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Um "sucesso" de nota 12 (em 10), que se focou na guerra comercial, mas pouco fez por outras guerras. O encontro entre Xi e Trump

Ao fim de 6 anos, a reunião entre Xi e Trump resultou numa trégua na guerra comercial que ainda tem de ser assinada. Muito menos atenção foi dada aos esforços de paz de Trump nos vários continentes.

Numa escala de 0 a 10, como avalia a reunião com Xi Jinping na Coreia do Sul? A questão foi colocada a Donald Trump a bordo do Air Force One, quando já regressava a Washington. “Doze”, respondeu o Presidente norte-americano. O encontro com o homólogo chinês, o primeiro desde junho de 2019, foi “magnífico” e um “grande sucesso”, acrescentou em declarações aos jornalistas.

À entrada para uma reunião que viria a revelar-se bastante longa — os dois líderes e as respetivas equipas estiveram reunidos durante quase duas horas — Trump já tinha expressado o seu entusiasmo em rever o Presidente da China, com o qual destacou “a boa relação”, e antecipado uma “reunião muito bem sucedida”. As expectativas, ainda que elevadas, espelharam-se nos resultados concretos — principalmente no que toca às relações comerciais entre os dois países.

A política económica protecionista introduzida por Donald Trump no regresso à Casa Branca, que se traduziu na imposição de tarifas à importação de produtos estrangeiros, resultou numa guerra comercial com Pequim e na sucessiva imposição de tarifas de retaliação, que chegaram a ultrapassar taxas de 100%. Ao fim de meses de confronto económico, “as cabeças frias prevaleceram”, como escreve o New York Times, e os dois líderes acordaram uma trégua de um ano que reduz muitas das restrições impostas e abre portas à cooperação em vários setores, mesmo sem a assinatura de um acordo formal.

Contudo, a leitura dos dois líderes sobre os acontecimentos não foi igual. Enquanto o Presidente norte-americano viu nos acordos comerciais com Pequim um “grande sucesso”, Xi Jinping desvalorizou a escalada comercial como um sintoma da relação entre dois países que “nem sempre concordam”. “É normal que as duas principais economias do mundo tenham fricções de vez em quando“, afirmou, em breves declarações aos jornalistas, antes da reunião, acrescentando que a prioridade é “permanecer em rota”. Utilizando uma analogia que já mobilizou no passado, Xi comparou a relação dos dois países a um “navio gigante”, que precisa das mãos dos dois líderes ao leme — a analogia valoriza o papel individual de Trump, o que o jornal norte-americano interpreta como uma tentativa de Pequim de cultivar uma boa relação com Trump, evitando que seja persuadido por vozes mais agressivas da sua administração.

Contudo a “rota” comercial parece ser a única que o G2 — como Trump classificou, utilizando um conceito construído nos Estados Unidos a partir do G7 e do G20 — conseguiu traçar com alguma clareza. Já as questões geopolíticas foram um tema secundário. A guerra na Ucrânia foi debatida, mas não foram apresentadas soluções de paz ou sequer caminhos para lá chegar. A guerra no Médio Oriente foi apenas mencionada por alto por Xi Jinping. E Donald Trump nem tentou colocar em cima da mesa a questão de Taiwan, a ilha sobre a qual Pequim reclama soberania.

▲ O último encontro entre os dois líderes foi em Osaka, no Japão, em 2019, à margem da cimeira do G20

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Tarifas retiradas, sanções suspensas e promessas de negócios

Tarifas, terras-raras e chips. Estes eram os três tópicos que, à entrada para a reunião, se esperava que tivessem respostas. Todos foram falados, mas nenhum ficou fechado. No que toca às tarifas, os Presidentes acordaram em prolongar a pausa em vigor nas tarifas de retaliação. Depois de estas taxas terem ultrapassado os 100%, Pequim e Washington já tinham acordado, em maio, limitar as tarifas adicionais. A pausa atual terminava a 10 de novembro, mais foi prolongada por um período de um ano.

Além disso, Trump aceitou reduzir para metade a tarifa adicional imposta devido ao que aponta ser uma falha no controlo do fluxo de um químico presente no fentanil — um opióide sintético que causa milhares de overdoses mortais nos Estados Unidos anualmente. Xi ter-se-à comprometido a resolver a causa do problema e Trump ordenou a redução, com efeito imediato, desta tarifa dos 20% para os 10%. No total, as tarifas totais à importação da maior parte dos bens chineses passa a ser de 45% a 47%.

Outras duas políticas também foram suspensas por um ano. A primeira são as restrições impostas pela China à exportação de terras-raras, um conjunto de 17 minerais essenciais em indústrias ocidentais — principalmente de tecnologia de ponta — e cujas maiores e mais produtivas jazidas mundiais são controladas por Pequim. Donald Trump deu o assunto das terras raras por “resolvido”, mas o Governo chinês destacou que ainda é preciso “follow-up“. Também foi suspensa a aplicação de pesadas taxas alfandegárias a barcos de fabrico ou bandeira chinesa que tentassem atracar em portos norte-americanos.

