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FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA/OBSERVADOR

FOTOILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA/OBSERVADOR

Tentou roubar mota a estafeta, mentiu à PSP e ao juiz e já tinha cadastro internacional. Os crimes do falso espião português

Jovem de 23 anos acusado de tentativa de espionagem a favor da Rússia tem longo registo criminal. Não conseguiu extrair informação de aparelhos da NATO. E dizia-se filho do ex-ministro da Educação.

Já passava da meia-noite mas A. S., estafeta da Glovo, ainda estava a trabalhar. Enquanto esperava que o semáforo abrisse entre a Avenida da Boa Esperança e a Avenida D. João II, junto ao Parque das Nações em Lisboa, a sua mota foi sacudida por alguém. Essa pessoa saltou para o banco traseiro, tentou apertar-lhe o pescoço com um mata-leão e esmurrou-lhe as costas e os braços. O jovem agressor ainda conseguiu agarrar no acelerador, mas A. S. foi mais forte e conseguiu fugir com a mota.

Não lhe custou muito encontrar a polícia momentos depois e, para sua surpresa, quem o tentou roubar ainda se encontrava junto ao semáforo, naquela noite de agosto de 2024. Os agentes levaram o suspeito para a 2.ª Esquadra de Investigação Criminal de Lisboa da PSP nos Olivais e quando o tentaram identificar, aperceberam-se que não tinha documentos. Então, perante uma agente, o jovem apresentou-se com um nome falso e disse que era sete anos mais novo: ao invés dos 22 anos que realmente tinha, seria menor. Deu ainda uma morada errada e, além disso, assegurou que o seu pai era Tiago Brandão Rodrigues, que até há poucos meses tinha sido deputado à Assembleia da República, cargo que se seguiu ao de ministro da Educação do último governo de António Costa.

O nome do antigo ministro foi usado, de maneira errada, pelo jovem em mais do que uma ocasião: também em 2022, quando conheceu a que se viria a tornar sua namorada, garantiu-lhe igualmente que era menor de idade e que era filho de Brandão Rodrigues. Contou a mesma história a outra jovem com quem, de vez em quando, passava a noite em hotéis.

Este mês, o falso filho do antigo ministro foi acusado pelo Ministério Público de vários crimes, entre eles tentativa de espionagem em concurso com violação de segredo de Estado na forma tentada, por ter roubado um computador portátil e um iPad a um militar sueco da NATO que estava alojado num hotel na Costa de Caparica. Foi a última vez que o jovem teve problemas com a Justiça, mas antes já somava um longo cadastro, apurou o Observador.

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, fala aos jornalistas após uma reunião de ministros da Educação da União Europeia em que foi discutido o acolhimento de crianças e jovens vindos da Ucrênia, no ministério da Educação, em Lisboa, 16 de março de 2022. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

▲ Falso espião disse ser filho de Brandão Rodrigues mais que uma vez

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Depois de mentir à PSP, Miguel R. mentiu ao juiz

Depois de o suspeito ter dado um nome, uma data de nascimento, uma morada e um pai errados à agente da PSP em 2024, a Guarda Nacional Republicana (GNR) — que detinha a jurisdição da alegada morada — deslocou-se ao local e descobriu a mentira. O número que o jovem atribuiu ao alegado pai — o antigo ministro — também foi contactado e quem atendeu relatou não ter filhos, nem conhecer Miguel R.. Nada nos autos indica que tenha sido Tiago Brandão Rodrigues o contactado. O Observador contactou o próprio, mas não obteve resposta.

Só depois de uma conversa com o jovem é que a polícia finalmente foi capaz de chegar à fala com o seu pai adotivo, que deu a verdadeira identidade do filho. No dia 14 de agosto de 2024 o jovem foi presente a juiz no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, representado por uma advogada oficiosa, que estava de escala no momento. Questionado sobre os pais, contou que não sabia quem eram. Miguel R. viveu no refúgio Aboim Ascensão até aos dois anos, por ter sido retirado aos pais biológicos pela prática de crimes de furto e consumo de estupefacientes. Não os conheceu e aos cinco anos de idade seria acolhido por um casal, com quem viveu até aos 18 anos. Nessa altura, entrou para o Exército, onde ficou até 2022.

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Na sala de audiências dois anos depois, disse ainda ao juiz que era estudante de Engenharia Informática, outra mentira.

Indiciado pelos crimes de roubo na forma tentada e de falsas declarações, Miguel R. não falou em tribunal, pelo que a audiência demorou menos de uma hora. Saiu sob as medidas de coação de Termo de Identidade e Residência (TIR), de se apresentar três vezes por semana no posto policial da área de residência, e de não contactar com o ofendido, A. S..

Estas informações surgem nos autos da acusação que lhe foi feita este mês, consultada pelo Observador no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP). Miguel R. foi colocado em prisão preventiva a 13 de fevereiro de 2025.

▲ Estafeta da Glovo foi uma das vítimas dos alegados crimes de Miguel R.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Falso espião do SIS soma condenações e suspeitas de crime no Luxemburgo e em Portugal

A investigação a Miguel R. acabou na sua acusação por 21 crimes: espionagem na forma tentada em concurso aparente com violação de segredo de Estado na forma tentada; furto qualificado; condução de veículo automóvel sem habilitação legal; uso de documento de identificação ou de viagem alheio; falsas declarações; pornografia de menores (devido a um vídeo encontrado no seu iPhone); e denúncia caluniosa.

