Foi um aniversário particularmente simbólico e, sobretudo, doloroso para Justin Welby. A 6 de janeiro deste ano, no dia em que os cristãos de todo o mundo celebravam a Epifania do Senhor (o dia em que os magos do oriente visitaram o recém-nascido Jesus, conhecido em Portugal como Dia de Reis), Welby completou 69 anos de idade. Mas, para Welby e para os cerca de 100 milhões de cristãos anglicanos que vivem em todo o mundo, aquele 6 de janeiro foi acima de tudo o culminar de dois meses de polémicas em torno de um escândalo de abusos sexuais de menores que conduziu à renúncia do primaz da Igreja de Inglaterra, líder espiritual da Comunhão Anglicana — e o homem que, no ano anterior, tinha coroado Carlos III como Rei de Inglaterra.
Welby comunicara a sua decisão de renunciar em novembro de 2024, mas manteve-se no cargo durante dois meses para assegurar os deveres constitucionais e eclesiásticos da Igreja de Inglaterra, que é a religião oficial do país e é formalmente liderada pelo monarca. Passou o último dia como arcebispo de Cantuária no Palácio de Lambeth, a sua residência oficial em Londres, onde se encontrou com amigos, funcionários e colegas, celebrou a missa à hora de almoço e participou na tradicional oração da tarde dos anglicanos, a Evensong. No final dessa celebração, dirigiu-se ao altar, onde colocou o seu báculo, o bastão que representa o poder jurisdicional do bispo. Com aquele ato simbólico, terminou oficialmente o seu período de 12 anos à frente da Igreja de Inglaterra e abriu-se um período de sede vacante que se prolonga até hoje.
Durante esse período, a Igreja Católica também passou por um período de sede vacante: a 21 de abril, após um longo internamento e anos de problemas de saúde, o Papa Francisco morreu no Vaticano aos 88 anos de idade; menos de três semanas depois, a 7 de maio, os cardeais eleitores oriundos de todo o mundo entravam na Capela Sistina para um conclave de 24 horas que resultou na eleição de Leão XIV na tarde do dia seguinte. Em contraste, já passaram mais de nove meses desde que Justin Welby anunciou a sua intenção de renunciar (e quase oito meses desde a formalização da renúncia) e os anglicanos continuam à espera da eleição de um novo arcebispo de Cantuária, através de um processo bastante opaco que tem sido descrito na imprensa inglesa como à beira do desespero. Porquê esta demora na escolha de um dos mais influentes líderes religiosos do mundo ocidental? Para o perceber, é preciso olhar não só para os contornos do escândalo que levou à saída de Welby, mas também para o complexo processo burocrático desencadeado pela renúncia e para o declínio da própria Igreja de Inglaterra.
Uma saída abrupta
O contexto para a demissão de Justin Welby começou a desenhar-se em novembro de 2024, quando vieram a público as conclusões de um relatório independente sobre o modo como a Igreja de Inglaterra tinha, no passado, lidado com casos de abusos sexuais de menores. Concretamente, o relatório revelou que a Igreja de Inglaterra ocultou sistematicamente os abusos sexuais, físicos, psicológicos e espirituais cometidos durante vários anos por John Smyth, um importante advogado ligado à Igreja que era responsável pela organização de campos de férias religiosos para rapazes. Ao todo, nas décadas de 1970 e 1980, cerca de 130 rapazes terão sido vítimas de forte violência física e sexual em iniciativas organizadas pela Igreja de Inglaterra. No início da década de 1980, chegou mesmo a haver uma investigação interna aos casos, cujos resultados foram abafados para que não houvesse escândalo público. Smyth foi autorizado a mudar-se para o Zimbabué, onde viria mais tarde a ser acusado do homicídio de um rapaz.
