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▲Protesto de jovens judeus ultraortodoxos em junho de 2025

Anadolu via Getty Images

▲Protesto de jovens judeus ultraortodoxos em junho de 2025

Anadolu via Getty Images

Os judeus ultraortodoxos que se recusam a alistar nas IDF e que podem levar Netanyahu a convocar eleições antecipadas

Partidos lutam por exceção para que jovens judeus ultraortodoxos não sejam obrigados a cumprir serviço militar. Netanyahu tenta acordo e demitiu aliado. Impasse mantém-se; Israel pode ir a eleições?

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É um assunto que tem dado dores de cabeça ao governo israelita há mais de um ano. Devem os judeus ultraortodoxos servir nas Forças de Defesa de Israel (IDF)? Num país em que o serviço militar é obrigatório depois da conclusão do ensino obrigatório para quase todos os jovens dos 18 aos 26 anos, esta minoria, que corresponde a cerca de 13% da população, recusa juntar-se às IDF, numa altura em que continua a guerra na Faixa de Gaza. No Parlamento israelita, existem vários partidos que representam os interesses dos judeus ultraortodoxos. Num clima de tensão que dura há vários meses, essas forças partidárias anunciaram na semana passada que iam abandonar o executivo, o que pode deitar por terra a maioria liderada por Benjamin Netanyahu — e pode abrir caminho para eleições antecipadas.

A união de dois partidos que anunciou inicialmente que ia bater com a porta foi a Judaísmo Unido da Torá (UTJ, sigla em inglês), de que fazem parte o Agudat Yisrael (com quatro deputados no Parlamento) e o Degel HaTorah (com três). Defendendo os interesses dos judeus ultraortodoxos de origem asquenaz (com raízes principalmente na Europa de Leste), os parlamentares abandonaram não só o governo na passada terça-feira, como romperam com a coligação de Benjamin Netanyahu.

Cerca de 24 horas depois, foi o outro partido ultraortodoxo, Shas, que defende os interesses dos judeus ultraortodoxos sefarditas (oriundos da Península Ibérica e do Norte de África), que divulgou que ia abandonar o governo. Contrariamente à UTJ, este partido — que tem onze deputados no Knesset — apenas saiu do executivo israelita, mas não retirou o apoio parlamentar à coligação.

epa12170402 General view during a special plenary session in honor of the visit of Argentina's President Javier Milei at the Knesset, the Israeli Parliament, in Jerusalem, 11 June 2025. Argentina's President Javier Milei is on three-day visit to Israel.  EPA/ABIR SULTAN

▲ Parlamento israelita, Knesset

ABIR SULTAN/EPA

No entanto, estes partidos garantiram a Benjamin Netanyahu que iam apoiá-lo numa eventual moção de confiança e votariam contra uma moção de censura. Dito doutro modo, continuam a apoiar politicamente o governo, mesmo que já não exista uma maioria absoluta. Além disso, nos bastidores, o primeiro-ministro também tem em curso negociações com todas estas forças políticas — e um dirigente político bastante crítico da isenção já foi afastado do cargo, uma forma de aliviar a tensão entre os ultraortodoxos e o governo de Telavive.

A linha vermelha traçada por estes partidos é inequívoca: os jovens judeus ultraortodoxos não devem ser obrigados a cumprir o serviço militar. Praticamente desde a criação do Estado de Israel que existe isenção para esta franja da população; mas nunca houve uma lei que estipulasse esse regime de exceção, que se baseou sempre em acordos políticos e decisões temporárias. Porém, grande parte da opinião pública israelita está contra haver uma dispensa para esta minoria — principalmente num país que ainda continua em guerra.

Os judeus ultraortodoxos. Quem são e porquê é que não querem juntar-se às IDF?

Com uma vida pautada por regras e restrições, os judeus ultraortodoxos organizam a vida em redor da religião. Quando são jovens, os homens devem dedicar-se a uma tarefa em exclusivo: estudar em profundidade a Torá, o livro sagrado do judaísmo. As idas à sinagoga são também bastante frequentes. E na prática é-lhes instituída uma segregação de géneros em várias esferas da vida pública. Alguns fações usam a tecnologia apenas para determinados fins.

