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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um ano depois das polémicas em São Carlos, presidente da administração promete paz: "Temos todos de ceder um pouco" /premium

Conceição Amaral garante início das obras no Teatro de São Carlos, sugere que relação com trabalhadores já não é tensa e fala do panorama pós-covid. É a primeira entrevista desde que assumiu funções.

Numa sala cheia de obras de arte — candelabro, cómoda, espelhos de aparato e quatro pinturas a óleo, numa delas o barão Joaquim Pedro Quintela — situa-se o gabinete de trabalho de Conceição Amaral, presidente da maior estrutura pública de criação artística em Portugal, o Opart, com 375 pessoas ao serviço, incluindo técnicos, coralistas, instrumentistas, bailarinos e trabalhadores administrativos. Estamos no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. O estado de conservação do edifício faz prova de como o património está envelhecido e pede a renovação que há décadas vai chegar e não chega.

E, no entanto, desde há cerca de três semanas há andaimes na fachada que dá para a Rua Serpa Pinto. O objetivo é o de reabilitar a cornija, o que se prevê estar concluído em meados de julho. Pela mesma altura, durante quatro a cinco meses, todo o teatro lírico terá direito a obras estruturais: fachada principal, palco, instalações elétricas, bar, acessibilidades para público e funcionários. “O projeto está aprovado e o financiamento existe”, compromisso de Conceição Amaral, durante uma entrevista ao Observador, a primeira desde que assumiu funções. É o concretizar de um anúncio feito há um ano pela ministra da Cultura, Graça Fonseca, e que então soou a procedimento já em curso. Custo anunciado: três milhões de euros. “As obras são urgentes, mais que nunca. Este é o ano das obras”, sublinha Conceição Amaral.

Nesta enorme estrutura chamada Organismo de Produção Artística (Opart), a que pertencem o São Carlos (TNSC), a Companhia Nacional de Bailado (CNB) e os Estúdios Victor Córdon (EVC), os últimos anos ficaram marcados por relações tumultuosas entre trabalhadores e administradores, mas agora a reabilitação do edificado parece um sinal de ventos de mudança. E há mais.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O tom da nova responsável é apaziguador. Garante que até outubro fica fechado um Acordo de Empresa, onde necessariamente estarão definidas remunerações de técnicos e artistas do TNSC e da CNB — as principais questões que no ano passado  levaram a greves, manifestações e cancelamentos de espetáculos. “Tem corrido muito bem, há reuniões de 15 em 15 dias”, pormenoriza.

Mensagem semelhante partilhou esta semana com o Observador Rui Galveias, porta-voz do sindicato envolvido no Acordo de Empresa, o Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (Cena-STE): “Está-se a trabalhar e a negociar de forma normal. As negociações estão a ser intensas e vão estender-se para lá do calendário previsto.”

De caminho, a presidente do Opart aponta a relevância artística dos trabalhadores da casa, evita o tema da falta de dinheiro mas deixa garantias de que as condições de trabalho vão melhorar. Promete atenção aos problemas criados pela pandemia e comenta a realização do conhecido Festival ao Largo, que este ano se muda do Chiado para o Palácio da Ajuda, devido às restrições impostas pelas autoridades de saúde no contexto da covid-19 (a programação foi divulgada na sexta-feira).

Quanto a uma segunda promessa da ministra da Cultura, também há um ano, de que tinha sido encontrado “um novo espaço de ensaio” para a Orquestra Sinfónica Portuguesa, não era senão uma promessa, ao que se percebe.

“Tenho indicação de que havia um espaço disponível, mas entretanto concluiu-se que o espaço não tinha condições”, adianta Conceição Amaral. “Em nenhum momento o Opart impõe condições ou espaços. Há conversas com a orquestra e continuamos à procura de um espaço adequado. É preciso investimento na recuperação”, defende, apontando de seguida a novidade:

“Não está posto de parte encontrarmos uma sala de ensaios dentro do São Carlos. Pessoalmente, aposto nessa hipótese e a tutela já se manifestou interessada em encontrar uma solução o mais depressa possível. Facilitaria tudo. A logística de levar instrumentos e pessoas para uma sala de ensaios fora daqui custa muito e provavelmente ao fim de cinco ou seis anos compensa o investimento em obras de adaptação que podemos fazer cá dentro.”

