Pela primeira vez na história, uma mulher foi escolhida para o cargo de arcebispa de Cantuária. Sarah Mullally, até agora bispa de Londres, vai assumir no início de 2026 a liderança não só da Igreja de Inglaterra, como também de toda a Comunhão Anglicana a nível global, tornando-se, a partir da sé de Cantuária (a principal cátedra da igreja-mãe do anglicanismo), a líder espiritual dos cerca de 100 milhões de anglicanos que vivem em todo o mundo.
O anúncio histórico (mas, ainda assim, relativamente expectável) foi feito esta sexta-feira pelo primeiro-ministro inglês, Keir Starmer, seguindo a tradição de o nome do arcebispo de Cantuária ser anunciado pelo governo britânico e aprovado pelo monarca — ritual destinado a recordar que a Igreja de Inglaterra é a religião oficial do país e que, em última análise, é o Rei quem assume a função de governador supremo daquela igreja.
Sarah Mullally, de 63 anos de idade, sucede na liderança dos cristãos anglicanos a Justin Welby, o anterior arcebispo, que renunciou ao cargo em novembro de 2024 depois de se ver envolvido numa polémica sobre o modo como, no passado, tinha lidado com casos de abusos sexuais de menores. A saída de Welby, que ocupava o cargo desde 2013, abriu um longo período de sede vacante, durante o qual a Igreja de Inglaterra teve de desencadear o complexo processo de escolha do seu sucessor.
Ao longo de vários meses, uma comissão de nomeações, liderada por um antigo diretor-geral dos serviços secretos britânicos, teve a espinhosa missão de avaliar possíveis candidatos para um cargo que muito poucos teriam vontade de ocupar: depois de a saída abrupta de Welby ter colocado os abusos de menores no centro da agenda, qualquer candidato sabia que teria a sua vida escrutinada ao mais ínfimo pormenor.
Somando isto à falta de massa crítica (o universo para a escolha eram os 42 bispos diocesanos da Igreja de Inglaterra, embora tenham chegado a ser ponderados bispos auxiliares) e ao facto de o arcebispo de Cantuária ter de assumir a liderança espiritual de um país que começa a voltar as costas à fé, ter de supervisionar dioceses ciosas da sua independência e ter de garantir a unidade de uma comunhão global que tem vindo a deixar evidentes as fraturas internas em torno de temas como a ordenação de mulheres ou as pessoas LGBT, as escolhas pareciam limitadas.
▲ Justin Welby era o anterior arcebispo de Cantuária e renunciou em novembro de 2024
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Esperava-se, ainda assim, que pudesse ser escolhida uma mulher. É a primeira vez que a Igreja de Inglaterra passa pelo processo de nomear um novo arcebispo de Cantuária desde que, em 2014, foi aberta a possibilidade de ordenação episcopal de mulheres — o que deixou muitos a ansiar por esse desfecho. Ainda assim, perspetivava-se já um desafio: a ordenação episcopal de mulheres não é totalmente pacífica dentro da Igreja de Inglaterra (onde há pequenas bolsas de resistência) e muito menos dentro da Comunhão Anglicana (onde há várias igrejas por todo o mundo que recusam até a ordenação presbiteral feminina e que agora terão de aceitar a liderança de uma mulher em Cantuária).
Como bispa de Londres — e, portanto, número três da hierarquia da Igreja de Inglaterra, atrás de Cantuária e Iorque —, Sarah Mullally era apontada como uma forte possibilidade, embora não necessariamente como a favorita. Guli Francis-Dehqani, bispa de Chelmsford, era a preferida das casas de apostas, mas acabou por não ser a escolhida.
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A enfermeira de topo que se dedicou à Igreja
Sarah Mullally nasceu em março de 1962 em Woking, no sul de Inglaterra, e converteu-se ao Cristianismo com 16 anos de idade. Esta sexta-feira, num breve comunicado após o anúncio, a nova arcebispa recordou esse momento de conversão: “Ao responder ao chamamento de Cristo para este novo ministério, faço-o com o mesmo espírito de serviço a Deus e aos outros que me motivou desde que cheguei à fé como adolescente.”
