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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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"Os doentes têm direito a ter-nos mais presentes, a ouvi-los. Isso também nos foi roubado". Na zona de internados por Covid-19 em St. Maria

Vidas suspensas, casamentos (des)marcados, o caso do "Miguel" e o desejo de Federica passar o aniversário em Itália, em agosto. A 1ª parte da reportagem na zona da Covid-19 no Hospital de Santa Maria.

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Saem pela porta da Medicina 2C, entramos pela porta da Medicina 2A. Aquele espaço junto às duas saídas dos elevadores do labiríntico Hospital de Santa Maria mantém as quatro cadeiras azuis de plástico em fila e a máquina grande do café com um sem número de funcionalidades, do café curto ao chocolate quente. Mas agora não há barulho. Não há sons de passos de pessoas em marcha ziguezagueante para visitarem familiares e amigos próximos. Não se ouve aquele motor a acelerar enquanto mistura água quente com café moído ou cacau.

Nessa entrada, um papel com fundo branco e letras pretas colado com fita-cola explica a mudança de cenário. Sente-se a acalmia que todos querem manter mas que de quando em vez é quebrada por situações imprevistas. Aqui, pensar à frente, planear e estudar cenários é o segredo para fintar um adversário que nos veio fintar pelo desconhecido. Sem aviso, sem rosto e sem regras. Por isso, e ao lado da folha A4 com “Visitas canceladas”, está um cartaz de fundo azul que substituiu o Keep Calm pelo Keep Clean. “Keep clean e lave as mãos”. Um dia, algures, tudo voltará ao normal.

Sandra Braz e Fábio Cota Medeiros são os coordenadores da Unidade de Internamento de Contingência da Infeção Viral Emergente do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte. Duas peças numa equipa de 17, dos 24 aos 46 anos, que junta medicina interna, infecciologia e pneumologia. “Se calhar sentamo-nos aqui um bocado”, refere a mais velha da equipa, enquanto pousa os dois telefones, antigos e plastificados. Este é o primeiro paradoxo na passagem pelas enfermarias onde se encontram os doentes com Covid-19 – na era do iPhone e do Android, em cima daquela mesa de madeira encontram-se umas peças quase de museu, as mesmas onde os mais velhos no final dos anos 90 e no início do século ficavam sem bateria não por alertas ou WhatsApp mas pelas SMS e os jogos sem fim do Snake, aquela cobra que aumentava de tamanho enquanto comia bolas. Mas não é o único paradoxo, longe disso.

A pandemia trouxe uma nova realidade ao país e ao mundo. Mais uma vez, sem aviso, sem rosto e sem regras.

“Parece que passou mais de um ano. Isto é… Para mim é… É um mundo que não pensava que ia existir… A primeira semana foi quase viver isto como se fosse um daqueles filmes de ficção científica, em que existe humanidade, há uma agressão dos extraterrestres, vem o vírus e tira-nos tudo. A sensação que tive na primeira semana foi essa, que mudou tudo, e cada semana que passa parece ter um peso de meses…”, atira Sandra.

Enquanto resume com voz arrastada os primeiros tempos de Covid-19 na sua enfermaria através de analogias, Sandra Braz vai passando as mãos uma por cima da outra. Entre luvas, material de proteção e desinfetantes, os cremes já não são os paliativos infalíveis que outrora foram. Cada viagem que faz naqueles corredores tem sempre paragem nos desinfetantes afixados na parede. A partir de 16 de março teve noção de que tudo iria mudar. Aliás, o primeiro caso positivo em Portugal foi um despertador para médicos, enfermeiros, assistentes e auxiliares. Todos eles, logo ali, perceberam o tal filme que iam protagonizar. Foram escrevendo os seus guiões. A “vida familiar” passou à história.

