Emmanuel Macron foi o seu precursor e principal entusiasta, Keir Starmer surpreendeu ao seguir com firmeza os passos do Presidente francês. Pelo contrário, Olaf Scholz rejeitou de imediato a ideia e só quer ouvir falar dela depois de ser decidido um plano de paz concreto. O envio de contingentes militares europeus para a Ucrânia deixou de ser uma tese em jornais e conferências de geopolítica para ser verbalizada e debatida como uma hipótese real por vários líderes europeus que, com o empurrão das negociações de paz dos EUA de Donald Trump com Putin — que deixaram a Europa e Zelensky de fora —, fazem dela uma realidade cada vez mais próxima.
O início dessas negociações entre Moscovo e Washington foram determinantes para fazer mexer os países europeus que se desdobram em reuniões de emergência para não perder o lugar à mesa das negociações de um eventual acordo de cessar-fogo. O encontro mais recente decorreu esta quarta-feira no Palácio do Eliseu, em Paris, e contou com a participação de Luís Montenegro à distância — no primeiro, na última segunda-feira, Portugal tinha ficado de fora.
Macron quis perceber qual a recetividade dos membros da União Europeia (UE) em fazer parte de um projeto de força militarizada, que defende há bastante tempo e que, até agora, ainda soma mais dúvidas do que certezas entre os vários estados-membros. A sua formação e mobilização pode, aliás, impedir o acordo de cessar-fogo impulsionado pelos EUA, já que a Rússia está contra.
Donald Trump, contudo, garantiu esta terça-feira que não se oporia ao envio de tropas de uma missão de paz europeia para a Ucrânia. “Não teria qualquer objeção“, garantiu o Presidente norte-americano, acrescentando que os Estados Unidos ficarão fora porque não caberia aos EUA mobilizar as suas forças já que a Ucrânia “está muito longe”. Macron e Starmer devem encontrar-se com o presidente americano na Casa Branca nos próximos dias para lhe apresentar o plano europeu.
O plano a levar ao Presidente dos EUA implicará o envio de 30 mil tropas europeias para a Ucrânia, mas contará com a presença de mísseis e jatos norte-americanos, que ficarão estacionados noutros países da Europa de Leste, como a Polónia e a Roménia, e estarão prontos a atacar no caso da Rússia quebrar o acordo, segundo avança o jornal britânico The Telegraph.
Para além do armamento e das tropas, também estão previstos navios patrulha que policiem o Mar Negro, de modo a evitar que as forças russas ameacem rotas de comércio marítimo.
Forças de paz europeias na Ucrânia? “Se quiserem, acho que seria ótimo”, diz Trump
Mas, no caso de se chegar a um acordo com as duas partes do conflito na Ucrânia, que força militar seria esta? Terá imparcialidade para actuar como uma verdadeira força de manutenção de paz? E qual poderá ser o papel de Portugal na formação deste contingente militar?
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Que países europeus ponderam enviar forças militares para a Ucrânia? E quem se retrai?
Há vários meses que, a propósito de possíveis negociações de paz entre Moscovo e Kiev, se discute a hipótese do destacamento de contingentes militares estrangeiros para a Ucrânia. Em meados de janeiro, Volodymyr Zelensky revelava que tinha discutido essa possibilidade com o homólogo francês.
“A conversa foi bastante longa e detalhada. Discutimos o apoio à defesa, as diferentes formas de defesa, os pacotes de armas para a Ucrânia”, descreveu Zelensky, assinalando que abordou a “implantação de contingentes parceiros” no seu país na conversa com Emmanuel Macron.
De facto, França tem estado na linha da frente na intenção de enviar tropas nacionais para a Ucrânia. Macron, que foi o anfitrião das duas reuniões de emergência com líderes europeus em Paris esta semana, diz, há mais de um ano, que não descarta o envio de soldado ocidentais para a Ucrânia.
Macron: envio de tropas ocidentais para a Ucrânia não deve “ser descartado” no futuro
Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, seguiu o exemplo francês e admitiu que o Reino Unido também está disposto a enviar “as suas próprias tropas para o terreno, se necessário”. Maria Malmer, a ministra dos Negócios Estrangeiros sueca, disse na segunda-feira que também não descarta enviar forças de paz para a Ucrânia.
Na Alemanha, o chanceler Olaf Scholz, que está a dias de ir a votos, rejeita não só uma uma paz imposta à Ucrânia, como aquela que parece estar a ser negociada pelos EUA, mas também o envio de tropas alemãs para território ucraniano. O líder alemão considera a discussão “completamente prematura”, enquanto a guerra continuar. “Para mim, é bastante claro que este é um debate inadequado, no momento errado e sobre o tema errado”, afirmou. Scholz defende que Kiev possa manter, sim, “um exército forte” após qualquer acordo, que considera imprescindível antes de outro passo de manutenção da paz.
