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Como é que a tensão entre os Estados Unidos e o Irão começou?

A última escalada na tensão entre EUA e Irão começou a 27 de dezembro e teve o seu ponto mais grave nesta sexta-feira, ao fim de seis dias, com a morte do líder da força de elite iraniana, o general Qassem Soleimani, num ataque aéreo com drone ordenado por Donald Trump, presidente norte-americano. O Irão já prometeu vingança, mas é preciso recuar pelo menos 8 meses, até meados de 2019, para se perceber como tudo (re)começou.

Quem é Qassem Soleimani, o general de elite do Irão morto pelos EUA?

Embora o conflito entre os dois países seja antigo, desde maio que as relações entre Estados Unidos e Irão iam avançando e recuando, com declarações dos líderes políticos a alternar entre ameaças e uma aparente vontade de manter as vias de negociação abertas. Essa altura não trouxe apenas confusão diplomática: também trouxe ataques do Irão a petroleiros e bases petrolíferas, fazendo crescer a especulação sobre a iminência de uma guerra entre os dois países — um cenário sempre rejeitado pelas duas nações, mas que agora se agrava.

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O que é que aconteceu em maio de 2019 que pudesse levar a um conflito armado?

Quatro navios comerciais (dois sauditas, um dos Emirados Árabes Unidos e um norueguês) foram vítimas de sabotagem, junto à costa emiradense, e o ataque foi atribuído pelos EUA ao Irão. Era a retaliação da retaliação da retaliação, depois de muitos anos de tensão. A partir daí, tudo escalou.

O que até então tinha sido uma guerra de palavras e sanções, passou a ataques bélicos e sabotagens. O contingente militar dos EUA na região aumentou com um objetivo claro: permitir às forças norte-americanas lançarem um ataque em três frentes — pelas vias marítima, aérea e terrestre — contra Teerão se viesse a ser necessário.

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Apesar disso, as declarações dos dois lados eram no sentido de procurar uma solução pacífica. “Não estamos a tentar arranjar uma guerra com o Irão”, disse então o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo. “Não vai haver guerra nenhuma. A nação iraniana escolheu o caminho da resistência”, disse, também à data, o Líder Supremo iraniano, o aiatola Ali Khamenei. “Nós não queremos uma guerra e eles também não. Eles sabem que não lhes convém.”

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Que episódios de tensão havia para trás?

A saída dos Estados Unidos do acordo nuclear foi um dos momentos fundamentais da tensão entre os dois países e acabou por ser o fósforo que acendeu o rastilho de pólvora. Conforme prometera enquanto candidato presidencial, depois de eleito, Trump rejeitou o acordo, em maio de 2018, que EUA, China, França, Rússia, Reino Unido e Alemanha assinaram com Teerão em 2015 e anunciou sanções comerciais ao país.

Em traços largos, depois de EUA e União Europeia terem aplicado em 2012 um embargo ao petróleo iraniano (muito prejudicial à economia do país), a assinatura do acordo permitiu ao Irão ter acesso a parte dos seus bens congelados no estrangeiro e a vender petróleo sem restrições. A contrapartida era, entre outras, abrir mão de 97% do seu urânio enriquecido e desmantelar o seu reator de plutónio.

O problema é que o acordo não incluia qualquer compromisso que permitisse inspeções a instalações militares iranianas e mantinha a possibilidade de o Irão poder usar urânio para produção de energia, algo que os Estados Unidos nunca ceitaram — havendo, de resto, a convicção de que, do seu lado, o Irão não estaria sequer a cumprir a sua parte. Para além disso, não eram criados limites à produção e aos testes de mísseis balísticos.

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Como é que o fim do acordo nuclear levou à sabotagem de quatro navios?

