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epaselect epa12578735 (L-R) Ukraine's President Volodymyr Zelensky, British Prime Minister Keir Starmer, German Chancellor Friedrich Merz and French President Emmanuel Macron speak to each other as they depart from 10 Downing Street, London, Britain, 08 December 2025. The President of Ukraine is visiting Downing Street to meet the leaders of the UK, France, and Germany to discuss ongoing peace negotiations aimed at ending the Russia-Ukraine conflict.  EPA/TOLGA AKMEN
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TOLGA AKMEN/EPA

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Trump volta a pressionar Zelensky, europeus cerram fileiras e nenhuma parte quer ceder. As negociações "andam à voltas"

Trump quer uma resposta rápida de Zelensky à proposta atual que, com o apoio firme dos líderes europeus, recusa ceder e abdicar do Donbass. Mediação dos EUA não consegue desbloquear o novo impasse.

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“Hoje, os americanos estão à procura de um compromisso, vou ser franco”. Foi assim que Volodymyr Zelensky classificou a mais recente ronda de negociações para um acordo de paz, que levou a delegação ucraniana a viajar até Miami, na Florida, durante o fim de semana para um encontro com os representantes de Donald Trump. O encontro revelou-se “difícil” — na procura de um compromisso, os norte-americanos continuam a pressionar Kiev a ceder, principalmente no que toca à questão territorial —, mas o Presidente ucraniano recusa dar um passo atrás.

“A Rússia está a insistir que abdiquemos de territórios, mas nós não queremos ceder nada. Até agora, não houve um compromisso“, declarou Zelensky na segunda-feira à noite, num balanço da mais recente ronda de negociações. Confrontado com essa realidade, propôs-se a apresentar, ainda esta terça-feira, um documento alternativo, traçado em conjunto com os aliados europeus. A firmeza do Presidente ucraniano em não ceder nenhuma parte do Donbass aos russos colocou-o novamente na linha de fogo do Presidente norte-americano, impulsionador das negociações.

“Bem, ele tem de se tornar mais expedito e começar a aceitar coisas. Porque quando se está a perder e ele está a perder…”, criticou Donald Trump, numa entrevista ao Politico publicada esta segunda-feira. As críticas surgiram um dia depois de o líder norte-americano se ter revelado “desiludido” com a postura do homólogo ucraniano durante as negociações. Mas Trump não ficou por aí: apontou à fraca posição militar da Ucrânia e à capacidade de Zelensky para “vender qualquer produto a qualquer altura” — uma acusação velada de que manipula os seus aliados para obter apoios. Críticas feitas, Trump terá deixado um prazo de poucos dias para Kiev aceitar a proposta atual — a mesma que não satisfez Zelensky — e criar condições para a paz até ao Natal, avançou o Finantial Times.

Donald Trump repetiu ainda a crítica à falta de eleições no país, devido à lei marcial. Mas, neste crítica, Zelensky acabou por ceder, tendo anunciado esta terça-feira que irá pedir ao Parlamento ucraniano que reveja a Lei de forma a poder levar o país a eleições presidenciais sem levantar a lei marcial — o que poderia acontecer já no início de 2026.

▲ Depois de uma melhoria nas relações, Zelensky está novamente debaixo de fogo de Trump

ZelenskyyUa via X

Por oposição, Trump continua a aproximar-se da Rússia, que considera ter “a melhor mão” na guerra e estar “de acordo” com a proposta de paz que neste momento está em cima da mesa. A avaliação do Presidente norte-americano vai, contudo, totalmente de encontro à análise mais recente do Kremlin, em que um conselheiro de Vladimir Putin considerou que o texto precisava de “mudanças radicais” de forma a poder ser aceite. Com as emendas feitas por Kiev e as “mudanças radicais” exigidas por Moscovo, os 28 pontos apresentados pelos Estados Unidos há apenas algumas semanas parecem estar há muito esquecidos.

Uma “lista de desejos” russa ou uma proposta dos EUA? O “caos” em redor das negociações do acordo de paz para a Ucrânia

Mas esta progressão das negociações não é inédita. “É muito falar para trás e para a frente. Francamente, às vezes pergunto-me sobre o que continuam a falar porque os pontos são sempre os mesmos”, comentou Anna Rosenberg, responsável de geopolítica do Instituto de Investimento Amundi. As negociações “andam aos círculos”, rematou em declarações à CNBC.

