Nos últimos dias tenho ouvido argumentos dirigidos ao eleitorado de direita para o convencer a votar em André Ventura e a afastar qualquer apoio a António José Seguro. Muitos desses argumentos apresentam-se como evidências óbvias, outros como imperativos morais ou estratégicos, outros como inevitabilidades políticas. De forma sucinta, procuro contrapô-los aqui. É a partir dessa perspectiva que explico porque considero preferível votar em Seguro na segunda volta das eleições presidenciais.

1. “É preciso votar Ventura para derrotar a esquerda”

Esta eleição não decide quem governa, mas quem ocupa a Presidência da República e como isso afecta a estabilidade do sistema político. Ventura construiu a sua carreira na polarização, no confronto e na deslegitimação das instituições. Levado para Belém, usaria o cargo para fazer pressão permanente: exigindo intervir no Conselho de Ministros, transformando vetos em comícios mediáticos, usando nomeações e crises institucionais como instrumentos de chantagem política sobre o Governo. Isso não derrota a esquerda: cria instabilidade contínua, mina a confiança dos mercados, afasta investimento e bloqueia qualquer agenda reformista. Seguro pode não ser de direita, mas garante uma presidência institucional, previsível e constitucionalista.

2. “Ventura não coloca nenhum valor fundamental em causa”

Ventura põe em causa valores fundamentais quando normaliza a divisão moral da sociedade, sugere que há portugueses mais legítimos do que outros e transforma diferenças culturais, religiosas ou de orientação pessoal em motivos de suspeição pública. Fá-lo quando reduz problemas complexos a caricaturas, recorre à humilhação como método político, instrumentaliza a fé para mobilizar contra outros e faz da distorção de factos e da deslegitimação do adversário práticas recorrentes. Coloca-os também em causa quando se alinha com correntes europeias que relativizam a igualdade cívica e o pluralismo liberal. Seguro tem muitos defeitos, mas nenhum deles o coloca a ofender estes valores.

3. “Os excessos de Ventura são pontuais: uma vez na Presidência, ele institucionalizar-se-á”

Ventura afirmou repetidamente que não pretende ser Presidente de todos os portugueses, mas de uma parte contra outra. Isso significa usar a Presidência como instrumento de combate político. A polarização e o confronto não são excessos ocasionais; são o núcleo da sua acção. Não há razão para acreditar que Belém o “institucionalizaria”. Pelo contrário, dar-lhe-ia meios para tentar governar a partir da Presidência: vetos usados como arma política, crises transformadas em palco mediático, pressão constante sobre Governo, Parlamento e tribunais, tudo amplificado por um tom agressivo.

4. “Votar em Seguro é votar no socialismo”

Se o critério é travar políticas económicas despesistas e irresponsáveis, Ventura não é a resposta. O seu discurso não é liberal nem reformista: acumula promessas incompatíveis, defende aumentos de despesa, aumentos de pensões sem contas sérias, controlo de preços e intervenção directa do Estado sempre que isso rende aplauso. Isso não é alternativa ao estatismo. Seguro, nos anos da troika, assumiu uma posição de respeito pelos compromissos internacionais. Não entusiasma, mas não representa ruptura nem descontrolo. E há ainda um ponto essencial: na primeira volta vota-se em quem se quer; na segunda, elimina-se quem menos se quer. Escolher Seguro não é aderir a um projecto socialista, é impedir que a Presidência fique nas mãos de um populismo económico e institucionalmente irresponsável.

5. “Seguro faz parte do sistema”

Seguro vem dos partidos do costume e de um sistema que falhou em várias frentes, da economia pouco dinâmica ao Estado pesado, da justiça lenta a uma cultura de politicamente correcto. O cansaço com tudo isto é real. O erro é achar que Ventura é a resposta. No plano do sistema, não apresenta reformas exequíveis para o fazer funcionar melhor; no plano cultural, não pretende libertar o debate nem reduzir o condicionamento cultural: apenas substitui os excessos do politicamente correcto por um politicamente correcto de sinal inverso, impondo novos limites, novos tabus e uma nova ortodoxia. O resultado é simples: nem o sistema melhora, nem o espaço público se torna mais livre.

6. “Ventura é o único que tem ideias firmes”

Onde estão essas ideias? O que defende Ventura para o SNS, a habitação ou a sustentabilidade da Segurança Social? Para além de slogans e promessas incompatíveis, não há respostas claras. Há firmeza no tom, não nas soluções. Numa eleição presidencial isso é ainda mais relevante: o que se sabe sobre a sua visão para a coesão nacional, a separação de poderes, o regular funcionamento das instituições, a União Europeia, a NATO ou a CPLP? Seguro pode não entusiasmar, mas também não promete usar Belém para refazer o país à sua imagem nem confunde a agenda do Governo com a da Presidência.

7. “Só Ventura protege a civilização judaico-cristã”

Ventura invoca a civilização judaico-cristã como marcador identitário e instrumento de mobilização, não como compromisso com os seus princípios: dignidade da pessoa, verdade, responsabilidade e respeito pelo outro. Uma política assente na humilhação pública, na divisão moral e na instrumentalização da fé não protege essa tradição. Defender valores exige disponibilidade para assumir custos. O exemplo do aborto é claro: revogar a despenalização teria custos eleitorais e, por isso, Ventura nunca a defendeu. Sempre que a moral exige coragem, o tema desaparece. Isso mostra que Ventura não é o campeão dos valores, mas alguém que os usa quando convém.