Um ano depois de rasgar o acordo nuclear, a 8 de abril de 2019, Trump deu o primeiro passo de confronto direto com Teerão, ao considerar que a sua Guarda Revolucionária Iraniana, um braço das forças armadas do país (à qual Soleimani pertencia), era uma organização terrorista — a exemplo do que a União Europeia, por exemplo, já tinha feito com alguns dos seus membros.

Esta foi, porém, a primeira vez que os EUA consideraram oficialmente um ramo de um Estado estrangeiro como organização terrorista e, ao fazê-lo, reconheciam o Irão como uma nação que participa, financia e promove o terrorismo. Aliás, a própria designação de “organização terrorista” implicava mais sanções. O Irão reagiu imediatamente e, de novo, com uma ameaça direta: “Se os norte-americanos fizerem uma jogada tão estúpida e puserem em perigo a nossa segurança nacional, aplicaremos medidas recíprocas”, sublinhou no mesmo dia o comandante da Guarda Revolucionária, Mohamad Ali Yafari. Todas as forças norte-americanas a operar no Médio Oriente foram consideradas grupos terroristas.

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As ameaças e retaliações ficaram por aí?

Não. Do lado dos Estados Unidos, Trump decidiu pôr em marcha aquilo a que chamou de “pressão máxima” sobre a economia iraniana. Em maio, anunciou o fim de um regime de exceção que permitia que sete países comprassem petróleo ao Irão sem sanções: Índia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Turquia, Itália, Grécia e China — na sequência do fim do acordo nuclear. Pretendia, assim, isolar Teerão do resto do mundo e forçar o país a aceitar as imposições da comunidade internacional.

O secretário de Estado Mike Pompeo por várias vezes avisou o Irão de que os EUA não iam “tolerar ações” que colocassem “americanos em risco”

A resposta do Irão foi, como veremos, de desafio: não só não cumpriria os limites impostos, como retomaria o seu programa nuclear.

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Para além da pressão económica, houve movimentações militares?

Sim. Considerando que os interesses americanos estavam em risco, os EUA, ainda em maio, enviaram um porta-aviões norte-americano para o Golfo Pérsico. Dias mais tarde, juntaram-se a ele quatro bombardeiros B-52. O objetivo era enviar “uma mensagem clara e inequívoca ao regime iraniano” de que qualquer ataque aos interesses dos EUA ou dos seus aliados enfrentaria “uma força implacável”, disse o então conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, conhecido pelas suas visões conservadoras e nacionalistas e defensor, há vários anos, de uma intervenção militar para mudar o regime iraniano.

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Bolton acabaria por ser demitido por Trump em setembro de 2019, por se intensificarem as divergências entre ambos sobre a política externa norte-americana.

Nada disso fez o Irão recusar. No contra-ataque, Teerão fez saber que iria retomar parte do seu programa nuclear e enriquecer urânio para lá dos limites impostos.

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Quem deu o tiro no petroleiro?

No dia 12 de maio, os Emirados Árabes Unidos anunciam que quatro navios comerciais, todos petroleiros, foram vítimas de sabotagem, apontando o dedo ao Irão. O incidente aconteceu na costa de Fujairah, um dos maiores centros de abastecimento de combustível do mundo, onde está o único terminal dos Emirados Árabes no Mar Arábico, que contorna o Estreito de Ormuz, pelo qual passa a maioria das exportações de petróleo do Golfo. O Irão, que, por diversas vezes, ameaçou fechar o Estreito em caso de guerra com os EUA, considerou os incidentes “alarmantes e lamentáveis”. O ataque nunca foi reivindicado.

Em junho, há novos incidentes com um petroleiro japonês e outro norueguês, atacados no Golfo de Omã, numa altura em que o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe — que se havia oferecido para mediar o diálogo entre Washington e Teerão — se encontrava naquele país. Mohammed Javad Zarif, ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, considera o timing do ataque suspeito, por coincidir com o encontro diplomático.

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Como se passa dos petroleiros para o abate de drones?

