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A Tekever desenvolve drones a partir das Caldas da Rainha e de Ponte de Sôr
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▲A Tekever desenvolve drones a partir das Caldas da Rainha e de Ponte de Sôr

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

▲A Tekever desenvolve drones a partir das Caldas da Rainha e de Ponte de Sôr

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Tekever chegou a unicórnio a colocar drones nos céus

A Tekever, nascida há quase um quarto de século, é o novo unicórnio português. Tudo à conta de drones, que estão a ser usados para vigiar o Canal da Mancha e ser os “olhos” da Ucrânia no ar.

A história da Tekever começa em Portugal com um grupo de amigos — Ricardo Mendes, Pedro Sinogas e Vítor Cristina — acabado de sair do curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Era 2001. “Éramos um conjunto de engenheiros recém-formados com uma visão e uma ambição muito grande, do ponto de vista do impacto que queríamos ter no mundo”, diz ao Observador Ricardo Mendes, CEO da empresa, que esta terça-feira se transformou num unicórnio, ou seja, a sua avaliação ultrapassou os mil milhões de dólares.

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A tal ambição de que fala o co-fundador e CEO passa por “trabalhar precisamente” nas áreas em que hoje opera. “A junção entre a inteligência artificial, as redes de comunicação móvel e os sistemas embebidos, que é aquilo que fazemos hoje. O que acontece é que estes sistemas embebidos voam”, diz.

É assim que o CEO explica como o negócio está hoje assente em produtos que são conhecidos como drones, o nome mais comum para os sistemas aéreos não tripulados (UAS, na sigla em inglês), que a Tekever produz a partir das Caldas da Rainha e de Ponte de Sôr. Aliando inteligência artificial (IA) à engenharia, os drones da Tekever são fruto de investigação portuguesa, que já saltou fronteiras e atua noutros pontos do globo, em missões de reconhecimento e vigilância. É um negócio centrado na área da segurança e defesa, ainda que também tenha alguns clientes em indústrias mais específicas. Por exemplo, na Nigéria, os sistemas são usados para fazer monitorização de infraestruturas críticas, nomeadamente no setor do petróleo e gás.

Porém, os cartões de visita da Tekever são mesmo as missões de vigilância e reconhecimento. Desde 2019, os sistemas da empresa fazem vigilância marítima do Canal da Mancha, e são usados pela Agência de Segurança Marítima Europeia para “a vigilância dos mares por toda a Europa, do Mediterrâneo, do Mar do Norte, por aí fora”, exemplifica Ricardo Mendes. E, praticamente desde os primeiros meses, que a tecnologia da Tekever tem um papel na guerra da Ucrânia.

“Aquilo que os nossos equipamentos fazem, quer em missões terrestres, quer em missões marítimas — o AR3 mais emissões terrestres, o AR5 mais emissões marítimas —, é proporcionar às forças ucranianas a capacidade de observar aquilo que se está a passar em grandes áreas e a grandes distâncias”, explica o CEO da Tekever. Os dois drones permitem fazer “uma observação constante e recolher intelligence [informação], apesar da guerra eletrónica”. Por “questões de segurança”, a empresa não revela quantos equipamentos é que já estão a ser usados no terreno, mas fala em “muitas dezenas” de drones.

O facto de ter drones no conflito faz com que tenha “centenas de engenheiros a trabalhar dia e noite” para, “constantemente, adaptar a tecnologia e estar um passo à frente do que está a acontecer no terreno e daquilo que o inimigo faz”. “É um desafio diário”, resume.

Ricardo Mendes reconhece que esta guerra na Europa deixou as soluções aplicadas à defesa “muito visíveis para o público em geral”, mas que esta atenção “já acontecia noutros setores há muito tempo”. São tecnologias que “já existem há bastantes décadas, o que acontece é que a computação está muito mais acessível e, portanto, é possível ter equipamentos muito mais inteligentes e muito mais baratos”, permitindo a “massificação”.