Trump só queria que Zelenksy lê-se a proposta. Zelensky leu — mas continua a não ceder no Donbass

O Donbass é ucraniano e assim continuará. A certeza está presente nas declarações de Zelensky que, uma e outra vez, recusa entregar à Rússia as partes da região mais a leste do país, que Moscovo ainda não conseguiu ocupar. A justificação para a decisão é tripartida. Em primeiro lugar, trata-se de uma questão relevante de estratégia militar, já que a ocupação da totalidade do Donbass facilitaria a tomada de outras partes da Ucrânia, devido às características geográficas e às defesas que foram montadas no terreno.

As outras duas justificações são aquelas que Kiev mais utiliza abertamente: a questão legal e “moral”. A questão legal prende-se com o facto de a Constituição ucraniana reconhecer o país com limites nas fronteiras de 1996. É por esse mesmo motivo que a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, continua a ser a reconhecida como um território ucraniano ocupado. A mesma soberania territorial é prevista pelo Direito Internacional, como destacou Zelensky. O Presidente olha ainda para a questão “moral” — ou seja, na recusa em ceder ao imperialismo russo.

A leitura é partilhada pela maioria da população ucraniana. Um inquérito do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS) de outubro de 2025 revela de 54% dos inquiridos recusa categoricamente fazer concessões territoriais como forma de pôr fim à guerra — o número tem vindo a diminuir ao longo da guerra, mas mantém-se elevado. “O Kremlin continua a fazer mal as contas ao acreditar que escalar o sofrimento através de ataques contra infraestruturas civis e áreas residenciais irá virar os ucranianos contra os seus líderes”, consideram Sergiy Tsivkach e Romina Bandura, analistas do Projeto de Prosperidade e Desenvolvimento do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

epaselect epa12480985 Ukrainian experts work at the site of a Russian missile strike in Kyiv, Ukraine, 25 October 2025, amid the Russian invasion. At least two people were killed and 13 others injured after Russian forces launched an overnight attack on Kyiv, the State Emergency Service of Ukraine reported.  EPA/SERGEY DOLZHENKO

▲ Apesar da destruição, mais de metade dos ucranianos continuam a recusar concessões territoriais

SERGEY DOLZHENKO/EPA

Contudo, os números não chegam para convencer Donald Trump da inclinação na opinião pública ucraniana. No domingo à noite, o Presidente expressou a sua “desilusão” com Zelensky pelo facto de o líder ucraniano “não ter lido” a proposta que tinha sido discutida durante esse mesmo dia em Miami. “As pessoas dele adoraram, mas ele não”, criticou, em declarações num evento no Kennedy Center. Cerca de 24 horas depois, na entrevista ao Politico, Trump repetia as declarações, acrescentando que também “os tenentes, as pessoas de topo” de Kiev tinham gostado da proposta. “[Ele não tinha lido a proposta] ontem [domingo]. Se calhar leu durante a noite”, admitia.

A possibilidade apresentada por Trump estava correta. E, no domingo à noite, Zelensky já tinha explicado o porquê de ainda não ter lido a proposta: esperava o regresso da delegação ucraniana que tinha estado em Miami para tomar conhecimento dos detalhes. “Alguns temas só podem ser discutidos pessoalmente“, justificou na sua habitual declaração noturna no domingo. Porém, leitura da proposta tão desejada por Trump não dissuadiu Zelensky. O Presidente saudou o facto de os “pontos explicitamente anti-ucranianos” dos originais 28 terem sido retirados do texto, mas reiterou que não houve acordo.

Para além dos territórios, Kiev continua a precisar de garantias de segurança muito mais explícitas — por agora, a única certeza será que a adesão da Ucrânia à NATO não está em cima da mesa. Ora, a proposta atual continua a referir-se apenas a “garantias de segurança”, sem concretizar detalhes. “[A proposta] “está mais próxima de ser exequível para a Ucrânia, mas não é fácil e não está concluída”, resumiu um responsável ucraniano ao Washington Post. As reservas ucranianas chocam com o prazo curto prazo definido por Trump para Kiev apresentar uma resposta à proposta.

