Teerão anunciou que irá abandonar parcialmente o acordo nuclear que assinou em 2015 com várias potências mundiais.  O Presidente do Irão deu esta quarta-feira 60 dias aos outros países para se negociar um novo acordo nuclear, caso contrário retomará o enriquecimento do urânio, contrariando assim o acordo de 2015, e anunciou a redução de compromissos firmados no pacto de 2015.

Esta decisão acendeu todos os alertas nos Estados Unidos que mudaram de repente os planos do porta-aviões que tinham no Mediterrâneo, enviando-o para o Golfo Pérsico e fizeram Mike Pombeo, o secretário de Estado norte-americano, cancelar um encontro com Angela Merkel e viajar  para Bagdad.

A tomada de posição do Irão surge precisamente um ano depois de Donald Trump ter anunciado que os Estados Unidos (EUA) iam abandonar o mesmo tratado, conta o The Guardian. A decisão, que deverá ser comunicada oficialmente ainda esta quarta-feira, via televisão, pelo Presidente Hassan Rouhani, surge em resposta à crescente pressão interna para reagir à saída norte-americana do acordo e aos apelos recentes dos EUA para que outros países cortem relações comerciais com o país.

Mohammad Javad Zarif disse esta quarta-feira que o Irão ia reduzir alguns compromissos “voluntários” previstos no acordo nuclear, não confirmando um abandono total do tratado. Citado pela agência de notícias estatal iraniana, o ministro dos negócios estrangeiros iraniano afirmou que “as futuras ações do Irão estarão totalmente dentro do acordo que a República Islâmica não abandonará”. Mas que como a ” União Europeia e os outros não tinham como resistir à pressão dos EUA, o Irão não irá cumprir alguns compromissos voluntários assumidos”.

Zarif acusou os países europeus signatários do acordo sobre o nuclear iraniano de não terem “cumprido qualquer das suas obrigações” após a retirada dos Estados Unidos o ano passado.

Com exceção da China e da Rússia, “os restantes membros do acordo não cumpriram qualquer das suas obrigações” após a retirada norte-americana, declarou Mohammad Javad Zarif no final de discussões em Moscovo com o seu homólogo russo, Serguei Lavrov, referindo-se à Alemanha, França e Reino Unido.

O The Guardian explica que os embaixadores dos países que ainda permanecem no tratado — França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia — serão informados muito em breve e Mohammad Javad Zarif, irá enviar uma carta à sua homóloga europeia, a representante da União Europeia, Federica Mogherini, a clarificar todos os pormenores deste recuo que incluir ainda um deadline de dois meses para a UE agir, antes de o Irão tomar mais medidas.

A França foi a primeira a responder e avisou que a Europa não terá outra opção se não impor sanções económicas, caso o Irão não recue. Teerão, por sua vez, terá perdido a paciência ao esperar que sejam criados mecanismos económicos viáveis que permitam a empresas europeias continuar a fazer negócios com o país, especialmente nas áreas da farmacêutica e ajuda humanitária, contornando as sanções norte-americanas.

A posição dos Estados Unidos

A administração Trump tem avisado várias multinacionais europeias ativas no mercado norte-americano de que terão elevadas multas se continuarem a negociar com o Irão. Não foi pois por acaso que quase todas as maiores firmas europeias se retiraram do Irão, fazendo com que a respetiva economia mergulhasse ainda mais.

A política de “pressão máxima” defendida por Washington foi intensificada nas últimas semanas ao instar com vários países para boicotarem a compra de petróleo iraniano, a principal exportação do país e colocando a Guarda Revolucionária, uma divisão das forças armadas iranianas, no rol dos grupos terroristas, algo inédito já que nunca uma unidade de um governo estrangeiro assim fora classificada.

Os Estados Unidos reagiram de imediato ao anúncio do Irão. Mike Pompeo cancelou logo a reunião agendada com a chanceler alemã para esta terça-feira para se deslocar a Bagdad, de forma a manifestar o apoio dos EUA ao governo iraquiano, que se encontra em tensão com os vizinhos do Irão.