Fábio Cota Medeiros, de 32 anos, e Sandra Braz, de 46, são os coordenadores da Unidade de Internamento de Contingência da Infeção Viral Emergente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Fábio Cota Medeiros, de 32 anos, é dos Açores. Apesar de tudo, reconhece que a família estar longe e não ter filhos acabam por ser vantagens (mais um paradoxo, de muitos que fomos encontrando devido à Covid-19). Por viver do outro lado da ponte, deixou os transportes públicos que utilizava diariamente e passou a ir de carro para o trabalho. Está com a mulher. Nenhum se relaciona com mais ninguém. Vai o mínimo possível a casa dos sogros e se um deles tiver de entrar, ele nunca o faz – sendo que a mulher nem assim deixa de usar máscara, “porque apesar de não estar exposta, pode ser um veículo intermediário para a família, onde existem pessoas mais velhas”.

E a Páscoa, aquele momento que é tantas vezes aproveitado para voltar à ilha? “A seguir ao primeiro caso, percebi logo…”, atira, com um sorriso que não se vê pela máscara que tem à frente da boca mas se percebe pelo olhar. “Percebi, ou percebemos, que os próximos meses iriam ser muito, muito diferentes do habitual. Já estamos a planear alternativas para quando as condições forem diferentes. Não é ‘se’, é quando forem diferentes. Porque serão muito diferentes”.

"A seguir ao primeiro caso, percebi logo... Percebi, ou percebemos, que os próximos meses iriam ser muito, muito diferentes do habitual. Já estamos a planear alternativas para quando as condições forem diferentes. Não é 'se', é quando forem diferentes. Porque serão muito diferentes", diz Fábio Cota Medeiros, co-coordenador da Unidade de Internamento de Contingência da Infeção Viral Emergente do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.

Numa outra reportagem feita num hospital que recebe doentes com Covid-19, um grupo de rapazes pediu por tudo para poder levar uma consola para a zona de internamento. Com o material devidamente desinfetado, essa vontade foi realizada. Sandra Braz ri-se ao ouvir o episódio. Os internados ali têm todos mais de 50 anos mas ela sabe que a doença toca a todos, incluindo os mais jovens.

Não há casos desses ali, mas vêm ao de cima as personalidades e maneiras de ser de cada um. De quem cuida e de quem recebe cuidados. “O Fábio diz que é um problema das pessoas do Norte… Eu, além de falar muito, não ouço muito bem e tenho um hábito já não sei há quanto tempo: se um doente está deitado, aproximo-me. Não é recomendável que o faça e nós entramos com a máscara, a touca, que deve tapar os pavilhões auriculares, os óculos. Já ouço mal, quando entro lá, com tudo aquilo…”. Por momentos, a conversa é suspensa como todas aquelas vidas.

– Peço mesmo desculpa de estar a interromper… Precisava mesmo de falar com vocês…, diz outra médica.
– Sim, vamos já. Estamos só aqui a acabar…, responde Sandra Braz.
– Mas precisava mesmo de falar com vocês. É o Miguel…

Fábio Cota Medeiros levanta-se e deixa a sala. Uns minutos depois, regressa, senta-se na cadeira, tenta recuperar o fio à meada da conversa. A cabeça está ali, o pensamento nem por isso. Agarra numa caneta que tem no bolso da bata, desenha o número 1 na palma da mão esquerda e faz uma bola à sua volta. Sem nunca ter ido àquele pequeno gabinete e sem num ter sido falado naquela conversa, Miguel entrou sem se ver e não mais voltou a sair.

O casal de galegos com alta três semanas depois – e o número, o mail e o “papel”

A enfermaria 2C foi a primeira a receber todos os casos suspeitos de Covid-19 em Santa Maria e, desde a semana passada, juntou-se-lhe a medicina 1C. Cada espaço tem cerca de 20 camas, numa reorganização ponderada, gradual, sempre em evolução. Espaços onde eram guardados materiais pelos profissionais são hoje salas de enfermaria, outras salas de enfermaria foram fechadas para fazer a divisão entre zonas limpas e “sujas”.