A “digressão europeia” de Zelensky fortalece a sua “mão”. Mas Kiev precisa de mais cartas

Volodymyr Zelensky começou a semana na Ucrânia, mas rapidamente seguiu para Londres. Mais precisamente para Downing Street, onde se reuniu com os líderes da Alemanha, de França e do Reino Unido. A visita foi breve e menos de três horas depois de ter chegado, partia para Bruxelas, onde, à hora do jantar, se reuniu com os responsáveis da NATO e da União Europeia. Terça-feira começou bem cedo, em Roma: primeiro, um encontro com o Papa, depois com a primeira-ministra italiana. A preferência de Zelensky em discutir os temas “presencialmente” é visível na frequência das suas “digressões europeias”, em que percorre as principais capitais do continente para encontros com os seus maiores aliados.

Os encontros desta semana são particularmente importantes, dado o novo afastamento dos Estados Unidos, que continuam a ser o maior aliado da Ucrânia. Mas os especialistas alertam que as visitas, por si só, não são suficientes. “A liderança política da Ucrânia tem de se adaptar a uma paisagem geopolítica em rápida mutação. No futuro, as suas ações devem ser proativas e não reativas”, argumentam Tsivkach e Bandura, do CSIS. Os especialistas destacam a necessidade de a busca da Ucrânia por apoio ser feita a longo prazo, com uma aposta na economia e na democracia ucraniana — o que inclui, sublinham, o combate à corrupção que tem assombrado o Executivo de Zelensky nas últimas semanas.

"Na verdade, eu gosto do grupo atual. Gosto muito deles, conheço-os muito bem (...) mas eles não estão a fazer um bom trabalho. Falam muito, mas não produzem. E a guerra continua (...) Acho que são fracos [porque] querem ser politicamente corretos."
Donald Trump sobre os líderes europeus, em entrevista ao Politico

Apesar dos defeitos apontados, a estratégia de Zelensky de contacto direto com os seus aliados continua a dar frutos. Principalmente numa altura em que Trump se tornou mais agressivo contra os seus aliados transatlânticos. Depois da publicação da Estratégia de Segurança Nacional na semana passada, Trump voltou ao ataque, ao classificar os líderes europeus como “fracos”. “Na verdade, eu gosto do grupo atual. Gosto muito deles, conheço-os muito bem (…) mas eles não estão a fazer um bom trabalho. Falam muito, mas não produzem. E a guerra continua“, declarou ao Politico. “Acho que são fracos [porque] querem ser politicamente corretos”, acrescentou.

Ainda antes de Trump ter disparado estas palavras, alguns líderes europeus pareciam estar dispostos a pôr o “politicamente correto” de lado. Em Downing Street, na segunda-feira à tarde, Merz, Macron e Starmer mostraram-se particularmente sérios. “É claro que isto não foi meramente mais uma oportunidade de fotos desenhada para demonstrar apenas solidariedade a Zelensky”, analisava o The Guardian durante as breves declarações dos líderes aos jornalistas.

Declarações essas em que Emmanuel Macron garantiu que a Ucrânia e a Europa “têm muitas cartas na mão” — uma referência ao encontro de fevereiro na Casa Branca, em que o vice-Presidente norte-americano acusou Zelensky de não ter cartas; a analogia voltou a ser utilizada por Trump na entrevista desta segunda-feira para enaltecer a posição, a “mão”, da Rússia. Já Friedrich Merz, que durante toda a carreira primou pela valorização da relação transatlântica, foi ainda mais longe.