Cerca de um mês depois, em junho de 2019, os Estados Unidos continuam a reforçar a presença militar no Médio Oriente enquanto o Irão avisa que está prestes a ultrapassar os limites impostos ao país para enriquecimento de urânio — o que efetivamente acaba por acontecer.

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Mike Pompeo, que acusa Teerão dos novos ataques, diz que “os Estados Unidos não buscam conflitos com o Irão, mas estão posicionados e prontos para se defender”. No mesmo dia, Khamenei rejeita uma oferta do presidente dos EUA para dialogar: “Não considero Trump uma pessoa com quem valha a pena trocar qualquer mensagem.”

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E é neste ambiente de cortar à faca que, a 20 de junho, o Irão abate um drone americano. Ambos os países confirmam o incidente, mas dando localizações diferentes do drone. Estava sobre águas internacionais, dizem os EUA. Estava em espaço aéreo iraniano, diz Teerão.

Foi “uma mensagem clara enviada à América”, declarou o comandante Major-General Hossein Salami, contrariando a ideia de Trump de que poderia ter sido um ataque “não intencional”. No dia seguinte, a Casa Branca anuncia que cancelou um ataque ao Irão 10 minutos antes de ser lançado, quando os aviões já estavam no ar. O ataque faria 150 mortos, o que o presidente norte-americano considerou que não seria uma “resposta proporcional a abater um drone não tripulado”, escreveu no Twitter.

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Os ataques continuaram?

Daqui para a frente, apesar dos avanços e recuos, ninguém mudou, fundamentalmente, de postura. Sucederam-se vários ataques a petroleiros, incluindo iranianos, mas a tensão escalaria de novo de forma mais evidente com mais uma ação do Irão, agora num ataque a refinarias sauditas — que Teerão nunca assumiu. Ao mesmo tempo, o Irão voltava a avisar que não cumpriria o pacto nuclear rasgado por Trump e as Nações Unidas encontraram, pela primeira vez, provas de que Teerão intensificou, de facto, o programa de enriquecimento de urânio, tal como prometido e anunciado.

Pelo caminho — e apesar das suas próprias ações contra o acordo —, o Irão dizia ter esgotado a paciência com os três países europeus que assinaram o acordo nuclear de 2015 (França, Reino Unido e Alemanha), por incumprimento dos compromissos e por falta de vontade de salvar o acordo nuclear.

E apesar disso, já no início de dezembro, o Presidente iraniano, Hassan Rouhani, garantia que a porta da diplomacia continuava aberta: “Assim que os Estados Unidos suspendam as sanções injustas, os chefes das nações 5+1 podem encontrar-se imediatamente”, não havendo “barreiras do lado iraniano”. Um porta que, a ter estado, de facto, aberta, parece ter sido definitivamente fechada com a sucessão de acontecimentos dos últimos dias de 2019.

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Entretanto, a situação piorou. O que aconteceu de tão grave na última semana do ano?

Eram 19h20 em Bagdad (meia hora mais em Teerão e oito horas menos em Washington) quando, na passada sexta-feira, dia 27 de dezembro, mais de 30 rockets foram lançados contra a base militar K1, perto de Kirkuk, no Iraque. Um cidadão norte-americano, civil ao serviço de uma empresa militar privada, foi morto no ataque, de que resultaram ainda vários feridos: quatro soldados americanos e dois elementos das forças de segurança iraquianas.

“Não considero Trump uma pessoa com quem valha a pena trocar qualquer mensagem”, disse em junho o líder supremo do Irão, Ali Khameini

Foi a gota de água que fez transbordar um copo já meio cheio com outros ataques do género, perpetrados recentemente contra as forças da coligação da Operação Inherent Resolve (OIR), encabeçada pelo exército norte-americano no Iraque e na Síria contra o Estado Islâmico, também no país de Bashar al-Assad.

