Vinhas. Os negócios, as festas e a vida do empresário mais vigiado pela PIDE

23 Setembro 2017973

Manoel Vinhas já nasceu rico mas, empreendedor, tornou-se ainda mais. Pelo meio teve oito filhos, foi mecenas de inúmeros artistas e deu festas memoráveis. Morreu há 40 anos.

Setembro de 1968, mês louco em Portugal. Ao aeroporto de Lisboa não param de chegar vedetas de nível estratosférico como Audrey Hepburn, Gina Lollobrigida, Zsa Zsa Gabor, Givenchy ou Valentino — e à porta do Ritz, do Tivoli e do Hotel Palácio do Estoril, jornalistas portugueses e internacionais montam sentinela de noite e de dia para as apanhar.

Na Quinta do Vinagre, em Colares, e na Quinta Patiño, em Bicesse, várias centenas de empregados fazem os últimos preparativos para as “festas do século”, que há mais de um mês não saem dos jornais, uma para 1200 pessoas, outra oferecida a 1500 convidados. Anfitriões: os multimilionários Pierre Schlumberger, franco-americano, e Antenor Patiño, boliviano.

Enquanto isso, na capital, António de Oliveira Salazar entra na reta final dos seus 36 anos na presidência do Conselho, ainda a sofrer as repercussões da mais célebre queda de cadeira de que a História tem memória. Sem o saber, aos 79 anos, está a dias de ser operado de urgência e a menos de um mês da destituição. A cirurgia, no Hospital da Cruz Vermelha, acontecerá em segredo, exatamente na madrugada da festa Patiño, a 6 de setembro.

Nunca lhe passaria pela cabeça comparecer a essas festas: “Não só não ia a festas como proibiu, neste caso, todos os seus ministros de irem a qualquer uma delas, para grande desgosto das esposas, que já tinham mandado fazer vestidos e tudo. Não ficava bem, eram ministros, não playboys, era o que costumava dizer”, conta ao Observador Luís Vinhas, sobrinho do homem que organizou, na Herdade do Zambujal, em Águas de Moura, a única festa portuguesa daquele setembro de 1968. Exatamente aquela que, de entre as três, garantiu então Vera Lagoa no Diário Popular, foi a melhor delas todas — “A festa das festas”. Anfitrião: Manoel Vinhas, industrial de sucesso em Portugal e Angola, descrito por muitos como o empresário mais espiado pela PIDE durante o Estado Novo. Mentor da ideia: nada menos do que o Presidente do Conselho.

Para Vera Lagoa o Baile Patiño foi o "baile dos bailes" mas a do Zambujal foi a "festa das festas"

“Salazar achou que ficava mal vir aquela gente toda de fora e não haver uma festa à portuguesa. Então mandou chamar o [advogado] Bustorff Silva, que era amigo dele e sogro do Manoel, e perguntou-lhe se o genro, que tinha lá aquela quinta tão bonita no Zambujal, não queria organizar uma”, recorda Luís Vinhas.

Estr. do Zambujal, 2965, Portugal

Aconteceu no dia 5 de setembro a festa organizada por Manoel e Concha Vinhas na herdade de 1.700 hectares, na reserva do estuário do Sado, para centenas de pessoas. Audrey Hepburn foi, o ator Douglas Fairbanks Jr. e as atrizes Capucine e Ira de Furstenberg também. Até Ratna Sari Dewi, ex-mulher de Sukarno, primeiro presidente da Indonésia, marcou presença. O famoso toureiro espanhol Dominguin, já então arredado das praças, não só foi como saltou para a arena da propriedade, onde foram largadas duas vacas. “Luis Miguel Dominguin, actualmente em foco por ter sido abandonado pela mulher, a antiga actriz Lucia Bosé, foi vedeta numa festa tipicamente portuguesa organizada pelo Dr. Manoel Vinhas em honra de muitas das personalidades que se deslocaram ao nosso País a convite dos milionários Schlumberger e Patiño”, escreveu na altura o jornal O Século Ilustrado.

Hubert de Givenchy e Claudine de Cadaval não perderam a festa dos Vinhas

Se no eixo Colares-Cascais correram rios de champanhe e o catering ficou a cargo das cozinhas do Ritz, no Zambujal houve sardinhas, croquetes e caldo verde, servidos em louça de barro e travessas de cortiça, com água-pé a empurrar. “Havia barraquinhas de tiro, toalhas aos quadrados e até uma barca com alentejanos vestidos a rigor a cantar”, recorda o empresário Victor Pinto de Sousa, que ajudou o amigo Manoel a organizar a festa e, antes disso, o espicaçou para que aceitasse o pedido de Salazar. “Lembro-me de lhe dizer: ‘Ó Manel, então mas só os estrangeiros é que fazem festas?!’ Não foi difícil convencê-lo, o Manel adorava receber gente, organizava muitas caçadas, aquela foi mais uma de muitas.”

