Uma publicação colocada no Facebook a 10 de novembro afirma que há “algo de errado em confinar e usar máscara, quando sabem que isso não travou sequer os contágios”. Mas a verdade é que, tal como observado durante a primeira vaga de Covid-19 em Portugal, o confinamento foi uma das medidas que ajudou a travar e depois a baixar o número de novos casos de infeção pelo novo coronavírus. E também há evidência científica de que as máscaras podem ajudar a travar a transmissão de agentes patogénicos que se propagam de forma semelhante ao SARS-CoV-2.

Numa entrevista ao Observador em agosto, falando sobre a possibilidade de uma segunda vaga da Covid-19 em Portugal, Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia de doenças transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, usou uma analogia para explicar como se comportam as doenças infecciosas “numa população onde toda a gente a pode apanhar”, porque ninguém é imune ao vírus que a provoca.

A segunda vaga ainda não chegou a Portugal, mas é “quase inevitável” que venha em setembro

Imagine que se colocam numa grande sala todas as pessoas que, em tese, poderiam ser infetadas por uma determinada doença infecciosa. Por uma das portas saem as pessoas que, por já terem sido contagiadas no passado, desenvolveram imunidade contra o agente patogénico. Pela outra porta entram pessoas que entretanto nasceram (e que estão, por isso, desprotegidas contra esse agente) ou que já perderam essa imunidade, podendo, portanto, ser infetadas novamente.

Se o risco de transmissão dessa doença for muito alto, o número de pessoas que podem ficar doentes diminui rapidamente, porque há muita gente a ser infetada a um grande ritmo — tão grande que nem o número de nascimentos nem o número de pessoas que perde a imunidade conseguem repor a multidão dentro da sala. A Covid-19 é uma dessas doenças: “Consome as pessoas suscetíveis [de serem contagiadas] de forma tão rápida que o número de pessoas disponíveis diminui e o número de casos aumenta. Quando já não há pessoas suscetíveis, então o número de casos começa a descer. E há uma onda”, explicou o especialista, naquele momento.

A questão é que continua a haver muita gente suscetível de apanhar a doença, precisamente porque “confinámos as pessoas e todas as pessoas que podiam apanhar a doença ficaram fechadas em casa”, continuava o especialista. Como os contactos entre as pessoas foram bruscamente diminuídas, o novo coronavírus encontrou mais dificuldades em circular na população — por isso é que os números chegaram a um pico de 1.516 casos, mas foram diminuindo até à entrada no verão. No fundo, a sala de que fala Manuel Carmo Gomes continua cheia de gente passível de ser contagiada pelo novo coronavírus.

Naturalmente, com o desconfinamento, “o vírus encontrou novamente condições para alastrar”, acrescentou ao Observador Miguel Castanho, líder do grupo de bioquímica física de fármacos no Instituto de Medicina Molecular (IMM). Por isso é que, como não houve um confinamento tão restrito como o que se vivenciou ao longo da primavera, os números voltaram a subir em setembro e podem só agora ter alcançado uma fase de estabilização — mas em números muito superiores aos da primeira vaga, porque há mais contactos entre pessoas do que havia nessa fase inicial.

Quanto à utilização de máscaras para a prevenção da propagação do novo coronavírus, foi a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) que, numa orientação publicada logo a 5 de junho, recomendava que se cobrissem as vias respiratórias com esta barreira. Dessa forma, explicava a organização, poder-se-ia “prevenir efetivamente a propagação da Covid-19 em áreas com transmissão comunitária”, razão pela qual os governos deveriam “incentivar o público a usar máscaras em situações e configurações específicas, como parte de uma abordagem abrangente para travar a transmissão do vírus SARS-CoV-2”.

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Não há ainda evidência científica robusta e sobre se as máscaras são ou não eficazes para evitar a propagação do coronavírus  que provoca a Covid-19, uma vez que este era um agente patogénico desconhecido até há bem pouco tempo — por isso, assim como não é totalmente rigoroso dizer que as máscaras travam a propagação do novo coronavírus, também não é rigoroso dizer o contrário.

No entanto, “os estudos sobre a gripe, doenças semelhantes à gripe e coronavírus humanos (não incluindo a Covid-19) mostram evidências de que o uso de uma máscara cirúrgica pode evitar o alastramento de gotículas infecciosas de uma pessoa infetada sintomática (controlo da fonte) para outra pessoa e a potencial contaminação do ambiente por essas gotículas”, acrescentava a revisão bibliográfica da OMS. Por isso é que a escolha das autoridades de saúde portuguesas, a partir de certa altura, foi seguir o princípio da prevenção através do uso de máscara.

Um dos exemplos mais populares e gráficos é uma experiência que capta num vídeo em alta velocidade a forma como as gotículas emitidas por um espirro ou pela tosse viajam depois de serem expelidas por alguém sem e com máscaras de vários tipos. A investigação do Universidade de Nova Gales do Sul, Austrália, concluiu que “mesmo [o ato de] falar gera gotículas substanciais” e que “tossir e espirrar, nessa ordem, geram ainda mais”.

Os investigadores também reportaram que “uma máscara cirúrgica de três camadas foi significativamente melhor que uma máscara de pano com uma camada na redução das emissões de gotículas causadas pela fala, tosse e espirro, seguidas por uma cobertura facial de pano de dupla camada”. Além disso, “uma cobertura facial de tecido de camada única também reduziu a propagação de gotículas causada pela fala, tosse e espirro, mas não era tão boa quanto uma máscara de pano de duas camadas ou máscara cirúrgica”.

A equipa sublinhou: “Não sabemos como isso se traduz em risco de infeção, que dependerá de quantas pessoas infetadas assintomáticas ou levemente sintomáticas estão por perto”. No entanto, como o novo coronavírus pode ser transmitido de uma pessoa para outras precisamente pelas gotículas emitidas pela tosse e pelos espirros, esta pode ser — mas só mais investigação científica o pode confirmar — uma evidência indireta de que as máscaras podem funcionar na prevenção da propagação Covid-19, tal como funcionam para outras doenças.

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Conclusão

Não é verdade que o confinamento não diminuiu os contágios pelo novo coronavírus. Durante a primeira vaga, a transmissão do SARS-CoV-2 foi atenuada com o confinamento obrigatório porque o distanciamento social diminuiu o contacto entre as pessoas — tanto que, com o desconfinamento e o consequente maior contacto entre as pessoas, o número de novos casos voltou a aumentar, tal como explicado em agosto pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes.

Também não é correto afirmar que a utilização de máscaras não travou os contágios pelo novo coronavírus. Não há evidência científica que permita afirmar neste momento se estas barreiras são úteis ou não na propagação do SARS-CoV-2 de indivíduos infetados para pessoas saudáveis. No entanto, a literatura científica sugere que a utilização de máscara pode ser benéfica porque também o é no controlo da transmissão de outros agentes patogénicos que se propagam de forma semelhante ao SARS-CoV-2 — como o vírus que provoca a gripe e outros coronavírus que infetam humanos.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook

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