Ameaçadas no Iraque tanto pelo que resta do autoproclamado Estado Islâmico como por milícias apoiadas pelo governo iraniano, as forças americanas não atribuíram imediatamente a autoria do ataque, mas não demorariam muito a fazê-lo.

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O que fizeram os EUA a seguir?

Apenas dois dias depois da ofensiva em Kirkuk (e de ser encontrado nas imediações da base o veículo de onde tinham sido disparados os rockets, de fabrico soviético), as forças americanas retaliaram e bombardearam cinco instalações das Brigadas Hezbollah, o grupo paramilitar iraquiano xiita, parte das Forças de Mobilização Popular (FMP), apoiado pelo governo iraniano, a que o Departamento de Defesa norte-americano atribuiu o ataque de dia 27 (e os anteriores).

De acordo com um comunicado, assinado por Jonathan Hoffman, porta-voz do Pentágono, foram atingidos três armazéns de armamento e instalações de comando utilizadas “para planear e executar ataques contra as forças da coligação da OIR“ no Iraque e dois na Síria.

EUA bombardeiam milícia ligada ao Irão em resposta a ataques que mataram um americano

Pelo menos 25 milicianos xiitas morreram e 55 ficaram feridos em resultado dos “ataques defensivos” dos EUA, com drones. Mas o alvo, na prática, era o Irão, responsável pelos rockets que mataram o civil norte-americano.

“Para prevenirem novas ações defensivas por parte das forças americanas, o Irão e as suas forças por procuração das Brigadas Hezbollah têm de cessar os seus ataques contra os Estados Unidos e as forças da coligação, e de respeitar a soberania do Iraque”, avisou o mesmo comunicado. “Não vamos tolerar que a República Islâmica do Irão tome ações que coloquem homens e mulheres americanas em perigo”, reforçou no dia seguinte, de viva voz, o secretário de Estado Mike Pompeo.

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No meio de tudo isto, como reagiram os iraquianos?

O ataque acabaria por abrir uma brecha também entre os Estado Unidos e o Iraque. Desagradado por ter sabido da ofensiva em solo nacional apenas meia hora antes de acontecer, o primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul-Mahdi — que terá tentado, aliás, demover Mark Esper, secretário de Defesa de Donald Trump —, condenou o ataque de dia 29, que considerou uma “perigosa violação das regras por que se rege o trabalho das forças da coligação liderada pelos EUA no Iraque”.

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E os xiitas das Brigadas Hezbollah?

Através do seu porta-voz, Mohammed Mohie, as Brigadas Hezbollah (também conhecidas como Kataeb Hezbollah e independentes do partido libanês com o mesmo nome) garantiram que o ataque de dia 27 não foi levado a cabo pela milícia, acusaram o governo americano de estar a utilizar o grupo como “pretexto” para atacar as Forças de Mobilização Popular e deixaram um aviso: “Estamos prontos para os confrontar; estamos à espera da ordem”.

A primeira reação pública de Donald Trump à morte de Soleimani foi twittar a imagem de uma bandeira americana

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O que aconteceu depois disso? A “ordem” chegou?

A retaliação imediata chegaria das ruas — e também pela mão das milícias apoiadas pelo Irão. Na véspera de ano novo, milhares de pessoas juntaram-se em Bagdad para atacar a embaixada americana, enquanto queimavam bandeiras e gritavam “a América é o grande Satanás”. No ataque, tentaram invadir os edifícios, obrigando as forças americanas a responder com gás lacrimogéneo e a disparar granadas de choque.

Embaixada dos EUA encerrada após ataque no Iraque

Trump reagiria no Twitter, sem dúvidas sobre de onde vinha o apoio àquela tentativa de invasão. “O Irão matou um norte-americano e feriu muitos outros. Respondemos com força, e iremos sempre fazê-lo. Agora o Irão está a orquestrar um ataque à embaixada dos Estados Unidos no Iraque”, escreveu o Presidente norte-americano, que também fez questão de garantir que os iranianos seriam “totalmente responsabilizados”, apesar de não ter havido “baixas”.

