A cantora lírica Elisabete Matos inicia funções a 1 de outubro como diretora artística do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, e já tem definidas algumas prioridades. Nesta quinta-feira, ao Observador, disse que vai “abrir as portas do teatro a outros públicos que até agora possam não se ter sentido identificados com o São Carlos”, e para isso terá de “começar com o público mais recetivo, os nossos filhos”, com o objetivo de “criar uma política cultural que os leve a amar a música e a assistir a uma récita pelo menos uma vez por ano”. Planeia “pôr de pé, com a ajuda dos corpos estáveis do teatro, uma programação sinfónica, de ópera e de ballet adequada a cada momento da educação” dos mais novos. Além disso, pretende apresentar “outras músicas, como o jazz, ou outras mais populares”, como “parte de uma programação complementar, para aqueles que queiram vir ao teatro fora do contexto habitual da programação”.

É a primeira vez que o Teatro Nacional de São Carlos vai ter uma mulher à frente da direção artística e é também a primeira vez que uma artista em plena carreira desempenha tais funções. Os dois factos foram referidos pelo Observador à própria nomeada, que reagiu desta maneira, em resposta enviada por escrito: “Em relação a ser a primeira mulher a dirigir artisticamente o São Carlos, perdoe-me, mas penso que já era hora. Vivemos numa sociedade onde mulheres e homens têm as mesmas capacidades e, portanto, o direito a ocupar os mesmos cargos.”

A nomeação foi anunciada na segunda-feira pelo Ministério da Cultura. Elisabete Matos sucede ao britânico Patrick Dickie, que comunicou a 25 de junho, “por razões pessoais”, não pretender continuar em funções após o termo da sua comissão, a 31 de agosto. O convite, informou a própria, foi-lhe dirigido pela ministra da Cultura, Graça Fonseca, “com o consenso” do Organismo de Produção Artística (Opart), entidade pública que desde 2007 administra o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado e que por sua vez tem a dupla tutela do Ministério da Cultura e do Ministério das Finanças.

Sobre o trabalho de Patrick Dickie, a nova diretora não se alongou. “Não pretendo, como senhora que sou, fazer considerações, até porque todos puderam ter a sua opinião durante o seu mandato. Desejo-lhe o melhor para o seu percurso futuro. Pela parte que me toca, será sempre bem-vindo em São Carlos.”

As temporadas lírica e sinfónica que agora se iniciam, e que se prolongam até ao verão de 2020, foram desenhadas pelo diretor cessante, mas deverão conhecer alterações. “Irei brevemente ter todas as informações necessárias para fazer o trabalho e os ajustes necessários em colaboração com o Opart”, referiu.

“O turismo, grande motor da nossa economia, pode ajudar-nos a ampliar o nosso orçamento. Aumentar o número de récitas do repertório mais popular de ópera e marcar assim uma visita obrigatória ao São Carlos, como uma entre as programadas aos visitantes de Lisboa”, adiantou a nova diretora. “Evidentemente, [vamos] abrir as portas às grandes empresas. O orçamento do teatro é pequeno e necessitamos de ampliar o nosso campo económico para investir na internacionalização, para que o nosso público mais culto, habituado aos grandes eventos desde o século XVII, possa continuar a ouvir e ver os melhores solistas portugueses e internacionais e as melhores produções europeias.” Em resumo, pretende “aumentar a atividade do teatro e programar a pensar nas necessidades de crescimento e desenvolvimento dos nossos corpos artísticos.”

[Elisabete Matos a interpretar em 2010 uma ária da ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini]

Não é o fim da carreira

Elisabete de Matos nasceu em 1970 na vila de Caldas das Taipas, concelho de Guimarães, estudou canto e violino no Conservatório de Música de Braga e aos 19 anos passou a estudar na Escola Superior de Canto de Madrid, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Vive na capital espanhola desde há cerca de 25 anos, mas viaja constantemente, devido as espetáculos que integra. É considerada a mais famosa soprano portuguesa e por estes dias encontra-se a ensaiar o papel de Brünnhilde de “O Crepúsculo dos Deuses”, de Richard Wagner, que a Ópera de Oviedo apresenta a partir de terça-feira, dia 10.

Com as novas funções, vai estabelecer-se em Lisboa durante os próximos três anos, o que não a impedirá de aceitar “trabalhos pontuais” enquanto intérprete. “Qualquer trabalho fora do âmbito do Teatro Nacional de São Carlos será devidamente analisado e viabilizado pela senhora ministra da Cultura e pelo Opart”, referiu.

Questionada sobre os motivos que a levaram a aceitar o cargo, respondeu que “toda a experiência adquirida ao longo de 30 anos de profissão por todas as casas de ópera internacionais, pelo contacto com encenadores, com maestros, colegas cantores e com encenações de todo o tipo” a deixam convicta de “ter o conhecimento e estratégias fundamentais para levar avante as necessidades” do São Carlos, “com inteligência e disciplina, ao serviço da arte e do público”.

O Opart esteve debaixo de fogo em junho, quando se iniciou um greve de técnicos e artistas representados pelo  CENA-STE (Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, do Audiovisual e dos Músicos). A crise parece ter terminado com o regresso ao diálogo e a nomeação em inícios de julho de um novo presidente do conselho de administração do Opart, André Moz Caldas, de 36 anos, ex-chefe de gabinete do ministro das Finança, Mário Centeno.

Elisabete Matos disse que aqueles problemas a deixaram muito preocupada, mas acrescentou ter conhecimento de que “estão a ser encontradas soluções que, em breve período, poderão trazer um clima de consenso e satisfação dento do nosso espaço de trabalho e também da Companhia Nacional de Bailado”. A nova responsável entende que “um rendimento elevado” dos funcionários do São Carlos só é possível “em condições onde nos sintamos respeitados e dignificados”.