Os telefonemas de Gina Lollobrigida para a Califórnia

Luís Vinhas, em Londres a acabar um curso de verão, não marcou presença. Mas ainda hoje se lembra das histórias que lhe contaram, a ele e à prima Rita, quarta dos oito filhos de Concha e Manoel, quando regressaram. “Houve um rancho folclórico, campinos a cavalo e foguetes, coisas a que os estrangeiros não estavam habituados. Acho que foi muito animado, tudo a dançar, tudo bem disposto. Teve umas histórias curiosas. A Gina Lollobrigida, que era suposto ser uma das boazonas da época, foi apanhada a fazer telefonemas para aí de uma hora para a Califórnia, pagámos uma conta de telefone milionária”, recorda. “Um amigo dos meus pais, um senhor muito divertido, que já morreu, o José Ribeiro, às tantas foi dançar com a Capucine, que era uma mulher linda, e começou a entusiasmar-se e a apertar com ela, e ela disse-lhe assim: ‘Je dois vous prevenir, monsieur, que je n’aime pas les hommes, je n’aime que les femmes’. E ele: ‘Não faz mal, eu também! Eu também só gosto de mulheres!’, deu-lhe um apertão e toda a gente se riu muito.”

A atriz e modelo francesa Capucine foi uma das celebridades internacionais presentes na festa do Zambujal

Manoel Vinhas terá ido para a cama antes da meia-noite, como de costume. “Deitava-se sempre cedo, até nas festas. Quando chegavam as 23h00, estava aquilo no auge, ia para a cama, sem se despedir de ninguém. Nem na passagem de ano ficava acordado até à meia-noite, achava ridículo”, recorda a filha Rita ao Observador.

Nascido em Lisboa, no dia 26 de julho de 1920, Manoel Carvalho Brito das Vinhas foi um homem metódico que se notabilizou como empresário, mecenas e ativista social, e viveu entre Lisboa e Estoril, Luanda, Zambujal e Salvador da Bahia. Para fazer tudo aquilo que queria fazer, tinha de ser assim, regrado: “O almoço era sempre às 13h00 e o jantar às 20h00”, recorda Rita Vinhas. Quem não estivesse na mesa a horas, arriscava-se: “Uma vez despejou um jarro de água em cima de um dos meus irmãos, que tinha ido sair à noite e não se levantava”.

Audrey Hepburn foi uma das mais animadas durante a pega improvisada na arena do Zambujal

Um dos herdeiros da fábrica de cervejas Portugália, Manoel Vinhas fundou a Cuca em Angola (e mais de 50 outras empresas), a Laurentina em Moçambique e a Skol no Brasil. Foi o principal apoio de artistas entretanto consagrados como Luiz Pacheco, Raúl Solnado, Júlio Pomar, Cruzeiro Seixas e Almada Negreiros, e chegou também a ser dirigente do Sporting Clube de Portugal. Próximo de Salazar e amigo íntimo das principais figuras da realeza europeia exilada no Estoril, era também defensor da autonomia das províncias ultramarinas e organizava caçadas para os empregados, com quem foi dos primeiros empresários a partilhar lucros — motivos mais do que suficientes para chamar a atenção da PIDE, que entre 1961 e 1969, o manteve sob vigilância apertada. Morreu há 40 anos, no Brasil, onde se exilou em 1974. Tinha apenas 57 anos.

Corridas de póneis na Marginal, reis e princesas ao jantar

Primeiro filho de Francisco Vinhas e de Maria Luísa Carvalho, quando nasceu Manoel Vinhas já era rico, herdeiro de duas importantes famílias com várias propriedades e negócios que iam desde a cortiça aos lanifícios, passando pelas cervejas, pelas águas e pelos refrigerantes. Cresceu num palacete na Rua Duque de Palmela, em Lisboa, estudou no restrito Colégio Infante de Sagres, e tirou Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras. Depois de aos 18 perder o pai, assumiu a educação do irmão, Mário, oito anos mais novo. “Nunca fizeram partilhas e até à morte do meu pai tiveram sempre uma conta conjunta”, diz Rita Vinhas.

“Queria muito que fôssemos cultos, não suportava a leviandade, a preguiça e a futilidade”
Rita Vinhas

Quando Mário cresceu, depois de desistir a meio do curso de Direito, casou com Maria Octávia Roque de Pinto Basto, Titá para a família e amigos. Tiveram apenas um filho, a que chamaram Luís, como o irmão de Manoel e Mário, que morreu com apenas 5 anos.

Já Manoel e Concha, nome de batismo Maria Alice Carneiro Bustorff Silva, foram pais oito vezes. Margarida, Francisco, Manuel, Rita, Alice, Pedro, Paulo e Nuno tinham todos mais ou menos dois anos de diferença entre si (Pedro e Paulo já morreram). Todos estudaram na St. Julian’s School, em Carcavelos — pelo menos até chumbarem pela primeira vez: quem não tinha boas notas era recambiado para outro colégio. Sem direito a receber a semanada entregue pelo contabilista da empresa, mediante assinatura em recibo. “O pai educou-nos muito no mérito do esforço e do trabalho”, conta a filha do meio.