Na década de 1970, o jovem Justin Welby tinha sido voluntário em alguns desses campos de férias, mas garantiu que não tinha qualquer conhecimento dos crimes de Smyth. A comissão independente que fez o relatório considerou isso improvável, mas o que realmente pesou sobre Welby foi, essencialmente, aquilo que não fez em 2013, quando já era arcebispo de Cantuária. Em 2013, uma vítima denunciou os crimes de Smyth à Igreja de Inglaterra, que finalmente procurou investigar os contornos da situação. Contudo, Smyth viria a morrer em 2018 sem nunca ter sido levado à justiça e sem nunca ter sido punido pelos crimes.
▲ Como arcebispo de Cantuária, foi a Justin Welby que coube presidir às mais importantes celebrações da monarquia britânica, incluindo a coroação do Rei Carlos III
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Quando o relatório foi tornado público, Welby emitiu um primeiro comunicado a garantir que só teve conhecimento dos casos em 2013, na sequência da denúncia, mas assumiu que tinha falhado “pessoalmente” ao não ter garantido “que, depois da divulgação em 2013, esta horrível tragédia era energicamente investigada”. No comunicado, pediu perdão pela suas “falhas e omissões” e também pela “maldade, pela ocultação e pelo abuso por parte da Igreja no seu todo, como está referido no relatório”. No primeiro momento, contudo, Welby não pôs a possibilidade de renunciar ao cargo: tinha 68 anos, o que significava que ainda faltavam dois anos para atingir o limite de idade de 70 anos no qual teria de passar à reforma.
Seguiram-se, porém, dias de grande pressão pública sobre Justin Welby para que renunciasse ao cargo. Três membros do Sínodo Geral da Igreja de Inglaterra — uma espécie de parlamento da Igreja — lançaram uma petição para exigir a demissão de Welby que rapidamente chegou às 13 mil assinaturas. Chamado a comentar o caso, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou apoiar Welby, o que colocou o arcebispo numa situação de grande fragilidade: formalmente, é o Rei de Inglaterra que nomeia o arcebispo de Cantuária, a partir de um nome submetido pelo primeiro-ministro. Sem condições para continuar, Welby acabaria mesmo por anunciar a sua renúncia ao cargo cinco dias depois da eclosão da polémica. Num comunicado, afirmou ter de assumir a “responsabilidade pessoal e institucional pelo longo e retraumatizante período entre 2013 e 2024”.
A demissão de Welby desencadeou um complexo processo burocrático destinado a escolher o seu sucessor, que traduz também a complexidade do cargo. O arcebispo de Cantuária acumula, na verdade, uma grande quantidade de cargos. Em primeiro lugar, é o bispo diocesano de Cantuária, uma das 42 dioceses de Inglaterra. Depois, nessa qualidade, é também o primaz da Igreja de Inglaterra, ou seja, a principal autoridade eclesiástica da Igreja. Como primaz da Igreja de Inglaterra, é por inerência o líder espiritual da Comunhão Anglicana a nível mundial — uma vez que a Igreja de Inglaterra é a igreja-mãe da Comunhão Anglicana. Nessas funções, é o líder espiritual de cerca de 100 milhões de anglicanos que vivem em todo o mundo. Tem ainda assento na Câmara dos Lordes, no parlamento britânico. Além disso, o arcebispo de Cantuária é, por tradição, o responsável por presidir às celebrações religiosas da família real britânica, incluindo batismos, casamentos reais e coroações. Por fim, é ainda um dos principais líderes religiosos do mundo, frequentemente envolvido no diálogo ecuménico e interreligioso com outros líderes.
Por isso, o processo de escolha do novo arcebispo de Cantuária envolve tanto a estrutura eclesial como o poder político britânico. No centro da decisão está a Comissão de Nomeações da Coroa (CNC), que tem como missão “discernir quem Deus poderá estar a chamar para este ministério vital”, como explica a Igreja de Inglaterra. “Ao contrário de um processo de recrutamento secular, ninguém se candidata a arcebispo de Cantuária”, acrescenta a Igreja, sublinhando que a escolha se faz a partir de um “processo de discernimento e oração” que pode demorar meses.