Onde nos encontramos, no 2A, existem três setores com 20/21 camas cada, apenas para testes positivos. Ou seja, “doentes com casos confirmados, que têm critérios de internamento mas que mostram estabilidade clínica para estarem numa enfermaria e não precisarem à data de admissão de cuidados intensivos”. Ali, exemplos de um ou dois dias não existem – quando chegam, é para ficar. Como o caso de um casal galego que deu entrada no fim de semana de arranque da doença em Portugal, a 16 de março, e que só teve alta na passada sexta-feira, para rumar à Galiza. Mas com várias precauções.

“São criadas ligações diferentes mas existem também dificuldades acrescidas. Para mim, não é nada fácil”, admite Sandra Braz. “Por exemplo, o meu inglês não é bom, mas consigo estabelecer diálogo. O meu espanhol não existe, o Fábio fala muito bem espanhol, mas ter um doente à minha frente que está clinicamente algo instável como já esteve um senhor, ansioso, e eu não conseguir falar na língua dele para o conseguir tranquilizar não é nada, nada fácil. Não foi nada fácil para mim…”, prossegue.

Por ali já passaram “um cidadão americano, um alemão que falava muito bem inglês, uma senhora chinesa a viver há 20 anos em Portugal, um paquistanês”. Tudo a envolver outras entidades, entre embaixadas, seguradoras e demais instituições. “Não foi fácil falar com a família daquele senhor paquistanês. Nada fácil”, lamenta. Aqui não há nacionalidades, idades ou religiões. Há doentes. Se existe uma fronteira, ela diz respeito à maior proximidade que se estabelece entre quem cuida e quem recebe cuidados.

A Medicina 2C tem casos suspeitos, a 2A casos confirmados. Por aqui já passaram espanhóis, americanos, alemães, chineses ou paquistaneses

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“O senhor galego e a mulher estavam internados mas não no mesmo quarto e só ela tinha telemóvel. No início ela falava com a filha, que estava na Galiza, e a filha e a mãe falavam connosco para depois transmitirmos informações ao marido. Ele teve alta hoje [sexta-feira, dia 3] e colocou questões muito importantes, perfeitamente legítimas. O Fábio estava ocupado com outras coisas mas ele saiu daqui perfeitamente esclarecido. E com o meu número de telemóvel e com o meu email. Pedi-lhe para dar notícias, não da evolução clínica mas porque quero ter a certeza de que chegou bem e que está tranquilo. Os próprios bombeiros que o foram transportar — ainda foram seis horas de viagem — ficaram com o meu número caso houvesse problemas com a declaração na fronteira”, conta, num filme já vivido com outros doentes que saíram daquelas enfermarias.

“O que me interessa não é a evolução clínica, ainda que também importe claro. O que mais me interessa é ter a certeza de que não têm nenhuma dúvida, se podem relacionar-se com a família, se podem ou não ir à rua. O que lhes disse é que não podemos neste momento garantir a 100% que não há reinfeção e o que lhes expliquei é que saíram daqui com critérios de cura mas deviam seguir as recomendações em geral. Foram três semanas, têm 70 anos, há a atrofia muscular e o período de convalescença…”, acrescenta.

Nota de rodapé: é por ligações como esta que têm sido angariados tablets que possam minimizar a distância. Numa destas portas há uma folha A4 a azul e branco que especifica “Limitações no período de visitas”, feitas entre as 13h e as 15h e as 17h e as 20h, com o máximo de duas pessoas por doente sendo que apenas uma poderia estar mais próxima e quem tivesse o mínimo sintoma de Covid-19 não deveria estar ali. Não, não é engano. Mas logo ao lado, uma folha A4 branca com letras pretas diz que as visitas foram proibidas. Na doença como nos processo de readaptação a uma nova realidade, tudo mudou. Num instante, tudo muda.

