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▲Ucrânia vê medida como uma garantia de segurança, mas é difícil que a Rússia aceite este cenário

AFP via Getty Images

▲Ucrânia vê medida como uma garantia de segurança, mas é difícil que a Rússia aceite este cenário

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"Botas no terreno"? Ideia de enviar militares europeus para a Ucrânia soma apoios no Ocidente — e até o de Trump

Macron teve a ideia, Starmer concorda e Trump também. Se houver cessar-fogo, podem ser destacados cerca de 100 mil militares europeus para a Ucrânia, servindo como garantia de segurança para Kiev.

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A ideia não é nova. Em fevereiro de 2024, o Presidente francês, Emmanuel Macron, já a tinha apresentado numa reunião no Palácio do Eliseu em que estiveram presentes 20 chefes de governo. Na altura, quase ninguém se entusiasmou. Agora, dias antes de o Presidente eleito norte-americano Donald Trump tomar posse, o primeiro-ministro britânico visitou Kiev e mostrou-se disposto a discutir esta estratégia. Keir Starmer garantiu que apoiará a Ucrânia “nos próximos cem anos” — e isso pode implicar que militares britânicos, juntamente com franceses e de outras nacionalidades, sejam destacados para território ucraniano.

Numa entrevista à Sky News, Keir Starmer reconheceu que tem discutido o assunto “com um número de aliados”, incluindo o Presidente ucraniano. Sobre tropas na Ucrânia, o chefe do executivo garantiu que vai “desempenhar o seu papel”. “Fomos sempre um dos países que liderou a defesa da Ucrânia. Isto não é apenas sobre a soberania da Ucrânia. Se a Rússia for bem sucedida nesta agressão, vai criar um impacto duradouro”, expôs o primeiro-ministro do Reino Unido.

A Ucrânia confirma a existência de negociações, mas não adianta quaisquer detalhes. “Posso confirmar que estas negociações estão a decorrer e é, sem dúvida, muito importante que possam fazer parte de certas garantias de segurança”, afirmou esta quinta-feira o chefe do gabinete presidencial ucraniano, Andriy Yermak. E a estratégia também não merece a oposição de Donald Trump, que está empenhado em terminar a guerra. Já não em 24 horas como propôs durante a campanha eleitoral, mas numa questão de meses. Talvez seis. Meio ano.

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▲ Keir Starmer vê com bons olhos a medida e dá empurrão para a decisão de enviar contingentes europeus para a Ucrânia

Getty Images

Na reunião em Paris que juntou Emmanuel Macron, Donald Trump e Volodymyr Zelensky antes da reabertura da catedral de Norte Dame a 7 de dezembro, os três líderes terão discutido essa ideia. Segundo apurou o Wall Street Journal, o Presidente eleito dos Estados Unidos salientou que as tropas europeias podiam ajudar a monitorizar um cessar-fogo, protegendo a Ucrânia de um novo ataque em larga escala da Rússia. Donald Trump assegurou, no entanto, que não haveria norte-americanos no terreno, apesar de se mostrar flexível para apoiar os contingentes em termos logísticos. Ou seja, com armas e com vigilância.

“Podemos treinar e dar outro tipo de apoio, mas a responsabilidade será europeia”, confidenciou fonte da equipa de Donald Trump ao Wall Street Journal, reforçando: “Não vamos enviar homens e mulheres norte-americanos para garantir a paz na Ucrânia. E não vamos pagar por isso. Que os polacos, alemães, britânicos e franceses o façam”, atirou a mesma fonte.

Em todo o caso, nenhum dos planos prevê que tropas europeias combatam ao lado da Ucrânia contra a Rússia na linha da frente num futuro próximo. Seriam antes missões com o objetivo de assegurar que um possível acordo de cessar-fogo seria cumprido, ou então serviriam como garantia de segurança para Kiev em possíveis negociações de paz com a Rússia, que, sem surpresa, já se manifestou abertamente contra esta possibilidade.