De acordo com as normas internas da Igreja de Inglaterra, a CNC tem de ser coordenada por um leigo anglicano que esteja envolvido na vida pública do país e que seja um “membro leigo comungante da Igreja de Inglaterra”. Esta personalidade é escolhida, dentro destes critérios, pelo primeiro-ministro, a quem caberá depois receber o nome escolhido, submetê-lo ao Rei para aprovação e anunciá-lo ao público. Desta vez, foi escolhido para comandar a Comissão o antigo diretor-geral dos serviços secretos do Reino Unido — o MI5 — Jonathan Evans, também membro da Câmara dos Lordes desde 2014. De acordo com a Igreja de Inglaterra, Evans é um membro ativo da sua paróquia.
As duas províncias da Igreja de Inglaterra (Iorque e Cantuária) também estão representadas nesta comissão: a primeira pelo próprio arcebispo de Iorque; a segunda por um outro bispo escolhido pelo colégio episcopal. A diocese de Cantuária, que o novo arcebispo vai liderar, nomeia três representantes para a comissão. Além disso, o Sínodo Geral da Igreja de Inglaterra tem direito a escolher seis elementos (três clérigos e três leigos) para a comissão. Finalmente, pela primeira vez, o mundo anglicano extra-Inglaterra também estará representado na comissão através de cinco representantes das cinco regiões da Comunhão Anglicana — África, Américas, Médio Oriente-Ásia, Oceânia e Europa. Antes de esta comissão entrar em ação, a Igreja de Inglaterra promoveu ainda uma consulta pública global, recolhendo milhares de contributos de fiéis e clérigos anglicanos de todo o mundo sobre o perfil esperado para o novo arcebispo.
A comissão reuniu pela primeira vez em maio deste ano, após vários adiamentos. Em julho, deu-se o segundo encontro — e já terá chegado a uma shortlist, que não é nem será divulgada publicamente. A terceira e última reunião acontece em setembro. Nessa reunião, a comissão deverá finalmente chegar aos dois nomes finais, que serão colocados por ordem de preferência: o primeiro será apresentado ao primeiro-ministro, para aprovação e submissão ao Rei de Inglaterra; o segundo nome só será levado a Downing Street caso o primeiro falhe. Depois de aprovado pelo Rei Carlos III, caberá a Keir Starmer anunciar o nome do novo arcebispo de Cantuária.
“A exigência deste cargo não o torna muito apetecível”
Nos bastidores deste processo, porém, corre a ideia de que a comissão está perante uma tarefa impossível. Aos jornais ingleses, fontes com conhecimento das deliberações têm dito, ao longo dos últimos meses, que os responsáveis pelo processo de seleção do próximo arcebispo estão à beira do desespero. “É difícil ver porque é que alguém estaria disponível para uma missão tão impossível”, disse um bispo auxiliar ao The Guardian, sob anonimato. “É até cada vez mais desafiante encontrar bons clérigos disponíveis para serem bispos auxiliares, e conheço vários que estão a pensar em sair.”
Ao The Times, diversas fontes dentro do longo processo de seleção descreveram-no como “um pouco desesperado” e como um “pedido impossível” de fazer a qualquer potencial candidato.
O facto de Justin Welby ter deixado o cargo no contexto de um escândalo de abusos sexuais, que deixou à vista o conturbado passado da Igreja de Inglaterra no que toca à sistemática ocultação de casos de pedofilia, está a colocar as questões da proteção de menores como a chave para desbloquear a escolha. O problema? Por um lado, é praticamente impossível encontrar um bispo experiente no Reino Unido que não tenha, no passado, tido de lidar com algum caso de abusos na sua diocese. Por outro lado, são raros aqueles que estão disponíveis para o massivo escrutínio público a cada detalhe do seu passado no caso de serem escolhidos.