Entretanto, esta quinta-feira, e “devido aos ataques de milícias”, o complexo foi encerrado ao público. Horas depois, seria finalmente lançado o ataque desta madrugada, que vitimou o carismático comandante da força de elite iraniana Al-Quds, o general Qassem Soleimani, morto por um ataque com drone minutos depois de aterrar no aeroporto de Bagdad, e pelo menos outras seis pessoas.

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Como é que os Estados Unidos justificam o ataque desta madrugada?

Depois de, num primeiro momento, se ter limitado a twittar uma bandeira americana, Donald Trump manifestou-se publicamente sobre a morte de Soleimani esta sexta-feira ao início da tarde: “O Irão nunca venceu uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação”, escreveu naquela rede social. E mais tarde acrescentou: “O general Qassem Soleimani matou ou feriu gravemente milhares de americanos durante um longo período de tempo e planeava matar muitos mais… mas foi apanhado! Ele foi direta e indiretamente responsável pela morte de milhões de pessoas, incluindo o grande e recente número de manifestantes mortos no próprio Irão. Embora o Irão nunca seja capaz de admitir adequadamente, Soleimani era odiado e temido no país. (…) Ele deveria ter sido abatido há muitos anos!”.

Trump diria depois que, com o ataque, os Estados Unidos quiseram “pôr fim a uma guerra e não começar uma guerra”, afastando o cenário de conflito armado com o Irão. E reafirmava que a ação no Iraque foi decidida perante provas claras do planeamento de novos ataques de Soleimani — e do Irão — contra norte-americanos.

À CNN, Mike Pompeo garantiu, entretanto, que o ataque serviu para pôr cobro a um “ataque iminente” que poderia ter custado a vida a centenas de americanos deslocados naquela região. “Não posso falar muito sobre a natureza das ameaças. Mas o povo americano tem de saber que a decisão do Presidente de remover Soleimani do campo de batalha salvou vidas americanas”, declarou.

“Chegaram-nos uma série de informações sobre as viagens de Soleimani na região e sobre  trabalho que ele estava a fazer para pôr os americanos ainda mais em risco. Estava na hora de empreendermos esta ação, para podermos interromper o plano em marcha, impedir novas agressões por parte de Qassem Soleimani e do regime iraniano, bem como para tentar travar a escalada desta situação.”

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Os analistas concordam com Pompeo? Matar Soleimani pode mesmo ajudar a acabar com a tensão EUA-Irão?

À partida, resposta b. Para alguns analistas, este ataque é a “jogada mais arriscada” que os Estados Unidos fazem no Médio Oriente desde a invasão do Iraque, em 2003. Para outros, como Philip Gordon, coordenador da Casa Branca para aquela região durante a administração Obama, é nada menos do que “uma declaração de guerra” contra o Irão.

Não são os únicos: para Bruce Riedel, ex-agente da CIA, “a administração está a levar a América para outra guerra no Médio Oriente, maior do que nunca”. Já Charles Lister, investigador do Instituto do Médio Oriente, sediado em Washington, diz que se houve coisa que o ataque ao comandante da força de elite Al-Quds ajudou a fazer foi a escalar a situação entre as duas potências. “Com Soleimani morto, vai haver guerra — isso parece garantido, as únicas questões são onde, de que forma e quando.”

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul-Mahdi, foi rápido a condenar o ataque dos Estados Unidos

Joe Biden, candidato na corrida democrata à Casa Branca e vice do ex-presidente Obama, também se juntou ao coro. Admitiu em comunicado que os EUA podem “estar à beira de um grande conflito com o Médio Oriente” e acusou Donald Trump de ter mandado “dinamite para dentro de um barril de pólvora”. “Espero que a administração tenha pensado nas consequências.”

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O Irão confirma estes cenários?