“O que acontece é que estes mercados da segurança, da defesa e até do industrial estão a adotar cada vez mais estas tecnologias, portanto está a haver uma grande curva de adoção, um grande crescimento. E isso traz atenção para as empresas que conseguiram criar produtos e organizações capazes de dar a resposta que o mercado procura”, contextualiza.

Porém, o negócio da Tekever nem sempre voou — a aposta nos drones vem de 2010, quando foi “identificada” uma oportunidade no mercado. Antes disso, a tecnológica começou por desenvolver sistemas para a banca, saúde, seguros e telecomunicações. Trabalhou, por exemplo, num primeiro sistema de banca digital e também num sistema mobile para instalações e leituras de contadores.

Um dos drones desenvolvidos pela empresa

Com o passar dos anos, o trio de fundadores, que se conheceu nos anos 90 no Técnico, também se desfez. Em 2018, foi notícia o afastamento, determinado pelo tribunal, de Pedro Sinoga, até então CEO da empresa e sócio maioritário. Segundo o Jornal de Negócios, por movimentações “nas contas bancárias das sociedades” sem o conhecimento dos restantes cofundadores. Ficou decretado o arresto da participação de 52% de Sinoga no grupo. O Observador questionou a Tekever sobre a atual composição da estrutura acionista, mas não obteve resposta. A Iberis Capital, investidora na empresa, não tece comentários sobre o assunto.

Uma ronda “que é um complemento” numa “fase de crescimento”

Em 2025, a chegada ao campeonato dos unicórnios foi feita através de uma ronda de financiamento que contou com a participação de atuais investidores da Tekever — a Ventura Capital, a gestora de investimentos Baillie Gifford, o Fundo de Inovação da NATO, a Iberis Capital e a Crescent Cove.

Ainda que não avance valores (nem do volume de negócios), Ricardo Mendes afirma que a Tekever é uma “empresa já rentável há bastantes anos e, portanto, a ronda é apenas um complemento, tal como têm sido as anteriores”. Em novembro do ano passado, a Tekever fechou uma ronda de 70 milhões de euros, liderada pela escocesa Baillie Gifford, que investiu em empresas como o Spotify, Airbnb ou na SpaceX, e pelo Fundo de Inovação da NATO.

“Estamos numa fase de grande crescimento, já há vários anos”, começa Ricardo Mendes. “Mas, neste momento, a Europa está a atravessar uma fase em que precisa de empresas que consigam ter uma dimensão europeia na área de segurança e defesa e, em particular, nestes temas relacionados com a autonomia robótica e inteligência artificial, que é a área na qual qual atuamos e na qual temos produtos e na qual somos a maior empresa europeia”, diz o CEO.

“Sentimos a necessidade de fazer esta ronda de financiamento precisamente porque os nossos planos de crescimento eram já bastante agressivos e vão ter de ser — ou já estão a ser muito mais — porque há de facto uma necessidade grande na Europa e o mercado precisa que as empresas cresçam mais depressa”, explica.

A empresa nasceu em Portugal mas já tem presença no Reino Unido, “onde já tem quase 200 pessoas”, diz Ricardo Mendes, “está em França, na Ucrânia, vai estar em muitos países e precisamos de fazer isto a uma velocidade muito grande”. O CEO não abre o jogo sobre que próximos mercados podem estar na mira da empresa. Assume a vontade de ir para “outros continentes”, mas por agora o “foco principal, do ponto de vista do crescimento, é a Europa, porque precisa que as empresas cresçam nesta área”.

O facto de esta ronda que a elevou a unicórnio ser composta por investidores já existentes é vista como um voto de confiança. “Quando sentimos a necessidade de fazer uma ronda de financiamento foi muito interessante o que aconteceu, porque a base de investidores atual tomou a ronda toda. (…) Portanto não tivemos necessidade de procurar novos investidores, porque felizmente temos dentro de casa alguns dos fundos maiores e com mais impacto na Europa.”