Manoel Vinhas era um homem exigente. No trabalho e em casa — “Queria muito que fôssemos cultos, não suportava a leviandade, a preguiça e a futilidade”. Mas, conta quem o conheceu, também era descontraído, um orador natural (apesar da rouquidão) e um contador de anedotas ainda melhor. Liberal, nunca se chateou por os filhos andarem descalços ou por as filhas usarem mini-saias ou biquínis, numa altura em que tal tipo de traje era ainda considerado menor — mas ele próprio andava sempre impecavelmente vestido de fato. Quando eram adolescentes, costumava convidar o desconcertante Agostinho da Silva, seu amigo e ex-professor no Infante de Sagres, para conversar com os filhos. Cada um tinha direito a convidar dois amigos e a fazer duas questões ao filósofo e poeta. Não havia regras: “Só havia uma coisa que o pai nos dizia sempre: ‘Não convidem parvos!’. De resto, as perguntas podiam ser sobre tudo: sexo, arte, filosofia, ou os índios da Amazónia”, recorda Rita.

"A ideia que eu tinha na altura é que as pessoas importantes eram todas pobres: o rei de Espanha não tinha dinheiro, o rei e a rainha da Bulgária também não, o Humberto de Itália, que estava a caçar no Zambujal quando o meu irmão Francisco nasceu, idem. Eram tudo pessoas interessantíssimas, imponentes, mas tesos, alguns nem tinham carro!”
Rita Vinhas

Durante o ano, os irmãos Vinhas faziam corridas de póneis na Marginal, a escassos metros da casa onde viviam, com piscina, jardim e cocheira, no número 20 da Rua Afonso Henriques, no Estoril. E conviviam com os amigos e vizinhos convidados pelos pais para festas e jantares. “Na altura, toda a monarquia europeia foi para lá. A Dona Teté, filha do imperador do Brasil, vivia em frente; os reis de Espanha eram colados a nós, eu tratava o pai do rei de Espanha por Juanito. A Villa Giralda é costas com costas com o nosso muro. Tenho memórias fantásticas do avô do atual rei de Espanha, o Dom Juan [de Bourbon, conde de Barcelona], lembro-me de que me sentava ao colo dele e ele me fazia perguntas, fartava-se de rir com as respostas que eu lhe dava… A ideia que eu tinha na altura é que as pessoas importantes eram todas pobres: o rei de Espanha não tinha dinheiro, o rei e a rainha da Bulgária também não, o Humberto de Itália, que estava a caçar no Zambujal quando o meu irmão Francisco nasceu, idem. Eram tudo pessoas interessantíssimas, imponentes, mas tesos, alguns nem tinham carro!”, recorda Rita Vinhas.

Manoel e Concha Vinhas tiveram 8 filhos

Na altura, Manoel passava a vida entre Lisboa e Luanda, onde em 1952 fundou a Companhia União de Cervejas de Angola (CUCA) e começou a construir um império de 53 empresas diferentes, em ramos tão distintos como a produção de garrafas, a criação de galinhas, a exploração agrícola de vegetais e maracujás e até jornais e revistas, resume Rita Garcia no livro “Luanda como ela era, 1960-1975”. Quando estava na capital angolana, vivia sozinho, no segundo piso da fábrica, no apartamento de seis suítes com ar condicionado que mandou construir. “A minha mãe nunca quis ir para lá, por causa da nossa educação, mas nós íamos lá muito nas férias, fazer safaris e andar no campo”, explica Rita Vinhas.

“Tinha fazendas no Luso (Luena), plantações de café, fábricas de plástico e vidro, importava vinho. No fim eram mais de 50 empresas. Em 1956, introduziu a cerveja em Angola”, contou em 2010 Manuel Vinhas filho à Sábado, numa entrevista em que também revelou que antes de ser Cuca, a cerveja mais famosa do país esteve quase para receber outro nome. “Uma das hipóteses era Kuka, com k, mas nós dissemos-lhe que fazia lembrar Ku Klux Klan.”

“Se lhe dou dinheiro para a mão, vai tudo em álcool, o que é que eu faço?”

Ao contrário dos vizinhos do Estoril, Manoel Vinhas tinha dinheiro, muito. De gostos requintados mas discretos — “Nunca quis, como alguns chegaram a escrever que era o sonho dele, ter um Ferrari, isso é coisa de novo-rico. Se quisesse ter tido um, tinha tido, mas não, teve um Iso Rivolta, um carro italiano super sofisticado que ninguém sabe o que é”, diz a filha –, gastava grande parte dele com os artistas que apoiava.

Convicto de que o verdadeiro talento devia ser protegido e alimentado, foi mecenas de Luiz Pacheco, Raúl Solnado, Júlio Pomar, Cruzeiro Seixas, Almada Negreiros, Ary dos Santos e Raúl Perez, entre muitos outros. “Era fascinado pelo talento e pelo mérito. Ajudava sempre, mas ajudava dignamente, não dava uma esmola. Dizia sempre: ‘Eu empresto-te e depois pagas-me’”, revela Rita Vinhas. De que se recorde, só Solnado, amigo da família, convidado para as festas e para os serões de mímica no Zambujal e na Arrábida, teve oportunidade de o fazer. E só depois do 25 de Abril de 1974, quando as contas bancárias da família foram congeladas, o pai fugiu do país e a mãe ficou sozinha com salários e contas para pagar: “Foi o pai que lhe emprestou o dinheiro para fazer o Teatro Villaret. Depois do 25 de Abril, o Solnado ia todos os meses pagar à minha mãe”.

"Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho. ‘O mecenas paga, não dá ordens’, costumava dizer Mestre Almada Negreiros.”
Luiz Pacheco, no posfácio de "Profissão: Exilado"

À conta do mecenato, Manoel Vinhas construiu uma das maiores (e das poucas) coleções de arte do país na altura. Alguns dos artistas que protegia, como Almada Negreiros, eram visitas de casa — “Lembro-me de que uma vez o pai lhe comprou 50 quadros de uma vez; ele devia estar a precisar de dinheiro, fomos nós que os escolhemos, no atelier dele”, conta Rita.

Luiz Pacheco nunca fez parte desse grupo de eleitos. Ainda assim, no pós 1974, o autor de “O Caso das Criancinhas Desaparecidas” foi dos poucos que não lhe virou as costas, tendo mesmo assinado o posfácio de “Profissão: Exilado”, o diário que o industrial escreveu a partir do Brasil: “Nunca tive nem creio que venha a ter mecenas tão dedicado e escrupuloso. Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho. ‘O mecenas paga, não dá ordens’, costumava dizer Mestre Almada Negreiros”.

“O Pacheco foi leal. Houve muita malta que depois do 25 de Abril deu à sola, com medo de se comprometer”, confirma Rita Vinhas. Que se recorda bem da altura em que o pai o começou a ajudar. “Costumava ir de carro com o meu pai para a universidade, houve uma vez que ele me disse: ‘Rita, há um tipo que tem um talento verdadeiramente extraordinário, mas que é completamente amoral. É um bêbedo, vive com uma miúda de 15 anos e tem filhos dela, tem a família toda a passar fome… mas ele tem um talento inegável e eu tenho de o ajudar. Se lhe dou dinheiro para a mão não dura 24 horas, vai tudo em álcool, o que é que eu faço?’. Foi a primeira vez que ouvi falar do Luiz Pacheco”, recorda. “A partir daí, o pai começou a pagar-lhe os livros todos que ele queria, dava-lhe máquinas de escrever — que, contou-me o próprio Luiz Pacheco antes de morrer, iam parar ao prego logo a seguir –, e pagava-lhe a renda de casa. Isso durou anos e anos sem fim”.

Luiz Pacheco escreveu o posfácio de "Profissão: Exilado", Agostinho da Silva assinou o prefácio

Sempre que precisava, o escritor juntava-se à fila que se formava todas as terças-feiras à porta do escritório de Manoel Vinhas, na Portugália, na Almirante Reis, para pedir ajuda ao mecenas. “Eram bichas pelo corredor fora, o meu pai recebia um por um, sem marcar”, lembra a filha. Que engrossa e enrouquece a voz para recontar uma das histórias que Pacheco lhe revelou, poucos anos antes de morrer: “Nesse dia ia falar com o Manel Vinhas e pensei, eh pá, tou lixado, tenho de lhe ir pedir mais dinheiro e já pus a máquina no prego, já pus aquilo, já pus aqueloutro, tou lixado, como é que eu vou fazer? Estava nervoso, fui para Alenquer comer jaquinzinhos, não era para beber — bebi, claro! –, apanhei uma piela, mas estava mesmo à rasca, tinha de ir ao Vinhas e fui. Quando chegou a minha vez já não andava direito. O Vinhas abriu-me a porta, pá, e perguntou-me se eu queria beber alguma coisa e mandou vir uma cerveja. Eh pá, eu estava já bebedíssimo, de repente vejo vir uma bandeja pelos ares, pá! Com um criado com umas cervejas a voar! Eh pá, eu ia desmaiando, que grossura com que eu estou!”

“Acho que o pai pediu uma cerveja ou outra coisa qualquer por telefone. O edifício tinha um terraço corrido e os empregados vinham da cozinha por fora, em vez de por dentro do edifício, mas o outro não sabia, achou que o empregado vinha a voar! As lágrimas caíram-me de tanto rir quando ele me contou isto”, contextualiza (e volta a rir) Rita Vinhas.

Empregados eram apoiados — mas a vida continuava a ser difícil

Influenciado por Concha, que ocupava os dias com a educação das crianças, a pintar e a apoiar, no terreno, as pessoas mais desfavorecidas da zona — “O bairro de Santo António no Estoril foi todo construído por ela e pelo grupo de amigas que tinha. Lembro-me de ir muitas vezes com a minha mãe a casas em bairros de lata”, conta a filha –, Manoel Vinhas tem sido frequentemente descrito como um dos primeiros empresários portugueses a preocupar-se com as condições de vida dos empregados.