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▲ Na reunião entre Trump, Zelensky e Macron, assunto de envio de contingentes europeus para a Ucrânia foi discutido

POOL/AFP via Getty Images

100 mil homens, uma zona desmilitarizada e um mandato forte: como poderiam estar organizados os contingentes militares na Ucrânia?

Ainda que Emmanuel Macron tenha tentado convencer os dirigentes ocidentais desta hipótese há quase um ano, o Presidente francês nunca precisou em que moldes seriam enviados contingentes europeus para a Ucrânia. Há vários cenários em cima da mesa, como admitiu fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico ao jornal Telegraph: “Há desafios que podemos apoiar, que queremos apoiar e há uma questão mais ampla sobre a ameaça que essas tropas podem enfrentar e se isso representa uma escalada”.

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Seja em que molde for, o Presidente ucraniano concorda com a ideia. “Todos entendemos que os objetivos de Putin não mudaram. Ele quer destruir completamente a Ucrânia e quebrar [o Ocidente]”, disse Volodymyr Zelensky no encontro do grupo de Ramstein no passado dia 9 de janeiro. Para proteger o território ucraniano da ameaça de Moscovo e para travar o expansionismo russo na Europa, o chefe de Estado frisou que militares europeus na Ucrânia podem levar a “Rússia a aceitar a paz”.

Seria uma “abordagem prática”, definiu Volodymyr Zelensky, que já ressalvou que o objetivo a longo prazo de Kiev continua a ser a entrada na NATO. Porém, o Presidente ucraniano concebe que essa ideia ainda não convenceu muitos dos parceiros na Aliança Atlântica, que temem uma Terceira Guerra Mundial. E o líder da Ucrânia entende igualmente que a adesão de Kiev à organização militar não é olhada com particular entusiasmo por Donald Trump e por outros parceiros, como a Alemanha ou a Hungria.

epa11664721 Ukraine's President Volodymyr Zelensky (L) is welcomed by NATO Secretary General Mark Rutte during the North Atlantic Treaty Organisation (NATO) Defense Ministers Council at the NATO Headquarters in Brussels, Belgium, 17 October 2024. Allied Defense Ministers meet in Brussels on 17-18 October 2024.  EPA/OLIVIER MATTHYS

▲ Zelensky aceita a medida, mas quer quer Ucrânia adira à NATO no futuro

OLIVIER MATTHYS/EPA

Em declarações ao Washington Post em meados de dezembro, uma fonte que participou nas negociações assinalou que “havia várias visões”, mas que, na prática, não tinha sido tomada nenhuma decisão. A equipa de Trump, de acordo com o Wall Street Journal, já adiantou que poderá haver uma zona desmilitarizada de quase 1.300 quilómetros, que seria vigiada por tropas europeias

Também existem estimativas. À Reuters, uma fonte ucraniana sinalizou que podem tratar-se de contingentes militares de cinco a oito países. O analista militar austríaco, Franz-Stefan Gady, estimou àquela agência de notícias que teriam de estar envolvidos cerca de 100 mil homens, 40 mil dos quais no terreno. “Vai certamente sobrecarregar as forças europeias terrestres”, alerta.

Se os contingentes europeus forem efetivamente enviados para a Ucrânia, subsistem várias dúvidas sobre como vão operar no terreno. Seriam apenas para vigiar o cessar-fogo, como em algumas missões de manutenção de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) em que a força é apenas usada em caso de legítima defesa? Ou teriam uma margem de manobra mais ampla? O antigo assistente da NATO, Camille Grand, aponta ao Washington Post um meio termo, em que os militares não vão apenas “contar violações de cessar-fogo”, mas também não vão lutar na linha da frente.

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▲ 100 mil europeus, segundo as estimativas, podem ser enviados para a Ucrânia

Getty Images

“Todos querem evitar que a presença seja percecionada como a de capacetes azuis, que têm de fugir caso aconteça alguma coisa”, frisa Camille Grand. Dito doutro modo: as tropas europeias teriam de ser capazes de proteger a Ucrânia após o cessar-fogo e de estarem dispostas a entrar em confronto contra as russas, caso a Rússia invadisse novamente território ucraniano no futuro.

