura.”
Correu-lhe tão mal, foi tão aproveitado pelas outras candidaturas e provocou um sururu tão grande nas redes sociais onde se habituou a reinar, que fez mais uma declaração sobre o assunto no fim da ação de campanha seguinte, a visita a uma fábrica de cablagens em Castelo Branco, sem acrescentar nada de relevante, nem recuar no que tinha dito.
Irritou-se por Marques Mendes ter ignorado que a premissa da pergunta era se Cotrim não passasse à segunda volta. Acrescentou cenários improváveis para dizer que não excluía votar em qualquer candidato (incluindo Manuel João Vieira) — e disse que também não excluía não apoiar ninguém, indo aliás ao encontro da tese que tantas vezes já usou nesta campanha, de que os políticos não são donos dos votos dos eleitores.
Cotrim e a sua comitiva saíram de Castelo Branco no autocarro da campanha e foram comer uma grelhada mista num almoço restrito que juntou 21 pessoas das estruturas locais da IL. Houve quem se metesse com ele por causa da resposta sobre André Ventura, mas Cotrim não quis falar do assunto e pareceu abatido e cansado, contrariando a imagem de otimismo enérgico que estava a passar na campanha até aqui.
Entre os apoiantes houve logo a noção de que esta resposta improvisada tinha sido um tiro no pé, de consequências imprevisíveis. Mesmo que a ideia fosse não hostilizar os eleitores indecisos do Chega para esta primeira volta, acabou por arriscar perder uma parte do eleitorado que não quer ouvir falar de Ventura — e deu a imagem de ser um taticista, que abdica de princípios de conduta política marcados por linhas vermelhas ao longo de anos para tentar ganhar mais uns votos.
Depois do almoço, Cotrim chegou com atraso ao evento da tarde, na Covilhã. Percebeu-se porquê: esteve a gravar um vídeo que foi divulgado nas suas redes sociais imediatamente antes de entrar na UBI Medical. Aí admitiu que não foi claro na resposta que deu e garantiu que obviamente não quer Ventura na Presidência. Mas pode ter vindo demasiado tarde: por essa altura já tinha sido posto em causa o “momentum”, como lhe chamou, da campanha sempre a crescer. Só pioraria um par de horas depois, quando a denúncia do assédio dominou os ciclos noticiosos.
Nogueira Leite, o apoiante que recuou nas redes
Num dia em que não houve nada que não lhe acontecesse, a sua campanha divulgou aos jornalistas uma lista de nove novos apoiantes com ligações à AD. Dois ex-secretários de Estado, três ex-deputados e alguns deputados municipais. Um dos nomes incluídos na lista foi o de António Nogueira Leite, que foi secretário de Estado de um governo socialista, mas foi também presidente da Assembleia Municipal de Aveiro, pela coligação PSD/CDS/PPM.
A caça a estes apoiantes com ligações à AD tem sido um dos maiores desafios da equipa do candidato. Liliana Reis, conselheira política e ex-deputada da AD, tem tido um papel relevante a fazer a ponte com os alvos e a tentar convencê-los a assumirem o apoio a Cotrim, mas tem esbarrado em muitas recusas, invocando o receio de consequências para o futuro político.
Pouco depois da divulgação da lista de nove apoiantes, um dos poucos nomes com peso mediático, António Nogueira Leite, veio tirar o tapete à campanha de Cotrim com uma publicação na rede social X: “Só para dizer, mais uma vez, que não dei o meu apoio formal a ninguém. Devo ser muito old school, mas umas palavras simpáticas aos amigos não são apoios formais”.
A candidatura de Cotrim Figueiredo admitiu depois ao Observador que houve “um mal-entendido na sequência da assunção pública de que votaria em João Cotrim Figueiredo”. Nogueira Leite já tinha passado a manhã a zurzir na rede social X contra as declarações de Cotrim sobre Ventura e um eventual apoio na segunda volta.
João Cotrim Figueiredo estava a ser o candidato-sensação desta campanha, passando de 5.º para 2.º classificado nas intenções de voto em menos de um mês. Esta segunda-feira à noite, a divulgação da tracking poll diária da CNN manteve-o no segundo lugar, com 21,1%, mas não foi festejada efusivamente. É cedo para se medir o efeito do que aconteceu no arranque da segunda semana da campanha. Mas toda a equipa de Cotrim sabe que passou a haver demasiadas nuvens no horizonte até ao dia das eleições.
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