“Manoel Vinhas considerava que fazia parte das obrigações das grandes empresas oferecer aos funcionários um conjunto de regalias adequadas às suas maiores necessidades.”
Rita Garcia, em “Luanda como ela era, 1960-1975”

De acordo com o livro “Luanda como ela era, 1960-1975”, entre 1952 e 1970, terão sido cerca de 15 mil os contos que a Cuca gastou em prémios, subsídios e donativos: “Manoel Vinhas considerava que fazia parte das obrigações das grandes empresas oferecer aos funcionários um conjunto de regalias adequadas às suas maiores necessidades”.

Em Luanda, os empregados da Cuca tinham direito a assistência médica, creche, biblioteca e grupo cultural e desportivo, mais convite anual para o almoço de aniversário da empresa. Em Portugal, Manoel e o irmão, Mário, foram ainda mais longe, replicando na Herdade do Zambujal uma aldeia onde funcionários e respetivas famílias tinham casa, creche, escola, posto-médico, capela, horta, tanque comum e uma loja que era também café e padaria e tinha um palco, onde se representavam as peças de teatro de Natal — a sede.

“Manoel Vinhas considerava que fazia parte das obrigações das grandes empresas oferecer aos funcionários um conjunto de regalias adequadas às suas maiores necessidades.”
Rita Garcia, em “Luanda como ela era, 1960-1975”

Carolina Rocha, hoje com 70 anos, cresceu no Zambujal, onde chegou com apenas 6 meses, vinda das Caldas da Rainha, com o irmão mais velho — que começou a trabalhar na herdade aos 18 anos e ainda hoje lá vive — e os pais, ele responsável pelo gado bravo, ela funcionária da creche e da “casa grande”, onde viviam os patrões. “Éramos imensas crianças, cada família — e havia umas 50 — tinha seis ou sete filhos, andámos ali na escola até à 4ª classe, em turmas de 40 alunos. Alguns pais trabalhavam com o gado, outros com as ovelhas, outros nas cocheiras, com os cavalos, outros no campo. De sol a sol, ou pior do que isso: o meu pai, nos primeiros anos, saía de casa às 5h00 e voltava às 22h00. Era um bocado difícil para as famílias; as casas, divididas em dois pavilhões, eram pequenas para tanta gente, tinham uma chaminé, dois quartos, uma sala e um sótão. Não havia luz elétrica, águas canalizadas ou saneamentos básicos, as casas de banho eram lá fora, na rua, com água fria, para enrijar”, descreve.

A casa principal, coberta de hera e trepadeiras, só era ocupada aos fins de semana, férias e dias de festa. Submetida a obras de remodelação profundas na segunda metade da década de 50, era bem mais confortável, mas também não tinha luz elétrica, só de gerador a petróleo, explica Luís Vinhas, hoje com 64 anos. Na altura, passava mais tempo no Zambujal do que os primos, que tinham a casa da avó materna na Arrábida como alternativa estival: “Em 1955 ou 1956 fizeram daquilo uma casa moderna de campo, com uma sala nova para receber pessoas; aquecimento, chauffage central; e nove quartos em vez de quatro. Nós tínhamos uma camarata de seis, era um paraíso sobretudo para mim, que não tinha irmãos. Podíamos ir à piscina, andar de bicicleta ou a cavalo, caçar sem pagar…”.

Rita Vinhas, a dançar com o pai

Nas férias, recorda Carolina Rocha, os miúdos juntavam-se todos e, no Natal, Concha e Titá Vinhas encenavam peças de teatro e ensaiavam canções. “Antes distribuíam umas flanelas pelas nossas mães, para irmos todas com vestidos iguais. A dona Titá, que era a nossa catequista, tocava órgão, e ia com a dona Conchinha de casa em casa, com cestos enormes carregados de prendas. Os patrões até tinham uma certa preocupação com o bem-estar das crianças e dos empregados: o material escolar era oferecido, a creche dava direito a almoço e lanche e no verão passávamos sempre um mês na serra da Arrábida, montavam uma barraca de lona para os rapazes, outra para as raparigas.”

Quando chegavam ao fim da 4ª classe, os filhos dos empregados só tinham duas hipóteses: ou começavam também a trabalhar, ou saíam para estudar. Como quis continuar na escola, Carolina foi para Lisboa, para casa de uma tia, depois voltou e, durante dois anos, trabalhou na casa grande, para conseguir ir para a universidade. “Poucas pessoas se formaram lá, fui a única pessoa que tirou um curso na minha altura. Um dia voltei para ver os meus pais e estava lá numa festinha quando apareceu o senhor Mário, que me perguntou pelos estudos. Era interna na Escola de Enfermagem São Vicente de Paulo, pagava uns 500 escudos mensais, acho. Acabou por me dizer que, a partir do mês seguinte, só tinha de ir ter à Central de Cervejas, que teria lá um cheque para pagar as propinas”, conta Carolina Rocha, hoje reformada, em tempos chefe de enfermagem do serviço de obstetrícia do Hospital de Santa Maria.