▲ Justin Welby saiu do cargo de arcebispo de Cantuária na sequência de uma polémica em torno da ocultação de crimes de abuso sexual de menores na Igreja de Inglaterra
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“Alguns bispos têm ansiedade sobre o peso que isso teria nas suas famílias e na sua própria resiliência caso fossem sujeitos ao tipo de escrutínio e ataques que iriam atrair”, disse um bispo ao The Times, sublinhando que muitos deles não têm a certeza de ser capaz de colocar a sua família “sob esse trauma”. Ao mesmo jornal, o teólogo Andrew Graystone, que se tem destacado na defesa das vítimas de abuso, sublinha que a maioria dos bispos tem “bagagem” no que toca à proteção de menores e preferem “aguentar [nos seus postos] até à reforma”.
A falta de massa crítica poderá ser o maior desafio. Em teoria, a base para a escolha do próximo arcebispo de Cantuária são os 42 bispos diocesanos de Inglaterra, mas algumas dioceses estão atualmente sem bispo e a maioria não quer sequer pensar na possibilidade de ser escolhido. Por essa razão, a comissão já estará a incluir no leque de possíveis escolhas os bispos auxiliares, mais jovens.
O The Guardian nota, por seu turno, que além dos abusos sexuais, outros fatores pesam para que o cargo de arcebispo de Cantuária se tenha tornado “impossível”, incluindo o facto de ter de servir de líder espiritual num “país que, frequentemente, não está interessado em ouvir a sua mensagem”, o facto de ter de intervir na Câmara dos Lordes, o facto de ter de gerir uma Igreja onde as 42 dioceses são bastante ciosas da sua independência — e, sobretudo, ter de liderar espiritualmente uma comunidade religiosa cada vez mais dividida e polarizada.
A partir de Portugal, o bispo Jorge Pina Cabral, que lidera a Igreja Lusitana — a igreja portuguesa que integra a Comunhão Anglicana, sob dependência direta do arcebispo de Cantuária —, diz ao Observador que ele e os cerca de 5 mil anglicanos que vivem em Portugal estão a acompanhar este processo “num espírito de oração, pedindo ao Espírito Santo que ajude os membros da comissão”, para que “estes trabalhos possam dar um bom fruto, não só para a Igreja de Inglaterra e para a Comunhão Anglicana, mas também para as igrejas em geral”.
Para Jorge Pina Cabral, que está à frente da Igreja Lusitana desde 2013, a demora na escolha de um novo arcebispo está diretamente relacionada com a “situação excecional que foi a resignação” de Justin Welby, de que a Igreja de Inglaterra não estava à espera. “Houve que, em primeiro lugar, acomodar esta resignação e só depois começar a tratar da escolha do novo arcebispo”, diz o bispo, sublinhando que o contexto concreto da renúncia de Welby “tornou o processo mais exigente”.
“A resignação ligada às questões da ‘Igreja segura’ [termo genérico usado para as políticas de proteção de menores e adultos vulneráveis] traz uma exigência maior em termos do perfil, da escolha e do passado daquele ou daquela que possa vir a ser escolhido”, diz. “Tem de ser alguém que, na área do seu ministério, não tenha situações ligadas a qualquer tipo de problema relacionado com processos de pedofilia, abusos sexuais e todas essas circunstâncias que estiveram, de certo modo, na base da resignação do arcebispo.”
Esta exigência, diz Jorge Pina Cabral, “torna mais reduzido o leque” dos que podem ser escolhidos. O bispo acredita que uma boa parte do trabalho da comissão passa, atualmente, por fazer background checks a todos os potenciais candidatos. “Qualquer situação que tenha ocorrido no passado está a ser devidamente analisada”, frisa o bispo, destacando que isso não só reduz o número dos possíveis escolhidos, como também “torna o processo mais lento”.
