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epa11935387 (L-R) French President Emmanuel Macron, British Prime Minister Keir Starmer and Ukrainian President Volodymyr Zelensky attend a summit on Ukraine, at Lancaster House in London, Britain, 02 March 2025. The British prime minister is hosting a summit of European leaders in London to discuss the ongoing war in Ukraine.  EPA/JAVAD PARSA  NORWAY OUT
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Tal como aconteceu nas duas Guerras Mundiais, Londres apoia-se em Paris para alcançarem uma "paz justa" no conflito iniciado pela Rússia em 2022

JAVAD PARSA/EPA

Tal como aconteceu nas duas Guerras Mundiais, Londres apoia-se em Paris para alcançarem uma "paz justa" no conflito iniciado pela Rússia em 2022

JAVAD PARSA/EPA

Reino Unido e França assumem as rédeas das negociações e tentam "complicar equação" de Trump para paz rápida na Ucrânia

França e Reino Unido lideram o esforço de paz e esperam servir como "ponte" entre administração Trump e Ucrânia, tentando sensibilizar os EUA para o perigo de uma paz rápida que beneficie a Rússia.

“Penso que o Reino Unido deve avançar e liderar. Historicamente, como uma nação, sempre fizemos isso e precisamos de fazê-lo outra vez.” Numa conferência de imprensa após a Cimeira de Segurança que teve lugar na capital britânica, Keir Starmer recordava que o país sempre assumiu o protagonismo em “encruzilhadas” da História. A resolução da guerra da Ucrânia é mais um desses momentos que exigem o papel de liderança ao Reino Unido. Tal como aconteceu nas duas Guerras Mundiais, Londres apoia-se em Paris para alcançar uma “paz justa” no conflito iniciado pela Rússia em 2022.

Apesar de o Reino Unido ter saído da União Europeia (UE) em 2016 na sequência do referendo do Brexit, o país é um dos mais empenhados em resolver o conflito na Ucrânia. O objetivo é assegurar uma “paz justa e duradoura”, evitando que o Presidente russo, Vladimir Putin, seja bem-sucedido após ter começado uma invasão no país vizinho. Durante dois anos, os Estados Unidos da América (EUA) estiveram alinhados nessa estratégia. Contudo, isso mudou após Donald Trump ter assumido o poder. O Presidente norte-americano deseja uma paz rápida; aliás, uma das principais bandeiras da campanha eleitoral consistiu em prometer terminar a guerra em 24 horas. E o chefe de Estado já adiantou que não parece importar-se em fazer algumas concessões à Rússia.

Aos olhos da Europa, as concessões ao país que considera o seu maior inimigo geopolítico são inaceitáveis. Os líderes europeus temem que, satisfazendo a Rússia, isso possa desencadear novas invasões — nomeadamente aos países bálticos e à Moldávia. Evitar uma paz que humilhe a Ucrânia e impedir que Vladimir Putin acabe vitorioso e confiante por ter começado uma guerra na Europa. Estes são os dois objetivos que estão a nortear o Reino Unido e França, ainda que se deparem com uma administração Trump que deseja melhorar as relações diplomáticas com Moscovo.

epa11935358 (L-R) Ukraine's President Volodymyr Zelensky, Britain's Prime Minister Keir Starmer and France's President Emmanuel Macron chat after holding a meeting during a summit on Ukraine at Lancaster House in London, Britain, 02 March 2025. Starmer is hosting a summit of European leaders in London to discuss the ongoing war in Ukraine.  EPA/JUSTIN TALLIS/POOL

Zelensky, Macron e Starmer este domingo em Londres

JUSTIN TALLIS/POOL/EPA

A Europa ambiciona desempenhar um papel na mesa das negociações para a paz, mesmo que alguns membros da administração Trump já tenham descartado essa ideia. No entanto, surgiu uma nova oportunidade para o continente europeu. Após a discussão entre Volodymyr Zelensky, Donald Trump e o vice-presidente JD Vance na Sala Oval, o canal de comunicação direto entre Kiev e Washington sofreu inevitavelmente danos, ainda que o Presidente ucraniano já tenha vindo tentar abrir de novo canais de comunicação, até porque sabe com que apoios pode agora contar. O Reino Unido e França pretendem então surgir como ponte entre os dois lados — e, pelo caminho e se possível, influenciar Donald Trump a não ceder à Rússia.

