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Não foi a primeira vez que a Cátia Bruno, editora de Internacional, entrevistou um ex-espião. Mas foi a primeira vez que entrevistou: a) um ex-espião; b) da Mossad; c) olhos nos olhos; d) na sala da casa dele. |
Mishka Ben-David foi diretor das operações especiais da Cesareia, unidade de elite da Mossad, durante 12 anos. Nessa condição, dirigiu e participou em algumas das operações mais delicadas dos serviços secretos israelitas — à cabeça, as de assassinatos por operacionais do “Instituto”, a tradução à letra da palavra “Mossad”. |
Em julho do ano passado, a Cátia e o João Porfírio, editor de Fotografia, sentaram-se com ele na aldeia onde vive, entre Telavive e Jerusalém, para falar sobre essas operações, mas também sobre a sua história na Mossad, desde o recrutamento ao impacto na vida pessoal. Na cabeça tinham o intimidante currículo de um homem treinado para matar; à frente deles tinham uma figura descontraída, rodeada de fotografias da família, vestida com uma t-shirt com uma marca de surf, que os recebeu com café caseiro e lhes falou de como tem de se ver ao espelho todos os dias para se lembrar de quem é, depois de tantos anos de vida dupla ao serviço do “escritório”. |
Não foi o único. Nessa viagem a Israel, a equipa do Observador também conversou, por exemplo, com Yossi Alpher, que lhes ofereceu bolo de chocolate e confirmou que estavam ingenuamente enganados quando pensaram que falar com antigos operacionais da Mossad seria o mais difícil: não só essas duas entrevistas no terreno foram as primeiras para o trabalho “O Instituto. Por dentro da Mossad”, que publicámos no domingo passado, como ambos tinham uma enorme abertura para falar — ou eram muito convincentes a passar essa ideia. Em conversas longas, com mais de duas horas cada, os dois antigos espiões também mostraram que, por serem isso mesmo, são peritos em relacionar-se: sabem falar e cativar, mas com limites. A algumas perguntas responderam diretamente “sobre isso não falo” ou “isso não lhe vou dizer”. |
Para chegar a eles — e a outros antigos operacionais da Mossad —, a Cátia Bruno começou, ainda em Lisboa, à procura dos sítios onde trabalham agora, no setor privado, e recorreu a contactos que já tinha, relacionados com Israel. Os primeiros recusaram os pedidos de entrevista. Depois, começou a ter sorte. No total, conseguiu conversar com quatro. |
Um deles acabou por ajudar a editora de Internacional do Observador a chegar também a Avraham Cohen, irmão de Eli Cohen, um agente capturado e executado na Síria, num dos grandes falhanços da história do serviço de informações israelita. Depois, só foi preciso lidar com obstáculos tecnológicos. Com 81 anos, Avraham Cohen teve alguma dificuldade em resolver os problemas técnicos de uma chamada por Zoom. Incapaz de ouvir o som que chegava de Lisboa, acabou por propor que a entrevista se fizesse em trocas de email. |
Às entrevistas a antigos operacionais e a familiares juntou-se um gigantesco trabalho de pesquisa, essencial para compreender a organização e conseguir vê-la por dentro. Durante meses, a Cátia Bruno leu 39 livros sobre o tema, incluindo memórias e biografias de políticos (como Ehud Barak, Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Benjamin Netanyahu) e também de 10 diretores e agentes da Mossad, além de obras de jornalistas e historiadores; cruzou informações que encontrou em mais de 200 artigos de jornais e revistas e em documentários; e consultou uma dezena de trabalhos académicos e relatórios de organizações, think tanks e ONG. |
O longo texto que resultou de tudo isto foi, depois, parar às mãos do Miguel Feraso Cabral, designer gráfico, que, com as fotos do João Porfírio, ilustrações sobre os vários momentos históricos e soluções gráficas para apresentar personagens e conduzir a leitura, o transformou num especial multimédia imprescindível para conhecer e compreender melhor uma instituição que, pela sua eficácia ao longo do tempo, se transformou numa das principais armas de propaganda de Israel. |
Sem grandes surpresas, foi um dos trabalhos mais lidos esta semana no Observador. |
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