Já o tema dos chips de computador avançados não foi referido pelo Governo chinês em comunicado, mas Trump garantiu que o tema foi abordado e não fechou a porta à sua compra por parte da China. Pequim tem interesse em adquirir os chips produzidos pela gigante norte-americana Nvidia, mas a administração norte-americana tem bloqueado a sua venda. Trump admitiu que Pequim negocie a questão diretamente com a Nvidia, com Washington a funcionar como “árbitro”. No entanto, a compra dos chips mais recentes, de Inteligência Artificial, nem sequer foi posta em cima da mesa. A questão do TikTok também foi abordada, segundo Pequim, mas não houve qualquer acordo anunciado.

O Presidente norte-americano celebrou ainda duas promessas que diz que a China fez. Por um lado, a promessa de voltar a comprar “grandes quantidades de soja” de produção norte-americana — a compra por parte da China parou no início deste ano, o que “causou pânico entre os agricultores norte-americanos que perderam o seu maior comprador”, destaca o New York Times. Por outro lado, Trump anunciou um compromisso chinês com a compra de combustíveis do Alasca. Contudo, nenhuma das promessas e anúncios que resultaram da reunião desta quinta-feira foram assinadas em acordos formais.

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▲ As delegações dos EUA e da China negociaram principalmente questões comerciais

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A guerra comercial. Uma trégua (ainda) não é uma “aproximação definitiva” entre Pequim e Washington

A aproximação entre Trump e Xi Jinping foi recebida pelos mercados financeiros com uma relativa indiferença – sobretudo porque os sinais positivos já vinham sendo dados nos últimos dias. Além disso, permanece algum ceticismo, entre os analistas, de que este acordo possa significar uma verdadeira aproximação definitiva. “Em termos de implicações imediatas, a reunião bem sucedida reduz as probabilidades de um novo ciclo acentuado de escaladas tarifárias e não tarifárias, bem como das potenciais repercussões económicas e financeiras que daí resultariam”, reconhece Lynn Song, economista-chefe do banco holandês ING em nota partilhada com o Observador.

Os contratos futuros dos índices norte-americanos seguiam, logo a seguir à reunião, em queda muito ligeira, e confirmou-se na abertura de Wall Street. Os principais índices abriram em queda, mas sem qualquer ligação à reunião Xi-Trump. O ajustamento resultou mais de outros fatores, como as declarações do presidente da Fed na quarta-feira, deixando dúvidas sobre a evolução das taxas de juro, ou ainda a queda expressiva das ações da Meta (dona do Facebook). Por outro lado, nas ações europeias o tom foi de perdas moderadas, com algumas praças a contraria as quedas, mas sem uma expressão significativa.

“Embora o otimismo cauteloso possa ser o sentimento predominante após este encontro, importa salientar que muitos marcos [previstos no acordo final] terão de correr bem para que esta trégua se mantenha”, ressalva a economista. É certo que “nem a China nem os EUA desejam uma nova escalada mutuamente prejudicial” das tensões comerciais, acrescenta Lynn Song. Mas, lembra a especialista, “os dois países continuam, ainda assim, presos numa competição estratégica de longo prazo e, como vimos nos últimos meses, erros de cálculo podem facilmente ocorrer ao longo do caminho”.

Lynn Song diz que “embora um regresso à cooperação vantajosa para ambas as partes e à globalização fosse um impulso bem-vindo para as perspetivas económicas globais, só o tempo dirá se este tom positivo poderá realmente perdurar”.

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▲ A China de Xi é um dos aliados mais próximos da Rússia de Putin

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A guerra na Ucrânia. Uma longa discussão para “ver o que podemos fazer”

Na semana passada, Donald Trump impôs novas sanções à indústria energética russa. Foi a primeira vez que o fez, desde que tomou posse como Presidente em janeiro. Para além das sanções, Washington tem pressionado os aliados a parar de comprar petróleo russo, uma das maiores indústrias de Moscovo e que ajuda, portanto, a financiar a máquina de guerra na Ucrânia.

Ora, o maior comprador de petróleo russo é a China. Mas se a relação entre Washington e Pequim assenta principalmente na vertente comercial, devido às semelhanças na dimensão e influência global das respetivas economias, a relação de Pequim com Moscovo é bem mais estreita — a proximidade entre Xi e Putin ficou visível recentemente, durante a parada militar na Praça de Tiananmen, no início de setembro. Contudo, esta quinta-feira Donald Trump não pressionou Xi a utilizar esta proximidade para forçar Putin na direção da paz.