▲ Jorge Pina Cabral é o bispo da Igreja Lusitana, igreja portuguesa que integra a Comunhão Anglicana e que depende diretamente do arcebispo de Cantuária
MIGUEL A. LOPES/LUSA
Se, por um lado, o leque de possíveis escolhas já não é muito grande — os menos de 40 bispos diocesanos atualmente em funções —, a exigência criada pelo contexto da renúncia de Welby dificulta ainda mais o processo. Além disso, também “a própria exigência do posto” afasta os candidatos. “É um cargo que, por um lado, requer que a pessoa seja o primaz da Igreja de Inglaterra, que seja o diocesano de Cantuária e que seja o líder espiritual de uma Comunhão Anglicana que vive tensões internas. A exigência deste cargo não o torna muito apetecível, independentemente de a pessoa ser impoluta. É uma exigência do ponto de vista humano que coloca em consciência uma série de reflexões, em que as pessoas podem admitir que não têm o perfil para lidar com as diversas exigências.”
Diversidade e ameaças à comunhão numa Igreja polarizada
A escolha do novo arcebispo de Cantuária acontece também num momento de forte divisão e polarização dentro da Comunhão Anglicana — uma polarização que, tal como no universo católico, se prende essencialmente com as diferenças de opinião em questões fraturantes como a ordenação de mulheres ou a bênção de casais de pessoas do mesmo sexo.
Já desde os anos 90 que a Igreja de Inglaterra permite a ordenação diaconal e sacerdotal de mulheres. Mas, durante vários anos, as mulheres não podiam aceder à ordenação episcopal, ou seja, tornar-se bispas. Isso mudou no verão de 2014, quando o Sínodo Geral da Igreja de Inglaterra aprovou formalmente a ordenação episcopal de mulheres. Desde então, várias mulheres têm sido ordenadas bispas — e algumas sés de grande importância, como a diocese de Londres, são já lideradas por mulheres.
Ainda assim, a autorização para a ordenação episcopal de mulheres aprofundou ainda mais uma divisão entre os setores mais conservadores e as alas mais progressistas da Igreja de Inglaterra. Várias comunidades anglicanas rejeitaram explicitamente reconhecer a autoridade episcopal das mulheres, o que levou a Igreja de Inglaterra a recorrer a uma solução inusitada: criar os chamados “flying bishops” (literalmente, “bispos voadores”), bispos homens a quem foi confiada a supervisão episcopal das paróquias que rejeitam a ordenação de mulheres, mesmo que se encontrem no território de uma diocese liderada por uma mulher. Mais recentemente, quando a Igreja de Inglaterra aprovou a realização de cerimónias de bênção de casais de pessoas do mesmo sexo, este fosso aprofundou-se ainda mais.
Este caminho de abertura da Igreja de Inglaterra à participação das mulheres na autoridade episcopal e ao acolhimento de casais homossexuais tem sido lido como um dos fatores que mais têm contribuído para o declínio da relevância do anglicanismo no Reino Unido. Um estudo recente mostra que, entre a Geração Z, o número de católicos no Reino Unido já é o dobro do número de anglicanos. Isto coloca o Reino Unido a caminho de, pela primeira vez desde o século XVI, ter mais católicos do que anglicanos — um movimento que tem sido classificado como “revivalismo silencioso” do Catolicismo. Tudo isto num contexto em que a liderança de Justin Welby foi múltiplas vezes criticada tanto pelos que consideravam que os seus esforços de modernização da Igreja de Inglaterra minavam a sua identidade como por aqueles que pretendiam que Welby fosse ainda mais longe na abertura.