Hoje, é assim. E daqui a um mês, como será? “Não quero pensar, em termos pessoais não penso. É mais fácil para mim. Em termos profissionais claro que sim, porque é preciso antecipar. Pessoalmente, não vejo notícias nem quero saber dos números porque prefiro concentrar a minha energia nesta unidade. Se vou estar a ficar preocupada com o número de ventiladores que existem em Coimbra e no Porto ou com o que se está a viver em Espanha e em Itália, não vou conseguir concentrar-me. Prefiro estar na minha bolha, mas é uma decisão pessoal”, ressalva.

Desde 8 de março que a vida de Sandra Braz mudou. Por decisão pessoal, não tem contacto físico com ninguém. Está em casa, sozinha, e faz o trajeto de ida e volta de casa para o hospital a pé. Tanto tempo depois, neste mundo onde cada dia parece no mínimo uma semana, não aguentou e um dia foi de autocarro para Santa Maria. “Senti-me a pior pessoa do mundo por isso mas já não conseguia, estava exausta…”, justifica.

"A avaliação clínica dos doentes é feita de outra forma porque nos é recomendado passar o mínimo tempo possível dentro das salas. Portanto, temos de fazer uma avaliação rápida, objetiva, antes de entrarmos revemos tudo aquilo que devemos avaliar nos doentes e quando entramos já não é uma entrada espontânea. Tornou-se tudo mecanizado e antes não fazia nada disso", explica Sandra Braz, co-coordenador da Unidade de Internamento de Contingência da Infeção Viral Emergente do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte.

Hoje, naquela zona circundante ao hospital do centro de Lisboa que devia estar cheia de estudantes, de miúdos em torneios da Páscoa e de pessoas a fazer jogging está fechada. Vazia. E com um hospital de campanha ali ao lado preparado para o pior, na Cidade Universitária. “Para mim o mais complicado foi com os miúdos, com os meus sobrinhos. As rotinas foram quebradas e não é fácil explicar a adolescentes que já estão informados mas que ao mesmo tempo não sabem filtrar toda a informação. Os pais ajudam, eles depositam muita confiança em mim mas não é fácil. Nada fácil. Mas conta-se a verdade”.

Quando não está no hospital de serviço, Sandra Braz gosta de cozinhar e ler. Tudo mudou, da forma como as batatas são lavadas e as bancadas desinfetadas, à maneira como descansa em casa. Nas duas primeiras semanas, não agarrou num livro. Não conseguiu. A falta de força superou a enorme vontade. Nem as caminhadas que gostava de fazer ao fim de semana. Nada. Até porque montar ginásios em casa como alguns colegas fizeram não é mesmo para si.

A saída com ou sem zaragatoas e como a forma de avaliar doentes mudou

Se tenta enganar o cansaço com uma ida de autocarro, sente-se mal. Se vai ao supermercado para fazer a coisa mais normal possível, idem. Tudo mudou. Fora daquele espaço, dentro daquele espaço.

“A avaliação clínica dos doentes é feita de outra forma porque nos é recomendado passar o mínimo tempo possível dentro das salas. Portanto, temos de fazer uma avaliação rápida, objetiva, antes de entrarmos revemos tudo aquilo que devemos avaliar nos doentes e quando entramos já não é uma entrada espontânea. Tornou-se tudo mecanizado e antes não fazia nada disso”, conta. Podem estar cinco, seis, oito ou dez médicos ali, só dois ou três entram nas salas. Por uma questão de prevenção, de minimização dos riscos.

Depois, os números são passados numa folha mostrada para quem está do outro lado da fita a vermelho e branco no chão, sendo que existem já walkie talkies que fazem a função. Mais uma vez, os tais paradoxos – numa era onde tudo parece estar à distância de um clique ou de uma tecla, voltou-se ao tempo do papel, da caneta. Para Sandra Braz, o que faz mais confusão é esta passagem para uma “versão 2.0” na ligação com os doentes.