Antes da sua vida clerical, Sarah Mullally estudou enfermagem e trabalhou no Serviço Nacional de Saúde britânico como enfermeira especialista em oncologia. Teve uma carreira fulgurante na área, chegando, com apenas 37 anos, ao cargo de Chief Nursing Officer do governo britânico (a principal conselheira do executivo em questões de enfermagem) e recebendo o título de dama como reconhecimento do seu trabalho.
Já depois de deixar essas funções, em 2004, Sarah Mullally dedicou-se em exclusivo à Igreja de Inglaterra. Em 2015, um ano depois de a Igreja de Inglaterra ter permitido a ordenação episcopal de mulheres, Mullally foi nomeada bispa de Crediton, um cargo auxiliar da diocese de Exeter. Apenas dois anos depois, em 2017, foi escolhida para liderar a diocese de Londres, ascendendo ao terceiro lugar na hierarquia da Igreja de Inglaterra.
Nessas funções, Sarah Mullally tornou-se um dos principais rostos do anglicanismo. O bispo português Jorge Pina Cabral, líder da Igreja Lusitana — que representa Portugal na Comunhão Anglicana —, elogia a escolha de Mullally como arcebispa de Cantuária, classificando-a como uma “profunda conhecedora das questões que se colocam na Igreja de Inglaterra”, mas também em toda a Comunhão Anglicana.
Os dois bispos cruzaram-se em 2023 em Moçambique, quando foram escolhidos para integrar o grupo de formadores que esteve naquele país a dar formação aos bispos anglicanos recém-ordenados do continente africano. “Encontrei uma pessoa muito disponível, muito interessada em partilhar a sua experiência com os novos bispos, muito acessível no trato, no seu dia-a-dia”, recorda Jorge Pina Cabral. “Uma pessoa simples e muito disponível para acolher as questões que lhe eram levantadas.”
O bispo português, líder dos cerca de 5 mil anglicanos que vivem em Portugal, lembra também “uma mulher profundamente enraizada na sua espiritualidade, na sua oração e que deu, nessa altura, um grande contributo para essa formação”. Por essa razão, diz Jorge Pina Cabral, é “alguém que não só tem uma grande visão das questões que se colocam ao nível da Igreja de Inglaterra, como é também conhecedora da realidade da Comunhão Anglicana e, naturalmente, também das exigências, tensões e desafios que se colocam ao nível da Comunhão Anglicana”.
Uma moderada que vai ter de curar fraturas
Sarah Mullally vai ter, porém, a missão de procurar a unidade num universo anglicano que tem demonstrado fraturas que parecem difíceis de superar. A própria chegada de Mullally à sé de Cantuária é sinal de um dos principais fatores de polarização na Comunhão Anglicana: a ordenação de mulheres.
Desde os anos 90 que a Igreja de Inglaterra permite a ordenação diaconal e presbiteral de mulheres, mas só em 2014 passou a permitir a ordenação episcopal feminina. Entre as alas mais conservadoras, que já se vinham opondo à ordenação diaconal e presbiteral, a autorização para a ordenação episcopal representou um ponto de inflexão que podia ter levado à ruptura — só evitada com a criação dos chamados “flying bishops“, bispos homens a quem foi confiada a supervisão episcopal das paróquias que rejeitam a ordenação de mulheres, mesmo que se encontrem no território de uma diocese liderada por uma mulher.
Essa solução de compromisso tem funcionado até agora, mas é incerto o que acontecerá agora que também esses “flying bishops” terão de responder perante uma arcebispa mulher.
▲ Sarah Mullally tem agora a missão de liderar não só a Igreja de Inglaterra, mas toda a Comunhão Anglicana
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O problema poderá ser ainda mais complexo no resto da Comunhão Anglicana, onde as posições sobre este tema são muito diversas. Se, no caso da Igreja Lusitana, fortemente alinhada com o caminho de abertura preconizado pela Igreja de Inglaterra nos últimos anos, a situação é pacífica, no caso de muitas igrejas do continente africano a situação será diferente — já que, nessas igrejas, a ordenação de mulheres é ainda um tabu. Aliás, estima-se que cerca de 75% dos anglicanos de todo o mundo vivam em províncias e dioceses que ainda não reconhecem a ordenação de mulheres.