Zelensky propõe tréguas no mar e no ar com a Rússia e garante estar pronto para assinar acordo sobre recursos com os EUA

O objetivo já foi assumido por Keir Starmer, que, em entrevista à BBC, destacou precisamente esse papel de “ponte” que Londres e Paris podem desempenhar. “Temos de mediar isto, temos de encontrar um caminho para que todos possamos trabalhar juntos porque, no fim, tivemos três anos de conflito sangrento e precisamos de uma paz duradoura”, defendeu o primeiro-ministro britânico. Depois da conferência de segurança, o líder do Reino Unido também anunciou a criação de uma “coligação de boa vontade” — em que vários países poderão participar.

Independentemente dessa coligação, certo é que o Reino Unido e França estão na dianteira nesse processo de paz. Outros atores — como a União Europeia, Itália ou Alemanha — parecem ficar para trás. O que leva então estes dois países a assumir essa liderança — e a serem os escolhidos para ser ouvidos quer por Volodymyr Zelensky, quer por Donald Trump?

"Temos de mediar isto, temos de encontrar um caminho para que todos possamos trabalhar juntos porque, no fim, tivemos três anos de conflito sangrento e precisamos de uma paz duradoura"
Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido

Armas nucleares e presença no Conselho de Segurança. O que faz com que o Reino Unido e França sejam líderes?

Historicamente, sempre existiu uma forte ligação entre os três países. O Reino Unido foi o país responsável pela colonização dos Estados Unidos — e o vínculo histórico com a sua antiga colónia nunca se perdeu. Por sua vez, França apoiou os movimentos independentistas contra os britânicos e foi um dos primeiros a reconhecer a independência dos EUA. Ao longo dos séculos, apesar de alguma tendência para o isolacionismo de Washington, houve sempre um certo alinhamento com Paris e Londres, que se verificou durante as duas Guerras Mundiais.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido e França também integraram o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), sendo os dois membros fundadores da NATO. No continente europeu, são os dois países que possuem armamento nuclear. Por questões históricas e de força, os EUA sempre olharam para Paris e Londres como intermediários na Europa. Não é, portanto, estranho que Keir Starmer e Emmanuel Macron tenham sido dos primeiros líderes a visitar Donald Trump desde a tomada de posse a 20 de janeiro de 2025.

Em relação à Ucrânia, o Reino Unido sempre foi um dos principais apoios de Volodymyr Zelensky, concedendo desde 24 de fevereiro de 2022 um forte respaldo ao país invadido. Esse esforço é, aliás, praticamente consensual no panorama político britânico. Já França foi-se tornando, ao longo dos três anos do conflito, um dos principais suportes da causa ucraniana, apesar de alguma reticência inicial e de Emmanuel Macron tentar inicialmente dialogar com Vladimir Putin — até perceber que as tentativas eram “infrutíferas”.

epa11928933 US President Donald Trump (R) with British Prime Minister Keir Starmer (L) during a press conference at the White House Washington, DC, USA, 27 February 2025.  EPA/WILL OLIVER epa11922224 US President Donald Trump (R) meets with French President Emmanuel Macron (L) in the Oval Office at the White House in Washington, DC, USA, 24 February 2025.  EPA/BONNIE CASH / POOL

Macron e Starmer já visitaram Trump na Casa Branca

WILL OLIVER/EPA

Pelo apoio que sempre concederam à Ucrânia e pela posição diplomática privilegiada em Washington, França e o Reino Unido são os países que podem representar a Europa numa possível mesa de negociações. Para trás, fica a União Europeia. Em parte, deve-se ao facto de o bloco comunitário estar em clima de tensão por causa das taxas alfandegárias que os EUA planeiam aplicar — e pelas possíveis retaliações que se podem seguir.

Há uma semana, Donald Trump até já disse que a União Europeia “tinha sido criada como forma de lixar os Estados Unidos“: “É o propósito da União e eles fizeram um trabalho muito bom”. O Presidente não confia, por isso, na UE — e dificilmente os 27 poderiam ter um papel de destaque nas negociações para acabar com o conflito. Para além disso, o magnata Elon Musk, próximo da presidência, tem várias divergências com o bloco comunitário, nomeadamente no que diz respeito à regulação das grandes tecnológicas.