O momento de assinar a alta é diferente. “A saírem com duas zaragatoas e critérios, foram seis [até dia 3]. No entanto, há mais doentes que tiveram alta e que estão clinicamente recuperados, que é outra questão que dá muita discussão”, diz Fábio Cota Medeiros, explicando que tudo tem a ver com a capacidade ou não de isolamento que essas pessoas têm após a saída do hospital. A ansiedade das famílias vem à tona, por questões de segurança e até emocionais. Se alguém está clinicamente apto, se tem condições para se manter isolado, as zaragatoas acabam por ser uma espécie de resguardo mental porque “não é isso que define a cura do doente e permite dar alta”.

As recomendações, essas, são sempre as mesmas. Assim como todo o processo de colocação dos equipamentos de proteção individual está colado em algumas paredes, também este “guia” está gravado na memória de Fábio Cota Medeiros. Quarto isolado de preferência com casa de banho à parte, desinfeção de todas as áreas tocadas, lavagem de roupa e talheres entre 40 e 60 graus, evitar partilha de objetos, máscara, lavar muitas vezes as mãos.

A delimitação entre zonas limpas e "sujas" é feita com linhas mas percebe-se à distância pelos equipamentos de proteção individual

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No Hospital de Santa Maria, como em qualquer outra unidade, era tudo branco ou preto. Ou podia ter alta ou não podia. Ou tinha de ficar internado ou não tinha. Ou precisava de exames ou não precisava. Agora, há outros fatores que pesam. A quem fica, a quem vai. E que não se limitam apenas aos doentes infetados com Covid-19 e às famílias. É nesta fase que Sandra Braz se começa a emocionar: “A relação médico-doente foi completamente alterada”.

“Gostava de entrar no quarto, de falar com os meus doentes e de dizer bom dia aos outros, às vezes até conversava um bocadinho com eles. Agora é tudo completamente diferente, tenho de fazer uma avaliação quase check up. Depois, com este problema de não ouvir bem, tenho a dificuldade de não poder estar muito próxima. Claro que avalio a tensão, a saturação, o sangue, ausculto os doentes mas… Então esta semana está-me a custar muito mais pelos doentes, seja pela sua personalidade, seja por eventos traumáticos recentes… Por exemplo, um doente internado cujo familiar estava também internado e veio a falecer. Eles têm direito a ter-nos mais presentes, a ouvi-los, e isso também nos foi roubado porque não podemos estar muito tempo dentro dos quartos… Falar menos, apesar de tudo, não me custa; ouvir menos, custa-me muito…”

Estamos na linha da frente, estamos perante aqueles que arriscam pelo bem dos outros. Aqueles que, é bom não esquecer, mereceram uma enorme salva de palmas (e buzinas e até fogo de artifício no limite) às 22h de um sábado há três semanas. “Se acho que hoje nos olham de forma diferente? Acho que sim mas não cheguem ao ponto de nos designarem de heróis. Por favor, não façam isso”, pede Sandra Braz, que se sente “muito acarinhada e até mimada, a palavra certa” pela família, pelos colegas de outras especialidades e até por outros pacientes, através de chamadas, mensagens e até vídeos que têm o único propósito de parar o mundo por uns segundos e fazer rir.

Portugal aplaude à janela profissionais de saúde que enfrentam surto na primeira linha

“A valorização sim, existe uma maior valorização. As mensagens que os meus doentes mandam são exatamente isso e penso até que existe uma sobrevalorização do nosso trabalho Não gosto que achem que os profissionais é que são os heróis porque quem vem para esta profissão com a intenção de tratar o outro está cá para fazer isso neste momento. Estamos a cumprir a nossa missão”. Para a coordenadora, aqueles que estão ali a meia dúzia de passos, numa cama, num quarto fechado, sem a família, esses sim são os “heróis”.

