Ele chama-se Walter Primrose. Ela, a sua mulher, Gwynn Morrison. Mas viviam há mais de 30 anos como Bobby Fort e Julie Montague. Em 1987, terão roubado a identidade de dois bebés mortos nesse ano e enterrados num cemitério perto do local onde o casal vivia nesse momento. Primrose e Morrison foram detidos esta semana, no Estados Unidos, precisamente por se apropriarem da identidade de bebés — mas a polícia encontrou muito mais material suspeito no momento da detenção.
A história foi conhecida no final desta semana e rapidamente ganhou uma dimensão maior do que se previa inicialmente, quando as autoridades avançaram para aquilo que seria o desfecho de um caso de roubo de identidades. Nas buscas à moradia do casal, no Havai, a polícia encontrou de tudo: entre kits de tinta invisível, documentos escritos em código e mapas militares, a polícia também encontrou fotografias — aparentemente tiradas na década de 1980 — dos dois elementos fardados com fardas em tudo semelhantes às que eram usadas pelos elementos da secreta soviética, o KGB.
Esses elementos fizeram escalar o caso, de suspeitas de roubo de identidade para a suspeita de estarem a planear um ataque contra solo norte-americano, falsas declarações (no requerimento de documentação pessoal, como o passaporte) e, também, roubo de identidade.
O procurador Wayne Myers, responsável pelo caso, diz que os suspeitos são “obviamente muito propensos a fazer-se passar por outras pessoas, obter documentos oficiais de identificação [da responsabilidade] do governo norte-americano, [cometer] fraude e a evitar serem detetados”. Ainda numa fase de investigação, Myers admite que, em particular, Walter Primrose “pode ter algumas relações suspeitas no estrangeiros. E, se as tiver, pode recorrer a elas para obter ajuda” — uma suspeita baseada nas imagens que a polícia encontrou na casa, e em que os dois elementos do casal surgem de farda, com várias medalhas ao peito.
As provas recolhidas fizeram recair sobre o casal suspeitas de que poderiam estar envolvidos em atos de espionagem.
Roubaram a identidade de bebés. Acabaram suspeitos de espionagem
A apropriação de identidades de bebés mortos é o princípio de um caso envolto ainda em grandes dúvidas. De acordo com a imprensa norte-americana, Walter e Gwynn terão assumido a identidade de dois bebés que morreram no mesmo hospital do Texas. Walter passou a apresentar-se como Bobby, que morreu em 1967. Gwynn passou a ser Julie, que morreu um ano mais tarde.
▲ As fotografias encontradas na casa de Walter e Gwynn em que surgem vestidos com um uniforme com semelhantes com as fardas usadas pelos elementos da secreta soviética, o KGB
Nos documentos de identificação, o casal teria agora mais cerca de 60 anos. Mas, na verdade, ambos nasceram em 1955, tendo, por isso, cerca de mais 10 anos do que a idade que atestam esses documentos falsos. No final da década de 1080, depois de se apropriarem da identidade dos bebés mortos, no Texas, Walter e Gwynn voltaram a casar, já como Bobby e Julie.
Ao mesmo tempo, o casal decidiu mudar de localização, saindo do Texas. Aos familiares, terão dito que se preparavam para integrar um programa de proteção de testemunhas e, por isso, todo o conteúdo que fosse encontrado naquela que era, até então, a sua casa podia ser recolhido por quem o desejasse.
De acordo com o procurador responsável pelo processo, o casal terá dito a pessoas próximas que “precisavam de mudar de nome por razões legais e financeiras”.
“Ela quer que todos saibam que não é uma espia”
Os advogados de defesa contestam a ideia de que Walter e Gwynn pudessem estar envolvidos em algum tipo de atividade de espionagem. Ainda sem grandes detalhes sobre as razões que o casal alega para ter assumido identidades falsas, o advogado de Walter acusa a justiça norte-americana de difundir “especulações e insinuações” sobre o processo.
“Se não fosse a especulação que o governo injetou nestes procedimentos, sem apresentar qualquer prova concreta ele seria certamente libertado”, defende Craig Jerome.
Walter ficou detido sem direito a caução. A mulher, Gwynn, é ouvida esta terça-feira para que um juiz determine se terá o mesmo destino que o marido ou se poderá sair mediante o pagamento de uma determinada verba. Para já, a advogada que a representa, Megan Kau, partilhou uma mensagem da sua cliente: “Ela quer que toda a gente saiba que não é uma espia.”
Se o tribunal vier a considerar Walter e Gwynn culpados de todos os crimes de que são suspeitos, o casal pode enfrentar uma pena de até 17 anos de prisão.