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Um agente da GNR observa as chamas durante um incêndio em São Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Vila Real, 2 de agosto de 2025. O fogo que começou em São Cibrão, Vila Real, alastrou para o concelho de Sabrosa, onde lavra em duas frentes com alguma intensidade e mobiliza cerca de 240 operacionais. PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA
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▲GNR encaminhou as pessoas para a igreja paroquial de Vale Frechoso. Aqui, a vigiar as chamas em Sabrosa

PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

▲GNR encaminhou as pessoas para a igreja paroquial de Vale Frechoso. Aqui, a vigiar as chamas em Sabrosa

PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Quando o incêndio chegou a Vale Frechoso, os sinos soaram e foi preciso refúgio: “A aldeia coube toda na igreja"

Sem eletricidade e com comunicações a falharem, dezenas de habitantes de Vale Frechoso refugiaram-se na igreja. Muitos rezaram orações na paróquia que tem como padroeiro um santo que morreu queimado.

Pelas 14h, os habitantes de Vale Frechoso já intuíam que o último 19 de agosto não seria mais uma terça-feira banal — o que, de resto, também não podia ser dito dos últimos dias na aldeia do concelho de Vila Flor, em Bragança. Ao contrário do habitual, via-se um incêndio no horizonte, vindo de Mirandela, que se foi agigantando com o vento e, em vez do cheiro a fumo, as labaredas tornaram-se a principal preocupação.

Quase cercadas pelas chamas, às pessoas restava uma de duas soluções: ou evacuar a aldeia ou confinar. A experiência da equipa ao comando das operações optou pela segunda hipótese. O local, como definido no plano da Aldeia Segura, seria na Igreja Paroquial. Lá, pelo menos 100 pessoas encontraram refúgio e abrigo para, com esperança, aguardar a passagem, com o mínimo de destruição possível, do incêndio.

Os minutos de espera tornaram-se em horas e houve pessoas a ficar no espaço, pelo menos, até à meia-noite. Outros, como Silvana Martins, saíram mais cedo. “Quando eu passei [pelas chamas], a minha perceção é que aquilo ia afetar a aldeia e chegar às casas”, conta ao Observador a grávida que regressou a casa vinda do trabalho sem a certeza se iria conseguir entrar na aldeia.

“Aos poucos as pessoas foram indo para casa, entre a noite e a madrugada”, relata José Santos Ferreira, presidente da junta de freguesia, que enaltece a colaboração da Câmara Municipal de Vila Flor e o trabalho da GNR numa noite que teve mais fatores adversos. “A aldeia esteve duas ou três horas sem luz. Quando chamámos as pessoas já não tínhamos luz”.

“É fundamental o trabalho da GNR junto da comunidade, de falar com as pessoas. Não se consegue confinar sem diálogo. Se não dialogarmos, não conseguimos garantir o sucesso da operação”, explica ao Observador o Major Hernâni Martins, Oficial de Comunicação e Relações Públicas de Bragança da GNR e voz de comando da operação dos militares no apoio à população.

Sinos começaram a tocar para chamar pessoas para o local de refúgio. GNR ajudou a transportar pessoas

O fogo que começou no domingo em Mirandela tinha-se mantido afastado da pequena aldeia, mas o vento intenso que se sentiu na passada terça-feira deixou moradores e autoridades em estado de alerta. “Tínhamos o incêndio a progredir apoiado pelo vento com alguma intensidade”, conta o Major. As chamas subiram descontroladas e, ao estarem mais perto das casas, a GNR entrou em ação.

“Percebemos que era previsível que fosse afetar a aldeia. Quer chegasse em meia hora ou em 15 minutos”, continua o militar. Assim, em articulação com as demais autoridades, começaram a alertar a população para a necessidade de reunir num ponto seguro.

“Tocámos os sinos e andamos a avisar as pessoas com a GNR. Estava muito vento, as chamas começaram a agravar-se e daí a necessidade de alertar as pessoas, pelo menos uma parte da aldeia, mais afetada pelas chamas”, explica o presidente da junta.

Se frisa que não houve necessidade de confinar a totalidade da aldeia, enfatiza, por outro lado, a dificuldade em conseguir chamar todas as pessoas e de alertar para o perigo iminente numa altura em que, recorde–se, ainda não havia luz, além de se registarem falhas ocasionais na rede móvel. Todavia, frisa que esteve na igreja “a aldeia quase toda”.