“Vingança”. Tem sido essa a palavra mais repetida pelos iranianos esta sexta-feira — e não apenas pelos milhares que se juntaram nas ruas de Teerão a manifestar-se contra os EUA. O aiatolah Ali Khamenei, líder supremo do país, decretou três dias de luto nacional, elogiou o “mártir” Soleimani e jurou: “Uma vingança implacável aguarda os criminosos que encheram as mãos com o seu sangue e o sangue de outros mártires”.

Já o presidente Hassan Rouhani garantiu em comunicado que o “martírio de Soleimani” vai tornar o Irão “mais decidido a resistir ao expansionismo dos EUA” e a “defender os valores islâmicos”. “Sem dúvida, o Irão e outros países livres na região vão vingar-se”, prometeu também. Mohsen Rezaei, ex-comandante da Guarda Revolucionária, idem, só mudou o adjetivo: “Soleimani juntou-se aos nossos irmãos mártires, mas a nossa vingança contra a América será terrível”.

Mohammed Javad Zarif, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, terá sido dos poucos que não utilizou a palavra. “O ato de terrorismo internacional dos EUA  que levou à perseguição e assassinato do General Soleimani — A força mais eficaz no combate ao Daesh (ISIS), à Al Nusrah, à Al Qaeda, etc —, é extremamente perigoso e uma escalada disparatada”, reagiu no Twitter.

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O que diz o resto do mundo?

Como já tinha acontecido depois do ataque de há apenas cinco dias, o primeiro-ministro iraquiano condenou o ataque, que considerou uma “agressão” ao Iraque, passível de “desencadear uma guerra devastadora”. “Levar a cabo operações de liquidação física contra líderes iraquianos ou de um país irmão em terras iraquianas é uma violação flagrante da soberania do Iraque e uma escalada perigosa que pode dar origem a uma guerra destrutiva no Iraque, na região e no mundo”, disse, em comunicado Adel Abdul-Mahdi.

Os líderes dos principais países da região e do resto do mundo também se apressaram a reagir: Israel defendeu o “direito dos Estados Unidos a defender-se”, a Síria acusou os americanos de utilizarem “métodos de gangues de criminosos”, e a Rússia transmitiu as suas condolências ao povo iraniano — “Soleimani protegeu os interesses nacionais do Irão com devoção”.

Alemanha, China, França e Reino Unido, mais diplomáticos, preferiram pedir calma a ambos os países — e o regresso da paz e da estabilidade ao Médio Oriente. “O mundo não está em condições de ter uma nova guerra no Golfo”, disse entretanto o secretário-geral da ONU, António Guterres.

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O que está já a acontecer?

O Departamento de Estado americano já avisou todos os seus cidadãos neste momento no Iraque: “Graças à tensão cada vez maior na região” devem abandonar o país “imediatamente” e manter-se longe da embaixada em Bagdad, que permanece encerrada, depois do ataque da passada terça-feira.

Menos de doze horas depois do ataque, que custou a vida a um dos mais influentes líderes militares do Irão, as ondas de choque já chegaram aos preços do petróleo, ou não estivessem diretamente envolvidos dois dos seus maiores produtores mundiais. Para já, tanto em Hong Kong como nos Estados Unidos, o preço do barril de brent subiu 4%; Wall Street já abriu em baixa esta sexta-feira e vários analistas temem que o impacto da ofensiva desta madrugada continue a fazer-se sentir no mercado de ações.

Entretanto, os EUA anunciaram o reforço da sua posição estratégica no Médio Oriente e o envio de mais 3.500 militares para a região.

Mais preocupantes ainda são os cenários que vários especialistas começam a traçar sobre as várias hipóteses que o Irão poderá ter em cima da mesa para empreender a sua “vingança” e que vão desde os ataques cibernéticos aos nucleares. Saiba mais sobre o assunto aqui:

De ciberataques a uma guerra nuclear. As 5 formas de o Irão vingar a morte de Soleimani