Para a Ucrânia, seria efetivamente uma garantia de segurança. Porém, é difícil imaginar que a Rússia aceite este cenário. Aliás, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, já veio garantir que Moscovo está contra o envio de contingentes militares europeus para a Ucrânia. “Não estamos felizes, claro, com as propostas feitas por membros da equipa de Trump para estacionar forças britânicas e europeias de peacekeeping na Ucrânia”, assinalou o chefe da diplomacia russa.

Num artigo na revista Foreign Policy, Franz-Stefan Gady sublinha que é improvável que a Rússia aceite uma “força ocidental com um mandato robusto na linha da frente”. Tendo em conta as divergências entre as duas partes, uma solução intermédia podia ser com militares “idealmente de países de Sul Global” que poderiam “controlar diretamente uma zona desmilitarizada na linha de cessar-fogo”. Nesta hipótese, havia igualmente uma “força de reação rápida robusta europeia” que estaria estacionada no oeste da Ucrânia.

epa11607912 Russian Foreign Minister Sergey Lavrov attends a meeting with Egypt's Foreign Minister Badr Abdelatty in Moscow, Russia, 16 September 2024.  EPA/ALEXANDER ZEMLIANICHENKO / POOL

▲ Sergei Lavrov já garantiu que a Rússia está contra o envio de soldados europeus para a Ucrânia

ALEXANDER ZEMLIANICHENKO / POOL/EPA

Tropas na linha da frente, em Kiev ou perto da fronteira? Existem três cenários em cima da mesa

Nas várias discussões que os diplomatas europeus foram mantendo, há pelo menos três cenários em cima da mesa em relação à localização onde ficariam estacionados os contingentes militares, como explica o Telegraph.

O primeiro seria aquele que mais desagradaria ao Kremlin — consistiria em estacionar as tropas europeias perto da linha da frente, no Donbass. O segundo passaria por deixar os militares europeus em Kiev, que ficariam com a missão de proteger a capital, sendo que caberia aos ucranianos estar em estado de prontidão junto das regiões fronteiriças com a Rússia. Já a terceira hipótese implica colocar os contingentes militares no oeste da Ucrânia (perto de cidades como Lviv ou Ternopil), fortalecendo ao mesmo tempo a fronteira entre a Polónia e a Ucrânia.

Em todos estes casos, os analistas têm dúvidas sobre o estado de prontidão das tropas europeias. Por exemplo, Franz-Stefan Gady escreve na revista Foreign Policy que as “forças europeias vão precisar de pelo menos alguns meses de preparação”.”As forças europeias precisam de estar preparadas para uma forte intensidade e operações de combate em larga escala contra a Rússia. Isso inclui ter um plano para responder às provocações inevitáveis da Rússia, incluindo a sabotagem além da linha de cessar-fogo ou ataques de mísseis ‘acidentais’ que matem ou causem ferimentos em europeus.”

Tropas europeias podem ficar na linha da frente perto do Donbass

À Reuters, um dirigente francês questionou o que aconteceria “se um soldado francês morresse na Ucrânia”. O sentido da pergunta não era tanto se vai haver baixas entre europeus. Era como é que os políticos da Europa vão convencer a opinião política da necessidade de enviar contingentes militares para a Ucrânia — e como vão lidar com todos os impactos negativos dessa eventual decisão.

“É necessário tomar uma posição clara do verdadeiro significado da Ucrânia para a arquitetura securitária da Europa. Se a Ucrânia é realmente importante, é urgente explicar aos europeus que esta guerra não é apenas sobre o futuro da Ucrânia, mas também sobre a habilidade da Europa em manter fronteiras seguras e preservar a paz em todo o continente”, defende Franz-Stefan Gady.

O empurrão dado por Starmer e as dúvidas em várias capitais europeias

O Presidente francês tentou, nos primeiros meses de 2024, reunir o apoio de várias capitais europeias para a iniciativa de enviar contingentes militares na Ucrânia. Ninguém lhe prestou particular atenção. Emmanuel Macron queria o apoio de três países em particular: a Alemanha, a Polónia e o Reino Unido. A posição de Berlim e Varsóvia, contrárias à ideia, manteve-se a mesma até hoje.