"Existe uma maior valorização. As mensagens que os meus doentes mandam é exatamente isso e penso até que existe uma sobrevalorização do nosso trabalho Não gosto que achem que os profissionais é que são os heróis porque quem vem para esta profissão com a intenção de tratar o outro está cá para fazer isso neste momento. Estamos a cumprir a nossa missão", salienta Sandra Braz.

A zona de internamento de infetados com Covid-19, aqueles três espaços com 20/21 camas, tem depois o corredor que dá para a Unidade de Cuidados Intensivos. É para lá que “Miguel”, o caso que alterou de cenário na manhã desta reportagem, irá ser encaminhado com esperança de poder voltar de novo àquele espaço devidamente estabilizado. O período em que nos encontramos, entre as 8h e as 15h, concentra um maior número de médicos, entrando depois uma urgência de quatro médicos até às 22h e outra a partir daí com o mesmo número.

Sandra Braz e Fábio Cota Medeiros, pelo cargo que ocupam, não fazem as oito horas. São dez, 12. Sem fins de semana livres (o primeiro seria este). Porque depois há ainda o serviço de Urgência Central. Profissionais infetados na Medicina 2, “felizmente”, nem um. E o único caso foi um médico que iria juntar-se à equipa nesse dia 16 de março mas que teve sintomas de madrugada e um teste positivo, depois de ter estado em contacto com um dos primeiros doentes diagnosticados naquele espaço.

A dada altura da conversa, Sandra Braz emociona-se. "Há uma pessoa muito próxima de mim, que está a passar por uma situação muito, muito complicada e que se tem revelado uma grande mulher. É a minha interna, a Federica Parlato, que é italiana... Está aqui, escolheu ficar aqui, porque foi uma escolha ficar cá, quando a família dela está lá em Itália... Se nós conseguirmos que a Federica passe o aniversário dela em Palermo com a família dela na primeira semana de agosto, isto valeu a pena, é o que eu quero...".

Além dos dois coordenadores, cada setor tem outros dois/três coordenadores seniores, que são assistentes hospitalares ou internos do quinto ano, e abaixo (“só na hierarquia, porque são todos iguais”) cerca de oito a dez internos que não vêm todos os dias porque ou estão de saída de banco, ou estão de saída de urgência interna ou porque, importante também, ficam em casa a descansar.

“Se tivermos alguém que faz serviço de urgência externa, que faz serviço de urgência interna e que está aqui a lidar com tudo isto rapidamente entra em exaustão”, explicam, revelando um orgulho que a máscara que têm não esconde pela forma como a organização foi adaptada em tempo recorde, está em constante evolução para prevenir todos os cenários e tem profissionais dispostos a tudo por todos.

“A vida está em suspenso mas há mais vida depois disto. Vai correr bem”

E quando tudo isto acabar? Quando tudo voltar à normalidade? Quando o edifício central de Santa Maria voltar a ser o coração de um hospital que só quer sentir a azafama dos dias normais? Sandra Braz emociona-se.

“É mesmo dar o abraço a quem está longe, que vai ter outro significado completamente diferente. Na semana passada estavam a falar a que restaurante iriam e com quem quando voltasse tudo ao normal. Para mim, fico muito satisfeita se puder ir a casa da minha mãe, comer a comida que ela me faz. E depois há outro pedido… Um pedido um bocadinho extra familiar, não profissional… Há uma pessoa muito próxima de mim, que está a passar por uma situação muito, muito complicada e que se tem revelado uma grande mulher. É a minha interna, a Federica Parlato, que é italiana… Está aqui, escolheu ficar aqui, porque foi uma escolha ficar cá, quando a família dela está lá em Itália… Se nós conseguirmos que a Federica passe o aniversário dela em Palermo com a família dela na primeira semana de agosto, isto valeu a pena, é o que eu quero…”, conta com a voz embargada.