Entre os 27 estados-membros, há uma líder que, por razões ideológicas e não tanto históricas, pode também funcionar como “ponte” entre a Europa e a administração Trump: a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni. Conservadora de direita e próxima de Elon Musk, a líder do executivo já declarou que não se importa de desempenhar o papel de interlocutora entre os dois lados do Atlântico, mantendo-se próxima de Volodymyr Zelensky. No entanto, falta a Itália uma maior influência na comunidade internacional — o país nem está no Conselho de Segurança da ONU, nem tem armas nucleares.

Giorgia Meloni nunca escondeu que quis ser a interlocutora entre os EUA e a Europa

Tal como Itália, a Alemanha é um dos países derrotados na Segunda Guerra Mundial que não está nem no principal órgão da ONU, nem tem armas nucleares. E nem sequer tem procurado desempenhar um papel ativo nas negociações de paz, mesmo sendo o país uma potência económica. O ainda chanceler alemão, Olaf Scholz, sempre apoiou a Ucrânia, mas ainda mantém várias reservas sobre até que ponto a Rússia deve ser provocada — o que tem causado frustração em Kiev.

Para além da frustração ucraniana, a Alemanha acaba por estar mais afastada do processo de paz porque se realizaram eleições federais há cerca de uma semana. O partido de centro-direita (CDU) venceu as eleições e deverá haver um novo chanceler. Berlim está, por isso, numa fase de transição política. Apesar de o novo líder germânico ser pró-Ucrânia e até Donald Trump ter saudado a sua vitória, Friedrich Merz ainda não tem legitimidade para assumir um papel de liderança neste processo de negociações de paz.

Reino Unido apoia Ucrânia. E deu ânimo a Zelensky este fim de semana

Uma “reunião muito boa” com o Rei Carlos III, um encontro amigável e produtivo com aliados em Londres e uma nova coligação de apoio à Ucrânia. Após uma sexta-feira negra para o Presidente da Ucrânia em Washington, por causa da discussão na Sala Oval, o fim de semana foi diplomaticamente produtivo para Volodymyr Zelensky. Ciente da sua posição de liderança no processo de paz, o Reino Unido tentou controlar os danos.

epa11932940 Britain's Prime Minister Keir Starmer (L) greets the President of Ukraine Volodymyr Zelensky (R) ahead of a bilateral meeting, outside 10 Downing Street in London, Britain, 01 March 2025.  EPA/NEIL HALL

Zelensky em Londres com Starmer

NEIL HALL/EPA

Em primeiro lugar, no sábado, Keir Starmer garantiu a Volodymyr Zelensky, chegado de Washington, que a Ucrânia pode “contar com todo o apoio” do Reino Unido. Antes de um encontro privado, os dois líderes trocaram elogios e o primeiro-ministro britânico insistiu que é necessário salvaguardar “a soberania e a segurança para a Ucrânia”, algo que é “muito importante para a Europa e para o Reino Unido”.

No dia seguinte, o primeiro-ministro britânico reuniu todos vários aliados da Ucrânia, contando com a presença de líderes mundiais — desde a Turquia ao Canadá — e líderes da União Europeia, como Ursula von der Leyen e António Costa. O objetivo de Keir Starmer passava por mostrar que a Europa está unida na prossecução de uma “paz justa”. E mostrou igualmente que os europeus têm um plano, determinando os passos para os próximos meses. Deixou também bem claro que a Ucrânia não está sozinha diante de Donald Trump e Vladimir Putin.

Como evento final da agenda de Volodymyr Zelensky este domingo, o Presidente da Ucrânia encontrou-se com o Rei Carlos III. A visita tem um importante valor simbólico — foi uma visita ao principal representante de uma das coroas mais poderosas de todo o mundo. Segundo a BBC, o líder ucraniano foi “recebido calorosamente” pelo monarca e bebeu chá. Depois do encontro, o chefe de Estado da Ucrânia disse estar “muito grato pela forma como Sua Majestade apoia a Ucrânia e apoia a Ucrânia”.

2 de março de 2025, Volodymyr Zelensky e Rei Carlos III em Sandringham.