▲ Com uma vida pautada por regras e restrições, os judeus ultraortodoxos organizam a vida em redor da religião

ABIR SULTAN/EPA

A entrada nas Forças de Defesa de Israel cria obviamente grandes disrupções na vida que os jovens judeus ultraortodoxos deveriam levar se seguissem à risca os preceitos religiosos: não podem passar várias horas do dia a estudar a Torá, as idas à sinagoga são limitadas e não existe segregação de género no seio das IDF. Para além disso, alguns setores do judaísmo ultraortodoxo também levantam várias dúvidas sobre a necessidade de servir as Forças Armadas de Israel. Entre estes, muitos são mesmo contra a guerra em Gaza.

Em declarações ao Guardian, Ari, um jovem de 19 anos, resume o que muitos judeus ultraortodoxos sentem: “O Exército pode vir aqui e dizer o que quiser. Mas nós apenas respondemos a Deus. Não nos vamos alistar porque estudar a Torá sempre foi o nosso único objetivo. Podem multar-nos ou fazer o que quiserem. Pagaremos as multas, mas não vamos entrar nas Forças Armadas”.

Muitas destas comunidades ultraortodoxas vivem à margem da restante sociedade israelita. Habitam em determinados enclaves e raramente se misturam com os restantes judeus. Daí que muitos sintam que não têm a necessidade de se alistarem. “Não nos vamos alistar. Desde o início do Estado [de Israel] nunca o fizemos. Agora querem que nos alistemos à força. Nunca vai funcionar. Num Estado democrático não há muitos mais que possam fazer do que colocar-nos na prisão. Não temos medo da prisão”, disse Yosef, um jovem ultraortodoxo de 22 anos, em declarações à CNN Internacional.

"Não nos vamos alistar. Desde o início do Estado [de Israel] nunca o fizemos. Agora querem que nos alistemos à força. Nunca vai funcionar. Num Estado democrático não há muito mais que possam fazer do que colocar-nos na prisão. Não temos medo da prisão."
Yosef, jovem ultraortodoxo de 22 anos

Este regime de exceção — que nunca foi transformada em lei — foi desafiado pelo Supremo Tribunal de Israel. Antes disso, Benjamin Netanyahu tentava negociar as isenções para agradar aos seus parceiros de governo; contudo, em junho do ano passado, o órgão jurídico considerou que o governo de Israel não tinha “um quadro jurídico adequado” para continuar a dispensar os judeus ultraortodoxos do cumprimento do serviço militar. O Supremo Tribunal lembrou ainda a “guerra difícil” em Gaza, criticando o “fardo de desigualdade” que estava em vigor.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Os judeus ultraortodoxos deixaram duras críticas ao Supremo Tribunal, mantiveram o finca-pé, organizaram manifestações, mas, nessa altura, não deixaram qualquer ameaça política. Em sentido inverso, esta decisão foi vista com agrado pela maioria da população israelita, que também considera a exceção injustificada. Uma sondagem publicada em janeiro de 2025 mostra que 84,5% dos inquiridos se manifestavam contra a exceção desta minoria se alistar nas IDF.

Entre os inquiridos, os reservistas nas IDF são os que mais protestam contra o regime de exceção de facto dos judeus ultraortodoxos. “Não se consegue fugir a uma sensação de dualidade. A maioria dos israelitas estão prontos para servir, mas este grande grupo de ultraortodoxos em idade militar não está não só a recusar alistar-se, como também os partidos autorizam [estas] convocações militares. É uma traição”, disse o reservista Ari Krauss ao Washington Post.

epa11621331 Lebanese soldiers secure the area in the southern suburb of Beirut after an Israeli military strike, in Beirut, Lebanon, 23 September 2024. The Israeli Defense Forces (IDF) said they conducted a 'targeted strike' in Beirut on 23 September after the Israeli military announced that it launched 'extensive' airstrikes on Hezbollah targets in Lebanon. Lebanese residents of villages in the Beqaa Valley 'who are inside or near houses where rockets and weapons are stored' have been warned to 'move away immediately! For your safety and protection', the statement added. According to Lebanon's Ministry of Health, at least 274 people have been killed and more than 1,000 others injured following continued Israeli airstrikes on southern Lebanese towns and villages since 23 September morning.  EPA/WAEL HAMZEH