Na vertente económica, esta pressão podia passar por tentar convencer Pequim a diminuir a compra de petróleo russo — uma exigência que pode ser articulada com a alegada venda de energia do Alasca à China que Trump anunciou. Porém, isso não se verificou. Questionado sobre o tema, o Presidente norte-americano respondeu apenas que “[Xi] anda a comprar petróleo à Rússia há muito tempo e assegura [energia] a uma grande parte da China”. “Mas não discutimos o petróleo. Discutimos trabalharmos juntos para acabar com esta guerra. Não afeta a China, não nos afeta a nós”, acrescentou, demarcando-se, não pela primeira vez, do conflito na Europa.

Já na vertente política, Trump relatou que a questão da guerra da Ucrânia surgiu “com muita força” no encontro e que os dois líderes falaram sobre o tema “durante muito tempo”. Contudo, o tempo não terá sido suficiente para produzir resultados concretos. “[Xi] vai ajudar-nos e vamos trabalhar juntos na Ucrânia”, declarou aos jornalistas, já a bordo do avião presidencial.

“Vamos trabalhar juntos para ver se conseguimos fazer alguma coisa. Concordamos que as partes estão bloqueadas e a lutar e às vezes é preciso deixá-los lutar, acho eu… [que] loucura”, elaborou. As breves declarações sobre o tema contrastam com o que diz ter sido um longa discussão e não levantam o véu sobre que tipo de trabalho é que Pequim e Washington podem desenvolver em conjunto. O caminho mais realista seria pressionar financeiramente o Kremlin, mas apenas os Estados Unidos estão disponíveis para avançar com sanções e mesmo essas revelam-se tímidas e tardias.

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▲ Trump pareceu "tenso" antes do encontro com Xi, relataram jornalistas que viajaram com o Presidente

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A guerra no Médio Oriente. O “entusiasmo” de Trump e o foco de Xi noutras geografias

Ao fim de nove meses no cargo, a estratégia dos líderes ocidentais para ter uma relação positiva com Donald Trump está bem afinada: numa mão, elogios; na outra, propostas económicas. A mesma estratégia foi posta em prática por vários líderes asiáticos ao longo da semana, que se desdobraram em elogios e prendas luxuosas ao Presidente norte-americano.

Contudo, a postura de Xi Jinping em relação a Trump é diferente. O Presidente chinês revela-se sempre profissional, sério e segue um guião claro nas suas declarações públicas, numa exibição “cuidadosamente coreografada”. Esta quinta-feira, Xi tinha ainda do seu lado a certeza que outros países não têm: a de que pode discutir economia com Washington de igual para igual. A situação rara para Trump refletiu-se numa mudança de postura do próprio, que se revelou mais “tenso” e comedido, ainda que sempre entusiasmado e otimista, descreve o correspondente norte-americano da BBC que acompanhou o Presidente na sua viagem pela Ásia e a correspondente na China do mesmo canal.

Isto não quer dizer, ainda assim, que a relação de Xi para com Trump seja hostil. Xi correspondeu às declarações formais do seu homólogo, assinalando a “honra” de um reencontro presencial ao fim de seis anos e notando que, ao longo deste ano, se têm mantido em contacto através de cartas e telefonemas.

Os elogios mais abertos do Presidente chinês a Trump foram feitos acerca da sua intervenção em questões regionais, tendo elogiado o seu “entusiasmo” com os mesmos e, particularmente, a sua “grande contribuição” no processo de paz entre Israel e o Hamas que levou à assinatura de um acordo de cessar-fogo — ainda que, à hora a que os dois falavam, se continuassem a verificar violações desse mesmo cessar-fogo. Contudo, mesmo quando mobiliza uma narrativa frequente dos líderes internacionais — o elogio à intervenção em Israel —, Xi fá-lo de forma diferente. Neste caso, colocando o foco noutro lado.

Apesar de uma menção ao Médio Oriente, Xi foi breve e rapidamente preferiu focar-se em temas mais próximos das suas fronteiras. Assim, estendeu o elogio ao facto de ter contribuído para a assinatura de um acordo relativo à fronteira entre o Cambodja e a Tailândia, mas fez questão de notar: “à sua maneira”, a China também ajudou a gerir a disputa fronteiriça. “Também temos estado a promover diálogos de paz para resolver outras questões em focos de conflito”, reforçou ainda.

Já Donald Trump manteve o tom “surpreendentemente conciliador“, como descreve a BBC. E, ao devolver os elogios habituais, acrescentou um comentário que pode revelar que um encontro com Xi pode ser mais desconfortável do que os repetidos encontros e telefonemas em que participou para chegar a um frágil acordo no Médio Oriente. “Ele é um negociador muito duro… e isso não é bom”, rematou.

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