A Polónia, vizinha do conflito, excluiu igualmente a possibilidade de enviar tropas para garantir a paz entre a Ucrânia e a Rússia. “A Polónia tem um dos exércitos mais credíveis da Europa e tem conduzindo um processo de aquisição verdadeiramente impressionante de aquisição de equipamento militar”, afirma o Major-General Arnaut Moreira, em declarações ao Observador.
O especialista em geopolítica considera mesmo que a Polónia “não pode estar em contacto com a Federação Russa, porque a animosidade entre as partes é tão grande que a Rússia não iria perder uma oportunidade para provocar as forças polacas”.
“Não obstante a Polónia ser fundamental para garantir a retaguarda de um dispositivo de manutenção de paz do ponto de vista logístico, o grau de animosidade existente entre a Rússia e a Polónia não recomenda que as forças polacas sejam colocadas ao contacto com as forças russas”, considera.
“Estamos a trabalhar sobre um cenário”. O que está a ser negociado entre países europeus?
Arnaut Moreira destaca que ainda não há nenhum acordo firmado entre as partes do conflito no Leste que “contemple uma força de interposição” que venha a atuar na Ucrânia. “Está a ser feita uma antevisão de um cenário e a perceber se, uma vez que ele se venha a concretizar, os países europeus estão ou não disponíveis para enviar forças militares para dar garantias de segurança à Ucrânia“, garante o major-general.
“Se os europeus não estiverem prontos para avançar, os EUA não farão essa proposta em termos de negociação. Não faria sentido estar a fazer esta exigência e depois as tropas não estarem disponíveis”, acrescenta.
Mesmo existindo disponibilidade europeia, a luz verde dos EUA , e uma efetiva organização de uma “missão de paz”, pode dar-se o caso, por exemplo, de a Rússia dizer que não aceita no seu território tropas francesas, inglesas ou suecas e pedir, em alternativa, a intervenção de outras forças militares, não ocidentais, que apresentem maiores garantias de imparcialidade.
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Algo a ter em conta é o facto de nenhuma das organizações em que a Europa participa ativamente — tanto a UE como a NATO — demonstrar disponibilidade total para esta missão. “Não está disponível do ponto de vista da organização europeia porque há países da UE que não concordam com este tipo de missão”, aponta Arnaut Moreira, destacando o caso da Hungria, e lembrando ainda que os EUA rejeitam o envolvimento da NATO.
Pete Hegseth, o secretário da Defesa norte-americano, tem vindo a repetir que o eventual envio de forças europeias para a Ucrânia não pode ocorrer à conta de “levar uma bandeira da NATO” e que os países europeus têm de garantir a sua própria defesa. Trump segue na mesma linha quando refere que a Ucrânia “está muito longe”, e descarta assim, por completo, qualquer intervenção militar direta dos norte-americanos.
Os EUA negam ainda que as forças sejam protegidas pelo artigo 5º da NATO, que consagra o princípio da defesa mútua e que estabelece que “um ataque contra um ou vários aliados na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque contra todos”. Existindo algum ataque russo contra as forças europeias que quebrasse as regras de um eventual acordo de cessar-fogo em curso, os membros da aliança militar não terão obrigação de intervir e o problema terá de ser resolvido a título doméstico dentro da UE.
Tropas enviadas para a Ucrânia poderão ser consideradas verdadeiras “forças de manutenção de paz”?
Os norte-americanos tentam, por todos os meios, deixar a NATO de fora de uma medida de controlo no terreno do conflito na Ucrânia, mas ficam muitas dúvidas sobre se existe uma real capacidade para que forças militares europeias consigam agir com imparcialidade, uma vez encarregues de mediar uma guerra provocada unilateralmente pela invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, em fevereiro de 2022.
É improvável, como destaca o The Guardian, que qualquer força europeia enviada para a Ucrânia atue enquanto uma verdadeira força de manutenção da paz. Estas missões são geralmente organizadas pela ONU — através dos capacetes azuis — que se apresenta enquanto uma organização imparcial, e implicam contactos constantes com os dois lados do conflito.
Na altura em que eventuais forças militares estiverem mobilizadas no conflito europeu, estarão a lidar com um frágil e complexo sistema de tréguas em que uma das partes — a Rússia — já demonstrou ter claras intenções expansionistas contra alguns dos países que poderão ter militares no terreno.
Neste âmbito, para Arnaut Moreira não é a mesma coisa serem mobilizadas tropas do Reino Unido e tropas da Dinamarca. “O efeito internacional não é o mesmo“, garante ao Observador. Para o major-general “há condições que são genéricas e que dizem respeito a todas as forças que se vierem a deslocar”, mas a presença britânica, que mantém relações muito próximas com os EUA, marca uma posição diferente, não só em termos de meios, devido ao grande investimento em Defesa que o país faz, mas também em termos políticos e diplomáticos.
Por um lado, as tropas britânicas serviriam de garantia reforçada, já que o país se apresenta como um mediador mais próximo dos EUA, atualmente sob a administração de Trump que negocia diretamente com Putin. O risco de a Rússia atuar contra forças militares britânicas é portanto mais diminuto, mas não deixa de ser possível.
