Cuando yo caiga, como fruto maduro del árbol de la vida,
dejadme allí mismo, donde yo caiga,
para que me abrace el sol y el viento y la luna,
que la vida me devore mordisco tras mordisco.(*)

A avó Matilde (**) nasceu no mesmo dia que Karol Wojtyla; “aquele senhor de branco” que celebrava o aniversário no mesmo dia que a avó, era a piada que dizíamos sempre para seu pequeno escândalo e grande diversão de todos os outros. Tê-la lá em casa a dormir, com os seus roncos sonoros, imprevisíveis e descompassados, era uma experiência única, que nos divertia à tarde e exasperava à noite.

A avó adoeceu. Muito. Irreversivelmente. E as dores aumentaram. Insuportavelmente. A morte estava ali e ela queria que viesse rápida para que assim pudesse ir em paz. Libertando-nos a todos do que considerava ser um fardo injusto para nós e ignominioso para ela. Isso apesar da coragem daquele “homem de branco” que tinha nascido no mesmo dia que ela e que tinha dado um exemplo de dignidade imensa enquanto caminhava para o seu fim na terra. Mas a sua vontade, depois de uma vida plena e feliz, não era mais que um acto de amor para connosco e a certeza da vida cumprida. E comprida.

A cada insistência nessa ideia, respondíamos todos com amor e beijos. E lágrimas mal disfarçadas. E a avó foi ficando.

O Estado gastou mais de 40.000 euros no seu último ano de vida, enquanto esteve internada nos cuidados paliativos. Uma equipa fantástica diminuiu-lhe a dor, sabendo trilhar, com tacto, profissionalismo e compaixão, um caminho do qual já não havia volta. A avó Matilde teve sorte porque fez parte dos 30% de doentes com acesso aos cuidados paliativos, já que 70% não tem acesso aos mesmos. E creio também, modéstia à parte, que teve sorte por nos ter como família.

Um contribuinte anónimo, para quem a avó Matilde é só um número, numa cama qualquer, numa unidade de cuidados paliativos qualquer, pode até considerar que foi um desperdício de dinheiro, já que uma ida à Suíça lhe garantia uma morte “digna” e “sem sofrimento” por menos de 10.000 euros. Mas a avó Matilde não era um número, era a avó Matilde. A avó dos gelados no Verão, dos bolos ao domingo, das fraldas que nos mudou quando bebés, das matinés no cinema da vila aos sábados e dos roncos nas sestas do fim-de-semana.

Ninguém a censurou. Mas também ninguém a abandonou.

Para um defensor da eutanásia, trata-se só de uma escolha, e não uma obrigação, que o Estado faculta, conferindo liberdade de escolha e assegurando dignidade ao doente. Porque nem todos são a avó Matilde e nem todos são amados como ela foi.

Mas a eutanásia coloca um sem número de problemas para cujas respostas estão muito longe de serem pacíficas, completas e boas.

Primeiro, a função do Estado não é a de definir os termos em que a morte é aceitável e encarregar-se de matar. A função do Estado é proteger a vida e, nas sociedades atuais, promover o bem-estar em vida. E onde os cuidados paliativos ainda falham tanto, definir outras prioridades, com recursos tão escassos, é ter as prioridades trocadas.

Depois há a questão bioética. Médicos que recebem um suicida nas suas unidades de urgência, não satisfazem a vontade do suicida, estabilizam-no e restauram-lhe a vida. O ethos médico é todo ele centrado na profilaxia e na cura, não na morte. Sobre isto a tomada de posição dos diversos bastonários da Ordem e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida são claras. Os dr. Kevorkian podem ser olhados por muitos como heróis, mas dificilmente podem ser vistos como médicos.

A pressão psicológica para pôr termo à sua própria vida também é problemática. Não ser um fardo para a sua família e amigos é uma razão apontada por muitos que optam pela eutanásia. Como no caso da avó Matilde. Mas num estado de debilidade agravado, não estou seguro que o uso da liberdade seja pleno ou sequer verdadeiramente consciente. Até porque a pressão social, que encara a velhice como uma externalidade inútil da vida, acompanhada de uma subalternidade da velhice face à juventude e de uma crescente inutilidade social dos velhos, não ajuda. Aliás, muito do que se discute, com expressões repetidas ad nauseaum do tipo “o que é que cá está a fazer?”, ou “o melhor era morrer”, ou “isto não é vida”, induzem aqueles que potencialmente podem estar em risco a pensar assim também.

Num cenário tão incerto, tão ambíguo, e com consequências tão definitivas, e com tanto ainda por fazer em vida, defender uma indústria de morte parece-me extremamente precoce. As questões morais, nesta matéria, são imensas. Não faço, por isso, juízos dessa natureza sobre os que defendem uma posição diferente da minha. Muitos estão verdadeiramente movidos pela compaixão e empatia. Muitos estarão profundamente marcados pela experiência própria.

Mas repito: não se trata só, como contra-argumentam os defensores da eutanásia, de dar liberdade de escolha a alguém que quer pôr fim à vida com dignidade. Porque não só a liberdade e a dignidade são altamente discutíveis aqui, como o que verdadeiramente está em causa é antes a sociedade admitir priorizar, organizar-se e mobilizar recursos para matar. Ou optar por cuidar e não abandonar. Esta escolha marcará a sociedade em que vivemos indelevelmente.

Só por isso – outras questões à parte – aprovar a eutanásia será um erro.

(*) As palavras que abrem este artigo são de Ramon Sampedro, o célebre activista galego pelo direito à eutanásia. Quando caia, como fruto maduro da árvore da vida, e não quando lhe for artificialmente arrancado.

(**) A avó Matilde é uma personagem fictícia; não sendo a minha avó, pode bem ser a avó de todos nós.