Contudo, aos 23 anos, já tinha tido vários contactos tanto com a Justiça tanto nacional, como com a luxemburguesa. Segundo o relatório sobre Miguel R. redigido pela Polícia Judiciária, o jovem era suspeito ou arguido em 32 processos criminais contra 50 ofendidos só no Luxemburgo. Em causa, estão os crimes de furto, furto qualificado, violação de domicílio, receptação, denúncia caluniosa, ameaça, ofensas à integridade física, abuso e simulação de sinais de perigo, dano, injúrias, assédio, resistência e coação sobre funcionário, posse de arma de fogo e branqueamento de capitais.

Em 2023, Miguel R. emigrou para o Luxemburgo, onde trabalhava como ajudante de pintor ou servente de construção civil durante alguns dias ou semanas. Conseguiu o título de residência no país em fevereiro desse ano e, de acordo com a acusação do Ministério Público, dedicava-se a roubar dinheiro, objetos de valor e equipamentos eletrónicos a terceiros. Com esse fim, alojava-se em alojamentos locais ou hotéis, ou visitava piscinas ou centros desportivos. Esse modus operandi também era seguido em Portugal.

Muitos furtos, pen na mão dos russos e jacuzzi com militares. O passado do ‘espião’ português que roubou militar em hotel da Caparica

Quando foi colocado em prisão preventiva, Miguel R. já tinha sido condenado no Luxemburgo a pelo menos duas penas efetivas, apesar de tal não constar no seu registo criminal. Uma dessas condenações diz respeito a um quarto que arrendou a dois portugueses e de onde veio a ser expulso.

Já em Portugal, Miguel R. estava a ser investigado em cinco inquéritos — entre eles o da tentativa de roubo ao estafeta — que correm termos no Montijo, Lisboa e Almada e estava a ser julgado por crimes de injúria agravada, ofensa à integridade física qualificada, ameaça agravada e falsas declarações em três casos diferentes. Também foi condenado, em 2023, por um crime de injúria agravada a 65 dias de multa. O relatório concluiu que o jovem que tinha assegurado integrar uma associação criminosa internacional que procurava servir a Rússia através de espionagem e violação do segredo de Estado, quando afinal fazia do furto um estilo de vida. O dinheiro que conseguia era gasto em restaurantes, aluguer de táxis e TVDE, hotéis e viagens.

epa11583442 Ukrainian rescuers work at the site of a combined Russian strike that hit a residential area in Lviv, western Ukraine, 04 September 2024, amid the ongoing Russian invasion. At least seven people died, including three children, and 35 others were injured as a result of a Russian combined attack by shock drones and rockets of different types in Lviv, according to Lviv Mayor Andriy Sadovy. Russian troops entered Ukrainian territory on 24 February 2022, starting a conflict that has provoked destruction and a humanitarian crisis.  EPA/MYKOLA TYS

▲ Miguel R. foi detido em Lviv, Ucrânia, em 2023

MYKOLA TYS/EPA

Suspeita de espionagem levou a detenção na Ucrânia, que não tem registos

Miguel R. foi acusado de tentativa de espionagem devido aos equipamentos roubados ao militar sueco da NATO, a cujo conteúdo quis aceder e copiar para entregá-lo a agentes ou colaboradores da Federação da Rússia em Portugal, acredita o Ministério Público (MP). Contudo, o funcionário de uma loja situada na estação de metropolitano da Alameda, em Lisboa, onde deixou o computador portátil e o iPad furtados para que se lhes fossem extraídas as informações, revelou em interrogatório que não tinha conseguido tirar nada. Os aparelhos estavam bloqueados por códigos de segurança e não foi possível fazer nada.

A acusação detalha o interesse de Miguel R. pela temática da espionagem, sendo que em 2024 mostrou a uma jovem com quem se tinha envolvido uma notícia a que alterou o texto, o título e as imagens. Queria fingir ser um espião com passaporte português que passou informações da NATO à Rússia em 2008.

Miguel R: Espião da Rússia ou mentiroso compulsivo?

Os investigadores também apuraram que, em 2023, Miguel R. esteve mesmo na Ucrânia. Dentro de um comboio em território ucraniano a escassos quilómetros de distância da fronteira russa, tirou uma fotografia ao espelho de uma casa de banho. Estava vestido à civil mas, na cintura, mostrava uma pistola. Tinha ainda uma balaclava preta posta e dois pins na camisola. Um deles tinha o símbolo dos paraquedistas, que o jovem nunca integrou, e o outro mostrava as cores de Portugal e da Ucrânia.

Em agosto desse ano, Miguel R. acabou detido por suspeita de espionagem em Lviv, a mais de 900 quilómetros de onde tinha tirado o seu autorretrato. Na altura, relatou que tinha chegado à Ucrânia como combatente voluntário e que trabalhava no Serviço de Informações de Segurança (SIS), o que a própria instituição confirmou ao MP que era mentira. Os procuradores tentaram saber mais sobre a detenção do falso espião em território ucraniano, mas tanto o Serviço de Segurança da Ucrânia, como o Centro Principal de Processamento de Informações Especiais (GCOS) do Serviço Estatal de Fronteiras da Ucrânia e as polícias local de Lviv e nacional responderam a Portugal que não tinham quaisquer registos em nome de Miguel R. nos respetivos sistemas.

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