A pouco usual mudança de última hora surge depois de Pompeo ter falado com o ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, Segei Lavrov, sobre o assunto. Já no domingo, um porta-aviões norte-americano fora enviado do Mediterrâneo para o golfo Pérsico, noticia o espanhol ABC. Ao Abraham Lincoln juntar-se-ão quatro bombardeiros B-52 que já aterraram na base área dos EUA no Qatar.

Estas movimentações foram justificadas por John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA: a ideia é “enviar uma mensagem clara e inequívoca ao regime iraniano de que qualquer ataque contra os interesses dos Estados Unidos ou dos seus aliados se encontrará com uma força implacável”.

Kremlin denuncia pressão desproporcionada

Já o Kremlin denunciou esta quarta-feira a “pressão desproporcionada” sofrida pelo Irão.

“O Presidente russo, Vladimir Putin, disse que ‘as decisões irrefletidas e arbitrárias que levaram a uma pressão excessiva sobre o Irão teriam como consequência uma ação adversa, com a qual nós nos confrontamos hoje’”, declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, aos jornalistas, referindo-se à retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear iraniano há um ano.

“Vladimir Putin falou sobre as consequências das medidas irrefletidas tomadas contra o Irão por Washington e vemos que essas consequências estão a começar a acontecer”, afirmou Peskov.

O porta-voz acrescentou que a Rússia continua “comprometida” no acordo nuclear com o Irão, dizendo que é “muito cedo” para discutir possíveis novas sanções contra Teerão.

“Os diplomatas russos continuam a falar sobre a situação, inclusive com os seus parceiros europeus, a fim de trabalhar para preservar o funcionamento deste acordo”, afirmou Peskov, acrescentando que é uma “situação séria”.

Rouhani disse que o Irão quer negociar novos termos com os demais signatários do acordo, mas reconheceu que a situação é grave.

Este anúncio acontece quando o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, está em Moscovo para conversar com seu homólogo russo, Sergei Lavrov.

Moscovo considera as sanções e pressões dos Estados Unidos contra o Irão semelhantes à “concorrência desleal”.

Sergei Lavrov culpou esta quarta-feira o Governo dos Estados Unidos por criar uma situação “inaceitável” em torno do acordo nuclear com o Irão.

O ministro russo fez estas declarações antes do início da sua reunião Zarif, com o qual pretende abordar o acordo nuclear de 2015 e outros assuntos da agenda regional e bilateral.

“O principal tema de discussão será a situação inaceitável criado em torno do Plano Integral de Ação Conjunta (JCPOA, na sigla em inglês) devido ao comportamento irresponsável dos Estados Unidos, que se recusou a honrar os seus compromissos”, disse o diplomata russo.

“É o momento para o diálogo”, acrescentou Zarif, elogiando ainda a posição que até agora têm mostrado os demais signatários do acordo nuclear após o abandono dos Estados Unidos.

Israel não permitirá que o Irão obtenha a arma nuclear

Também primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reagiu declarando esta quarta-feira que Israel não permitirá que o Irão obtenha a arma nuclear.

Israel sempre acusou o Irão de tentar fabricar armas nucleares, o que Teerão desmente.

“Não deixaremos o Irão dotar-se da arma nuclear”, disse Netanyahu numa cerimónia em Jerusalém do dia anual em memória dos soldados mortos em serviço e das vítimas de terrorismo.

O chefe do governo israelita é um dos grandes críticos do acordo assinado em 2015 entre as grandes potências e o Irão sobre as atividades nucleares da República Islâmica.

A destruição de Israel faz parte da retórica histórica do regime iraniano e o Estado hebreu vê-se como o alvo designado de uma República Islâmica que obtivesse a bomba atómica.

Mas Teerão assegura que as suas atividades nucleares são apenas civis.