“Não estávamos fechados na igreja, as pessoas também estavam no adro a acompanhar a evolução, mas a maior parte, as mais idosas e com dificuldades de mobilidade, estavam dentro”. Só as pessoas que estavam mais longe das chamas foram poupadas a este confinamento, mas mesmo essas foram aconselhadas a manter-se atentas e a preparar mantimentos e roupa para se fosse necessário escaparem. “Se a pessoa tem dificuldade em caminhar não vamos pedir que ande a correr 500 metros até à igreja, como é óbvio. Temos nas nossas aldeias muitas pessoas vulneráveis”, acrescenta o Major.

De porta em porta, os militares e os funcionários da câmara e da junta iam desdobrando esforços para divulgar a mensagem aos vizinhos. Calcorreando, numa corrida contra o tempo, as ruas sinuosas da aldeia, ajudavam como podiam os moradores a fazer o caminho até ao local seguro. Entre o pânico vivido, a tranquilidade da presença da GNR — que levou as pessoas mais idosas ou com maiores dificuldades em andar para a igreja — ia ajudando a serenar os ânimos.

Para chegar a todas as pessoas, mesmo com dificuldades de comunicação, a GNR dá a receita: ter interlocutores locais, desde presidentes da junta a grupos de jovens, que permitam passar a mensagem das autoridades e que consigam ajudar a chegar a mais moradores. “Temos que passar uma mensagem uniforme. É um bocado como o jogo da mensagem em que a mensagem tem que chegar igual do primeiro ao último. Isto requer treino, capacidade de comunicação, presença e rapidez”.

Ao contrário dos habitantes da aldeia que foram deslocados de casa para a igreja, Silvana Martins estava a trabalhar quando se temeu o pior quanto ao rumo das chamas. Mesmo depois de ter ouvido que se calhar não iria conseguir entrar na aldeia, onde o companheiro já estava a ajudar os operacionais, arriscou. “Quando cheguei já estava quase toda a gente, com animais e tudo. Eu mantive-me sempre cá fora”, conta a grávida que aponta para “umas 200 pessoas” no ponto de encontro — José Santos Ferreira fala em pelo menos 100.

▲ A igreja e o adro onde as pessoas ficaram confinadas. Imagens do Google Maps e Facebook

“As pessoas estavam nervosas”, recorda presidente da junta. Grávida lembra preocupação dos vizinhos durante confinamento

No adro da igreja, onde bombeiros e proteção civil reuniam o seu contingente, a preocupação marcou os rostos assustados dos vizinhos e muitos rezaram orações na paróquia que tem como padroeiro São Lourenço.

Diante das três estátuas esculpidas na fachada — onde surge o santo que, segundo reza a lenda, morreu queimado —, a comida surgia como outra forma de passar o tempo. “Água havia sempre, também dissemos às pessoas para levarem medicamentos. A Câmara também trouxe, a meio da tarde, mantimentos: sandes e bebidas. Também traziam comida quente naquelas embalagens que se dão nos restaurantes, para os bombeiros, em regra geral, mas também para quem pedisse”, detalha ao telefone o presidente da junta, um dia depois do confinamento e novamente no seu local de trabalho, a pouco mais de 100 metros do adro da igreja. Entre o caos provocado pelas chamas e o telefonema com o Observador, teve tempo apenas de ir a casa dormir “muito pouco” e de distribuir pequenos-almoços aos bombeiros que continuam de serviço.

O apoio aos bombeiros não se resumiu às ajudas dos líderes políticos locais. Também Silvana, quando regressou à vila, levou mantimentos para os operacionais. “Ligaram-me a dizer: ‘tens que vir para casa, tens que vir para casa, se não, não te deixam entrar. Toda a gente estava preocupada. Até perguntei: ‘querem que leve alguma coisa, é preciso alguma coisa para os bombeiros?’. ‘Ah, traz águas’. Assim o fiz, fui rapidamente ao supermercado comprar águas”,  desabafa a grávida de seis meses, que confessa que sentiu “o pânico das pessoas”.

No ponto de encontro, a preocupação de Silvana Martins era, sobretudo, os olivais que tem com o companheiro e que receava que ardessem. Um dia depois da noite em que as chamas ameaçaram a aldeia, ainda não tem a certeza se o fogo chegou ao seu terreno. “Há pessoas que dizem que sim, outras dizem que não”.

Entretanto, a luz regressou. Logo se acenderam as iluminações que ainda adornam a igreja que celebrou o santo padroeiro da terra a 10 de agosto, revela um dos vídeos mostrados por Silvana Martins ao Observador. Mas, apesar de a eletricidade ter voltado, os bens que ficaram para trás continuavam a ser o tema dominante das conversas preocupadas dos vizinhos. “Chegavam a rezar dentro da igreja, até eu, que a minha casa também estava na parte crítica… As pessoas estavam nervosas”, acrescenta o presidente da junta.