Festival ao Largo acontece no Palácio da Ajuda entre 10 e 25 de julho, abandonando por uma vez o Largo de São Carlos onde decorria desde há 11 anos

RICARDO BRITO

O Opart é uma entidade pública empresarial com dupla tutela do Ministério das Finanças e do Ministério da Cultura. Tem sede no Chiado e foi estabelecido em 2007 pelo Governo de José Sócrates para gerir a fusão do Teatro Nacional de São Carlos (incluindo a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o coro do teatro) com a Companhia Nacional de Bailado (de que faz parte o Teatro Camões e de que se autonomizaram os Estúdios Victor Córdon em 2017). A historiadora de arte Maria da Conceição Amaral, de 53 anos, chegou em janeiro. Até então dirigia o Museu de Artes Decorativas Portuguesas, da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, onde acumulou a presidência. Antes disso tinha sido diretora do Museu de Arqueologia de Silves, de 2003 a 2006.

Sucedeu ao dentista e jurista André Moz Caldas — que saiu de chefe de gabinete do ministro das Finanças Mário Centeno, entrou no Opart em julho de 2019 e passados quatro meses já estava de regresso ao Governo, onde se mantém como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros.

Conceição Amaral não iniciou novo mandato, prosseguiu o de André Moz Caldas e termina em dezembro do próximo ano. A secundá-la na administração continuam o economista Alexandre Miguel Santos e a violinista e compositora Anne Victorino d’Almeida.

Bailarinos da Companhia Nacional de Bailado regressaram aos treinos a 18 de maio, depois de quase três meses de confinamento

ANTONIO COTRIM/LUSA

Chegou a esta casa depois de um período de guerra aberta entre a administração do Opart e os trabalhadores da casa. Porque é que aceitou o cargo?
O desafio foi uma surpresa, por não ser esta a minha área direta de formação. Estava habituada à gestão de património, de equipas e de projetos. Ter aceitado foi talvez o maior desafio da minha vida e ao mesmo tempo uma grande honra. Esta casa é grande e extraordinária. Vim com vontade de ajudar a resolver problemas e muitos deles têm de ser vistos como desafios que nos ajudam a melhorar.

Quer dar um exemplo?
A comunicação interna. O Opart tem três grandes estruturas, o Teatro Nacional de São Carlos, a Companhia Nacional de Bailado e os Estúdios Victor Córdon, que por sua vez têm outras subestruturas. Estão fisicamente separadas, em espaços diferentes com autonomias e direções artísticas diferentes. Uma administração não deve fazer gestão artística, tem de respeitar as direções artísticas. O meu lugar é o de permitir e criar as melhores condições para todos desempenharem as suas funções. Somos exemplares na qualidade, na missão de serviço público que desempenhamos em Portugal e lá fora, mas temos de olhar para dentro da instituição, criar as melhores condições e harmonizar todas as necessidades internas, que são muitas. Na distribuição de pelouros que fizemos quando entrei, em janeiro, ficaram sob a minha tutela áreas como a comunicação interna e externa, a área técnica, a área de manutenção e gestão do património e dos arquivos. A distribuição de pelouros pelo conselho de administração permite-nos estar com todos no dia-a-dia, estamos permanentemente presentes.

Isso é novo?
É novo.

"Temos urgentemente de olhar para para a necessidade de integrar mais jovens nos corpos artísticos. É talvez um dos grandes desafios desta administração. Claro que isso tem implicações orçamentais, mas há outras formas de o fazer."