Acusado de financiar “terroristas angolanos”

Nos anos 60, Manoel Vinhas passava já metade do ano em Angola. Já Mário, o irmão desportista, que chegou a ser da seleção nacional de voleibol e era barra no esqui aquático, no pingue-pongue e no tiro aos pratos, tinha ficado responsável pela coudelaria e pela ganadaria da família, com sede no Zambujal, onde hoje, aos 89 anos, vive, com a mulher, Titá.

Foram os anos em que Manoel, apesar de genro de um dos mais próximos colaboradores de Salazar, andou sob o radar da PIDE. “O meu avô teve de intervir várias vezes, mesmo assim o meu pai teve imensos problemas com a PIDE, foi preso, teve residência fixa, esteve impedido de viajar… Por escrever! As acusações eram dos livros que escreveu, a favor da independência de Angola, pronto, não podia escrever. A teoria do meu pai era que não se devia fazer guerra em Angola, mas promover o desenvolvimento económico do país, com toda a sua pujança e riqueza. Essa é que era a autonomia que tinha de ser feita em Angola. Escreveu três: ‘Aspectos actuais de Angola’, ‘Para um diálogo sobre Angola’ e ‘Plano do Luso’”, explica Rita Vinhas.

Manoel e Rita Vinhas com Américo Thomaz

Os jornalistas Luís Villalobos e Filipe Fernandes, em “Negócios Vigiados: as ligações das empresas e dos empresários à PIDE”, elegem-no como o mais policiado na altura: “Deve ser o empresário português mais espiado e sobre o qual a PIDE coligiu mais informação, sobretudo a partir da deflagração do conflito armado em Angola, iniciado em 1961”.

O próprio António de Oliveira Salazar, em 1963 e em carta enviada ao então governador-geral de Angola, expressou as suas reservas relativamente a Manoel, meses antes formalmente declarado, por um agente da PIDE no terreno, “um indivíduo bem formado, sendo politicamente afecto do actual regime”.

“Fui rever o folheto do mesmo autor — ‘Para um Diálogo sobre Angola’. Aí encontrei, de envolta com a imprecisão de ideias, teses bastante semelhantes às definidas pelo Doutor Homem de Mello em ‘Portugal, o Ultramar e o Futuro’, que me dizem andar nas mãos de toda a gente em Angola e que constituem por assim dizer o guia da inteligência política da província”, escreveu Salazar em março.

“Escreveu uma carta ao Américo Thomaz para o apoiar, quando foi para primeiro-ministro. Foi ele que escreveu, o Zé Manuel de Mello, o João Rocha e o Chico Balsemão assinaram.”
Victor Pinto de Sousa

No mesmo mês, Vinhas foi informado, enquanto estava a tentar embarcar para Copenhaga, que estava proibido de sair do país e viu a PIDE invadir-lhe o escritório da Almirante Reis. Também foi acusado de ter ligações ao MPLA e de financiar “terroristas angolanos”.

No final, foi tudo arquivado por falta de provas e não tardou muito até que se voltasse a aproximar do regime, como um dos mais acérrimos apoiantes de Marcello Caetano: “Escreveu uma carta ao Américo Thomaz para o apoiar, quando foi para primeiro-ministro. Foi ele que escreveu, o Zé Manuel de Mello, o João Rocha e o Chico Balsemão assinaram”, revela Victor Pinto de Sousa.

Amália, Vinicius, Bocuse e James Bond no Zambujal

Apesar da perseguição, entre 1963 e até 1974, Manoel Vinhas continuou a convidar os amigos para o Zambujal ou para a Arrábida. Tinha muitos, garante Victor Pinto de Sousa: “O Manel era um homem cultíssimo, carismático, com um humor fantástico. Tinha dinheiro mas era muito cuidadoso para não ostentar. Era um liberal, um verdadeiro democrata, um empresário que delegava, coisa que na altura (e ainda hoje!) é rara. Isso fazia com que tivesse muitos amigos, criava nas pessoas um sentimento de lealdade”.

“O Vinicius de Moraes era um grande, grande amigo dele. Uma vez, no Zambujal, passei uma noite com o Vinicius e a Amália Rodrigues, os dois, às tantas da manhã, já um bocado etilizados, a cantarem, daquelas coisas que só se vê uma vez na vida.”
Victor Pinto de Sousa

Rita Vinhas recorda os animados serões de mímica e monopólio na Arrábida seguidos de assustadoras noites de espiritismo, lideradas pela sogra de Ricardo Salgado — “A tia Vanda, mãe da Maria João Calçada Bastos, era toda esotérica. Era proibidíssimo, mas assim que o pai se ia deitar fazíamos aqueles disparates!” –; ou a semana que Paul Bocuse e Gaston Lenôtre, dois dos mais famosos chefs do mundo, passaram na cozinha do Zambujal, ao despique com Mercinda, a cozinheira da família Vinhas.

Victor Pinto de Sousa, hoje com 82 anos, lembra uma madrugada inusitada com dois dos mais célebres nomes da música internacional: “O Vinicius de Moraes era um grande, grande amigo dele. Uma vez, no Zambujal, passei uma noite com o Vinicius e a Amália Rodrigues, os dois, às tantas da manhã, já um bocado etilizados, a cantarem, daquelas coisas que só se vê uma vez na vida”.