Ao mesmo tempo, as questões LGBT também têm contribuído para o aprofundar do fosso entre progressistas e conservadores na Igreja de Inglaterra. A recente aprovação de uma proposta de realização de cerimónias de bênção de casais de pessoas do mesmo sexo agudizou ainda mais a situação. Este processo de progressiva abertura da Igreja de Inglaterra tem, por outro lado, sido apontado como um dos principais fatores do declínio daquela igreja: já há estudos que apontam para a possibilidade de, em breve, o número de católicos superar o número de anglicanos no Reino Unido, algo que seria inédito desde o século XVI. Entre a Geração Z, o número de católicos é já o dobro do número de anglicanos — e há quem estabeleça uma associação entre a ordenação de mulheres e a onda de padres e bispos anglicanos que, nos últimos anos, se têm transferido para a Igreja Católica.
Nesse sentido, o posicionamento moderado de Sarah Mullally nestas matérias poderá jogar a favor dela. “É uma pessoa com grande capacidade de liderança, capaz de estabelecer pontes e com grande capacidade política, no sentido de saber lidar com as diferenças e de criar canais de comunicação”, sublinha Jorge Pina Cabral. “Não é tida como da ala mais progressista nem como da ala mais conservadora. Nesse sentido, é alguém que vai certamente encontrar equilíbrios que são necessários, quer para a Igreja de Inglaterra, quer também para a Comunhão Anglicana.”
O bispo português frisa ainda que a bispa Sarah Mullally leva para Cantuária como um dos seus grandes legados o papel que assumiu num processo interno da Igreja de Inglaterra batizado como “Living in Love and Faith” (Vivendo no amor e na fé), o difícil debate interno sobre as questões da sexualidade e do acolhimento das pessoas LGBT.
“Foi o caminho que a Igreja de Inglaterra abriu para o diálogo relativamente às questões da sexualidade”, sublinha Jorge Pina Cabral. “Foi ela a bispa que apresentou ao Sínodo de Inglaterra o documento final desse processo de auscultação, de diálogo, de aprofundamento teológico e bíblico sobre as questões da sexualidade. Ela foi alguém capaz de liderar um processo já em si difícil, causador de tensões, dadas as diversas posições.”
“Esse documento trouxe-lhe uma notoriedade, trouxe-lhe também uma capacidade de escuta de diversas posições”, afirma ainda o bispo. “Lembro que, nessa altura, ela sublinhou também a importância da reconciliação e de saber discordar respeitosamente, mesmo tendo posições diferentes. Portanto, é uma pessoa que está embrenhada nesse processo de diálogo, de acomodação de diferentes sensibilidades. Penso que esse terá sido um dos grandes papéis dela desde que é bispa de Londres.”
Na sua diocese, frisa Jorge Pina Cabral, a bispa Sarah Mullally trabalhou no sentido de “integrar comunidades multiétnicas”, criando “comunidades de fé no contexto da Igreja Anglicana” que “refletem aquilo que é a realidade da Grande Londres” e que são “capazes de acolher essa diversidade”.
Exemplo para outras igrejas ou dor de cabeça interna?
A bispa Sarah Mullally deverá tomar formalmente posse como arcebispa de Cantuária apenas no início do próximo ano. Com a sua nomeação, esta sexta-feira, já fez história ao tornar-se a primeira mulher a assumir estas funções — mas é ainda difícil dizer qual o real impacto desta decisão na Igreja de Inglaterra e, crucialmente, no contexto da Comunhão Anglicana.
Jorge Pina Cabral vê a decisão com “satisfação, na medida em que virá a dar um grande reforço ao ministério ordenado das mulheres”. Para o bispo português, a nomeação de Mullally é “um reconhecimento do papel que as mulheres têm tido, no ministério ordenado, na Igreja de Inglaterra” — e é um “sinal bonito que a Igreja dá de abertura ao ministério das mulheres, também para toda a Comunhão Anglicana”.
No entender do bispo da Igreja Lusitana, a escolha de uma mulher para liderar a Comunhão Anglicana tem também um valor ecuménico. O cargo de arcebispo de Cantuária é um dos mais importantes lugares de liderança religiosa do mundo — e o seu ocupante é um relevante interlocutor no diálogo entre religiões, estando presente em múltiplos fóruns com papas, patriarcas e figuras de proa de outras confissões religiosas, praticamente todos homens. O surgimento de uma mulher neste contexto é um “sinal de uma grande abertura da Igreja ao papel das mulheres e aos tempos de hoje”, destaca Jorge Pina Cabral.