▲ Entre os inquiridos, os reservistas nas IDF são os que mais protestam contra o regime de exceção dos judeus ultraortodoxos

WAEL HAMZEH/EPA

Se na criação do Estado de Israel eram apenas cerca de 40 mil pessoas, agora já são mais de um milhão, isto é, correspondem a cerca de 13% da população israelita. Uma vez que geralmente são contra o uso de contracetivos, as famílias de judeus ultraortodoxos são por norma bastante grandes. Neste contexto, entre muitos israelitas seculares e até praticantes (mas que não seguem os preceitos religiosos tão à risca) foi-se gerando ao longo das últimas décadas, como nota a BBC, um certo ressentimento face aos ultraortodoxos.

A isenção de se juntarem às IDF ajudou para essa perceção mais negativa. Mas esse ressentimento prende-se essencialmente com o facto de muitos judeus ultraortodoxos não trabalharem, vivendo somente para os estudos religiosos. “Há um confronto entre duas visões ideológicas dentro de um mesmo povo. Uma que reivindica a supremacia dos princípios democráticos universalmente reconhecidos e outra que os submete ao legado religioso, em função da interpretação do rabino”, descreveu o analista político Daniel Kupervaser ao El País.

As minorias ultraortodoxas sentem-se também excluídas da restante sociedade — estatuto, aliás, que muitas ativamente procuram. “Os ultraortodoxos não são como os evangélicos norte-americanos. Eles apenas querem ser deixados em paz e manter a sua pureza interna”, resume à Al Jazeera Ori Goldberg, comentador político israelita. Para estes judeus, as questões territoriais e geopolíticas não lhes interessam, contrariamente aos movimentos sionistas: “Para eles, não se trata de se estabelecerem num território. O mais importante é que se mantenham vivos”. Apesar disso, os partidos que os representam são alguns dos que mais defendem que se mantenha — e até se alarge — a ofensiva em Gaza.

"Os ultraortodoxos não são como os evangélicos norte-americanos. Eles apenas querem ser deixados em paz e manter a sua pureza interna."
Ori Goldberg, comentador político israelita

A influência política e o governo. O que vão agora fazer os judeus ortodoxos?

A maioria dos judeus ultraortodoxos mostra pouco entusiasmo em relação à guerra na Faixa de Gaza e também às operações militares no Líbano, na Síria e até no Irão — o chamamento nacionalista usado pelo governo de Benjamin Netanyahu não ressoa particularmente bem entre estas comunidades. A sua principal motivação consiste em dedicar a vida à religião e não tanto em questões de segurança nacional.

Nas eleições legislativas de 2022, antes da guerra da Faixa de Gaza, os partidos ultraortodoxos obtiveram mais de 670 mil votos. Em conjunto, a UTJ e o Shas elegeram 18 deputados para o Parlamento, que foram essenciais para viabilizar o executivo de Benjamin Netanyahu. Ao longo da História de Israel, estas forças políticas já apoiaram quer governos à esquerda, quer à direita. O mais importante é que os seus interesses sejam salvaguardados, usando o capital político para esse efeito — e beneficiando também do sistema multipartidário israelita para isso.

Quanto a guerra na Faixa de Gaza começou, os partidos ultraortodoxos mantiveram o seu apoio ao executivo. Algumas correntes mais modernas até incentivaram os jovens judeus das comunidades a juntar-se às IDF, se bem que a atitude fosse pautada pela discrição. O conflito militar não era uma prioridade, mas as forças partidárias queriam manter a sua capacidade de influência no executivo e garantir sempre que os jovens ultraortodoxos — que representam uma importante fatia do seu eleitorado — não fossem obrigados a alistar-se.

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▲ Judeus ultraortodoxos em protesto contra o alistamento das IDF

AFP via Getty Images

Na sociedade israelita, ainda assim, o assunto começava a ser discutido. O país precisava de soldados — e havia milhares de judeus que se recusavam a lutar pelo país. Até dentro do Likud, partido de Benjamin Netanyahu, havia certas fações que demonstravam algum incómodo por haver esta isenção. Contudo, foi a partir da decisão do Supremo Tribunal em junho de 2024 que o tema ganhou preponderância.