“Houve pessoas que levaram snacks, águas. A junta e a comissão de festas levaram águas e foram distribuindo entre quem quisesse”, recorda a grávida, enfatizando que não faltou nada para todos os que assistiram, com companhia, aos desenvolvimentos do incêndio. Agora, à conversa com o Observador, recorda com alívio a noite anterior.

Regressar a casa “foi um alívio”. População continua atenta ao incêndio, mas está mais calma

Já o sol se tinha posto quando a calma possível de quem convive de perto com os incêndios voltou. O vento tinha acalmado e já se percebia que, felizmente, a prevenção não tinha passado disso. “Foi um alívio”, desabafa José.

“As pessoas, aos poucos, foram saindo e indo para as casas, por volta da uma da manhã só estávamos nós da junta e os da Proteção Civil. Ainda se viam labaredas ao fundo, mas o pior já tinha passado e as pessoas começaram a recolher”.

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O Comandante dos Bombeiros de Vila Flor entende que não se pode chamar ao que aconteceu um “confinamento” e diz que foi apenas parte da aldeia que ficou resguardada no local, mas é esse o termo utilizado pela junta e pela GNR, mesmo que os populares não tenham ficado fechados. “A ordem [para confinar] parte do posto de comando”, clarifica o Major Hernâni Martins. A partir do momento em que é identificada essa ameaça, cabe aos militares cortar estradas, apoiar a população e falar com os presidentes das juntas locais, mesmo que não seja necessário confinar ou evacuar uma aldeia inteira: “Os aglomerados não são circunferências perfeitas em que o incêndio atinge” de forma igual — o que torna algumas zonas do mesmo povoamento, mais perigosas que outras.

Silvana Martins lembra que quando chegou à vila a preocupação era grande, mas que rapidamente se foi dissipando com o cair da noite. “Entrei em stress, pensei no que ia fazer à minha vida. Já estava a dizer que ia chegar a casa pegar nas minhas coisas e ia embora”, recorda. No entanto, depois foi constatando que a “situação estava bem controlada”.

Depois das 20h, as autoridades começaram a dizer que já era seguro regressar a casa e assim o fez a grávida, ao contrário de algumas pessoas, sobretudo idosos, que por não terem companhia permaneceram mais algum tempo no ponto de encontro. Quem, mesmo assim, optava por ir sem companhia para as habitações, era avisado. “A GNR disse que, como a situação estava mais controlada, quem quisesse podia ir a casa carregar os telemóveis ou comer qualquer coisa. Mas que as pessoas que vivessem sozinhas, se tivessem familiares para irem com eles, se não tivessem, para estarem sempre contactáveis”, explica.

Nas últimas semanas, por causa dos incêndios que assolam o país, sobretudo a zona Norte e Centro, têm sido várias as localidades afetadas, com algumas a serem obrigadas a aplicar a mesma solução verificada em Vale Frechoso: o confinamento. O Major Hernâni Martins destaca que, nestes casos, o fator chave é a “antecipação” do perigo.

Para o sucesso da operação contribui o acompanhamento realizado durante todo o ano pela GNR, alicerçado no programa Aldeia Segura. “O Comando Territorial de Bragança, e refiro isto com orgulho, explora muito o desenvolvimento deste programa. Temos ‘n’ simulacros [de incêndio] ao longo do ano. Isto treina-se ao longo do ano. Educa-se a população para que não assumam comportamentos de risco”.

Dados de 2020 de um estudo técnico de um observatório independente mostram que todos os 12 concelhos de Bragança estavam envolvidos com o programa Aldeia Segura, Pessoas Seguras, lançado pelo Governo dois anos antes. A nível de freguesias, mais de metade (54,7%) estavam envolvidas, perdendo nesse parâmetro apenas para o distrito da Guarda — que, além de também ter todos os concelhos sinalizados, contava com 64,5% das freguesias envolvidas.

“Um inferno”, “parece o fim do mundo” dizem moradores de aldeias confinadas na Covilhã, Fundão e Pampilhosa da Serra

Na manhã de quarta-feira, depois de uma passagem muito rápida pela cama, o presidente da junta descreve um ambiente muito calmo e prevê que os problemas provocados pelos incêndios não voltem. “Já chegam duas noites passadas em branco”, atira. “Penso que o pior já passou”.

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