Este revivalismo católico não se traduz apenas na transição de fiéis entre o Anglicanismo e o Catolicismo — há também muitos clérigos a deixar a Igreja de Inglaterra para se juntar à Igreja Católica. De acordo com a BBC, esta onda de abandonos tem como principal razão a abertura da Igreja de Inglaterra à ordenação episcopal de mulheres. Vários bispos anglicanos deixaram a Igreja de Inglaterra para serem ordenados padres na Igreja Católica. O grande número de pessoas a fazer este movimento levou mesmo o Papa Bento XVI a abrir a possibilidade de ser criado um ordinariato católico especificamente destinado a acolher comunidades anglicanas que optassem por aderir à Igreja Católica: entrando em comunhão total com Roma, podiam manter as tradições litúrgicas anglicanas. Os sacerdotes anglicanos casados podiam até ser ordenados como padres católicos, mantendo a sua família. Foi o caso, por exemplo, do bispo anglicano Jonathan Goodall, que em 2022 foi ordenado padre católico na Catedral de Westminster após três décadas de sacerdócio anglicano. “Reconheci o que o Senhor me estava a pedir”, contou Goodall ao Observador em 2024.
Tudo isto será um desafio particular para o próximo arcebispo de Cantuária, sobretudo numa altura em que, em Inglaterra, se multiplicam os apelos para que, pela primeira vez, uma mulher seja escolhida para o cargo. Guli Francis-Dehqani, a atual bispa de Chelmsford, é atualmente uma das favoritas nas casas de apostas britânicas. Nascida no Irão e com uma longa experiência no Médio Oriente, Francis-Dehqani poderá tornar-se a primeira arcebispa de Cantuária — mas isso poderá levantar um grande problema em termos de unidade na Comunhão Anglicana a nível global. Isto porque, como recorda o The Times, cerca de 75% dos anglicanos do mundo vivem em províncias e dioceses que ainda não reconhecem a ordenação de mulheres. Para muitas dessas comunidades, poderá mesmo ser impossível aceitar a liderança de uma arcebispa — e o resultado final poderá ser a rutura com a Comunhão Anglicana.
▲ Guli Francis Dehqani é a favorita das casas de apostas e poderá ser a primeira mulher escolhida como arcebispa de Cantuária
Site da Diocese de Chelmsford
O bispo Jorge Pina Cabral reconhece que a comunidade anglicana vive atualmente um “contexto eclesial, social e político muito extremado”, sobretudo no que respeita às questões da sexualidade, das mulheres e dos abusos. “Há uma tensão inerente ao cargo de arcebispo de Cantuária. Ele é chamado a ser o primaz de uma Igreja que já aceita há muito a ordenação episcopal de mulheres; por outro lado, é também chamado a ser líder espiritual de uma comunhão onde, principalmente nas igrejas africanas, ainda não é aceite a ordenação de mulheres. Isto tornará o papel de uma mulher muito mais exigente em termos de reconhecimento por parte de certas províncias.”
Reconhecendo que a escolha de uma mulher neste momento pode também fragilizar o lugar da Comunhão Anglicana no diálogo ecuménico e interreligioso (já que os seus interlocutores serão maioritariamente homens, como o Papa e os patriarcas ortodoxos), Jorge Pina Cabral acredita que essa escolha “também pode ser um sinal para essas igrejas que ainda não aceitam a ordenação de mulheres, um sinal de uma realidade nova, que muitas igrejas já aceitam e que tem produzido frutos”.
▲ O arcebispo de Cantuária (nesta imagem com o Papa Francisco) é um dos principais líderes religiosos do mundo e um importante interveniente no diálogo entre cristãos católicos, protestantes e ortodoxos
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No caso português, a Igreja Lusitana reconhece a ordenação diaconal e presbiteral de mulheres desde 1991 e desde o seu último sínodo também já reconhece a ordenação episcopal de mulheres, para a qual “não vê qualquer entrave teológico e bíblico”. Atualmente, há duas mulheres presbíteras, duas mulheres diaconisas e várias mulheres em ministérios litúrgicos nas paróquias anglicanas de Portugal.