A Iberis Capital, que foi a jogo na ronda de financiamento do ano passado, participou também nesta ronda de 2025. Num evento em 2023, em que o Observador esteve presente, João Henriques, cofundador da Iberis Capital, fez a aposta de que a Tekever seria o próximo unicórnio português. “Se não for [unicórnio] nesta ronda que está a fechar agora, vai ser na próxima. Não vejo outro cenário”, vaticinou.

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Diogo Chalbert, partner da Iberis Capital que trabalha mais de perto com a Tekever, explica que o “espaço” de crescimento da empresa motivou a participação na ronda. “Acreditamos e continuamos muito a acreditar no futuro da Tekever. Ser unicórnio é um marco muito importante mas é só o começo. Há muito caminho para a Tekever pela frente no espaço de defesa europeu, primeiro, e depois mundial”, diz ao Observador.

“Tem muito espaço para crescer no mundo que vivemos nos dias de hoje. Todo este aumentar de investimento na defesa do continente europeu é uma realidade. Portanto, é uma oportunidade para uma empresa como a Tekever e, ao mesmo tempo, um desafio.” Refere questões desafiantes como “estar à altura das necessidades e dos desafios operacionais a técnicos” nesta área tão específica. “A barra é alta”, resume.

Ainda que reconheça que a Tekever tem concorrentes no mercado europeu de defesa, é da opinião de que “nenhum tem a profundidade tecnológica e experiência em teatro de guerra e missões de contextos muito difíceis” que a empresa portuguesa tem. Em 2023, foi divulgado que a empresa tinha 12% do capital da Tekever. A percentagem alterou-se mas Diogo Chalbert não revela o teor da variação.

▲ Um dos espaços de desenvolvimento da Tekever

JOÃO RELVAS/LUSA

Atualmente, o negócio principal da Tekever está ligado aos drones, mas a empresa também marca presença noutras áreas, como o digital e no Espaço, para onde está a desenvolver sistemas de ligação a satélites.

70% da força de trabalho em Portugal, mas Tekever “aumenta rapidamente equipas noutros países”

A nova ronda de financiamento vai permitir suportar o plano anual da Tekever, que inclui “um investimento em Inglaterra”, que designou por Overmatch, de 470 milhões de euros no país ao longo dos próximos cinco anos, explica Ricardo Mendes.

Para Portugal, não são especificados valores, mas o CEO explica que a empresa “tem a expectativa de comprar em Portugal cerca de 100 milhões de euros em supply chain” entre 2025 e 2027. “Em 2024 comprámos cerca de 12 milhões de euros em Portugal, é um valor muito grande” no país, diz.

A ronda permitirá também contratar mais recursos humanos, nomeadamente em Portugal. Ricardo Mendes explica que a empresa “vai passar as 1.200 pessoas ainda antes do final do ano”, um número que inclui a presença em todos os mercados. “Temos, atualmente, cerca de 70% da nossa força de trabalho em Portugal e esse número vai variando ao longo do tempo”, diz Mendes. “Estamos a aumentar muito rapidamente as nossas equipas noutros países, em Inglaterra, em França, na Ucrânia e noutros. Portanto, do ponto de vista relativo, é normal que a percentagem em Portugal baixe, do ponto de vista relativo, mas do ponto de vista absoluto, iremos continuar a crescer a equipa, obviamente.”

Ricardo Mendes também admite a possibilidade de aquisições, ainda que a empresa “tenha crescido fundamentalmente do ponto de vista orgânico, ou seja, por recrutamento e desenvolvimento de infraestrutura, de base de talento, por aí fora”. “Obviamente que existem ótimas oportunidades de aquisição para nos ajudar a acelerar o crescimento em áreas de que necessitemos, quer seja através de tecnologias que não temos na empresa ou não faz sentido ter, quer seja em geografias que nos permitam acelerar”, explica. “Portanto, sim, faz parte do nosso plano fazer um conjunto de investimentos para aquisições e fusões ao longo dos próximos anos e estamos, obviamente, a trabalhar em vários desses projetos.”

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