Tropas da NATO na Ucrânia. O que levou Macron a sugerir uma ideia que depois todos negaram?

No entanto, houve uma inversão de marcha por parte de Londres, sob o novo governo de Keir Starmer. O executivo britânico pondera juntar-se à iniciativa francesa, o que pode mudar o jogo e dar uma nova oportunidade a esta ideia de Emmanuel Macron. Para além de contar com as Forças Armadas mais fortes da Europa, o apoio britânico é também importante por uma questão de dissuasão. 

Os especialistas Léonie Allard e Elie Tenenbaum, num artigo escrito no think tank Atlantic Council, destacam a importância de uma coligação franco-britânica. “Eles têm os militares mais bem treinados da Europa e, provavelmente, são as únicas nações com capacidades de comando e controlo para liderar estas operações”, elucidaram os analistas militares. E também realçaram outro ponto: Londres e Paris são potências nucleares. “Isso adiciona uma dimensão única à sua postura estratégica.”

Dado que são potências nucleares, a presença de militares britânicos e franceses na Ucrânia pode levar o Presidente russo, Vladimir Putin, a repensar uma nova invasão da Ucrânia. “Embora sendo irrealista dizer que haveria domínio perante a Rússia, a sua liderança enviaria um importante sinal que forçaria Moscovo a reconsiderar qualquer ação imprudente.”

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▲ Participação de Paris e Londres, potências militares, no envio de militares para a Ucrânia pode ser dissuasora para Putin

SOPA Images/LightRocket via Gett

Idealmente, Emmanuel Macron gostaria de contar com a contribuição alemã, mas esta, para já, está fora de questão. O chanceler Olaf Scholz tem adotado uma postura bastante cautelosa face à Rússia. Além disso, a Alemanha vai a eleições dentro de um mês. A curto prazo, é uma má notícia para o plano do Presidente francês. A médio prazo, as eleições podem ser uma oportunidade.

O candidato do centro-direita e grande favorito para vencer as eleições federais alemãs, Friedrich Merz, já deixou a porta entreaberta a essa possibilidade, ao contrário de Olaf Scholz. “Se se chegar a um acordo de paz e a Ucrânia precisar de garantias de segurança, apenas podemos discutir o assunto se houver um mandato claro sob o direito internacional. Não o vejo neste momento. Gostaria que houvesse esse mandato em consenso com a Rússia”, declarou o líder da União Democrata-Cristã (CDU).

A Polónia, apesar de ser uma das maiores apoiantes da Ucrânia desde o início do conflito, também não está entusiasmada com a ideia. O Presidente francês já tentou sensibilizar o primeiro-ministro polaco, mas, até ao momento, Varsóvia não dá sinais de ceder. “As decisões das ações polacas serão tomadas em Varsóvia e apenas em Varsóvia. Não estamos atualmente a planear tais ações”, assegurou Donald Tusk em meados de dezembro.

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▲ Tusk e Scholz discordam com a ideia de enviar contingentes europeus para a Ucrânia

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O apoio de outros países europeus, em particular os bálticos e os nórdicos, também será essencial por questões geográficas. Volodymyr Zelensky e Emmanuel Macron estão empenhados em convencer a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a alinhar no plano. O ministro da Defesa italiano, Guido Crosetto, já admitiu essa possibilidade: “As tropas italianas estão sempre disponíveis para preservar a paz. Se houver necessidade de uma força multinacional, estaremos lá.”

A chegada de Donald Trump à Casa Branca está a mudar a forma de pensar de muitos líderes europeus. Mesmo que até não concordem integralmente com a estratégia que o magnata tem para a Ucrânia, aproveitam para encontrar qualquer ponto de contacto. “Neste momento, é sobre pensar alto o que poderá ser mais aceitável para os ucranianos”, diz Camille Grand. Enviar contingentes militares para território ucraniano até pode ser capaz de garantir a segurança de Kiev a longo prazo, mas os líderes políticos europeus terão de delinear um plano com que a Rússia concorde minimamente. E que convença as opiniões públicas da Europa.

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