Quer comentar o breve consulado do seu antecessor, André Moz Caldas? Ficou a sensação de que pelo menos conseguiu estancar a contestação dos trabalhadores e reiniciar negociações.
Fui nomeada para continuar um mandato em curso, que tinha começado em julho de 2019, num momento de grande dificuldade, com uma tensão que se extremou. As negociações e o diálogo foram retomados. Não me vou alongar, porque estou a dar continuidade a esse trabalho. No pouco tempo em que o antigo presidente do conselho de administração aqui esteve, fez um trabalho excecional, começou a harmonização interna. Todos temos expectativas, quer trabalhemos em instituições privadas ou do Estado. Se não há explicações sobre porque é que determinado aspeto não se concretizou, as situações extremam-se desnecessariamente. O que o doutor André Caldas fez, e muito bem, foi retomar o diálogo. Herdei, por exemplo, a negociação de um Acordo de Empresa…

O Acordo de Empresa implica a aprovação do muito falado regulamento interno de que dependeria o aumento de salário dos trabalhadores do São Carlos?
O Acordo de Empresa envolve o sindicato e o Opart para se criarem as melhores condições para os funcionários e para harmonizar os vários regulamentos internos dos diversos corpos artísticos. Esses regulamentos internos continuam, estão a ser discutidos e serão anexados ao Acordo de Empresa. Têm sido muitas as reuniões com o Cena, o sindicato. Em janeiro reorganizámo-nos para que as negociações fossem mais rápidas, mas penso que é melhor um bom acordo, com o seu tempo de negociação, em que ouvimos todos, do que uma negociação à pressa para cumprir um prazo que noutro contexto se pensou que era possível. Tem corrido muito bem, há reuniões de 15 em 15 dias, sempre participadas por delegados sindicais. Temos tido o cuidado de comunicar os progressos junto dos trabalhadores não sindicalizados.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Houve interrupção durante o confinamento?
Fizemos à distância. O tempo da pandemia até nos permitiu avançar mais, porque todas as pessoas estavam mais disponíveis. Chegámos a ter 10 a 12 pessoas em algumas das reuniões online.

Tem estado em todas as reuniões?
Em todas. Estamos a mais de meio da discussão.

As questões salariais já foram discutidas?
Isso acontecerá numa fase final, até porque tudo o que está para trás — a progressão nas carreiras, o número de elementos em cada corpo artístico, as disposições gerais, os horários de trabalho — precisa de ser abordado antes de discutirmos as remunerações.

Quando é que estará fechado?
Quando o Acordo de Empresa começou a ser discutido, em setembro do ano passado, estabelecemos julho de 2020 como prazo para fechar as negociações, o que não será possível. Esperamos que todas as cláusulas estejam discutidas e avaliadas entre a administração e o sindicato nos próximos três a quatro meses, para que depois possam ir às duas tutelas e ao sindicato para serem apreciadas como um todo.

Todas as administrações tiveram sempre falta de dinheiro. Como é que gere as expectativas dos trabalhadores quando o Ministério das Finanças e o Ministério da Cultura não fazem crescer o orçamento do Opart?
As questões orçamentais são sempre… Não podemos esquecer que passámos uma crise, em que houve muita contenção, com necessidade de ajustar a realidade artística ao orçamento disponível. Esse tempo de maiores restrições já passou, há hoje uma realidade diferente, com o orçamento possível para trabalharmos com a dignidade de que estas estruturas precisam. Mas há necessidades não apenas orçamentais. As questões de espaço, por exemplo. A necessidade de diálogo constante. Ou o repensar a continuidade de pessoas e grupos artísticos excecionais da Companhia Nacional de Bailado, do Coro do TNSC e da Orquestra Sinfónica Portuguesa. São corpos artísticos que devem ser rejuvenescidos. Precisamos de dar soluções a quem está no auge da sua carreira, mas tem que ter a seu lado gente mais nova, a quem seja dada oportunidade de trabalhar com os mestres. Temos urgentemente de olhar para aí, para a necessidade de integrar mais jovens nos corpos artísticos. É talvez um dos grandes desafios desta administração. Claro que isso tem implicações orçamentais, mas há outras formas de o fazer, através de parcerias com universidades e escolas.