Parte de 007 - Ao Serviço de Sua Majestade, com Diana Rigg e George Lazenby, foi filmado na Herdade do Zambujal

Outro episódio inesquecível, que ainda hoje leva grupos de fãs de 007 à herdade dos Vinhas: a rodagem de parte de Ao Serviço de Sua Majestade no Zambujal, em 1969. “Foi o pior 007 que se fez, mas foi uma excitação. Vinha um Aston Martin, eles queriam um rancho folclórico, vestiram umas mulheres de ceifeiras, para aparecer na cena do casamento; é o único filme em que o James Bond se casa”, descreve Luís Vinhas. Que se lembra bem da animosidade entre George Lazenby, o ator que fazia de Bond, e Diana Rigg, a atriz que fazia de sua noiva — e que se celebrizou como Emma Peel, na série Os Vingadores. “Havia uma cena em que ele trincava um pastel de nata e depois dava-lhe um beijo na boca, ela odiava aquilo, assim que acabava a cena empurrava-o para longe. Os pastéis de nata estavam ali há quatro dias, aquilo já tresandava, que horror! Eles estavam hospedados na Pousada de Palmela mas arranjavam-se em roulotes, no Zambujal. O meu pai convidou-a para ficar lá em casa e ela aceitou. Mas disse logo: ‘Não o convidem a ele, que ele é um animal!’.”

O famoso urinol de prata em veludo

No dia 25 de Abril de 1974 Manoel Vinhas estava em Luanda e ficou, garante a filha, feliz com a notícia que lhe chegou da metrópole. “Telefonou imediatamente à minha mãe, lembro-me de ela dizer: ‘O pai ligou, está tudo bem, é um golpe democrático, podem estar descansados, estamos completamente em segurança, não é preciso ir para lado nenhum’”, recorda Rita.

Descobririam no final de setembro que não era bem assim. Avisado por Victor Pinto de Sousa de que estava iminente uma busca à casa do Estoril, Manoel Vinhas, que entretanto já regressara a Portugal, refugiou-se na casa do amigo László Hubay Cebrian, umas portas abaixo. “Estive envolvido no 28 de setembro, quando percebi que aquilo tinha descambado, telefonei ao Manel e a outras pessoas minhas amigas e disse-lhes para terem cuidado que iam andar à procura deles. Ele disse-me que não tinha feito mal a ninguém, mas insisti e ele saiu”, conta.

“Milícias do partido comunista assaltaram nos últimos dias de setembro a minha residência. Procurando-me de metralhadoras em punho, obrigando os meus filhos a saírem da cama de madrugada, interrogando-os com ameaças, roubando as espingardas de caça."
Manoel Vinhas, em "Profissão: Exilado"

A família ficou. Rita, na altura com 20 e poucos anos, estava em casa com o então namorado, futuro marido, o irmão Paulo e os empregados na noite em que o MFA (Movimento das Forças Armadas) lhes bateu à porta. “Confiscaram as armas de caça, os carros, levaram tudo, foi uma coisa horrível. Com um ar punitivo, com ar de que a gente tinha cometido ali um crime. Sou uma pessoa segura e sem medo, mas aquilo foi um cenário de terror. Eram tipos à civil, muito abandalhados, com pistolas, um levou-me sozinha para uma sala, estive lá mais de uma hora. Queriam saber coisas sobre o pai, o que é que tinha dito, o que é que ia fazer. E eu disse que o pai tinha dito que era apenas uma alternância de poder mas no sentido democrático e que estava tudo bem.”

Em “Profissão: Exilado”, numa entrada datada de 10 de dezembro de 1974, Manoel faz referência ao episódio: “Milícias do partido comunista assaltaram nos últimos dias de setembro a minha residência. Procurando-me de metralhadoras em punho, obrigando os meus filhos a saírem da cama de madrugada, interrogando-os com ameaças, roubando as espingardas de caça. Como não me encontraram, avisado que tinha sido por telefonema amigo, repetiram a ‘visita’ na noite seguinte; beberam mais vinho — o que tomei como homenagem ao meu critério seletivo — e roubaram um automóvel que logo se propuseram devolver, mas outro telefonema nos alertou, dizendo que, quando fôssemos buscar a viatura, esta seria revistada e “encontrar-se-ia” armamento, de forma a poder-me incriminar como implicado na ‘inventona’ de 28 de setembro”.

Depois disso, a Portugália foi ocupada, o Zambujal também, a casa do Estoril acabou alugada para alojamento de retornados — “Era isso ou era ocupada também. A minha mãe apanhou um vigarista, disse-lhe que ia meter lá meia dúzia de pessoas seleccionadas e acabou a pôr lá 70”, conta Rita, que se recorda de andar a tirar quadros das paredes para os guardar a salvo no sótão.