Para Jorge Pina Cabral, as tensões que resultam das diferentes opiniões acerca da ordenação de mulheres ou da bênção de casais homossexuais “fazem parte da normalidade de qualquer Igreja”, que traduz “as diferenças vividas a nível da sociedade”. A Igreja de Inglaterra, acrescenta o bispo, é “naturalmente uma igreja mais exposta ao debate, à tomada de posições, porque é uma igreja que pratica uma sinodalidade aos vários níveis”, o que acarreta “uma maior liberdade de opinião e um maior confronto de ideias, mas não uma menor comunhão, porque a comunhão é possível no desacordo”.
Apesar de reconhecer o momento de grandes tensões e polarizações dentro da Comunhão Anglicana, o bispo português desvaloriza aquilo que tem sido apontado como um declínio da Igreja de Inglaterra e do Anglicanismo em benefício do Catolicismo, sustentado que também muitos sacerdotes católicos a aderirem às igrejas anglicanas, sobretudo devido à questão do celibato — que não é obrigatório no contexto anglicano.
A partir de Portugal, Jorge Pina Cabral espera para ver o que sairá da Comissão de Nomeações da Coroa em setembro, mas avisa que o processo de escolha do arcebispo de Cantuária não pode ser comparado ao do Papa pelo conclave, por várias razões. Por um lado, como cada igreja anglicana é autónoma, o processo de escolha diz respeito apenas à Igreja de Inglaterra — embora, pela primeira vez, o resto do mundo anglicano esteja representado na comissão. Por outro lado, “o facto de a Igreja de Inglaterra ser uma Igreja de Estado torna este processo mais burocrático e politizado”, o que se vê desde logo no facto de esta comissão submeter as suas escolhas ao gabinete do primeiro-ministro.
De dentro da comissão não sai qualquer informação oficial, pelo que é impossível saber com rigor quais os nomes que estão realmente em cima da mesa. Se é certo que os jornais ingleses apontam Guli Francis-Dehqani como favorita, também é verdade que esta bispa foi em 2023 uma das subscritoras de uma carta que defendia a bênção de casais homossexuais — o que lhe pode valer um veto da parte da ala mais conservadora. Jonathan Evans, o coordenador da CNC, já veio dizer que “não há qualquer razão para não nomear uma mulher” e que a comissão está a trabalhar no sentido de diversificar as escolhas — e avisar que, qualquer que seja o escolhido, não será possível encontrar alguém com “um historial perfeitamente imaculado em todas as partes da sua vida desde que nasceu”.
Outros nomes fortes, como o bispo de Norwich, Graham Usher, já se pôs de fora da corrida, ao entrar na comissão que vai escolher o arcebispo de Cantuária. O bispo de Bath and Wells, Michael Beasley, o bispo Martin Gordon, que atua na República Democrática do Congo, e o bispo de Salisbury, Stephen Lake, surgem também nas listas dos jornais ingleses como possíveis sucessores de Justin Welby — mas nenhum com a força de Francis-Dehqani, claramente a favorita das casas de apostas.
Jorge Pina Cabral, autor de um dos mais de 11 mil contributos que chegaram a Londres no âmbito da consulta pública realizada antes dos trabalhos da comissão, prefere não discutir nomes concretos. Diz que o próximo arcebispo de Cantuária “tem de ser um homem ou uma mulher da teologia e, ao mesmo tempo, de um sentido eclesial muito aprofundado, de forma a ter capacidade de intervenção e de análise e a ser um contributo novo para as questões do mundo, sobre as quais vai ser chamado a pronunciar-se”.
“Tem de ser alguém teologicamente e eclesiologicamente bem formado, com experiência. Tem de ser alguém com uma visão aberta e plural das várias questões de natureza social e política com as quais o mundo hoje se debate, como a questão da paz, da migração, da polarização e da criação”, sustenta o bispo, que desconfia dos jogos de apostas dos jornais britânicos. “Em Inglaterra, eles praticam o desporto das apostas, gostam sempre de apostar em quem vai ser o próximo arcebispo. Mas, geralmente, aquele que está mais bem cotado nas apostas não é o escolhido.”