Parece estar a sugerir que Opart um dia vai deixar de ter corpos artísticos próprios e passará a trabalhar apenas com artistas externos.
Não, pelo contrário. Na orquestra temos falta de instrumentistas. O ideal, pela informação que tenho, são 112 elementos e neste momento temos 96, 97. Sempre que é necessário, temos de ir buscar reforços [externos] para algumas prestações. Como não temos vagas no quadro, torna-se difícil preencher esses lugares. A administração tem de fazer o quê? Estamos a elaborar o novo contrato-programa, para mais três anos [2021 a 23], e por aí temos de alertar as tutelas para esta questão. Não é a grande prioridade neste momento, porque a pandemia veio alterar o panorama e obrigou-nos, entre outras coisas, a fazer programação com menor número de artistas. Temos não de nos reinventar, mas de nos adaptar. A nova realidade é de distanciamento social obrigatório e de mais ensaios, porque temos menos pessoas autorizadas por ensaio. A renovação dos corpos artísticos é urgente, mas no curtíssimo prazo não é a maior prioridade.

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Falemos da programação. Houve reprogramação e adiamentos por causa da pandemia. É possível neste momento programar a um ano?
Dificilmente. Tudo o que foi suspenso foi reagendado e estamos a repensar a programação. Não podemos fazer uma ópera como tem de ser feita, porque não está autorizada a atuação de músicos em fosso de orquestra. Não podemos ter os 68 membros do coro em palco, quando as regras nos obrigam a  ter um distanciamento entre coralistas. Já prevíamos que o regresso depois do confinamento ia ser um tempo muito, muito difícil.

Os bailarinos da CNB já voltaram a treinar?
Foram os primeiros. Cerca de três meses de paragem é de uma violência assustadora para estes profissionais. No dia 18 de maio começaram com treinos facultativos, no Teatro Camões, em grupos faseados. Todos quiseram começar, precisavam desesperadamente de treinar. Esta paragem obriga-os a um tempo de treino, a um tempo de aulas diárias, depois ensaios e só depois os espetáculos. Numa companhia com bailarinos profissionais esta necessidade não é compatível com uma programação de urgência. Se a orquestra, com ensaios, mais rapidamente consegue retomar, com os bailarinos tudo demora muito mais. Tenho assistido a alguns ensaios e tem sido extraordinário.

"Não consigo estar ausente. Quero envolver-me, para que o pequeno problema não se expanda e se torne um grande problema. Resolver os pequenos problemas passa, na maior parte das vezes, por uma boa comunicação interna."

Tem ido pessoalmente ao Teatro Camões? Há um interesse em acompanhar de perto?
Até demasiado. Não consigo estar ausente. Voltando à primeira pergunta: o desafio de vir para aqui foi enorme mas tem-se transformado também numa grande paixão. Quero envolver-me, para que o pequeno problema não se expanda e se torne um grande problema. Resolver os pequenos problemas passa, na maior parte das vezes, por uma boa comunicação interna. A administração existe para resolver os problemas e para isso tem de saber exatamente quais são. É quase um trabalho de tricot no dia-a-dia, para construir confiança. As pessoas não me conheciam e daí talvez a maior exigência que faço a mim própria para perceber tudo. Consumo cultura há muitos anos, assistia às óperas, aos concertos sinfónicos, sou uma apaixonada por dança, tudo isto me era muito familiar como espectadora. Não imaginava a máquina, o antes do espetáculo, o dia-a-dia, a necessidade que estes corpos artísticos têm de boas condições de trabalho e paz… Precisam de ter a confiança de que alguém está a resolver os problemas.