“Instalou um urinol banhado a prata e revestido de veludo (seguramente um objeto de inveja para os dadaístas reacionários) na sua mansão perto de Alcácer”
Phil Mailer, em “Portugal: A Revolução Impossível”

Enquanto Manoel se refugiava primeiro em Madrid, depois em Paris — “Instalou-se num hotel em Madrid onde familiares e amigos lhe fariam chegar, em pouco tempo, dois automóveis Mercedes, um Jaguar e somas bastantes de dinheiro para se governar”, escreveu Miguel Carvalho em “Quando Portugal ardeu – Histórias e segredos da violência política no pós-25 de Abril” –, o MFA ocupava a herdade da família, perto de Águas de Moura.

Ficou célebre, replicada em inúmeros artigos e livros, a alusão a uma peça que teria sido encontrada na herdade e que era prova do fausto e luxo em que os Vinhas viviam. Phil Mailer, professor e investigador irlandês a viver no país, terá sido o primeiro a descrevê-la, logo em 1977, no livro “Portugal: A Revolução Impossível”, onde se refere a Manoel como um dos mais ricos latifundiários do país: “Instalou um urinol banhado a prata e revestido de veludo (seguramente um objeto de inveja para os dadaístas reacionários) na sua mansão perto de Alcácer”.

Victor Pinto de Sousa e a mulher com Concha Vinhas

Rita Vinhas garante que a verdade é bem mais prosaica: “O que a gente adorou essa história! Sempre decorámos as casas de maneira criativa. Sabe o que era? Ou é, que ainda lá está: é material plástico duro transparente com papel roxo por trás, a imitar mármore. E as coisas de prata são metal, você mete lá o rabo e por acaso é péssimo, porque é frio! Mas eram giras! O meu pai era muito moderno e o meu tio ainda mais, faziam coisas muito divertidas”. Como os dois grandes nichos retangulares forrados a veludo bordeaux com prateleiras de vidro, projetados pelo arquiteto e artista Jorge Matos Chaves, onde durante anos esteve em exibição a valiosa coleção de pratos brasonados Companhia das Índias da família.

“É uma casa de jantar enorme, toda em azulejos azuis e brancos maravilhosos e depois tem estes nichos, iluminados, muito fora do normal, com esta coleção, toda a gente ficava impressionada”, recorda. “Foi a única coisa que foi empacotada para ir para o Brasil depois da revolução e não se partiu nem um. Como tínhamos de pôr lá alguma coisa, fomos buscar os pratos de faiança azul e branca em que comíamos, normalíssimos, e enchemos aquilo com eles. Nem imagina quantas vezes ouvimos: ‘Realmente esta vossa coleção de pratos é fantástica!’.”

Exílio e morte no Brasil

Depois de passar o Natal em Madrid e o ano em Paris, Manoel Vinhas chegou ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1975 e no início de abril assentou finalmente na Bahia. “Preciso de tranquilidade para ginasticar uma técnica que progressivamente me faça distanciar do passado e me volte para o futuro que tenho de construir”, foi como explicou no seu diário a decisão de abandonar o cosmopolita Rio, onde se deslumbrou com os desfiles das escolas de samba — “o melhor e maior espectáculo do mundo” — e reencontrou os amigos portugueses.

"Apesar da escassez orçamental, acho que cheguei a um ponto muito importante da minha vida, e que se tanta coisa sem eu querer mudou, é o momento de mudar ainda mais coisas, mas querendo eu."
Manoel Vinhas, em "Profissão: Exilado"

Até ia ser convidado para presidir a uma grande empresa. Não quis: “Apesar da escassez orçamental, acho que cheguei a um ponto muito importante da minha vida, e que se tanta coisa sem eu querer mudou, é o momento de mudar ainda mais coisas, mas querendo eu. E nem admito ser convidado, e sinto que isso de presidente de companhias é fase ultrapassada, e que vou ter, sim, mais tempo para ler, para escrever, para passear, para meditar que, se calhar, é aquilo para que nascemos e o que de mais importante podemos fazer”.

Manoel Vinhas em 1972, na Quinta do Lago

Nessa altura, o empresário e industrial, a viver na casa do amigo Vinicius de Moraes, na praia, em Itapuã, já tinha descoberto o problema que tinha no coração — e sido operado de urgência numa clínica em Cleveland, nos Estados Unidos. Concha e alguns dos filhos também já se lhe tinham juntado no Brasil, para onde o irmão e a cunhada também tinham fugido, mas para o Rio de Janeiro.

Em julho de 1977, foi submetido a nova intervenção cirúrgica, dessa vez de rotina e em Salvador. Tinha 57 anos. Não resistiu: “Morreu por incúria, depois de uma operação à vesícula, avisou três vezes que estava a ter um enfarte, a médica disse-lhe que tinha gases”, insurge-se a filha Rita.

Quando cerca de um mês depois o corpo chegou a Lisboa, para ser sepultado nos Prazeres, os funcionários da Sociedade Central de Cervejas entupiram o trânsito na cidade, com as carrinhas de distribuição de refrigerantes, águas e cerveja, para se despedirem do antigo accionista da empresa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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