Entre a luta diária, há outras “lutas”. Lutas invisíveis como a Covid-19 entre as equipas que lutam contra a Covid-19. Lutas que são de uns mas que tocam a todos. Lutas que mostram que todos funcionam como um.

“Às vezes não se diz nada… E quando não se consegue dizer, manda-se recado para alguém tomar conta naqueles dias porque já não estou a conseguir…”

Os olhos de qualquer pessoa falam. Hoje, os olhos de qualquer profissional de saúde, protegidos pela máscara que faz parte da “farda” e que em alguns pode deixar marcas maiores do que a força que os elásticos tiveram sobre a pele, foram obrigados a falar. Agora, os de Sandra Braz choram. Não aguentam a emoção de recordar uma situação próxima que, como tantas outras que lhe têm aparecido pela frente, nem sempre controla.

Divisão de zonas é feita com uma fita vermelha e branca. Informações são passadas mostrando um papel ou por walkie talkie

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“Ela sabe que tem muita gente aqui a apoiá-la. Há uns dias em que estou melhor, há outros dias em que não estou tão bem, mas alguém irá ajudá-la nesses dias… Tem de se levar isto… Ela é a minha interna mas tivemos aqui outra interna no ano passado e as três temos este objetivo que não diria que seja profissional, é pessoal. Que ela esteja lá naquela semana… Nós estamos a viver no nosso país, ela está a fazer o melhor que consegue por todos nós mas com uma família lá em Itália e não é nada, nada fácil… Nada, nada fácil”, reforça.

“Nem sequer tive muita hipótese de escolha porque em Itália começou tudo a 20 de fevereiro e o governo não conseguiu tomar as medidas necessárias a tempo. Não sabíamos o que iria acontecer. Lembro-me do fim de semana antes de ser decretado o estado de emergência na Lombardia. Depois parou o país e aí é que me apercebi que este isolamento iria acontecer. Ponderei voltar mas estou a ser mais útil aqui como médica do que seria lá, nem sequer estou inscrita lá na Ordem, apesar de ter concluído lá o curso. Nos últimos quatro anos sempre trabalhei cá, estou habituada e achei que era mais útil. Senti-me dividida mas não podemos fazer muito pelas nossas famílias, estamos isolados O meu problema é que se acontecer alguma coisa não consigo voltar, daí a angústia”, explica Federica Palermo, a interna de 29 anos que estudou na Sicília antes de vir para Portugal.

[Ouça aqui o Explicador da Rádio Observador com as declarações de Federica Parlato]

Médica italiana que trabalha em Lisboa “vive a pandemia 2 vezes”

“Parece mal dizer isto mas, apesar de tudo, felizmente isto explodiu na zona norte, que tem um grande Sistema Nacional de Saúde. Aliás, Itália é conhecia pelo seu Sistema de Nacional de Saúde. No sul tinha sido muito pior. Isto foi como viver uma epidemia em dois tempos, parece um dejá vu que estou a ter a nível de isolamento social e quarentena. De resto, até agora o Sistema Nacional de Saúde aqui tem conseguido cobrir tudo”, acrescenta, falando ainda na diferença que houve em Portugal por não existir um êxodo dos grandes centros. “Têm sido dias pesados do ponto de vista psicológico porque estou a viver isto duas vezes, mas no trabalho não sinto tanto isso. Espero bem que sim, que já consiga passar lá o meu aniversário… Só gostava que as coisas estivessem resolvidas…”.

Tudo obedece a uma estratégia fácil de montar pelo conhecimento que existe entre todas as pessoas, com muitos internos na equipa. “E não me digam que os internos, por serem internos, não são capazes… Eles são a força de trabalho deste hospital e de todos os outros… Não são internos do primeiro ano, como é óbvio, mas no ano em que estão têm excelentes competências técnicas e são as pessoas que conheço bem do ponto de vista pessoal, as suas fraquezas, os que são mais impulsivos. Foi isso que me levou a convidá-los e a formar este grupo”, destaca.