“Estou cético em relação a alguns dos pormenores que estamos a ver nos documentos provenientes dos EUA. É por isso que estamos aqui”, declarou. As desconfianças dos europeus em relação à mediação norte-americana que, até agora, eram feitas em reuniões privadas parecem ter-se tornado cada vez mais evidentes.

epa12158335 US President Donald Trump (C-R) and German Chancellor Friedrich Merz (C-L) meet at the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 05 June 2025.  EPA/CHRIS KLEPONIS / POOL

▲ Merz, grande defensor da aliança transatlântica, diz estar "cético" com a mediação dos EUA

CHRIS KLEPONIS / POOL/EPA

Um negócio de imobiliário ou uma questão complexa de geopolítica? As limitações dos mediadores

“De cada vez que olho no mapa, eu digo ‘oh, esta Crimeia é linda‘. É rodeada de oceano a toda a volta, só tem este pequeno pedacinho de terra para chegar [ao continente]. (…) Tem o melhor tempo, o melhor tudo”. Os elogios à península ucraniana anexada pela Rússia há mais de uma década podiam ter sido feitos por um qualquer líder ucraniano. Mas, na verdade, pertencem a Donald Trump. As palavras ditas imediatamente antes ajudam a perceber o interesse do Presidente norte-americano pelo território: “No fundo, eu sou uma pessoa do imobiliário. Eu sou muito bom no imobiliário”.

Essa mesma preferência do chefe de Estado norte-americano estaria presente no documento original dos 28 pontos, contemplado na possibilidade de Moscovo e Washington explorarem em conjunto oportunidades económicas nos territórios do Donbass. Segundo relatos da imprensa internacional — o documento nunca foi tornado público — este terá sido um dos pontos retirados nas negociações posteriores com os ucranianos e que Zelensky classificou mais tarde como “explicitamente anti-ucranianos”. Pavel K. Baev, analista do Peace Research Institute Oslo (PRIO) considera que a preferência de Trump pelo imobiliário pode ajudar a explicar por que motivo as negociações “andam às voltas”.

“Parte [do problema] é a abordagem das negociações como uma negociata em que os cálculos dos benefícios potenciais para os EUA são misturados com expectativas de ganhos pessoais. Para [Steve] Witkoff, tal como para Trump, a guerra não faz qualquer sentido e impede a realização de negócios lucrativos”, escreveu Baev num artigo de análise publicado esta terça-feira. A outra parte do problema, critica, é o facto de os norte-americanos “não terem conhecimento da história e geopolítica” da região e, por isso, “consumirem de forma acrítica a narrativa de Putin das ‘razões profundas'” para a guerra.

No entanto, é esse mesmo conhecimento da História, que faz com que os aliados europeus se recusem a negociar diretamente com Vladimir Putin, o que faz com que não possam servir de mediadores às negociações na mesma medida em que Trump e os seus enviados têm feito. O que mais pesa, notam repetidamente os especialistas, são os acordos de Budapeste, de 1994, em que a Ucrânia aceitou entregar as suas armas nucleares em troca de garantias de segurança, ou os acordos de Minsk, em 2015, que garantiam o “congelamento” das batalhas no Donbass depois da anexação ilegal da Crimeia. Em ambos os casos, apesar de um acordo ter sido assinado, a Rússia voltou a pegar nas armas contra a Ucrânia.

epa12303633 US President Donald Trump (R) and Russian President Vladimir Putin pose on the podium on the tarmac after they arrived to attend a meeting at Joint Base Elmendorf-Richardson in Anchorage, Alaska, USA, 15 August 2025.  EPA/GAVRIIL GRIGOROV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL MANDATORY CREDIT

▲ A visão comercial de Trump da guerra afeta a forma como conduz as negociações

GAVRIIL GRIGOROV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL/EPA

Apesar das limitações, os europeus mantêm uma posição irredutível: ao lado de Zelensky, sem quebrar laços de forma permanente com Trump. “De uma forma geral, a opção mais realista é mantermo-nos onde estamos“, avaliou um responsável sénior europeu, familiarizado com as negociações, ao Politico. Também este responsável vê parte da culpa na estratégia norte-americana de negociar ao ritmo de Putin. “Talvez Trump também queira que isto [o acordo] aconteça rápido, por isso a sua equipa é forçada a explicar que eles não são os culpados por isto não estar a acontecer tão rápido como ele queria”, critica.

Ainda assim, também ele reconhece o que muitos analistas e líderes europeus continuam a dizer: os norte-americanos continuam a ser a melhor opção para mediar o conflito, mas a colaboração com a Europa pode ajudar a colmatar alguns obstáculos. “É importante a forma como a América se comporta: um mediador ou vai inclinar-se na direção dos russos?”, rematou.

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