Após a deliberação do Supremo Tribunal, ao longo do ano de 2024 mais de 24 mil judeus ultraortodoxos foram chamados para se alistarem nas Forças de Defesa de Israel. Mas a medida não teve praticamente efeitos práticos. Apenas 5% dos jovens entre os 18 e os 26 anos destas comunidades responderam às ordens das IDF. “As Forças Armadas emitiram 24 mil ordens de alistamento das 80 mil planeadas. Apenas 1.212 ultraortodoxos responderam”, detalhou Shai Tayeb, líder do departamento de recrutamento das IDF, numa audição parlamentar.

A pressão foi aumentando. Por um lado, a generalidade da opinião pública defendia que deveria haver sérias consequências para aqueles que não respondem às ordens de alistamento das IDF; por outro, os partidos ultraortodoxos tentavam negociar um acordo com o primeiro-ministro para que a isenção se transformasse numa lei. Em meados de junho, no Parlamento, discutiu-se um sistema de quotas para que alguns judeus ultraortodoxos integrassem as IDF, mas as negociações não chegaram a bom porto.

"As Forças Armadas emitiram 24 mil ordens de alistamento das 80 mil planeadas. Apenas 1.212 ultraortodoxos responderam."
Shai Tayeb, líder do departamento de recrutamento das IDF

Entre a espada e a parede, Benjamin Netanyahu procurava chegar a uma solução que fosse “equilibrada e responsável”. Mas o facto de o governo não ter sequer avançado com uma solução intermédia levou a que os partidos ultraortodoxos perdessem a paciência e retirassem o apoio ao governo e, no caso da UTJ, o apoio à coligação que governa Israel.

O executivo, por agora, está seguro por um fio. Ainda tem uma maioria relativa no Knesset, sendo que a UTJ e o Shas prometeram não derrubar o executivo. Até haver uma decisão definitiva, há negociações nos bastidores. E já houve uma primeira ação. O líder da Comissão de Negócios Estrangeiros e de Defesa, Yuli Edelstein, foi afastado do cargo por ser uma das vozes mais críticas dentro do Likud no que toca à criação de uma lei de exceção para os judeus ultraortodoxos no alistamento às IDF. “Paguei um preço pela minha ideologia”, lamentou o responsável político esta quarta-feira.

Além disso, em Israel, as férias parlamentares começam a 27 de julho e duram até outubro, o que deverá dar tempo para Benjamin Netanyahu chegar a uma solução que contente os dois lados — ou então, para avançar com eleições antecipadas, um cenário que muitos especialistas acreditam que está a ser estudado pelo primeiro-ministro israelita.

epa12227279 Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu delivers remarks during a meeting with US Secretary of Defense Pete Hegseth(not pictured) at the Pentagon in Arlington, Virginia, USA, 09 July 2025.  EPA/SHAWN THEW

▲ Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, está a tentar pensar em alternativas políticas

SHAWN THEW/EPA

Por sua vez, os partidos ultraortodoxos não devem querer ir a eleições, já que, de acordo com as sondagens, podem ter uma diminuição da representação parlamentar. Além disso, reconhecem que podem ser penalizados nas urnas caso não consigam avançar com um projeto de lei que contente o seu eleitorado no que toca ao recrutamento das IDF. Um cenário ainda menos positivo é se, para além de não conseguirem avançar com legislação neste assunto, também forem responsabilizados por provocarem eleições antecipadas.

Em declarações citadas pelo New York Times, Israel Cohen, comentador numa estação de rádio ultraortodoxa, apontou que os partidos religiosos estão “a tentar encontrar o equilíbrio”: “Eles querem forçar Netanyahu a alcançar uma lei. Mas não querem atirar já a toalha ao chão. Não querem perder a maioria de direita”. Entre conversações à porta fechada e a possibilidade de eleições antecipadas, Benjamin Netanyahu vai tentar agora chegar a uma solução que será difícil: terá de conjugar a vontade de uma minoria com a maioria da opinião pública que tem criticado os duplos critérios no alistamento das Forças de Defesa de Israel.

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