Há paz neste momento no TNSC e na CNB?
Estamos todos angustiados com os tempos de exceção que vivemos. Não consigo ainda fazer uma avaliação dos seis meses que passei aqui, porque três deles foram em casa. Apesar disso, nunca parámos, vim sempre aqui semanalmente. Quando digo que estamos a trabalhar para uma paz interna, falo de uma dedicação de todos, todos os dias. Temos todos de ceder um pouco, para chegarmos a um acordo bom para todos. Não vamos de repente mudar tudo, temos de ir mudando.

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Voltando à CNB: há uma data para o regresso aos espetáculos?
O lema neste momento é “devolver confiança”. Foi preciso falar com os colegas, as direções artísticas explicarem às equipas quem pode ou não ir ao local de trabalho, quem fica em teletrabalho, quem fica com horários alternados. Tivemos de reorganizar o trabalho, mas o foco é começar a preparar espetáculos. A orquestra já fez um concerto no dia 10 de junho e vamos ter duas galas de ópera [26 e 28 de junho no TNSC e 1 e 2 de julho no Coliseu do Porto]. Esta programação é extraordinária, não estava prevista, é feita sem o tempo que todos gostaríamos de ter. Por isso mesmo, estamos a ir buscar espetáculos que requerem menos tempo de ensaio, mas que dão mais confiança às equipas, até para que estejam mais à vontade quando se der um regresso à atuação em sala fechada.

E qual será a primeira apresentação da CNB?
Vai ser no Millennium Festival ao Largo, a 23 de julho. O programa inicialmente previsto não irá acontecer, vamos apresentar solos com os nosso bailarinos e com jovens coreógrafos. Nos Estúdios Victor Córdon temos feito um trabalho de residências artísticas com jovens coreógrafos, profissionais independentes. Têm feito um trabalho excecional, muitos deles não tinham onde fazer o seu treino, e ali encontram um espaço de trabalho que cedemos gratuitamente.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Porque é decidiram fazer o Festival ao Largo no Palácio da Ajuda?
O festival tem a sua casa-mãe no TNSC, este ano fica órfão, porque não pode acontecer aqui, o distanciamento torna o espaço pequeno. Temos de ter o maior número possível de público. Se fosse aqui, teríamos apenas 150 lugares, seria uma edição anormal. Tivemos várias hipóteses em cima da mesa, a Ajuda reúne condições de segurança, de controlo de acessibilidades, de controlo de lugares. Não precisamos sequer de desmontar o palco, pode ficar ali durante três semanas. E além disso temos salas do palácio disponíveis para os ensaios, é uma retaguarda logística fundamental. Foi muito difícil encontrar um espaço em Lisboa, mas finalmente encontrámo-lo na Ajuda.

A ministra da Cultura, e não só, tem insistido na retoma da atividade cultural nos meses de verão. Há poucos dias ficámos a saber que a ópera A Valquíria tinha sido adiada de março para outubro mas afinal não se vai realizar, porque as “restrições anunciadas pelas autoridades de saúde são incompatíveis com a apresentação” do espetáculo. A retoma cultural é bastante mais complicada do que parece?
É complicada.  Durante o confinamento a senhora ministra da Cultura fez várias reuniões online com grupos ligados à cultura, dos teatros, das bibliotecas, dos arquivos, dos museus, para todos pudéssemos perceber como voltar à normalidade. Todas estas estruturas que referi têm restrições diferentes entre si. As orquestras, as companhias de dança, os grupos de teatro, os coros, são os mais fustigados pelas restrições. São corpos artísticos de conjunto, com grupos de pessoas, o que não se conjuga com o distanciamento social obrigatório. Todos sentimos o impulso de reagendar espetáculos. A Valquíria, uma parceria com o Centro Cultural de Belém e o Coliseu do Porto, exigia aos artistas uma prestação que sairia afetada pelo distanciamento. A apresentação seria no CCB, que fez um esforço enorme, mas depois percebemos que a orquestra, por muito esforço que fizéssemos, não cabia lá. Não seria possível oferecer a melhor qualidade possível ao público.

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