8. “Quem está preocupado com o excesso de imigração só pode votar Ventura”

A direita defende políticas de controlo, critérios de entrada, exigências de integração e reforço da legalidade, avaliando a capacidade real de acolhimento. Isso não distingue André Ventura. O que o distingue é transformar a imigração em mobilização emocional, substituindo o debate sobre políticas por uma linguagem de ameaça e culpa difusa, que reduz indivíduos concretos a problemas abstractos ou sinais de decadência moral. Esse discurso entra em tensão com princípios humanistas, incluindo os da tradição cristã. Defender regras é legítimo; explorar receios e transformar pessoas em ameaças não é.

9. “Querem ficar ao lado da extrema-esquerda?”

A extrema-esquerda não se revê em Seguro e lançou várias candidaturas precisamente por isso. Não há convergência, alinhamento ou proximidade. Este argumento é tão falso como dizer que o Chega se “coliga” com o Bloco ou o PCP nas centenas de vezes que votaram de forma semelhante no Parlamento. E também se pode devolver a pergunta: querem ficar ao lado do grupo neonazi que já apelou ao voto em Ventura? E a verdade é esta: muitos dos que apoiam Seguro numa segunda volta não estão perto de Seguro; estão, isso sim, a escolher ficar longe de Ventura.

10. “PSD, CDS e IL têm obrigação de apoiar Ventura”

Ventura fez do ataque político e pessoal ao PSD, ao CDS e à IL um hábito: chamou-lhes “sistema”, acusou-os de corrupção e desqualificou dirigentes, eleitores e tradições políticas inteiras. Agora exige os seus votos. Mais do que aliar-se, Ventura procura substituir esses partidos. Alguém dúvida de que o objectivo de Ventura na Presidência passa por desgastar o Governo para abrir passo ao Chega? Acresce que o seu programa se afasta significativamente dessas forças em matérias essenciais: economia, papel do Estado, equilíbrio institucional e relação com as regras do regime. Consagrá-lo como eixo político fixaria a direita num registo populista e antissistema, afastando-a do centro.

11. “Se a direita perder, é por vossa culpa”

A direita é uma tradição plural, democrática e institucional, construída em torno da liberdade individual, do Estado de Direito, da responsabilidade e do respeito pelos limites do poder. Se Ventura falhar, não será por culpa de quem fez outra escolha presidencial, mas porque insiste numa visão estreita, identitária e redutora do que significa ser de direita.

12. “Não se combate Ventura dizendo que ele não pode ser Presidente”

Isso é uma forma de pressão para impedir que se diga que Ventura não representa toda a direita e que não reúne condições para a Presidência. Ao sugerir que criticar Ventura é “dar-lhe palco”, tenta-se diluir essa percepção, empurrando para o silêncio quem discorda. O efeito é perverso: quanto mais inadequado o comportamento, menos pode ser questionado. Isso não combate o populismo, protege-o. E aceitar essa lógica é aceitar que a direita abdique de se definir, ficando reduzida a um único líder, sem pluralismo nem exigência. Dizer que Ventura não nos representa e não tem perfil presidencial é um juízo político legítimo sobre um cargo que exige equilíbrio e capacidade de representar todos.

13. “Quem vota em Seguro quer agradar à esquerda”

Isto é uma chantagem política que coloca um falso binarismo: ou se vota em Ventura, ou se está a “sinalizar virtude”. Assim, troca-se o debate por suspeição e exige-se lealdade identitária sem argumentos. Mas é um truque. Votar em Seguro é um cálculo sobre riscos e limites da Presidência. Muitos eleitores de direita fazem essa escolha para evitar instabilidade institucional e polarização permanente, e isso não os diminui nem desqualifica.

14. “Vai correr mal achar que qualquer pessoa contra Ventura serve”

A comparação não é entre André Ventura e “qualquer pessoa”, muito menos vinda de extremos de sinal contrário. A escolha concreta é entre Ventura e Seguro. E, nesse confronto, o que está em causa é optar entre moderação e radicalismo, entre ponderação institucional e confronto permanente. Seguro não entusiasma, tem muitas falhas, mas representa uma presidência previsível e dentro das regras; Ventura, a intensificação da polarização e o uso do cargo como palco político da sua agenda.

15. “Estás a remar sozinho contra uma maré avassaladora. O povo está com Ventura”

Este argumento assenta mais em intimidação do que em realidade. Ventura beneficia de um ecossistema digital marcado por desinformação comprovada, uso sistemático de bots, campanhas coordenadas de trollismo e perseguição organizada a quem discorda. Esta estratégia procura silenciar dissidências, fazendo-as sentir isoladas. Não estão. Há muitos eleitores que rejeitam Ventura por razões institucionais, éticas e políticas e que simplesmente não fazem da política um espectáculo permanente nas redes. A democracia decide-se no voto, não na intimidação digital. Ruído não é povo, intensidade não é consenso.

Conclusão

Estas 15 razões mostram que a escolha em causa não é identitária nem emocional, mas institucional e política. Não se trata de saber quem fala mais alto, quem mobiliza mais raiva ou quem domina melhor o ruído digital. Trata-se de decidir que tipo de Presidência da República queremos num momento exigente do país. Votar em António José Seguro na segunda volta não é um acto de entusiasmo ideológico nem de conversão política. É uma decisão de limite, de responsabilidade e de defesa da democracia liberal, com instituições fortes. Para muitos eleitores de direita, não é a escolha perfeita. É a escolha necessária para impedir que a Presidência seja usada como arma de combate político permanente e para afirmar que a direita democrática não se reduz, nem se submete, a um projecto populista e antissistema.