Também por isso, Sandra Braz tem métodos diferentes. Com uns, chega a casa e é capaz de passar uma hora ao telefone. A outros, basta enviar um vídeo para rir. E ainda há aqueles com quem de vez em quando vai à cantina, “com uma mesa de intervalo”, apenas beber um café rápido. Só na equipa de banco tem três casamentos marcados, um na primeira semana de maio, outro na segunda de maio e outro em julho. Um foi já desmarcado. “Temos de brincar com os vestidos de noiva, porque a Pronovias oferece vestidos a profissionais de saúde”.

“A vida está em suspenso mas há mais vida depois disto. A vida está em suspenso mas temos de acreditar que vai correr bem, tudo vai correr bem…”

Sandra Braz recuperou o sorriso que não se vê, Fábio Cota Medeiros está também mais calmo como só se consegue perceber (pelas máscaras, outra vez as máscaras que escondem expressões que os olhos e os movimentos corporais deixam a descoberto). A Medicina 2 pode não ter as imagens dramáticas que chegam de alguns países com camas e camas sem fim no meio de corredores mas também sofre para ajudar a que os outros não sofram. E pode não ter flash mobs como tantas vezes se vê nos hospitais lá fora, mas também relaxa com as histórias que vão ficar.

"Tivemos um doente que combinou com a família que ficava num quarto e comia lá, tomava banho lá e que como só havia uma casa de banho improvisaram uma na varanda. Mais do que isso, eu não quero saber... Deve estar a correr tudo bem porque eles não nos contactaram, nós dissemos para esperarmos 24 horas para se perceber se era viável, se era fazível, e mantiveram a opinião. Tudo bem. Acho que esta medida é extraordinária!".

“Também nos temos rido, claro. Até porque às vezes as soluções que as famílias encontram, até nisto… Há pessoas ou famílias que ficam muito ansiosas e querem mesmo ter os dois testes negativos mas há outros que dizem ‘Sinto-me bem, deixe-me ir’. Temos de explicar que às vezes parece que está tudo muito bem e 12 ou 24 horas depois tudo se agrava. Alguns encontram soluções extraordinárias e rimo-nos disso, da forma como se isolam. Olhe, tivemos um doente que combinou com a família que ficava num quarto e comia lá, tomava banho lá e que como só havia uma casa de banho improvisaram uma na varanda. Mais do que isso, eu não quero saber… Deve estar a correr tudo bem porque eles não nos contactaram, nós dissemos para esperarmos 24 horas para se perceber se era viável, se era fazível, e mantiveram a opinião. Tudo bem. Acho que esta medida é extraordinária!”, conta Sandra Braz.

Aqui, na Medicina 2, que já pareceu um filme ou uma série de ficção científica, não há personagens como o Dr. House ou The Good Doctor mas há histórias que podíamos ver na Anatomia de Grey ou no Chicago Med. Histórias de pessoas de bata verde clara que vai perdendo cor com as lavagens mais agressivas a que são sujeitas, histórias de pessoas que hoje vestem fatos e equipamentos de proteção individual quando passam aquela linha verde e branca no chão. Histórias de pessoas.

Pessoas que tiveram de fazer uma reformatação total nas suas vidas, nas suas abordagens e nos seus conhecimentos, mas que não querem que aquele casaco azul escuro seja visto como a capa de herói. Heróis, dizem, são aqueles que ficaram privados de tudo e todos e estão numa daquelas 60 camas. Estes profissionais têm medo de poderem ser infetados, têm medo (agora aparentemente menos) de poderem chegar a uma fase de rutura de pessoas e meios caso exista um aumento excessivo de doentes num curto lapso de tempo mas têm sobretudo medo de ficarem exaustos e não terem mais forças para terem medo. Um dia, algures, tudo voltará ao normal. “Porque a vida está em suspenso mas há mais vida depois disto”. E vai correr bem.

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