“É um sinal muito interpelante, mesmo a nível ecuménico, para as igrejas que ainda não ordenam mulheres”, frisa o bispo, dando como exemplos os casos da Igreja Católica e das várias Igrejas Ortodoxas. “É um sinal que fará essas igrejas também olharem para o ministério feminino de outra maneira. Através do testemunho desta mulher, na sua relação com os outros primazes e com os outros líderes mundiais, estou certo de que irá criar laços de confiança e duradouros, que são muito importantes a este nível.”
▲ Sarah Mullally poderá ter dificuldades em ter a sua liderança aceite pelas igrejas que ainda não reconhecem a ordenação de mulheres
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Mais do que um desafio para dentro, Jorge Pina Cabral vê esta nomeação como “um desafio que o Espírito Santo coloca às restantes comunhões e que pode trazer novas aberturas”.
É certo, porém, que haverá “reações”, admite o bispo. E uma grande parte das mais violentas virá de dentro da Comunhão Anglicana. A maioria dos quase 100 milhões de fiéis anglicanos que vivem em todo o mundo estão integrados em dioceses e províncias que não aceitam a ordenação de mulheres, pelo que é ainda um mistério se vão ou não aceitar a liderança espiritual da arcebispa Mullally.
Sobre a Comunhão Anglicana a nível global já tem pairado com frequência o fantasma do cisma, sobretudo devido às tensões entre as alas mais conservadoras (com grande destaque para as igrejas africanas, mas também para algumas correntes minoritárias no Reino Unido e na Europa) e o caminho de abertura que se tem vivido na Igreja de Inglaterra, igreja-mãe da Comunhão, com as políticas de ordenação episcopal de mulheres ou de abertura às uniões entre pessoas do mesmo sexo.
Porém, Jorge Pina Cabral afasta a ideia de um cisma ou de um colapso da Comunhão Anglicana com a nomeação de Sarah Mullally. “Se olharmos para o contexto da Comunhão Anglicana, percebemos que a ordenação das mulheres tem sido algo de progressivo, ao mesmo que tem vindo a tomar lugar na grande maioria das províncias”, diz o bispo português. “Mesmo naquelas que, aparentemente, por questões mais culturais do que teológicas, teriam receios. Por exemplo, neste momento já existe um bom grupo de mulheres sagradas bispas no continente africano, o que há uma década atrás não era previsível.”
“Sendo as mulheres a maioria do povo das igrejas anglicanas, ocupando as mulheres um papel de grande relevo na dinâmica e na missão das igrejas anglicanas em todo o mundo, e particularmente também em África, estas igrejas vão-se abrindo cada vez mais ao maior papel das mulheres no próprio ministério”, frisa Jorge Pina Cabral. “Nós temos visto que esta questão, que há umas décadas atrás foi uma questão tensa, tem vindo a ser cada vez mais bem acolhida, até pelo próprio testemunho das mulheres enquanto presbíteras e das mulheres enquanto bispas. Portanto, tem havido um acolhimento cada vez maior.”
Numa primeira breve intervenção a partir da catedral de Cantuária, Mullally reconheceu todos estes desafios, admitindo que este será visto como um “momento histórico” e que a sua missão será “complexa e desafiante”.
“Pretendo ser uma pastora, que permita o florescimento dos ministérios e das vocações de cada um, independentemente da tradição”, sublinhou, agradecendo a todos os homens e mulheres que “criaram condições para este momento” e às “mulheres” que a antecederam na abertura de oportunidades. Mullally abordou também o crítico problema dos abusos sexuais, reconhecendo que a Igreja de Inglaterra se encontra ferida na sua confiança — e que os seus dirigentes têm de estar disponíveis para ver as suas ações escrutinadas.
O Palácio de Buckingham também reagiu à nomeação, dando os parabéns a Sarah Mullally pela sua escolha para um cargo “que é de tamanha importância no Reino Unido e em toda a Comunhão Anglicana global”.