Rei Carlos III e Zelensky este domingo

Royal Family

O “forte apoio” norte-americano — que continua a ser necessário

Todas estas ações servem para dar força a Volodymyr Zelensky. Ainda assim, Keir Starmer já deixou bem claro que será necessário o “forte apoio” dos Estados Unidos na Europa. Apesar das iniciativas deste fim de semana serem significativas, o primeiro-ministro britânico antevê que uma Europa mais segura com uma paz justa e duradora na Ucrânia só será possível se Washington colaborar.

À CNBC, Gesine Weber, membro do think tank Marshall Fund, realçou que os europeus estão numa “posição de esperar para ver” até onde “Washington pode ir” — e se vai continuar a ser um aliado da Ucrânia. Com as declarações públicas de Keir Starmer, existe essa esperança. E, em Londres e em Paris, tudo tem sido feito para não desagradar a liderança norte-americana, destacando o papel que pode desempenhar no processo de paz.

Donald Trump nunca escondeu que deseja terminar a guerra em breve. Na campanha para as presidenciais, o Presidente norte-americano declarou por várias vezes que uma cessação das hostilidades seria possível 24 horas depois de tomar posse. Isso acabou por não acontecer e agora a meta é acabar com o conflito nos primeiros cem dias de mandato. De que forma é que o vai fazer ainda é uma incógnita, mas teme-se que possa haver várias cedências à Rússia. A Europa alertou para os perigos desses cenários e, após a discussão na Sala Oval, ficou ainda mais em pânico sobre uma paz que favoreça apenas e só Moscovo — receios agravados pelo anúncio recente do Presidente norte-americano de corte à ajuda militar para Kiev.

epa11930646 US President Donald Trump waits to greet Ukrainian President Volodymyr Zelensky outside the West Wing of the White House in Washington, DC, USA, 28 February 2025. Zelensky is in Washington to sign the framework of a deal, pushed by President Trump, to share Ukraines’s mineral wealth with the US.  EPA/SHAWN THEW

A forma como Trump vai terminar a guerra ainda é uma incógnita

SHAWN THEW/EPA

Liderados por França e pelo Reino Unido, a Europa tem tentado fazer pressão para que isso não aconteça. “O apelo europeu para envolver-se pode complicar a equação entre a Rússia e aos Estados Unidos”, admite Carsten Nickel, vice-diretor da consultora Teneo, à CNBC, acrescentando que a estratégia do continente “contrasta com a posição de Trump, de que um acordo de extração de minerais seria suficiente para prevenir a Rússia de lançar uma nova invasão”.

Os europeus pretendem, por isso, mais garantias de segurança. Neste sentido, numa premissa que Londres quer partilhada com os EUA, Keir Starmer já avisou que a Europa vai ter de fazer o “trabalho pesado” para proteger a Ucrânia após ser alcançado um cessar-fogo. Como tal, França e Reino Unido são dois países que já se mostraram disponíveis para enviar militares dos dois países para integrar as forças de manutenção de paz, medida a que os Estados Unidos não se opõem — mas que a Rússia já caracterizou como uma linha vermelha.

Além das forças de manutenção de paz, existem poucos detalhes sobre a forma como os europeus desejam aplicar um acordo na Ucrânia. Sabe-se, por exemplo, que querem que Kiev tenha um lugar na mesa das negociações. E o Presidente francês anunciou que deseja implementar um cessar-fogo parcial e temporário para averiguar se a Rússia está mesmo disposta a assinar um acordo de paz, mas a questão está longe de estar fechada — com o Reino Unido a assinalar que o assunto ainda está a ser analisado.

"O apelo europeu para envolver-se pode complicar a equação entre a Rússia e aos Estados Unidos."
Carsten Nickel, vice-diretor da consultora Teneo

Tal como fizeram em vários momentos da História contemporânea, França e Reino Unido estão unidos, juntamente com outros países europeus, para alcançar uma “paz justa” na Ucrânia, que salvaguarde a segurança da Europa nas próximas décadas. Argumentam, ainda assim, que necessitam de contar com o apoio dos Estados Unidos. Ainda não é claro, no entanto, se Washington vai preferir aliar-se com aqueles que foram durante décadas os seus principais inimigos — e ignorar as preocupações dos até agora aliados que estão no outro lado do Atlântico.

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