Há risco de a mobilização de militares para a Ucrânia resultar na eclosão de um conflito alargado?
De uma perspetiva lógica, não faz sentido que a Rússia concorde com um acordo em que forças europeias se desloquem para o terreno do conflito, para mediar o cessar-fogo e, de seguida, as ataque, criando o risco de se formar um conflito de maior dimensão e que antagonize os EUA.
No entanto, também é certo que um eventual acordo, que inclua o envio de forças militares europeias para a Ucrânia, não irá durar para sempre. “Não é possível manter muitas dezenas de milhares de militares no terreno para sempre. Teria de se aumentar brutalmente a despesa europeia de defesa, por exemplo”, destaca o major-general Arnaut Moreira, que recorda o timming político que pende sobre o início das primeiras negociações com Putin para um cessar-fogo. Afinal de contas, tudo aconteceu assim que Donald Trumo regressou à Casa Branca e a sua administração também não é eterna, poderá deixar de existir daqui a quatro anos.
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“Este é um acordo de cavalheiros e, a título pessoal, entre Vladimir Putin e Donald Trump. A partir do momento em que Putin já não tenha Trump, o acordo de não atacar ninguém na Europa acabou”, acrescenta. Garante ainda que a Rússia vai utilizar estes quatro anos, mesmo que sejam de tréguas, “para se remilitarizar, para tornar a encher os seus depósitos de equipamento militar” e para “fazer o estudo das lições aprendidas durante esta guerra”.
No fundo, o mais provável é que Putin e o seu governo se comecem a preparar para o momento em que a administração Trump deixe de estar em funções, ficando nessa altura “pronta para exercer bullying contra a Europa”, afirma Arnaut Moreira, que antevê demonstrações de natureza militar ou demonstrações de força sobre, por exemplo, a Finlândia e os países Bálticos.
Qual pode vir a ser o papel de Portugal no envio de forças para a Ucrânia?
Portugal não foi convidado para a primeira ronda da reunião organizada por Macron em Paris para elaborar uma estratégia europeia para lidar com um cessar-fogo da guerra na Ucrânia. À segunda o convite teve lugar, mas com o Governo em peso na Cimeira Luso-Brasileira, esta quarta-feira, houve dificuldades logísticas em conciliar a agenda de Luís Montenegro de modo a que conseguisse participar no encontro dos líderes europeus.
Em declarações aos jornalistas a partir de Brasília, o primeiro-ministro revelou que tentou, “num interregno” entre os compromissos de agenda desta quarta-feira, entrar por via online na reunião. Não o conseguiu fazer nessa altura, mas segundo confirmou ao Observador fonte oficial do seu gabinete, voltou a tentar já no final e conseguiu participar à distância no encontro.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, está igualmente no Brasil, mas, segundo fonte oficial do seu gabinete ao Observador, o convite de Macron foi endereçado diretamente a Luís Montenegro.
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O convite para participar nesta reunião também foi enviado a outros países europeus que não estiveram presentes no encontro de segunda-feira, como a Noruega, Lituânia, Finlândia e Bélgica, assim como ao Canadá, aliado e membro da NATO. À semelhança de Portugal, vários países participaram por videoconferência.
Não se sabe ainda qual será a decisão dos países europeus sobre a sua participação (coletiva e individual) na manutenção da paz a Leste, mas, para o major-general Arnaut Moreira, Portugal não tem, à partida, “condições para ficar de fora se houver muitos [países] voluntários“.
Afinal, Portugal foi convidado para segunda reunião promovida pela França sobre a Ucrânia
“Portugal não deve ser singularizado pela sua não disponibilidade e, portanto, vai certamente perceber qual é a disponibilidade que os seus parceiros estão dispostos a empregar nesta operação”, garante, notando que quem não demonstrar essa vontade “vai ficar sinalizado e vai ficar a ideia de que há alguém que não está disposto a contribuir e que, se algum dia tiver uma dificuldade poderá ser colocado em causa”. E reitera mesmo: “A singularização pela ausência não é uma boa política para países com a dimensão do nosso.”
O major-general entende que existe “toda a vantagem em que as forças europeias sejam capazes de um entendimento para esta missão”. “Se não forem capazes de o fazer perdem a melhor oportunidade, não sei mesmo se a última e única oportunidade, de mostrar à Federação Russa que têm um dispositivo militar capaz de a enfrentar e que não têm medo de o fazer”, afirma ainda.
“Se numa operação que é, supostamente, de paz e em que não estão previstos combates entre as forças, os europeus não conseguirem chegar a um consenso para reunir uma força militar, então deixou de haver qualquer credibilidade de um dispositivo militar europeu que se sonhe”, considera Arnaut Moreira.
O militar não tem dúvidas: “Este é o sinal de que somos capazes, de que temos vontade política e que temos consciência que mesmo que haja riscos, estamos disponíveis para correr esses riscos. Se não dermos nenhum desses sinais então a Federação Russa tem uma autoestrada aberta à sua frente“.